domingo, 7 de agosto de 2016

Eu velho



Sinto, claro, agora, perfume de jasmineiros
Chorando em tórridas madrugadas em Macapá
Chanel 5
O mar
A eternidade se aproxima
Vertiginosa como a Terra no espaço
Mistério abismal de mulher nua
O Pico da Neblina
O Hilton Internacional Belém
Copacabana.
Autografo livros
E à noite bato papo com Fernando Canto
Sobre telas de Olivar Cunha
Flutuando numa garrafa de Dom Pérignon safra de 1954
Este 7 de agosto, como em todos os anos
Tem cheiro das virgens ruivas e gosto de acme

terça-feira, 7 de junho de 2016

O rio da tarde



Macapá é uma cidadela limitada pela selva e o maior rio do mundo. Na maré cheia, e se os alísios sopram mais forte, ondas de dois metros rebentam no muro de arrimo defronte à cidade, e quando a maré baixa, o leito do Mar Doce aparece, numa faixa escura de um quilômetro, rio adentro. A cidade começou a invadir a floresta; aos poucos, põe-na abaixo, em marcha de terra arrasada. Quanto ao rio Amazonas, continua levando a Belém. Vivi 17 anos em Macapá, e desde então nossa vida tem sido de reencontros e partidas. Hoje eu sei que uma cidade são várias cidades, incluindo as que construímos em nosso coração, de modo que fecho os olhos físicos quando chego, de barco ou de avião, e apuro os sentidos, para mergulhar nos indeléveis labirintos da cidade da minha infância, prenhes de espilantol.

Eu tinha 17 anos quando a deixei, peguei o rio e a estrada e sumi em Copacabana. Em dezembro de 1971, publicara, juntamente com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril, Xarda Misturada, um livrinho de poemas adolescentes no qual o poeta Isnard Lima Filho encontrou um veio de pedras preciosas (certamente os poemas do Joy) e me batizou de Ray Cunha, profetizando que um dia entraria no mercado livreiro norte-americano. Meu nome é Raimundo, do gótico “sábio protetor”, uma homenagem a meu avô paterno, Manoel Raimundo Cunha, e a meu pai, João Raimundo Cunha, além de uma promessa de vovó Rosa Maria Cunha a São Raimundo Nonato, padroeiro das parteiras e obstetras.

Naquela época, em Macapá, artistas eram vistos como vagabundos. E achei que deveria me mandar, e me mandei. Peguei minha cota de Xarda Misturada, tomei um barco no trapiche de Macapá e parti rumo a Belém, onde, com ajuda do meu irmão Paulo Cunha e de amigos peguei carona pela Belém-Brasília, ainda em construção, e fui bater na cidade recém construída por Juscelino Kubitschek. Na cidade-estado – hoje, fogueira das vaidades e valhacouto de assaltantes perigosos –, consegui, no antigo Ministério da Educação e Cultura (MEC), passagem para o Rio. De lá, queria ir a Paris e cheguei a conversar isso com o dramaturgo Paschoal Carlos Magno, que baixou meu fogo e me aconselhou a me aquietar no Rio mesmo.

Eu tinha 19 anos quando vi pela primeira vez uma orquestra. Foi em 1973, no Teatro da TV Globo, no Jardim Botânico. Naquele dia, uma nova porta se abriu na minha vida. A Orquestra Sinfônica Brasileira – não me lembro quem era o regente – apresentou A Sagração da Primavera, do russo Igor Stravinsky. Quando Le Sacre du Printemps, balé em dois atos, estreou, em 29 de maio de 1913, no Théâtre dês Champs-Élysées, em Paris, foi um escândalo. Tratava-se de música moderna, inovadora, revolucionária. Os acontecimentos só são importantes quando nos atingem em profundidade. Isso ocorreu também, em 1983, em Belém do Pará, ao ouvir Mozart pela primeira vez, Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor.

Já estou descendo o morro da vida. A encosta é íngreme. Não importa; foi a trilha que escolhi. Fui belo e imortal, inquieto, dramático, desesperado e trágico, como, quase sempre, os jovens todos. O corpo é um amontoado de átomos, que se unem enquanto há vida, e a vida segue um afunilamento, e amplia-se. Às vezes, Deus arruma nossas manhãs, e as roseiras rebentam em rosas nuas (visíveis pelos olhos do coração), jasmineiros choram perfume, ouve-se o riso de crianças e o esplendor do sol roça o mundo.

As zínias; as rosas; beijos que são como terremoto; a intensidade, quase insuportável, de criar o poema, são luzes que fecundam o tao, o caminho, a estrada da vida, que pode ser escura, mas não deve ser escura. Precisamos pontilhá-la de luzes, portas para o rio da tarde.

Brasília, 14 de janeiro de 2016

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A mulher que me ensinou a voar

Três momentos da mulher amada: na primeira foto, captada
pela lente de Ivaldo Cavalcante; grávida de 
uma flor, Iasmim;
e o sorriso de sol na Calçada da Fama, na Seicho-No-Ie 

BRASÍLIA, 19 DE MAIO DE 2016 - A manhã de 20 de maio de 1968, em Macapá, foi excepcional. As flores desabrocharam em questão de segundos ao sol, deixando o ar prenhe de perfume e a Linha Imaginária do Equador girando igual música de Mozart. Eu tinha 14 anos e já recebera o batismo de fogo azul, por isso percebi que a manhã fora arrumada por Deus, pois entre as flores vivificadas pela luz, uma recebeu o nome de Josiane Souza Moreira.

Só a conheci 19 anos depois, em Brasília. Cafuza, linda que só ela, parecia um arbusto com sabor de Dom Pérignon, safra de 1954. Começamos a namorar em 15 de maio de 1988, no cinema do Conjunto Nacional, vendo O Último Imperador da China, de Bernardo Bertolucci. Casamo-nos no religioso em 21 de maio de 1989 e, no civil, em 6 de agosto de 2010. Em 22 de fevereiro de 1990, Josiane deu à luz uma princesa com nome de flor: Iasmim.

Quando a conheci, eu tinha 33 anos de idade, 14 mais do que ela, vinha de um casamento fracassado, vivia mergulhado no álcool, trabalhava num jornal sem futuro (Correio do Brasil, que já fechou as portas há muito tempo) e sou feio. Mas ela me viu leão de asas na dimensão azul, e desde aquela noite de 15 de maio de 1988, namoramos todos os dias, até quando estamos perdidos, pois nos encontramos no coração, onde não existe tempo nem espaço; só há o agora e o agora, o momento mesmo da eternidade.

Ela entrou na minha vida como raio de sol iluminando minha alma, como o hálito do Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor, de Mozart, como o azul do mar, tão azul que sangra. Desde então, deposito nas tuas mãos, Josiane Souza Moreira Cunha, todo o meu tesouro, um abismo de rosas vermelhas, colombianas, risos de crianças, o triunfo da Luz.


MINHA NAMORADA

O primeiro beijo que me deste, explodiu
Como relâmpago na minha alma
Feriu-me, doce como brisa,
Pétalas pousando no púbis de um anjo

Desde então, flor da minha vida,
Voo na tua dimensão
Grávido de ti, como um abismo,
Mulher amada!

Segue-me, pois te mostrei quase nada
E tenho a chave dos sonhos
Que conduzem à eternidade

À fogueira do nosso amor, minha namorada,
Ao voo vertiginoso
Da luz movida a acme

A NOITE É SÓ NOSSA

Meu bem, estou à tua espera, vibrando de alegria
Pois esperar-te é como a emoção que precede o garimpeiro
Ao encontrar a maior pepita de ouro, dez anos depois
No morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene
É como a felicidade de abraçar crianças que escaparam de um naufrágio
Ao largo do Marajó
Ver rosas nuas em toda parte
Amor da minha vida esta noite será eterna
Porque nesta casa
Só haverá nós dois e a noite
Já arrumei tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu
Seremos nós dois e os diamantes que garimpei toda a minha vida
E que só encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960
Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias
E dançaremos lentamente, nossos lábios se roçando
E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione
E Amarcord, de Nino Rota
Então, voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954
Beberei colostro e sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis
E será madrugada
A quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma
Mulher amada
Vem logo
Pois a noite já chegou
Como um navio, um continente, uma galáxia
Só nossa! 

domingo, 8 de maio de 2016

Mamãe era como as rosas, inexpugnável na sua fragilidade, imortal na sua beleza

Marina Pereira Silva Cunha, imortalizada
pela espátula genial de Olivar Cunha

Marina Pereira Silva Cunha, minha mãe, foi a mulher mais bonita, corajosa e iluminada que conheci. Amava-a incondicionalmente. Sua presença, seu perfume, seu calor, eram redentores, e nutrem-me como cascata que cai do alto da montanha, alimentando minha alma. Certo domingo, eu era criança, talvez tivesse 7 anos, fomos, só ela e eu, à missa matinal na Catedral de Macapá. O farfalhar de seda, o perfume, principalmente o de minha mãe, os rumores dentro do templo, o latim, as imagens impressionantes dos santos, a hóstia, e a pureza que senti em tudo aquilo, me marcaram para sempre. Uma vez, ela foi a Belém, onde passou alguns poucos dias. Então, escrevi uma cartinha a ela, e chorei. Nos fins de semana, gostava de fazer-lhe companhia, de ouvir sua voz, de ver seus olhos, grandes e redentores. Ela era uma leoa; cuidou, simultaneamente, de 10 filhos e do papai, João Raimundo Cunha. Ensinou-nos a ler e a escrever, a todos nós, cozinhou para nós, em fogão a lenha e depois a gás, lavou e passou em ferro a brasa e depois elétrico, limpou a Casa Amarela durante décadas, e nos ensinou a amar. Era como as rosas, inexpugnável na sua fragilidade, imortal na sua beleza. Quando oro, sinto-a me abraçando, sinto seu perfume, seu hálito, e então sinto-me imortal. Obrigado, mamãe!

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Rosa

Rosa, Mel, Linda, irmãs amadas, e eu

Minha Rosa caçula foi para o Éter
Foi encontrar-se com entes amados
Está no Azul
Montou a Luz
Foi para as cores mais alegres de Olivar Cunha
Aonde o azul é tão azul que verte rosas vermelhas
Os jasmineiros choram Mozart e Chanel 5
E o silêncio é feito de sintonia fina
Na sua vida não há mais força de gravidade
Nem distância, nem tempo
Só há eternidade, agora
Hoje de manhã, ao sintonizar com meus antepassados,
E todos os que amo,
Senti o cheiro da minha Rosa caçula
Cheiro de infância, de amanhecer, de primavera
Do voo dos pássaros
E dos astros
Minha Rosa caçula
Ri o riso mais cristalino, como cascata que cai
Do alto da montanha
E transborda entre as pedras
Ouço em toda parte o riso da minha Rosa caçula
Nos jardins de Deus, infindáveis, eternos
Sem início e sem fim
E que só cabem no meu coração!

sexta-feira, 25 de março de 2016

CONTO/Eu não posso perder o embalo

   Quando cheguei estava só a empregada, que a Galinha Gorda chama de governanta  o mesmo pedantismo daquele veado. – Fora a uma seresta. Pus-me a ver televisão. Um filmaço: O Dom da Fúria, com Robert Duval. Terminado o filme, desliguei o aparelho, preparei um café instantâneo, fumegante, e fiquei esperando a boceta. Chovia de manhã, à tarde e ainda à noite. Havia mofo na minha alma. Cidade infernal! Mas qual a cidade que presta quando estamos sem trabalho? Lembrei-me do último: teria de cuidar de um matagal, a que aquele veado insistia em chamar de jardim. O sujeito era ridículo. Comia num desses restaurantes infernais de macrobiótica. Tinha o rosto bexiguento assustador de tanto mastigar 40 vezes cada garfada de arroz. Quis que eu virasse também ruminante, mas a governanta dele fritava enormes bifes de alcatra, que eu comia vorazmente com feijão e arroz, e tomava depois um copo de coalhada gelada que ela preparava para mim. Parece que com a besteira do masca-masca o boçal pretendia virar santo. Bem, o negócio não durou muito tempo. O imbecil tinha umas amigas que viviam de olho na grana dele. Um dia me encontrou engatado no cu da Galinha Gorda. Demitiu-me na hora. Acontece que a desfrutável quis continuar a farra e comecei a frequentar seu apartamento. Chegou às 5 horas. Estava farta de garotões e passou por mim dizendo que ia tomar banho e se deitar. Tirei meu cinto de couro e dei umas lambadas na vaca. Ela fez um alarido assustador e compreendi que a boa vida, ali, acabara-se. Desci. Seria uma segunda-feira de sol brilhante. Caminhei até o Ver-O-Peso. Apreciei as frutas, aspirei o cheiro dos peixes, comprei uma sólida piramutaba e fui para casa.


EU NÃO POSSO PERDER O EMBALO integra o livro NA BOCA DO JACARÉ-AÇU (Ler Editora/Libri Editorial, Brasília, 2013, 153 páginas)  Novela e contos ambientados em Belém do Pará e na ilha de Marajó.

À venda na estante dos jornalistas-escritores instalada no hall de entrada do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 2, Lotes 420/440, Edifício City Offices, Cobertura

Na Libri Editorial, no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF – CEP 70610-430; livreiros devem fazer pedidos ao editor pelo e-mail:


Ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008

Pedido também para: raycunha@gmail.com

R$ 40 (em Brasília, entrega pessoalmente; em outras cidades, via Correios)

sábado, 19 de março de 2016

O último dia do verão

Os dias amanhecem como fotografias sépias e as mulheres trajam casacos; já não andam de sandálias e roupas que lhes deixam grande parte da sua pele maravilhosa iluminar o planeta. Costuma, agora, fazer 19 graus centígrados em torno das 8 horas, quando, às vezes, atravesso as ruas da manhã, curtindo tudo o que me ofertam. Ao cruzar com uma mulher muito bonita, agradeço a Deus, porque é bom presságio. As manhãs são sempre como as rosas, recendem ao perfume redentor de mulheres que acabaram de sair do banho e presenteiam o mundo com seu esplendor.

Curto as manhãs de outono como todas as manhãs, da primavera, do verão e do inverno, porque as joias que guardei no meu relicário são feitas dos sons das manhãs, risos de crianças, marulhar longínquo, quem sabe da ilha de Mosqueiro, ou Salinas, ou Copacabana, ou Ipanema. Meu relicário é do tamanho do meu coração, e contém uma cidade inteira, que pode ser Brasília, Belém, Rio de Janeiro, ou Macapá.

Se é Macapá, um vendaval sacode minha alma, porque a simples palavra Macapá me inunda de endorfina. Somos velhos amantes. Macapá é tão azul, que mais azul só os poemas da Alcinéa Maria Cavalcante. E ainda mais azul, o primeiro beijo, que me ensinou a voar. O Rio de Janeiro sai do meu relicário como uma portuguesinha da Ilha do Governador ensaiando Miolo de Pão, peça que o meu amigo Luiz Loyola escreveu sobre a família dele e guardou na gaveta mais preciosa.

Tudo isso me ocorre porque é o último dia do verão. Brasília é como a mulher amada. Vou explorando seus labirintos com paciência e gentileza, na esperança de que ela abra para mim todas as suas portas secretas; de vez em quando descubro minas de diamante e rubi nas suas luzes.

E se logo no início do outono está tão bom, imagino quando chegarem o inverno, as manhãs de neblina, de cerração, de frentes frias, as noites de ventania, as mulheres lindas mais misteriosas do que nunca, deixando à mostra apenas suas bocas pintadas de vermelho, o corpo da mulher amada sob o edredom, o levantar-se às 5 horas, o café 3 Corações, gourmet, e o retomar da aventura parida ao computador!

Com três xícaras de café com leite em pó e duas fatias de pão de passas a manhã fica ainda mais cintilante, porque já é magnífica por ser outono. Assim passam-se os dias, como folhas que caem, suavemente, sustentadas pela brisa, até o chão. À noite, no nicho da minha biblioteca, sonho novamente com a manhã, e com a tarde, e com os aromas que senti vindos de planetas que gravitam em volta da minha alma.

A vida é isto! – penso. Sim, viver é voar, como estou fazendo agora. A vida cabe toda no agora, como uma imensa rosa vermelha, inexpugnável na sua fragilidade, eterna na sua fugacidade, invencível na sua beleza. Quero ficar grávido da manhã, do outono e das rosas; só assim escreverei palavras azuis como rubis.