quinta-feira, 26 de março de 2015

Conversa com Fernando Canto

As roseiras estão grávidas. Entre os botões há uma rosa vermelha, do tamanho do meu coração. Mostrei ao Fernando Canto o meu jardim, anos atrás, quando veio me visitar. O jardim estava mal cuidado, mas havia pelo menos uma rosa amarela para mostrar ao poeta. Tenho também dois jasmineiros. Nas noites ardentes, o perfume invade minha memória. Tenho ainda leea rubra, um belo comigo-ninguém-pode, violetas, lírios, jibóias e samambaias. Há, certamente, outras plantas, como em todos os jardins. Essas flores, e borboletas, e fadas, povoam o jardim que brota no meu coração.

Gosto de ouvir o silêncio, os rumores, que, às vezes, nos chegam de outros planetas, e de percorrer as lombadas dos meus livros de cabeceira na estante. Apanho Cheiro de Goiaba, de Gabriel García Márquez; um bate-papo entre Gabo e Plínio Apuleyo Mendoza, publicado em 1982. Em espanhol, El Olor de la Guayaba. Este livro contém todo o trópico, e inunda, como tempestade, os campos das minhas lembranças.

Nos dias quentes, mulheres povoam as ruas e os shoppings trajando roupas folgadas e decotadas. Recendem a Chanel 5, maresia e gim. Lembras-te, Fernando Canto, daquela noite, quando nos embriagamos com gim? E houve outras noites regadas a daiquiri, Cerpinha e Strega.

Troncos de árvores, gigantescos, se espraiam até onde a vista alcança, desde a Fortaleza São José de Macapá ao Igarapé das Mulheres. O Trapiche, defronte ao Macapá Hotel, é uma rua comprida, sem semáforos e sem esquinas. Se acaso é maré cheia e venta, ondas explodem no quebra-mar. Mulheres bonitas espalham o rastro perfumado no rio azul da tarde, quase noturno. Na Rua Mário Cruz, Isnard Brandão Lima Filho ouve o silêncio, enquanto espera a grande dama, a noite, para ofertar rosas à madrugada.

O rio Amazonas açoita o quebra-mar com sua força descomunal. Os troncos foram removidos faz muito tempo. O Trapiche se afoga no Mar Doce e, longe, um navio, grande como uma cidade, se move como lesma para o norte. Logo se encontrará com o Atlântico. Fernando Canto degusta Cerpinha. Sirvo-lhe de nova taça. Fernando Canto também ouve o silencioso aproximar-se da noite, e merengue. O poeta, quem sabe, trabalha um poema, ou compõe uma canção, ou engravida de um conto, ou, quem sabe, de um romance, enquanto voa na noite iluminada por mulheres inacreditáveis de tão lindas.

Quanto a mim, há muito tempo não me sinto tão feliz. Estou em Macapá, bebendo Cerpinha enevoada com Fernando Canto.

– A poeta logo virá – diz Fernando Canto.

Sim. Aguardo-a. Ela esparge rosas colombianas à sua passagem e tem o poder de evocar a Estrela Azul.

– Será como num conto – diz meu querido amigo.

– Como num conto de Gabriel García Márquez – digo.

– Em Barranquilha? – Fernando Canto pergunta.

– Não! – respondo. – Em Macapá, mesmo, num conto de Gabriel García Márquez.

De repente, sinto o perfume das rosas.

– Gabo é como um velho amigo com quem eu gostaria de ter convivido – disse. Fernando Canto está atento. – Conheço-o demais sem nunca o ter visto. Mas conheço-o apenas na dimensão da poesia, não como conheço a ti – disse ao poeta. – Isso ocorre também com meu pai e com Ernest Hemingway. Ah! Meu pai era bonito e não tinha medo! Ele me contou histórias maravilhosas... Vejo-o em sonhos e sinto sua presença. Gostaria de bater papo com ele, agora que me sinto maduro.

– E Hemingway? – Fernando Canto pergunta.

– Todos os anos, envio para a Academia Espiritual da Seicho-No-Ie, na cidade de Ibiúna, em São Paulo, pedidos de oração para mortos queridos, entre os quais Papa Hemingway. Os mortos recebem oração o ano todo. Saiba, Fernando, que, para os mortos, oração é luz, luz que conduz à harmonia cósmica, que é Deus. Pois bem, no primeiro ano que enviei o nome de Papa para Ibiúna sonhei com ele. Encontrava-me em um teatro que me lembra o interior do antigo Cine Palácio, na Avenida Presidente Vargas, em Belém. Papa sentara-se entre duas pessoas na platéia superior. Seus cabelos estavam completamente brancos e ele parecia muito magro e com aquela debilidade das pessoas muito velhas, embora tivesse apenas 61 anos. Logo depois o vi no palco. Várias pessoas o ladeavam. Era o jovem Hemingway, trajando seu humilde terno preto dos tempos de Paris. De repente ele desceu do palco e passou por mim, se voltou e me olhou nos olhos. Obrigado! Disse-me, em silêncio.

Fernando Canto pede novas Cerpinhas e novas taças, e me serve a enevoada cerveja paraense, a mais deliciosa do mundo. É uma noite mágica. Todas as estrelas da galáxia se aglomeram no céu de Macapá, os jasmineiros enlouquecem e as mulheres ficam ainda mais bonitas.

– Isnard! – Fernando Canto grita. O poeta Isnard Brandão Lima Filho, trajando linho branco, aproxima-se sorrindo. Logo depois chega o pintor Olivar Cunha. De um instante para outro nos reunimos em torno de várias mesas, agora também com Alcinéa, Hemingway, Gabo e meu pai. Ganhei um sorriso da Savina. Lá está Antoine de Saint-Exupéry, sentado à mesa pouco distante de mim. Francisco, meu irmão, me abraça. Conserva a mesma beleza e imortalidade de sempre. João Cunha acaba de chegar e me beija na testa. Mamãe me dá um abraço redentor. É a mulher mais maravilhosa, linda e forte que conheço. Linda, minha irmã, também está lá. Recebo beijos da Josiane e da Iasmim. De repente, todos estão lá, mortos e vivos, ofertando rosas que não acabam nunca.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Conto/A REDE

Durante o dia, a umidade relativa do ar caía para 11% e a sensação térmica ficava acima de 40 graus centígrados; agora, no início daquela madrugada de domingo, a temperatura estava bastante agradável no Fran’s Café – na Quadra 302, Bloco C, Edifício Athenas, no Sudoeste, bairro chique de Brasília –, aberto 24 horas por dia. O jornalista consultou sua caderneta Tilibra, tipo Moleskine. Já estivera em Uruaçu (GO), hospedara-se durante alguns dias nos hotéis Itajubá e Rio Vermelho, em Goiânia, e passara uma semana no Meliá Brasil 21. A jovem com quem se encontraria dali a pouco era o elo que faltava para concluir a reportagem. Pensava nisso quando seu telefone celular emitiu os primeiros acordes de Para Elisa, de Ludwig van Beethoven. Era ela. Pagou o espresso que tomara e seguiu para um prédio distante cerca de 200 metros dali. Disse ao porteiro aonde ia. Subiu pelo elevador e desceu no primeiro andar. Ela trajava uma camisola vermelha, tinha quadris largos e seios empinados, pele rosada, olhos verdes, duas grandes esmeraldas, e lábios que lembravam os de Alinne Moraes. Parecia medir 1,60 metro e pesar 55 quilos.

– Você bebe o quê? – ela perguntou ao jornalista, que se sentara numa poltrona.

– Não vou beber nada – ele respondeu, tirando da bolsa um pequeno gravador.

A jovem havia se sentado à frente dele e cruzado as pernas.

“É linda demais” – pensou o jornalista.

Era em torno de 8 horas quando ele deixou o apartamento. O porteiro olhou-o com inveja. Caminhou até o Fran’s e pediu café com leite e uma baguete tostada com manteiga. Depois, foi a uma banca ali perto e comprou a revista Veja e o jornal O Globo e se dirigiu para seu carro, um Gol vermelho, estacionado na extremidade leste da quadra. Na entrada da confeitaria Pão de Ouro havia uma dupla de mendigos. Passou por eles, desejando-lhes boa sorte, para desencanto de ambos. O carro estava estacionado próximo de um monturo. Centenas de pombos fervilhavam ali; havia até um gavião, que, solene, bicava alguma coisa presa numa de suas garras. Quando pôs o carro para funcionar os ratos de asas pararam um segundo e logo voltaram a fervilhar, como formigueiro assanhado. Reinaldo pôs o carro em marcha e minutos depois tomou o Eixo Monumental. Passou defronte à Câmara Legislativa, “o albergue dos parasitas”, e logo alcançou a Esplanada dos Ministérios, com as bacias do Congresso Nacional destacando-se ao fundo. Cruzou o Lago Paranoá pela ponte Juscelino Kubitschek. “O sol já está a ponto de matar europeu sem protetor solar e chapéu” – pensou. “A bacanal de alguns príncipes do Congresso Nacional, empresários, diplomatas e turistas libidinosos vindos do frio vai sofrer um abalo, a partir de quarta-feira, quando o Observador de Brasília chegar às bancas. Brasília vai pegar fogo.”

Só prestou atenção à moto quando ela já estava ao lado da sua janela. O carona disparou duas vezes. O carro entrou no cerrado e parou logo adiante. O que atirou correu até lá, pegou a bolsa do jornalista e deu mais dois tiros na cabeça dele.

Vistos ao longe, as casas e o comércio do Lago Sul, margeando ruas vazias, entre as escarpas, dormiam, indiferentes, ao sol.


Brasília, 19 de março de 2013

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Macapá

Macapá, dividida pela Linha Imaginária do Equador e quase na boca do rio
Amazonas, o maior do planeta, na Amazônia Caribenha. A cidade do meio do
mundo, porta de entrada para o Caribe, comemora, hoje, 257 anos. A foto, de
Caio Gato, é um flagrante de tromba d'água no inverno amazônico de 2014

BRASÍLIA, 4 DE FEVEREIRO DE 2015 
– Macapá é uma miragem que vai se materializando na medida em que o sol, gigantesca bola de ouro do outro lado do Canal do Norte, na cabeceira da Linha Imaginária do Equador, começa a se levantar, e, de repente, como mulher que emerge do mergulho, respingando água, mostra-se toda nua. À beira-rio, e no início da BR-156, sente-se o tumor latejando. A população avança natureza adentro, sem contar com nenhum metro de rede de esgoto. Macapá é uma cidade ribeirinha emblemática. Seu nome vem do tupi macapaba, lugar de muitas bacabeiras, palmeira nativa da região, de fruto, a bacaba, gerador de suco delicioso, quase tanto quanto açaí, este, de grande significado para os amapaenses, que já foram paraenses, pois o estado do Amapá é um naco da antiga Província do Grão-Pará, e os parauaras são os mais ávidos tomadores de açaí da face da Terra.

Assaltados pela sede mais desmedida de ambição, os espanhóis, que instalaram no continente ibero-americano uma aristocracia escravocrata e medieval, que os portugueses potencializaram até a loucura, sondaram o setentrião da Amazônia Azul antes de Pedro Álvares Cabral, de modo que em 1544, Carlos V de Espanha sentiu-se à vontade para chamar aquelas paragens de Adelantado de Nueva Andaluzia, ao conceder a província ao navegador espanhol Francisco de Orellana, que, cego pela ambição, vagou pela Amazônia em busca da cidade de ouro, El Dorado, mas, como seus colegas, foi vencido pelo Inferno Verde.

Em 1738, colonos portugueses instalaram, ali, um destacamento militar, a Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral, onde, em 4 de fevereiro de 1758, foi levantado o Pelourinho, um dos símbolos do implacável poder lusitano, na presença do capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundando-se a Vila de São José de Macapá e selando-se o fim da nação que dominava aquela beirada de rio, o povo tucuju, do tupi tucumã, também palmeira natural da Amazônia, de frutos doces e oleosos, matéria-prima para vinho, licor e mingau.

Em 1764, Portugal deu uma demonstração do seu poderio na Amazônia, iniciando a construção de projeto do engenheiro italiano Henrique Antônio Gallúcio, a Fortaleza de São José de Macapá, concluída 18 anos depois, no ano de 1782, alicerçando a Vila de São José de Macapá, da qual se tornou baluarte e cartão postal, encravado na frente do Canal do Norte, a cerca de 200 quilômetros da boca do Amazonas, quando o rio despeja pelo menos 200 mil metros cúbicos de água túrbida de húmus no oceano Atlântico, por segundo, o suficiente para encher 8,6 baías de Guanabara em um dia; em média, verte 400 mil metros cúbicos de água por segundo, chegando, portanto, a derramar 600 mil metros cúbicos de água por segundo no mar, além de espantosos 3 milhões de toneladas de sedimento, por dia, 1,095 bilhão de toneladas por ano. O resultado disso é que a costa do Amapá está crescendo.

A boca do rio, escancarando-se do arquipélago do Marajó, no Pará, até a costa do Amapá, mede 240 quilômetros, e sua água túrgida penetra 320 quilômetros no mar, atingindo o Caribe nas cheias e, juntamente com outros gigantes do Pará e Amapá, fertiliza o Atlântico com cerca de 20% da água doce de superfície da Terra, contribuindo para que a costa do Amapá e do Pará sejam as mais ricas do planeta em todo tipo de criatura do mar, especialmente a costa amapaense, pois o húmus despejado pelo Mar Doce no Atlântico torna a Amazônia Azul setentrional uma explosão de vida marinha, seu ponto mais esplendoroso, no Brasil mais mal guardado pela Marinha de Guerra e menos estudado pela academia.

Enquanto os tucujus se tornaram símbolo de um tempo antigo, espanhóis e portugueses legaram os tempos heroicos, e persistentes, de colonos e colonizados, o drama que perpassa a Ibero-América, a tragédia da Amazônia. A construção da Fortaleza por meio do trabalho escravo de negros e índios foi o cadinho em que se forjou a etnia macapaense. Os portugueses cruzaram com os africanos e geraram mulatos, e fornicaram com os índios, formando uma população de mamelucos; os africanos fundaram o bairro do Laguinho, misturaram-se com os índios e legaram cafuzos; e mulatos, cafuzos e mamelucos misturaram-se, fechando o círculo, numa diversidade étnica viva nas ruas de Macapá, nas nuanças de peles que vão do alabastro ao ébano, passando pelo bronze e jambo maduro, e todos unidos pelo sotaque caboco, a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis, línguas africanas, patoá das Guianas, tudo triturado em corruptela, isso e a seminudez dos habitantes do Trópico Úmido, que, antes de ser sensual, é inocente, como o olhar da mulher amazônida, espilantol se espalhando nas papilas gustativas da alma, o embalar de rede no rio da tarde, o choro dos jasmineiros noturnos.

Ao olhar superficial do leigo, que acidentalmente caiu na Amazônia, a Hileia lhe parecerá o Inferno Verde, onde encurtará sua vida, devorado por microrganismos e insetos, ou torrado pelo sol equatorial, ou afogado pela água, não do Mar Doce, mas em estado gasoso, nos 100% da umidade relativa do ar. Assim, o incauto será corrido daquelas paragens, grávido da antiga ideia dos colonos – agora, os governos que se sucedem em Brasília, paulistanos, americanos, japoneses e os europeus de sempre –, de que a Amazônia só serve para três fins: construção de hidrelétricas; extração de madeira e mineral; e reserva de caça, pesca e escravos, especialmente para o pugilato do sexo, além da crença de que os rios são esgotos naturais. Esse pensamento assenta-se na crença de que os colonos são deuses e os colonizados, seres inferiores, que existem para servir aos sangues-azuis; razão pela qual o Trópico Úmido ferve no ventre das trevas. Já ao escrutínio do iniciado, desvanecem-se as brumas da cegueira e começa-se a enxergar com o terceiro olho; então, surge o paraíso no coração das trevas.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A MISTERIOSA CONFRARIA CABANAGEM TENTA IMPEDIR ASSASSINATO DE CANDIDATO AO GOVERNO DO PARÁ

A capital do estado do Pará, Belém, está imersa em corrupção, e para a misteriosa Confraria Cabanagem só o senador Fonteles, candidato ao governo, é capaz de acabar com a sangria, mas descobre um complô para assassiná-lo num crime perfeito. Assim, contrata o único homem capaz de impedir que eliminem o senador Fonteles: o detetive Apolo Brito, ex-delegado da Polícia Civil do Pará, e que atualmente mora em Brasília.

Nada a ver com o Pará real. Trata-se de novo romance de Ray Cunha, no qual personalidades de carne e osso, como o jornalista Lúcio Flávio Pinto, transitam com personagens de ficção.

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Ou na Amazom.com

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Colostro

Anoitece
O rio Amazonas ruge defronte ao Macapá Hotel
Cortado pelo Trapiche, rodovia que conduz à noite
Tão azul que sangra
Estou sentado
Sozinho
Em um quiosque
Degusto Cerpinha enevoada
Parece que estou só
Mas converso com meus antepassados
Com a mulher amada
Com meus anjinhos e minha princesa
Com Isnard Brandão Lima Filho
Alcinéa Maria Cavalcante
Iara Marcille
Deury Farias
Olivar Cunha
Joy Edson
José Montoril
Fernando Canto
Raimundo Peixe
Alcy Araújo
Luiz Tadeu Magalhães
Manoel Bispo
Myrta Graciete
Tereza, Leila, Sílvia e Telma
Um cataclismo de rosas vermelhas
Juntam-se a nós Ernest Hemingway
Antoine de Saint-Exupéry
Gabriel García Márquez
Vargas Llosa
Pablo Picasso
André Cerino
Ouço merengue
Um navio, grande como uma cidade, surge, lento, até aportar, feérico
Despeja uma legião de espíritos e anjos
Que se juntam a nós
Chanel Número 5, Dom Pérignon, maresia e leite da mulher amada
Tomam conta de tudo
Como paz se alastrando
Na minha memória

Brasília, 25 de dezembro de 2013

domingo, 9 de novembro de 2014

O voo da luz

Talvez o maior objetivo da moda seja a sensualidade, tanto na confecção de tecidos quanto no corte. Uma mulher vestida de modo a realçar a beleza física terá sempre os homens dominados pela loucura, pois jogamos fora a sensatez, toda a racionalidade, toda a liberdade, para nos aprisionarmos à passagem de uma potra vestida em seda, como mariposas atraídas pela luz; relinchamos, esmagados pelo perfume das virgens ruivas, embora fugaz como o gemer do acme, porém fatal.

Nádegas se movendo sob vestido de seda, justo, blusas que mal encobrem mamilos grandes como jambo, barriguinhas que surgem e desaparecem como fontes cristalinas ao sol, do tipo tábua, ou renascentistas, na mira de sedentos olhos vampirescos, são pedras preciosas que cravejam as avenidas das grandes cidades e, assim, de Brasília também.

É da natureza feminina a ambiguidade. Elas querem, mas juram que não. Nem Freud explica. E a barriguinha é uma prova cabal disso. Puxam a blusinha para encobrir a barriga, ou puxam as calças para cima, dando algumas sacudidelas nas ancas, numa tentativa sempre inútil de cobrir o objeto do tormento masculino, e tudo o que fazem é ampliar o mistério; sabem disso tudo, e que nossos corações disparam. Matam-nos, deixando-nos vivos.

Às mulheres, só a beleza importa, pois são como as rosas que vicejam nos jardins azuis, delicadas, perfumadas, lindas como mulher nua, e que, evanescentes, me ignoram. Só querem saber de luz, que as tornam ainda mais esplendorosas. Resigno-me, pois me basta ter certeza da existência delas, que são, afinal, o triunfo de Deus.

Mas quando as mulheres puxam a blusinha para encobrir a barriga, inutilmente, e quando puxam as calças e sacodem as ancas, elas nos conduzem para o labirinto da imaginação, o mergulho em um abismo de rosas. Fechamos os olhos e choramos em silêncio, morrendo no voo da luz.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CONTO/Apego

Nunca vi mulher tão bonita como a socialite Gislaine Cagnotto, 40 anos. Pequena – um metro e sessenta, mais ou menos, e em torno de 55 quilos –, de pele rosada, boca semelhante a da atriz Alinne Moraes, cabelos ruivos, olhos verdes, seios fartos e garupa equina, tudo isso foi aquinhoado ainda com seu dom literário. Gislaine Cagnotto é poeta acima da média, o que quer dizer que não amontoa palavras apenas, mas vasculha as vísceras. E foi precisamente isto que a fez procurar-me: as vísceras.

Somos amigos há um bom tempo, exatamente por frequentarmos as mesmas festas da alta sociedade; eu, por força da minha família, que é bastante endinheirada. Porém, na minha juventude, estourei um joelho escalando o Pico da Neblina, o mais alto do Brasil e na Amazônia, com 2.994 metros, e que jamais consegui escalar. Depois de ter meu joelho remexido durante tempo demais por uma junta de ortopedistas, fui alertado a procurar um acupunturista, de preferência que não fosse médico, mas terapeuta iniciado em Medicina Tradicional Chinesa. Quem me indicou isso foi um amigo mais velho. Encontrei um chinês que estava há muito tempo no Brasil e após algumas sessões com agulhas e massagens voltei a andar normalmente, sem sentir dor nem mancar. Fiquei, então, curioso com a magia daquele tratamento e acabei entrando na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), onde me formei já faz algum tempo, e atendo vários amigos meus.

Gislaine chegou às 10 horas em ponto ao meu consultório, no Lago Sul. Sentamo-nos confortavelmente e comecei a fazer a anamnese. Sua principal queixa era constipação intestinal, o que confirmei examinando sua língua e seu pulso. Mas descobri também que havia outro problema: ela não conseguia mais criar.

– Você tem muitos pares de sapatos? – perguntei-lhe, imprimindo um tom casual à pergunta.

Ela me olhou sem entender, mas respondeu-me automaticamente.

– Tenho! Acho que tenho uns 300 pares de sapatos! Por quê?

– Na Medicina Tradicional Chinesa, nós, terapeutas, não exatamente curamos doenças; nós tratamos o paciente como um todo, até porque toda a qualquer doença nada mais é do que desarmonia da energia mental – expliquei-lhe.

Aí é que ela não entendeu mesmo.

– E você costuma juntar muitas coisas que não usa e que estão guardadas? – perguntei-lhe.

– Muitas! – ela disse. – Há uma dependência, em casa, e é uma dependência grande, cheia de sapatos, roupas, bijuterias e até móveis que não usamos mais.

– Vou aplicar agulhas em alguns acupontos e preciso que você tire a blusa, tudo bem?

– É claro! – ela disse. – Estou aqui escondida do meu marido! Ele sente ciúme até da minha sombra!

Somos bastante amigos.

– E por que você se submete a esse regime islâmico? – perguntei-lhe, em tom de brincadeira.

– Sou mulher mineira; gostamos de dinheiro, e ele compra tudo o que eu quero! – ela sussurrou, deitando-se na maca. Seu sutiã era negro e contrastava com a pele rosada. A saia, vermelha, era justa, deixando à mostra as pernas mais bem torneadas entre as inúmeras que eu já vira.

Entre os pontos em que apliquei agulhas utilizei o BP 15, daheng em mandarim, localizado numa distância de quatro “cun”, cerca de 10 centímetros, na lateral do umbigo. Ele serve para debelar constipação crônica, resultado de letargia do intestino grosso. Mas eu já sabia qual era a causa do que estava afligindo minha bela amiga, e também a solução. Mais tarde, degustando Café Três Corações, gourmet, ministrei-lhe uma prática para sanar o mal pela raiz.

– Gislaine, vou indicar um lar de velhinhos e providenciar um furgão para, amanhã de manhã, irem à sua casa buscar tudo o que você realmente não vai mais utilizar; isso será precioso para eles – propus-lhe. Gislaine é do germânico “refém”, e, por coincidência, ela era refém do apego.

Três dias depois voltei a atender minha amiga. Ela estava mais linda do que nunca. Deslumbrante.

– Quase me acabo de tanto defecar – disse-me, rindo. Tínhamos intimidade para dizer o que quiséssemos.

– Gislaine, a prisão de ventre era provocada pelo apego, que guardava não somente fezes, mas também tudo aquilo que não tem mais utilidade para você, ou que você esteja guardando para uma ocasião fantasiosa, que jamais ocorrerá. E da mesma forma que um quarto pode guardar trastes a vida toda, também o intestino grosso pode reter fezes vida afora, que vão ficando cada vez mais putrefatas e contaminando, aos poucos, todo o organismo. Num plano mais sutil, o apego também vai sufocando suas vítimas, que se tornam, sem se aperceberem disso, escravas da luxúria – disse-lhe. Ela estava atenta. – Agora que você se libertou dos trastes a criatividade vai voltar a fluir, e dos seus lábios surgirão mais rosas, mais jardins, mais perfumes azuis sangrando – declamei, parafraseando um poema de Gislaine: De tão azul, sangra!

Ela riu com gosto, feliz.

– Impressionante! Hoje, no café, comuniquei ao meu marido que viria ao seu consultório e sabe o que ele me disse?, mandou lembranças! Normalmente teria me proibido de vir aqui, até porque, como você sabe, o ciúme dele aumenta quando homens charmosos como você se aproximam de mim – ela comentou, rindo. – Vamos para a maca? – propôs, despindo-se do vestido. Já havia visto seu corpo no Iate Clube, mas ali, de sapatos altos e com aquele batom vermelho nos lábios sensuais, e de sutiã e calcinha, era, literalmente, de parar o trânsito. E podia-se dizer que deu mesmo mole para mim.

“Acupuntura como pretexto para a luxúria não pode redundar em boa coisa; gerará aquele tipo de equilíbrio à beira do abismo” – pensei, abrindo um saquinho de agulhas. Um professor, na ENAc, me transmitiu um princípio que adotei não somente como terapeuta, mas em todas as circunstâncias da vida: jamais acumplicie-se com a corrupção. 


Brasília, 29 de outubro de 2014