quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Eu, velho


Eu vivia em Manaus, aos 21 anos. Não era nenhum Brad Pitt, mas tinha meu charme. Já publicara um livro de poemas, Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril, em Macapá, minha cidade natal; assinava uma coluna semanal, No Mundo da Arte, no jornal A Notícia; e frequentava o Clube da Madrugada. Media 1,64 metro e pesava em torno de 60 quilos. Como rachei lenha quando criança, eu era seco e musculoso. Mais tarde, joguei boxe, o que desenvolveu ainda mais o tônus; testa larga, olhar atento e entusiasmo pela vida são traços que se acentuaram ao passar dos anos. Naquela época, até mulher casada se ajoelhou aos meus pés; mulheres lindas entregaram-se, inteiras, a mim, deixando-me voar nos seus labirintos de mistérios. Eu podia ingerir comida estragada, beber sozinho uma garrafa de Pitú ao longo de um bate-papo, caçava, pescava, mergulhava noites inteiras nos insondáveis abismos das ninfas, e nada disso me abalava. Era o império do corpo. Hoje, já começo a vislumbrar a chave com a qual abrirei, finalmente, a porta, mágica, da luz.

Leio desde os cinco anos de idade, quando os gibis e a biblioteca do meu irmão mais velho, Paulo Cunha, me seduziram para sempre. Aos 14 anos, já lera Ernest Hemingway, Franz Scott Fitzgerald, Graciliano Ramos, Fiódor Dostoiévski, Jorge Luís Borges, livros de história e de geografia, enciclopédias, dicionários, bulas de remédio, e tudo o que me caísse às mãos. E frequentava a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho. Lia da mesma forma que comia, bebia e amava, como um leão, que tudo podia rasgar com as garras. Maduro, ao reler alguns livros da minha juventude, fiquei atônito. Descobri, neles, cheiros insuspeitos, ruas ainda não percorridas, personagens que, agora, puseram-se a contar coisas para mim.

Quanto fui iniciado nos segredos das criaturas mais deliciosas e enigmáticas do Universo, as mulheres, eu as tinha como quem mastigasse feijão com arroz. Hoje, depois que comecei a descer o morro da vida, navego a mulher amada com a sensação de um cataclismo de rosas colombianas vermelhas. Atingi a sofisticação de capturar a dança delirante de mulheres caminhando em vestido justo, de seda, e fazer uma mulher sorrir, produzindo, nela, o mesmo efeito do sol da primavera, sua feminilidade explodindo em estrelas e ela se sentindo, e se tornando, a mulher mais bonita do mundo.

Descobri que tempo e espaço são uma ilusão, que só há o agora e o agora, o momento mesmo da vida, que eu existo desde antes do princípio e existirei até depois do fim. A vida é uma eterna caminhada rumo ao Éter, à Luz, a Deus. Nesse trilhar, já quase não sou mais arrogante, procuro ser gentil e atencioso com todos, e cuido para que a mulher amada se sinta como a mais bela flor de um jardim esplendoroso. Já não faço questão de receber presentes, mas de distribuir as pedras preciosas que garimpei nos momentos mais perigosos da trilha, como os rubis azuis que depositei no relicário do meu coração. Não ambiciono nada além de uma rosa bem vermelha e o riso de uma criança. Também peço que o Universo me perdoe pelas ofensas que cometi, porque sei, na minha esperança, que basta um raio de luz para extinguir a treva. E não há nada que eu queira mais do que ouvir o riso da mulher amada.

Sinto a velhice como um mergulho infindável no abismo da poesia, uma caminhada permanente na primavera que se espraia no telhado da casa da minha infância, as zínias, as rosas, o jasmineiro embriagando o ar nas noites tórridas, a mangueira, o cajueiro, a seringueira, as paredes de tijolos deitados da Casa Amarela, sólida como um navio. Ouço os sabiás com redobrada atenção. Amam intensamente, de agosto até o início do ano seguinte. São os imperadores do verão, quando os galhos das mangueiras se curvam ao peso de mangas inchadas e doces como seios de mulher grávida. Levanto antes que os sabiás comecem o seu canto, às 3 horas, faço a ablução e preparo café, Três Corações, gourmet, que bebo com tapioquinha amanteigada, cuscuz ou pão integral com passas. Curto a alvorada certo de que Brasília está sempre à minha disposição, oferecendo-me mil possibilidades. Às vezes, sou favorecido com a sorte de atravessar o Setor Comercial Sul no momento mais redentor, em torno das 7 horas, ao meio de mulheres perfumadas, algumas com os cabelos ainda molhados, e há sempre uma com o perfume das virgens ruivas, cheiro de mar. Então, Aquele “que se revela na harmonia de tudo o que existe” (filósofo holandês Baruch Spinoza) inunda a alma. E quando ouço o Concerto para Piano e Orquestra, em Ré Menor (número 20, K 466), de Wolfgang Amadeus Mozart, sinto a Terra roçar o espaço, da mesma forma quando me desfaço ao acme e me transformo em leão de asas.

Hoje, não sinto mais a gana de quando tinha 21 anos. Naquela época, eu amava como leão e bebia como Hemingway, e me internava na noite, esta grande amante, armado apenas da beleza suprema da juventude. Agora, desarmado, arranco gemidos ainda mais altos da mulher amada, porque nas minhas mãos há luz. Também não mais dilacero a carne, embora minhas mãos tenham se transformado em tenazes de nióbio, que, porém, roçam a pele da mulher amada com a leveza de uma pétala. Não sinto mais o fluir da vida no tempo, mas como o grande rio, que escorre, ininterruptamente, para o Atlântico. A Terra, a lei da gravidade, aos poucos dá lugar à intensa luminosidade. Ouço murmúrios na tarde, ao encontro da noite, imensa como um navio todo iluminado. Uma negra em vestido de seda passa por mim e deixa um rastro de Chanel 5, o perfume embriagador das lágrimas dos jasmineiros imersos na canícula, sabor de Don Pérignon, safra de 1954, leite da mulher amada, e o cheiro, redentor, do mar. Algumas mulheres são o próprio mar, e, por isso, são inacessíveis.

Guardo, na memória do meu coração, um combustível eterno. Cada uma das mulheres que amei, e que, às vezes, fiz chorar (perdão!), cada jasmineiro que perfumou as ruas noturnas por onde vaguei, com seu choro ao calor das madrugadas, cada verso que escrevi, cada cidade que descobri, todos os voos que alcei, disso é minha têmpera. Hoje, levo uma vida estranhamente social, pois reúno-me também com meus antepassados, especialmente meu pai, João Raimundo Cunha, belo, majestoso, destemido, amado, e minha mãe, Marina Pereira Silva Cunha, a mais bonita, forte, corajosa e querida entre as mulheres. Às vezes, simplesmente os ouço, na prece.

Meus cabelos começaram a ficar grisalhos, cada vez mais ralos; a pele, aos poucos, exibe o resultado das intempéries, e as pessoas já me olham desconfiadas. Não bebo mais, depois de 43 anos mergulhado no álcool, como uma poça que se avolumou e começa a secar. Ouço, agora, o silêncio da madrugada, emociono-me ao ver crianças, rosas, uma estrela. Não sinto apego a mais nada; só tenho meu coração. Minha riqueza é imensa, pois à minha passagem os jardins florescem, as crianças riem e a luz triunfa.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Depois da sessão de autógrafos



A sede do Banco Central é um dos edifícios mais altos de Brasília, um caixote negro de 101 metros, com 26 pavimentos, sete abaixo do solo. Pode ser visto à distância, como uma referência ao coração da cidade, um bolsão que abarca também a Rodoviária do Plano Piloto, o Conjunto Nacional, o Conic e os setores Comercial e Hoteleiro Sul e Norte. O Monardo Gastronomia e Cultura é um restaurante e cafeteria atrás do Banco Central, na Rua 201 Sul, Bloco B, Loja 9, quase defronte ao Piantella. Estive lá, uma quinta-feira, autografando dois livros de contos: O Casulo Exposto e Trópico Úmido

Nós, escritores, somos como os pugilistas: da feita que subimos ao ringue estamos absolutamente sozinhos. Nada pode vir em nosso auxílio. Temos apenas que nos concentrar no filão que se apresenta, de onde podemos retirar pedras preciosas ou apenas cascalho, dependendo da luz ou do nevoeiro onde caminha nossa alma. Os escritores pouco conhecidos sentem-se, nas sessões de autógrafos, ainda mais sós. Estamos ali, expostos como animais no zoológico, tentando vender universos dos quais ficamos grávidos durante, às vezes, quase toda a nossa vida.

Mas do meu posto, duas mesinhas nas quais meu amigo Antonello Monardo me instalou, pude acompanhar a agonia da tarde, aquele momento de transição imperceptível, quando flocos negros começam a cair e a se acamar, iguais a neve, transparente e negra, flutuando como folhas mortas, anunciando o navio da noite.

Acompanhei também, do meu posto, o passa-passa das mulheres na calçada; algumas são tão lindas que causam sofrimento, porque são inacessíveis como as que só vemos nos grandes aeroportos, de madrugada, partindo para um país misterioso. Por isso, nunca estamos sós, pois há sempre rosas nuas nas esquinas do mundo. Temos apenas que desenvolver as antenas do éter para sentir a maresia, mesmo que o mar seja inacessível.

Simona Forcisi chegou de repente, iluminando tudo com seus olhos de esmeraldas, abraçou-me, redentora, e sentou-se à minha frente. Ela já conhece O Casulo Exposto e pediu-me para autografar Trópico Úmido – Três Contos Amazônicos. Simona, italiana de Turim, trabalha na Embaixada da Itália, em Brasília, onde se graduou em Literatura Brasileira. Conhecedora atenta dos idiomas de Giuseppe Tomasi di Lampedusa e Graciliano Ramos, pretende mergulhar na Amazônia do Trópico Úmido.

Quando Simona se foi, deixou um rastro de clorofila. Minha filha, Iasmim Cunha, me deu todo o apoio, fotografou-me e bateu papo com seu velho pai. E fomos pegar minha gata, Josiane, no Hospital Sírio Libanês, onde, como psicóloga, esparge luz. Ainda era cedo e paramos para comer sushi. Depois, retornamos para casa.

sábado, 30 de janeiro de 2016

O caminho do tao



Mulheres grávidas em vestidos amplos são combustíveis para o meu voo, de modo que a gravidez da Josiane, minha esposa, que deu à luz Iasmim, nossa princesinha, foi vertiginosa. Desde a concepção, aquela onda azul começou a vibrar no triângulo equilátero que, desde então, formamos. Nossa comunicação física teve início assim que a barriga da Josiane começou a crescer; eu podia sentir a presença da Iasmim, e quando o ventre ficou realmente grande, bastava que me aproximasse para a pele ficar saliente; era a princesinha tentando tocar minhas mãos, meu rosto, e quando me deitava de costa para o colo da Josiane, a princesinha me abraçava. Às vezes, Josiane lia para nós, orava, dizia eu te amo, bebê, e afagava o ventre.

Quando vi minha princesinha pela primeira vez, seus olhos como duas luzes me abarcando, chorei perfume, como choram os jasmineiros da Amazônia, nas noites de julho. Começava, aí, nova preparação do caminho. As flores são indestrutíveis na sua eternidade porque Deus arruma todas as suas manhãs, tardes e noites, Pessoalmente, e assim Arrumou o jardim para a princesinha, onde eu lia, para ela, todas as joias escritas, e, dia após dia, ofertei-lhe os tesouros mais preciosos do Universo, diamantes rosas e rubis azuis que eu ia buscar na parte imersa do meu iceberg. Também Josiane, por seu turno, dava-lhe todas as riquezas que extraía da sua própria vida.

Ainda garotinha, Iasmim é quem escolhia suas roupas; apenas a direcionávamos quando, por exemplo, ela escolhia um vestido quente no verão, e explicávamos por quê. E se tornou leitora voraz, escreveu contos, pintou óleos sobre tela e manifestou a vontade de fazer o curso de moda, mas ao concluir o nível médio optou por turismo, apenas para perceber, claramente, que seu negócio é moda, mesmo, e fazer a correção do caminho.

Assim é a própria vida. Pessoas são condenadas a vender-se porque seus pais as querem advogados, médicos ou físicos, quando seu talento é para santo, poeta, palhaço, ou acupunturista. Outra maneira de matar os filhos, ou qualquer pessoa, é arrogar-se a viver a vida alheia. Zumbis são isto: mortos vivos, a manada, o rebanho, o rótulo, o apego, a ilusão.

Masaharu Taniguchi disse que o mundo físico é apenas criação da mente; o segredo para entendermos isso está no iceberg da vida. Como bem observou o criador de O Velho e o Mar, Ernest Hemingway, o iceberg flutua com tanta elegância porque sete oitavos ficam submersos e somente um oitavo aparece fora d’água, o equivalente ao mundo físico, limitado pelo espaço e pelo tempo. Os sete oitavos dentro da água podem ser identificados como realidades múltiplas, universos multidimensionais, ou qualquer outra coisa que se aproxime do que rotulamos de realidade. E o que é realidade? Matéria? Poesia? Sonho?

Gosto de pensar que realidade são os caminhos do triângulo, o éter, o vácuo, o nada, algo que apenas flui, e que sou leão de asas mergulhando no abismo azul, misterioso como mulher nua.

A vida é agora! Como sempre, sinto no ar o perfume das virgens ruivas e na boca o sabor de Dom Pérignon, safra de 1954, pronto para subir ao ringue.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A idade da razão

Nasci em 7 de agosto de 1954; Macapá, minha cidade natal, cortada pela Linha Imaginária do Equador, à margem esquerda do Amazonas, quase na boca do maior rio do planeta, era então um povoado ribeirinho, mas nunca senti o emparedamento, a solidão dos povoados amazônicos, porque, quando crianças, vivemos numa dimensão muito mais ampla do que a dos adultos, e, aos 5 anos, os gibis inocularam-me para sempre o vírus da aventura; aos 13, já lia autores da pesada; aos 14, bebia, conversava sobre filosofia e arte, e escrevia até de madrugada; aos 17, recebi meu batismo de fogo, como disse o poeta Isnard Brandão Lima Filho, lançando o livro de poemas Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson e José Montoril, e peguei o rio e a BR.

Aos 27 anos, cansado de navegar e de rodar, e ainda tonto de um casamento frustrado por absoluto fracasso meu, comecei o curso de jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPa), em Belém, quando reencontrei um velho amigo, a quem chamarei de B.

B media um metro e noventa, por aí assim, pesava uns 100 quilos, tinha os olhos claros e exercia fascínio sobre as mulheres, inclusive casadas. Depressivo e dipsomaníaco, quando começava a falar, sua verve pessimista assustava todo mundo, daí que não vivia cercado de amigos. No nosso caso, havia uma coisa que interessava a ambos: os livros e os escritores. Li muitos livros recomendados por B, e gosto de todos eles. Além de um dos leitores mais argutos que conheci, B era também mais experiente do que eu, e, à sua maneira, sábio.

Certo dia, numa das pausas da bebida, B profetizou que nossa geração só se tornaria sábia após os 60 anos. Estive, muitas vezes, à beira do abismo; caí no poço dos prazeres mais carnais, e frequentei aquela zona cinzenta dos alcoólatras, dos desesperados, dos desesperançados, dos danados, dos mortos-vivos. Contudo, há sempre alguém, ou algo – uma lembrança, uma voz onírica, o levantar voo num sonho, uma rosa, o azul, o mar, personagens de ficção –, me levantando.

Comecei a mergulhar em novo conhecimento, a entender a máxima do filósofo Massaharu Taniguchi, que a matéria é sombra da mente. Se antes, aos 21 anos, sentia-me leão, hoje, sinto-me leão de asas – turbinas que me conduzem à velocidade da luz, alimentada pela visão de uma rosa que se desnuda, de jasmineiros que choram nas noites tórridas, do azul que sangra, do som da Terra no espaço.

B, estou me sentindo sábio!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A tarde contém o mar

O novo ano começa para valer quando as ruas ficam floridas de estudantes, o trânsito mais lento e o ar enfumaçado. Então Brasília rescende a café expresso, paletó e gravada, e shopping. Em casa, preparo meu café Três Corações, gourmet, às 5 horas da manhã, ao som da madrugada e embalado pela boa sensação de saber que os meus dormem e, quem sabe, sonhem com rosas.

Sou viajor diário, ora mergulhado na dimensão literária, ora curtindo a cidade com os sentidos da alma. As possibilidades são muitas. Uma das caminhadas que mais me dá prazer é atravessar o Setor Comercial Sul a partir do Venâncio 2.000, onde paro em um café, enquanto aprecio as mulheres que transitam em torno de mim, como vitrines oníricas; e atravesso o Pátio Brasil, com suas incontáveis possibilidades nos corredores.

Cruzo a Avenida W3 e mergulho no labirinto do Setor Comercial Sul, prenhe de lindas mulheres, em um passa, passa que só cessa à noite. Escolho, quase sempre, o mesmo caminho. Gosto de determinada rua, onde fica um endereço que utilizo no meu romance A CONFRARIA CABANAGEM. Ao passar defronte dele, revejo uma personagem, e sigo.

É sempre prazeroso cruzar o Conic, um conjunto de edifícios também conhecido como Setor de Diversões Sul. Ao projetar Brasília, Lúcio Costa a fez assim, setorizada. Atravesso o Conic respirando o ar novo da manhã, em meio a um mundo de mulheres que voam em todas as direções, voo misterioso, pois a beleza jamais é plenamente decifrada.

Chego ao Conjunto Nacional, onde as possibilidades são infinitas, ainda mais quando o ano começa verdadeiramente. Percorro as livrarias. Numa delas, Leitura, sinto o prazer de ver um livro meu, O CASULO EXPOSTO, na prateleira. Almoço no restaurante Viva Brasília.

A tarde chega como o pulsar da música de Mozart, trazendo perfume e cheiro de maresia. A tarde contém o mar. Assim, navego a tarde a bordo de um transatlântico.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Senador é degolado numa Brasília de duas faces: a corrupta e a luminosa. Neste romance policial de Ray Cunha criaturas fictícias convivem com personagens de carne e osso, vivas ou mortas

Capa da edição da Amazon.com

Capa da edição do Clube de Autores
O país afunda em corrupção e o erário escorre pelo ralo em obras bilionárias e superfaturadas, e que nunca terminam. Nada a ver com o Brasil atual. É ficção, mesmo. Ao investigar o assassinato de um senador da República, degolado com uma katana no suntuoso Tropical Hotel, que ocupa uma quadra inteira do Setor Hoteleiro Sul e onde voejam prostitutas de luxo, o detetive particular Hiena faz a grande descoberta de sua vida.

Trata-se do último romance de Ray Cunha, escritor nascido em Macapá, na Amazônia Caribenha, e que vive em Brasília desde 1987. Devido ao seu trabalho como jornalista, conhece os subterrâneos, bem como os bastidores da cidade-estado, além de ser também observador privilegiado dos seus palácios e shoppings, catedrais pós-modernas da Ilha da Fantasia.

Neste romance desfila um magote de personalidades reais, como, por exemplo, o maestro Silvio Barbato, ressuscitado para reger a Orquestra do Teatro Nacional Claudio Santoro em dois clássicos: o Concerto Para Piano e Orquestra, em Ré Menor, de Mozart, e o Bolero de Ravel; as cantoras paraenses Carmen Monarcha, que se apresenta com André Rieu, e Joelma, da Banda Calypso; três artistas plásticos: José Pires de Moraes Rego, Olivar Cunha e André Cerino; e até a famosa personagem de ficção Brigitte Montfort.

Por enquanto, HIENA está à venda somente no Clube de Autores e na Amazon.com. Faça o seu pedido!

Ray Cunha, fotografado pelo artista plástico André Cerino, no ateliê do pintor

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Mulher se pintando

Devido ao ângulo em que me encontrava podia vê-la impunemente, como um velho voyeur, que toma todos os cuidados ao praticar seu poético desvio, se o interesse é apenas ver mulheres entregues a si mesmas. A tarde expirava, e a noite ia tomando conta da cidade, lenta, mas firme. Eu tomara o metrô na Praça do Relógio, em Taguatinga, e desceria na 112 Sul, no Plano Piloto. O vagão não tinha quase ninguém e de onde eu me posicionara podia vê-la de perfil. Seus ombros eram graciosos e tinha longo pescoço, que lembrava um Modigliane. Seus cabelos, negros, eram curtos, deixando-me ver o brinco, balançando como estrela cadente. Seu nariz era pequeno e as pestanas longas. Pressionada pelo meu olhar vampiresco, ela se virou nervosa em minha direção e vi que seus lábios eram quase finos. Foi então que começou o espetáculo. 

Ela abriu a bolsa e sacou um estojo de onde tirou várias ferramentas, entre as quais um espelhinho. Mirou-se, passou blush no rosto, espalhou-o, e quando abriu o batom ajeitei-me no banco. Ver uma mulher passando batom nos lábios me arrepia. Ela deslizou o bastonete vermelho em toda a extensão de ambos os lábios e depois esfregou um no outro. Eu respirei forte. Então ela guardou o estojo e se acomodou, segura de si e relaxada.

Desci na 112 Sul e quando passei por ela me voltei rapidamente, com o olhar clínico armado. Ela não era bonita para os padrões televisivos, mas rescendia à beleza da sensualidade que só existe no mistério. Para onde iria? Para quem pintara aqueles lábios, agora salientes como os de Angelina Jolie? Em quem deixaria aquela tinta vermelha que a fazia belíssima?

Quando emergi da estação do metrô já era possível sentir a força de gravidade da noite. Ia pensando na mulher do metrô e na beleza feminina, e então me dei conta de algo que me intrigava há bastante tempo. Por que certas mulheres, com traços perfeitos, são tão sem graça? Percebi que a beleza feminina é como as rosas no mistério da sua solidão, e que só podemos senti-la completamente se captamos as mulheres no momento de entrega a elas mesmas.

Em O grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, há uma sequência em que numa sala há um homem e duas mulheres. As mulheres parecem não ver o homem. Estão entregues a si mesmas, e são tão lindas que parecem flutuar na tarde. O homem aspira a cena, como um vampiro de luz.

Quando eu tinha 14, 15 anos, e recebi os primeiros beijos, de ninfetas tão lindas como rosas, havia um terremoto no coração, só comparado ao que sinto quando vejo uma mulher nua sentada ao toucador, a escovar os cabelos e a passar no pescoço e no colo fragrâncias de cio, os cabelos esvoaçando no mesmo abandono delas mesmas. Então, mais do que nunca, são como as rosas, que se bastam a si mesmas.