Durante o
dia, a umidade relativa do ar caía para 11% e a sensação térmica ficava acima
de 40 graus centígrados; agora, no início daquela madrugada de domingo, a
temperatura estava bastante agradável no Fran’s Café – na Quadra 302, Bloco C,
Edifício Athenas, no Sudoeste, bairro chique de Brasília –, aberto 24 horas por
dia. O jornalista consultou sua caderneta Tilibra, tipo Moleskine. Já estivera
em Uruaçu (GO), hospedara-se durante alguns dias nos hotéis Itajubá e Rio
Vermelho, em Goiânia, e passara uma semana no Meliá Brasil 21. A jovem com quem
se encontraria dali a pouco era o elo que faltava para concluir a reportagem. Pensava
nisso quando seu telefone celular emitiu os primeiros acordes de Para Elisa, de Ludwig van Beethoven. Era
ela. Pagou o espresso que tomara e seguiu para um prédio distante cerca de 200
metros dali. Disse ao porteiro aonde ia. Subiu pelo elevador e desceu no
primeiro andar. Ela trajava uma camisola vermelha, tinha quadris largos e seios
empinados, pele rosada, olhos verdes, duas grandes esmeraldas, e lábios que
lembravam os de Alinne Moraes. Parecia medir 1,60 metro e pesar 55 quilos.
– Você bebe
o quê? – ela perguntou ao jornalista, que se sentara numa poltrona.
– Não vou
beber nada – ele respondeu, tirando da bolsa um pequeno gravador.
A jovem
havia se sentado à frente dele e cruzado as pernas.
“É linda
demais” – pensou o jornalista.
Era em torno
de 8 horas quando ele deixou o apartamento. O porteiro olhou-o com inveja. Caminhou
até o Fran’s e pediu café com leite e uma baguete tostada com manteiga. Depois,
foi a uma banca ali perto e comprou a revista Veja e o jornal O Globo e
se dirigiu para seu carro, um Gol vermelho, estacionado na extremidade leste da
quadra. Na entrada da confeitaria Pão de Ouro havia uma dupla de mendigos.
Passou por eles, desejando-lhes boa sorte, para desencanto de ambos. O carro
estava estacionado próximo de um monturo. Centenas de pombos fervilhavam ali; havia
até um gavião, que, solene, bicava alguma coisa presa numa de suas garras.
Quando pôs o carro para funcionar os ratos de asas pararam um segundo e logo
voltaram a fervilhar, como formigueiro assanhado. Reinaldo pôs o carro em
marcha e minutos depois tomou o Eixo Monumental. Passou defronte à Câmara
Legislativa, “o albergue dos parasitas”, e logo alcançou a Esplanada dos
Ministérios, com as bacias do Congresso Nacional destacando-se ao fundo. Cruzou
o Lago Paranoá pela ponte Juscelino Kubitschek. “O sol já está a ponto de matar
europeu sem protetor solar e chapéu” – pensou. “A bacanal de alguns príncipes
do Congresso Nacional, empresários, diplomatas e turistas libidinosos vindos do
frio vai sofrer um abalo, a partir de quarta-feira, quando o Observador de Brasília chegar às bancas.
Brasília vai pegar fogo.”
Só prestou
atenção à moto quando ela já estava ao lado da sua janela. O carona disparou
duas vezes. O carro entrou no cerrado e parou logo adiante. O que atirou correu
até lá, pegou a bolsa do jornalista e deu mais dois tiros na cabeça dele.
Vistos ao
longe, as casas e o comércio do Lago Sul, margeando ruas vazias, entre as
escarpas, dormiam, indiferentes, ao sol.
Brasília, 19 de março de 2013


