quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Terapeuta promove saúde no corpo e na alma

RAY CUNHA é terapeuta e jornalista especializado em Medicina Tradicional Chinesa (MTC), que abrange Acupuntura, Massagem Terapêutica Chinesa (Tuiná), Auriculoterapia, Fitoterapia e Alimentação Energética. As técnicas em MTC equilibram o corpo e a mente; extinguem dores; tratam as síndromes físicas e psicológicas, como, por exemplo: ansiedade, depressão, síndrome do pânico, insônia, fibromialgia, desejos suicidas; emagrecem com segurança; aumentam a defesa imunológica; e previnem doenças etc. É também técnico em Massagem Modeladora.

Consultório na 707/907 Sul – Edifício San Marino (ao lado da Aliança Francesa) – Sala 321 – Brasília/DF.

Edição da Amazom.com.br
MAIS INFORMAÇÕES

Telefone (61) 99621-6425 

– Formado em Medicina Tradicional Chinesa pela Escola Nacional de Acupuntura (ENAc) – de 06/08/2013 a 12/07/2016 – com 2.080 horas de aulas presenciais e 440 horas de estágio no ambulatório da ENAc, num total de 2.520 horas/aula – Brasília.

– Formado em Auriculoterapia pela Escola Nacional de Acupuntura (ENAc) – de 07/02/2014 a 11/04/2014 – Brasília.

– Formado em Tuiná (massagem terapêutica chinesa) pela Escola Nacional de Acupuntura (ENAc) – de 14/10/2014 a 16/12/2014 – Brasília.
Edição do Clube de Autores

– Formado em Massagem Modeladora pelo Senac de Ceilândia/DF, em curso de 40 horas-aula, de 11 a 22 de setembro de 2017.

– Participou do I Workshop Internacional de Osteopatia, Terapias Manuais e TAD (Terapia Anti-Dor), promovido pelo Instituto de Biociências e Instituto Sacrum, e ministrado pelo posturopata Ángel Gil Estévez, do Instituto Sacrum (Espanha) – 24/01/2015, com duração de 10 horas – Brasília.

– Prestou atendimento em Acupuntura, Auriculoterapia e Massagem Terapêutica como aluno da Escola Nacional de Acupuntura (ENAc) por ocasião de congraçamento no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), nos dias 25 de abril e 1 de agosto de 2015, num total de 8 horas.

– Participou como aluno da Escola Nacional de Acupuntura (ENAc) de ação promovida pela Cipa – Comissão Interna de Prevenção de Acidentes, do Colégio Marista de Brasília (L2 Sul), prestando atendimento em Acupuntura, Auriculoterapia e Massagem Terapêutica, em 1 de outubro de 2015, num total de 4 horas.

– Participou como aluno da Escola Nacional de Acupuntura (ENAc) da Semana da Enfermagem do Hospital Sírio-Libanês Brasília, de 9 a 11 de maio de 2016, prestando atendimento num total de 12 horas em Tuiná (massagem terapêutica chinesa) e Auriculoterapia aos funcionários das três unidades do Hospital Sírio-Libanês em Brasília.

– Participou como aluno da Escola Nacional de Acupuntura (ENAc) do Teias – Tecnologia, Empreendedorismo, Inovação, Arte e Sustentabilidade, promovido pelos alunos do Centro Universitário de Brasília (UniCeub), no dia 3 de junho de 2016, num total de 4 horas.

– Participou do I Workshop de Cuidados Paliativos, promovido pelo Centro de Oncologia Hospital Sírio-Libanês – Unidade de Brasília, no dia 18/06/2016, com duração de 8 horas.

– Realiza atendimento voluntário em Medicina Tradicional Chinesa no Centro Espírita André Luiz, no Guará I, todos os domingos, desde 2016.

– Jornalista especializado em Medicina Tradicional Chinesa.

– Autor do romance FOGO NO CORAÇÃO, ambientado no universo da Medicina Tradicional Chinesa em Brasília, à venda na Amazon.com.br e no Clube de Autores.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Muito além de mim


Este conto foi publicado no livro NA BOCA DO JACARÉ-AÇU, à venda na Libri Editorial e na Amazon.com.br

Tenho me esforçado em escrever ficção. A gente não precisa de muito para produzir. Basta comer o suficiente para não adoecer. Vinha tendo bem mais que isso, mas tudo acabou como num passe de mágica. No mesmo dia, perdi emprego, mulher, casa, comida e roupa lavada. Conheci Celina Madeira Machado Silva e Silva no Bar do Parque, defronte ao Hotel Hilton Belém, na Praça da República. Ela estava na companhia de uma tipa grande como uma elefanta e de uma outra que era todinha uma enguia. Naquela época, andei publicando umas resenhas sobre cinema em O Liberal e Celina era cinéfila. O papo foi longe. Ela me convidou para ir à sua casa no dia seguinte. Morava num casarão em Nazaré. O pai, com o estômago estourando de câncer, vivia recluso esperando a hora de bater as botas. Para não me estender muito, o caso é o seguinte: Celina e eu nos casamos dias depois. Eu fui seu quarto marido. Celina andara à procura de um marido que fosse assim como um pai camarada. A mãe de Celina, uma índia que seu pai comprara em Santarém, fora escravizada a vida toda, mas não morrera sem gerar a filha rebelde. Ao chegar de Portugal, o pai de Celina começou como padeiro em Belém. Anos de economia, comendo restos estragados de frutas e se vestindo com duas mudas de roupa, fizeram dele um magnata do pão. Celina vivia esbanjando a fortuna e batendo perna com suas amigas aliá e peixe-elétrico. Era a cadela do trio. Pôs-me um par de cornos de alce. Mas nosso jogo era tácito. Ela me tirara da sarjeta e me usava como atleta sexual. Naquela manhã, peguei o carro que Celina me dera e fui para o trabalho, uma revista picareta que só me pagava com vales, embora, antes de conhecer Celina, era lá que eu repousava a carcaça, num quartinho decrépito, nos fundos do prédio. Cheguei a tempo de ver o pessoal da Justiça do Trabalho levando tudo. Depois soube que o editor tinha vencido uma causa trabalhista contra o dono da empresa. Voltei para casa. Flagrei minha mulher gemendo, empalada no vergalho do jardineiro em nossa santa cama. Não quis fazer drama. Sentia-me vulnerável e cansado. Fui à cozinha beber água e saí para o quintal. Fiquei bastante tempo sentado num banco debaixo de uma mangueira. “A vida é um jogo perdido; o melhor que podemos fazer é jogar bem” - pensei. “A criação literária é minha igreja; e eu, o padre que oficia a missa. A razão da minha vida é escrever ficção. Se não escrevo, sinto-me vazio, despencando na fossa, no nada. Por isso, necessito criar. E quando estou no lugar ideal nada pode me atingir. Nada! Eu sempre soube que esse casamento é apenas uma passagem de chuva.” Mais tarde voltei ao quarto, peguei minhas coisas. Na sala, encontrei Celina.

- Estou indo embora - disse-lhe. Quase não acreditei no que ela respondeu.

- Tu pegaste a roupa na lavanderia? - eram uns casacos que ela usava quando viajava e que eu levara à lavanderia.

Nessas alturas, tinha feito novas amizades, e um amigo, um verdadeiro irmão, me acolheu na casa dele. Minha passagem pela casa de Celina me proporcionou a oportunidade de me preparar para o vestibular. Ela pagara o cursinho e eu consegui entrar na Universidade Federal do Pará, para fazer o curso de jornalismo. Foi desse modo que obtive uma vaga na Casa do Estudante Universitário do Pará (Ceup).

Naquela manhã lamacenta de abril a Ceup dormia ainda, por trás do alto muro na Rua São Francisco, bairro da Campina. Era um conjunto de três prédios: a Casa Nova, já com sinais de decrepitude; a Vila Sapo, com quatro quartos geminados; e a Casa Velha, um casarão do século dezenove, em ruínas.
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- Gostaria de falar com o presidente - disse a um ancião escaveirado que surgiu no vão da porta, imaterial como um fantasma.

Fui conduzido a um quarto no terceiro andar da Casa Nova. Bati na porta. Apareceram dois olhos negros, famintos. Pertencia a um camponês de cabeça excessivamente chata. Estendi-lhe a carta da reitoria da Universidade Federal do Pará. Ele a leu.

- Meu nome é Ribamar - disse, e me convidou para entrar no quarto.

O quarto fedia a mofo, roupa suja e gordura. Encostada à parede havia uma bicicleta toda enfeitada. “Parece chapéu de vaqueiro nordestino” - pensei.

- Você vai para o quarto do Rei Momo - disse o presidente.

O quarto do Rei Momo ficava na Vila Sapo. Era o primeiro de quem ia da Casa Nova para a Casa Velha. Estava todo fechado. Ribamar bateu na porta. Ouviu-se movimento lá dentro e depois a porta foi aberta. Vi uma aparição de olhos esbugalhados, um homem de meia idade, barrigudo e assustado.

- Este aqui é o João. Ele vai morar aí - disse o presidente.

- Aqui? - Rei Momo não acreditou no que ouviu. Desde que viera de Santarém, há dez anos, que não dividia o quarto. Agora, o subversivo do Piauí vinha com aquela conversa. - Um momento - disse Rei Momo, fechando a porta. Daí a alguns minutos reapareceu. Vestira uma camisa e escovara os cabelos. - Podem entrar - convidou-nos.

O fedor de mofo era sufocante. Em um dos lados do quarto havia uma cama com um bom colchão, com trapos espalhados sobre ele. No outro lado, encostada à parede, vi uma dessas camas de armar e desarmar. Na parede dos fundos erguia-se uma respeitável pilha de livros, ao lado de um guarda-roupa em ruínas, e no centro do quarto jazia uma mesinha atulhada de tudo quando se possa imaginar. Rei Momo sentara-se sobre a cama e o presidente e eu ficamos em pé.

- Eu sempre morei sozinho - disse Rei Momo, zangado.

- Isto aqui está precisando de uma limpeza. Vou convocar um mutirão para pôr em ordem este quarto - disse o presidente, que era recém-empossado. Eu soube mais tarde que o presidente anterior permanecera no cargo durante dez anos.

Rei Momo olhou-o apavorado.

- Não será preciso um mutirão. Nós dois nos daremos bem - eu disse, estendendo a mão para Rei Momo. Ele pareceu não ter visto meu gesto. - Parece-me que ambos gostamos de Fellini - apontei para uma lombada que se salientava na pilha de livros. - E não te preocupes com barulho; gosto também de silêncio.

Nasci em 22 de abril de 1939. Estamos em 22 de abril de 1972. Tenho, portanto, 33 anos de idade. Sinto que já comecei a descer o morro da vida. Para um escritor permanecer no embalo dos 21 anos, só com muita dedicação - dedicação religiosa - a tudo o que diz respeito à criação literária, como: disciplina espartana e trabalho duro como um assalto de boxe, sem trégua, contínuo, árduo e nunca desestimulado. E é assim que venho fazendo na Ceup, aproveitando essa oportunidade que Deus me deu. O fim do meu casamento serviu para que descobrisse o quanto realmente as coisas valem. A Ceup foi o gatilho que eu precisava disparar para me tornar escritor; antes dela, Celina.

As melhores horas eram as da madrugada, quando o silêncio se impunha à horda piolhenta que ali se escondia. Às vezes, me deixava sentar em frente à televisão para ver um resto de filme, ou simplesmente ficava ali, no hall de entrada da Casa Nova, mais pela claridade das inúmeras lâmpadas fluorescentes. Nas férias, quando todos iam para suas cidades natais e a Ceup ficava quase abandonada, eu varava as noites escrevendo, absolutamente fiel a mim mesmo. Escrevia todos os dias, mesmo que fosse por alguns minutos apenas. Se não dava, tentava no dia seguinte. E dormia bastante. Lia tudo e atentamente. Rezava, meditava, via, ouvia, sentia, cheirava, degustava, bebia, comia, vagabundava, batia papo e escrevia cartas. Escrever não me saciava nunca. Atingia picos de concentração, lucidez e produção que pareciam a embriaguez do primeiro gim fizz. Vivia o agora e o agora, o momento mesmo da vida. Nada de nostalgia, nada de remorso, o passado era feito do que havia de melhor; nada de sonho, pois a realidade proporcionava prazer intenso; nada de preocupação, pois não havia futuro; nada de raivas, pois a raiva, acionada, só a morte pode detê-la, é tão devastadora que atinge tudo ao seu redor, incluindo objeto e sujeito; nada de reclamações; nada de se meter na vida dos outros, nem deixar que os outros se metessem na minha vida. Eu era, apenas, um mero observador da realidade, embora, sempre que achasse necessário, interviesse na realidade. Hoje, sei que não se pode intervir na realidade, pois a realidade é. Nossa vida é apenas o caminho que leva à realidade. Até as mulheres se tornaram para mim, naquela época, abstrações, e somente pensando nelas é que ousava sonhar. Sonhava com uma companheira, amiga, amante, o colo onde repousava minha cabeça, ainda dolorida devido aos cornos. A luz do seu amor me conduzindo naquelas encruzilhadas da vida mergulhadas nas trevas, guiando-me pela mão, com segurança, emergindo comigo na claridade e na trilha segura. Nos meus mergulhos interiores eu me via também como protetor das crianças, gentil e caridoso, senhor de mim, poderoso como um anjo, pedindo perdão a todos quanto ofendi, ou causei mal.

Geralmente me alimentava de pão dormido, que o padeiro da esquina me arranjava sempre. Fiz amizade também com o açougueiro, que me dava ossos ainda munidos de excelentes nacos de carne, que eu cozinhava e comia com a boa farinha d’água que minha família me mandava de Oiapoque, cidade do Território Federal do Amapá. Às vezes, eu faturava alguma coisa na mídia. Aí, almoçava no Ver-O-Peso. Meio litro de pirão de açaí com dourada, e adormecia nocauteado pela canícula, até o anoitecer, quando tomava banho, vestia a melhor muda de roupa de que dispunha e ia para o Cosa Nostra bater papo com o barman, meu amigo. Mas, a maior parte do tempo, vivia a minha vida de modo quase recluso, quase sem participar da agitação que havia sempre na Ceup. Minha participação no dia-a-dia da casa era mais a de expectador. Os acontecimentos sucediam-se como os bancos de uma roda-gigante em movimento. Embora eu não me importasse com eles. Simplesmente não influíam na minha vida. Eu estava ali com um objetivo e até alcançá-lo vivia intensamente minha vida interior. O dia-a-dia da Ceup não alterava o fluxo do meu rio interior. Mas eu dissecava os protagonistas desses episódios e, às vezes, tomava nota deles. Uma madrugada, acordei com gritos medonhos à porta do quarto. Abri-a e me deparei com uma mulher enrolada em um cobertor imundo, cheio de nódoas de gozos antigos, suplicando que a socorressem. Mão de Sucuri, um vaqueiro, nosso vizinho, havia levado aquela mulher para o quarto dele, onde morava com Punheteiro, que se masturbava a noite inteira enquanto Mão de Sucuri trabalhava nas putas que levava para lá. Naquela noite, Mão de Sucuri, que tinha esse apelido de tanto ordenhar vaca e ficara com uma força descomunal nas mãos, queria que a mulher desse uma chupada nele. Ela ficou com vergonha de fazer aquilo na frente de Punheteiro. Apesar de não se aguentar em pé de tão porre, Mão de Sucuri imobilizou-a na sua rede tão limpa quando o cobertor e lhe ferroou uma dentada na bunda. Depois pô-la nua, a bofetadas, ao relento. Ela conseguira segurar o cobertor e ao se ver ao relento pôs-se a berrar. Mão de Sucuri caiu na rede em coma e Punheteiro batia uma feroz punheta para aquela égua nua que passou roçando seu nariz. Outra madrugada, na Casa Nova, o Doutor, conhecido também como Distribuidor de Esperma, começou a berrar. Ele queria ser cirurgião plástico. Logrou ingressar na universidade após doze vestibulares bem contados. Jamais tomava banho e lembrava um pedaço de sebo. Dizia a todos que vendia esperma para inseminação artificial. Recebia carne seca do Maranhão e a guardava sobre uma sucata de geladeira. Todo dia tirava dali alguns pedaços, que cozinhava e comia com farinha d’água. Um dia, ratos começaram a brigar sobre a carne seca e um caiu no Distribuidor de Esperma, que acordou com uma ratazana na cara. Em agosto, houve o caso do Padre. Uma manhã, eu me encontrava no salão da Casa Velha. Duende estava encostado à janela. Era meio-dia e o sol dava até para fritar ovo.

- Não dou uma semana para que o Padre seja levado para o hospício - disse Duende, um goiano vermelho e miúdo, que só usava camisas de mangas compridas abotoadas nos punhos e no colarinho, mesmo sob o calor de quarenta e cinco graus. Três dias depois, houve um corre-corre na Casa Velha. Apareceram quatro enfermeiros, meteram o Padre numa camisa de força e sumiram. Naquela noite, encontrei-me com Duende e lhe perguntei como é que ele sabia do internamento de Padre.

- Ele andava de camisas de mangas compridas abotoadas nos punhos e no colarinho em pleno sol de meio-dia - disse.

Fui a última pessoa a falar com Duende, que vivia sozinho em um quarto grande da Casa Velha. Como tivesse perdido a chave da porta, entrava no quarto por meio de um buraco na janela, vedado com um pedaço de compensado. Duende desaparecera já há três dias. Naquela manhã, seu Miguer, o faxineiro esquálido, vislumbrou por uma brecha na janela um movimento qualquer no quarto de Duende. Olhou melhor e viu uma ratazana agarrada a uma perna. Apurou o olhar e distinguiu um homem enforcado, com ratazanas aqui e ali no corpo, especialmente na cara. Seu Miguer emitiu um guincho semelhante ao de seus irmãos roedores e deu o alarme. Foi uma perda para Rei Momo, já que Duende costumava manter discussões quilométricas com Rei Momo sobre Khrisnamurt, de quem lera todos os livros. Ironicamente, Khrisnamurt era sua ansiedade.

Quando eu não estava na Ceup, estava na universidade. Tive uma professora gorda como uma vaca que promovia debates sobre marxismo sem jamais ter lido O Capital. Vivia com uma aluna magrinha, que a gorda agarrava nos corredores da faculdade e lhe aplicava beijos escandalosos. Durante três semestres vi-me perseguido por um professor de técnica de alguma coisa, homossexual, coxo, com uma nádega seca e analfabeto. Um dia, no banheiro, segurei-o pelo cabelo e o fiz beber água do vaso sanitário. Um santo remédio. Outro mestre inesquecível foi um idiota nascido no Piauí, educado em Goiás e doutorado numa dessas universidades perdidas nas estradas dos Estados Unidos. O tipo lecionava uma disciplina chamada Estudos de Problemas Brasileiros. Suas aulas eram, invariavelmente, um elogio às obras faraônicas dos ditadores militares. À noite, livrava-me de tudo aquilo com um bom gole de gim-fizz no Cosa Nostra, por conta da casa.

Rei Momo morreu no Natal daquele derradeiro ano de minha permanência na Ceup. Caiu como um passarinho baleado diante da parede nua do quarto, onde sempre estivera seu tesouro. Rei Momo era um ladrão de livro. Possuía uma pilha de dois mil volumes. Ao mudar-me para o quarto dele, tive de colocar Sequóia em ordem. Sequóia chegou a dar uma surra de cinto em Rei Momo. Mas eu ainda não morava na Ceup. Eu era pugilista amador e sempre que podia estava lá com a turma da Joe Louis. Acabei com Sequóia apenas com um tabefe na cara. Ele não revidou. Ficou se cagando de medo. Então, deixou Rei Momo em paz. Eu gostava de conversar com Rei Momo, que levava uma vida de rei, mesmo. Matriculava-se numa única disciplina na universidade e fazia de conta que estava estudando. Sua família o mantinha ali porque o considerava retardado mental. Ele não se importava. Recebia uma mesada relativamente gorda. Consumia suas tardes conversando fiado nas bancas de tacacá e com os vigias das redondezas. Pois bem, Sequóia mudou-se. Aproveitou para dar um golpe fatal em Rei Momo. Na madrugada daquele Natal, ao entrar no tugúrio onde nos enterrávamos, Rei Momo encontrou um bilhete pregado com fita Durex na parede nua onde sempre estiveram os livros, a primeira coisa que Rei Momo checava ao entrar no quarto. “Agradecido pelo livros, bicha louca” - dizia o bilhete.

Vocês sabem como Ernest Hemingway morreu? Segundo Milt Machlin, no livro O Inferno Privado de Hemingway, era cedo da manhã. “Desceu à sala de armas e tirou do armário uma de suas espingardas favoritas, uma Angelini e Bernardon calibre doze, fabricada especialmente para ele. Era uma bela arma, e ele sempre a tratava com a reverência de um objeto religioso. Carregou-a com dois cartuchos, depois meteu os dois canos na boca e puxou os gatilhos ao mesmo tempo.” Houve um tempo em que pensei matar-me. Possuía - e isto era uma das minhas pequenas riquezas - uma pistola, a PT 58, da Taurus. Se eu quisesse me suicidar como Hemingway teria de pôr a boca do cano no céu da boca, de modo que a bala atravessasse o cérebro. A gente não sente nada. Os que ficassem, logo me esqueceriam. Como minha família é de Oiapoque e muito pobre, eu seria enterrado como indigente e, assim, desapareceria sem deixar rastro. Cheguei a cogitar isso na época em que aquela cadela, aquela índia duma figa, galinha do caralho, me empurrou de volta para a sarjeta, depois de quase um ano principesco. Mas agora sou grato a ela. Ajudou bastante. E depois somente nós temos a responsabilidade pelo que passamos. Antes de conhecer Celina, estivera sentado numa cadeira olhando para uma parede. A sorte é que ouvia Wolfgang Amadeus Mozart. Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor. Para além da parede há um anoitecer azul. Azul escuro. Peguei meu canivete italiano, outra joia que possuo, e vibrei contra o céu. O sangue escorreu pelo corte. E o azul intenso respingou em mim. Atravessei o portão da Ceup e tomei pela Rua São Francisco e depois pela Avenida Almirante Tamandaré até a Avenida Presidente Vargas. Sentei-me num banquinho do Milano e pedi uma Antarctica pequena. “Como vou desforrar!” – pensei, pois acabara de conseguir uma vaga em O Liberal. Já tinha renda garantida, agora. Só precisava escrever um romance que vendesse como Cem anos de solidão, como pão francês. Então compraria um iate para vagabundar por toda a Amazônia e o Caribe.

Taguatinga-DF, agosto de 2011

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Belém precisa de um prefeito

Estação das Docas, em Belém do Pará: a cidade
precisa desesperadamente de um prefeito

RAY CUNHA

Vista de madrugada, a bordo de um jato prestes a pousar no Aeroporto de Val-de-Cães, Belém emerge da baía de Guajará como uma península de luzes, cada vez mais tangível à medida que o avião se aproxima do chão, até tocá-lo, num choque no concreto, amortecido pela borracha maciça dos gigantescos pneus da aeronave. Aparentemente a cidade dorme, mas seu ventre ferve na madrugada, e escorre, cedo, na manhã, espalhando sua podridão no meio-fio das ruas e quedando-se, morto, à medida que o sol surge e os belenenses começam a se mover e a expelir dejetos. Almas penadas, andarilhos da madrugada, vendedores ambulantes, mendigos, caminhantes, comerciários, povoam o Ver-O-Peso, o calçadão da Praça da República, o Terminal Rodoviário Hildegardo da Silva Nunes, a Praça do Operário, o Mercado de São Brás, a Praça Batista Campos, a Doca de Souza Franco, todos os pontos preferidos dos exilados na noite, porque, de uma forma ou de outra, esses locais lhes proporcionam luz, segurança e esperança. A periferia se move como piolho no caldeirão da manhã, a caminho do centro da cidade, nas avenidas atulhadas de carros, sob a fumaceira dos ônibus, que empesta o ar. Ambulantes vendem de tudo nas suas bicicletas de padeiro, estacionadas em esquinas e calçadões estratégicos. Uma índia velha, obesa, seminua, dorme, bêbeda, sobre um banco decrépito, protegida pelas mangueiras gigantescas que pontilham a Praça da República, e pela indiferença da manhã ao triunfo do sol. O odor mefítico se espalha pela cidade, adocicado, de cavalo morto exposto ao sol e à chuva, anestesiando o olfato. Os dias amanhecem calorentos e, à tarde, chove sempre.

Belém do Pará era a cidade brasileira mais desenvolvida e umas das mais prósperas do planeta, no século 19, a Belle Époque, e continua sendo uma das mais atraentes e movimentadas do Brasil. Fundada em 12 de janeiro de 1616, precisa desesperadamente de um prefeito, que a entenda, que seja honesto, democrático e empreendedor. Que a ame. Seus um milhão e meio de habitantes certamente ficarão muito gratos, pois há décadas os alcaides tratam o Portão de Entrada da Amazônia como se fosse sanitário público.

A Cidade das Mangueiras é uma península que avança na baía de Guajará, no trópico equatorial, como um pórtico para o Mundo das Águas, o arquipélago de Marajó: o maior rio do mundo, o Amazonas, ao norte; os rios Tocantins e Guamá, ao sul e sudeste; o rio Pará, a sudoeste, e o Atlântico, a nordeste. O Amazonas fertiliza o Atlântico com pelo menos 200 mil metros cúbicos da sua água túrgida de húmus, por segundo. Assim, a Amazônia Azul do setentrião é a maior província piscosa e de frutos do mar do planeta, e a mais mal guardada do Brasil. Mas isso é outro artigo. Agora, precisa-se de prefeito na principal cidade da Hileia.

A esmeralda mais preciosa do Trópico Úmido precisa de um prefeito que não seja covarde, como os das cidades que todos os anos vão para o fundo. Precisa de um prefeito, que, além de recuperar os prédios tombados, implemente nova infraestrutura básica na urbe e saneie as favelas erguidas sobre fossas. É um sonho embarcar em Mosqueiro, numa lancha coletiva pública, com parada na Vila Sorriso, na Escadinha do Cais, no Porto do Sal e no campus do Guamá, da Universidade Federal do Pará, e fazer a linha de volta, cruzando com outras lanchas coletivas, de outras linhas, os passageiros sentados como se estivessem num ônibus. É um sonho recorrente na Cidade Morena, minha amante.

São 7 horas. Aprecio o dorso dos peixes enfileirados no mercado do Ver-O-Peso, maior feira livre da Ibero-América. A mais fantástica variedade de peixes de água doce do planeta, além dos do mar, é enfileirada em balcões de mármore. Há deles de todos os tamanhos e tons, sem falar nos frutos do mar, com seu cheiro de aventura. A cidade dos tupinambás precisa de um prefeito que dê ao Ver-O-Peso a dimensão desse cheiro de romance, que os viajores procuram avidamente.

No meu delírio, quedo-me na Estação das Docas. Uma portuguesinha em vestido de seda passa e deixa um rastro de esperança. Ouço merengue, distante, talvez de um quarto de hotel no sétimo andar, e a tarde me leva, como um rio, para a dimensão do sonho. A chave do sonho é uma cuia de tacacá, jambu, que se entranha na minha memória e desnuda minha amante.

Vivi um mergulho em Belém do Pará, transitando desde o ventre dos seus palácios aos lixões. Casei-me e exilei-me do lar; trabalhei ao lado dos melhores jornalistas da cidade e caí na clandestinidade do desemprego; fartei-me da culinária mais inacreditavelmente deliciosa do planeta e forjei o espartano que há em mim durante um período de fome; compartilhei camas perfumadas e percorri labirintos femininos intermináveis, mas também escorreguei no negro limo da fossa. Conheço, pois, alguns humores desta península que avança na baía de Guajará como um navio iluminado, e é minha amante.

Amo todas as cidades nas quais já vivi, e até Brasília, onde moro, pois não se pode viver numa cidade sem a amar; não por muito tempo. E se as amamos, o reencontro provoca o cataclismo do primeiro beijo, sacolejam-nos, lançam-nos no espaço, como nos sonhos, que, às vezes, povoam minhas noites, como se estivesse correndo numa planície de zínias e rosas, cortada pelo maior rio do mundo e desaguando na noite, prenhe de jasmineiros que choram perfume. As cidades que amamos evocam amores, madrugadas, papel em branco, álcool, imortalidade.

Namorei Macapá, minha cidade natal, durante os primeiros 17 anos da minha vida, até que um dia peguei o rio e a estrada e rolei para Copacabana. Nosso namoro continua firme, mas agora só no coração. Também amo o Rio de Janeiro, por quem fui seduzido para sempre. Manaus é a mesma coisa, e em cada cidade a vida se multiplica infinitamente. Como em Brasília, onde nasceu Iasmim, a princesinha que encanta todos os dias da minha vida. Mas Belém emerge do rio como mulher nua, que deixa um rastro de maresia, Chanel 5, Dom Pérignon, safra de 1954, e rosas vermelhas. Tento alcançá-la, temeroso de perdê-la. Porém ela se volta e pronuncia meu nome. Sua voz é como o pulsar da música de Mozart. Alcanço-a, pego-a pelo cogote e a beijo, e sinto o sabor de acme.

Nem os ratos – que se dedicam a te assaltar, a te depredar, a te estuprar, que te mordem os seios – conspurcam tua beleza, nem reduzem tua eternidade, desde 12 de janeiro de 1616, quando lusitanos, comandados por Francisco Caldeira Castelo Branco, desembarcaram numa enseada na foz do rio Guamá e começaram a construir uma fortaleza, o Forte do Presépio, em torno do qual a cidade foi emergindo, e a ela chamaram de Santa Maria de Belém.

Os tupinambás não deram descanso aos invasores. Mas os portugueses dominavam armas de fogo, a Igreja e doenças letais. E em 1626, assumiu o comando Bento Maciel Parente. Os colonizadores eram brutais, mas pareciam gentis diante da loucura de Bento Maciel Parente; ele que mandava amarrar os membros de tupinambás capturados, em cavalos ou canoas, até serem rasgados, vivos. Estima-se que pelo menos 2 milhões de índios foram mortos na Amazônia, escravizados em nome de Jesus Cristo, atingidos por doenças europeias, degolados, esquartejados ou fuzilados.

No começo do século 20, a borracha tornou Belém a cidade mais rica do país. Em 1910, os ingleses começaram a produzir látex no sudeste asiático, causando a débâcle da borracha na Amazônia. Aí começou o declínio de Belém. Hoje, é uma cidade sucateada, inchada, violenta, infestada de bandoleiros e ratazanas, as ruas emporcalhadas de esgoto escorrendo no meio-fio, cidadela corrompida, refém da corrupção, letal como câncer metastático.

Mesmo assim, Belém é como as mangueiras de dezembro, que se curvam prenhes de frutos, doces como seios de mulher na rede. É assim que ela vive no meu coração. Quando chegamos ao amanhecer, pela baía do Guajará, nós, que a amamos, vemo-la se despir, aos poucos, da névoa, até emergir, de repente, salpicando água, nuazinha; se chegamos de avião e é noite, as luzes na península, como miríade na noite que desaba sobre a baía, anunciam-se como óvnis, até pousarmos no bolsão de sol noturno de Val-de-Cães. Subitamente, os gigantescos pneus do jato se chocam no chão de concreto e a nave começa a taxiar rumo ao terminal de passageiros.

Já não controlo meu coração. Faço desjejum no Ver-O-Peso, café recém-coado com tapioquinha amanteigada, e depois vou apreciar os peixes dispostos nos balcões de mármore do mercado – os pirarucus são, talvez, os mais bonitos, os filhotes são enormes e os meros, imensos, há sempre piramutaba, pescada, tucunaré, curimatã, tamuatá, mapará, gurijuba, camarão e toda sorte de frutos do mar. Almoço camarão com pirão de açaí no Ver-O-Peso, ou filhote no Restaurante Remada, ou ventrecha de dourada com vinagrete e farofa na Vila Sorriso, ou pirarucu ao molho de castanha-do-pará no Mangal das Garças.

À tarde, o céu sangra de tão azul. Vagabundeio, tomo tacacá na banca do Colégio Nazaré e sorvete de tapioca na Cairu, e, à noite, janto caldeirada de filhote no Remada e bebo Cerpinha no banheiro do hotel, enquanto me arrumo para o encontro com a madrugada. Assim, os dias se sucedem com cheiro de maresia, mulheres caminhando, merengue, bebedeiras, o rio.

Belém é a Catedral da Virgem, rosas para a madrugada, lembranças guardadas numa prece, o desfile interminável das mulheres mais bonitas do mundo, que exalam perfume das virgens ruivas e espargem um rastro de devaneio, que só podemos sentir com o coração. Ungido pelos deuses, penetro neste santuário e dele engravido para sempre. Belém, como as mulheres muito bonitas, inesgotáveis de tão intensas, desencadeia, na minha memória, um cataclismo de rosas colombianas, jasmineiros chorando em noite tórrida, o céu de julho na Amazônia, que sangra no azul na tarde.

Caminho nas suas ruas rumo aos segredos que só eu posso decifrar, como ouvir o anoitecer na Estação das Docas, ver passar as mulheres mais bonitas do mundo enquanto tomo tacacá defronte ao Colégio Nazaré, ouvir o rio, beber o perfume de gim inglês no Cosa Nostra, a alegria das mulheres no Kalamazoo, ao som de merengue e da madrugada, e fazer uma declaração de amor desesperado, porque as cidades, como as mulheres, não podem ser decifradas; precisam apenas que as amemos, pois só para isso existem, como poemas escritos por Deus.

Da mesma forma que as mulheres, as cidades são redes intermináveis de labirintos, abismos de segredos, pelos quais voamos, sempre perdidos, mas firmemente guiados pelo azul mais azul. Cidades, exatamente como as mulheres, iluminam nossos sentidos, e as cavalgamos como se monta a luz.

Sentado no calçadão defronte ao Colégio Nossa Senhora de Nazaré, ao embalo das 6 horas da tarde, caminho ao lado de cada uma das mulheres que passam, e que deixam um rastro de espilantol, sintetizando todo o mistério sob seus vestidos de seda, estampados. Então, descubro o segredo da Hileia, deslindo o mistério, e, assim, o amplio: toda a Amazônia está contida no espilantol de um ramo de jambu. E, aos iniciados, Belém se revela em toda a sua poesia, como mulher ao toucador, absorta, nua.
Agora estou sentado na Estação das Docas. A tarde morre. Ouço murmúrios – risos distantes, preces, merengue. Pedi à Virgem de Nazaré que proteja as crianças e as flores. A tarde morre, escorre como um rio de luzes que se afogam no mar da noite, para ressurgir no ventre da cidade, como uma boca. Acomodado numa cadeira de palhinha, observo o rio e a tarde morrendo. Ouço o riso das mulheres mais sensuais do mundo, trotando nos calçadões, sentadas, tomando tacacá, naquele momento em que a noite cai lentamente, se acamando, até as luzes tremeluzirem, como composição de Debussy, e sinto o sabor do leite da mulher amada, lábios de rosas vermelhas, esmigalhadas. 
Um navio parte. Talvez vá para Macapá, ou Trinidad e Tobago. Talvez vá para Caiena. Ou para Mosqueiro. Ou Salinas. De qualquer forma, haverá de ir para um lugar lindo, pois a tarde é povoada de mulheres em vestidos de seda, como uma negra caribenha, sílfide equina, que passa, iluminando o mundo. Vindo de algum lugar, remoto, penso ouvir merengue. O mundo gira. Sinto a vertigem de missa na Catedral; a noite é como o mistério feminino, e, assim, tenho certeza de que estou em Belém.
Então, faço uma prece: Belém precisa de um prefeito, que a ame, e que seja competente, e honesto. A Cidade das Mangueiras está inchada como um cavalo morto, dias à fio, à chuva e ao sol, e no ventre da besta assassinos espreitam. As repartições também estão inchadas; até as aves, urubus, com seus bicos longos e coloridos, estão inchados. Por Deus, Belém precisa de um prefeito.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Os ETs estão entre nós

No Programa do Jô, Jorge Bessa falou também 
 sobre Medicina Tradicional Chinesa

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 29 DE NOVEMBRO DE 2017 – Provavelmente o livro mais importante publicado em 2017 no Brasil foi lançado no invisível mercado editorial brasiliense, no dia 14 de setembro, em um restaurante da capital, pela nanica annabel lee, de Brasília: Os discos voadores da Alemanha – Extraterrestres na Segunda Guerra Mundial, de um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros: Jorge Bessa.

Bessa, paraense de Belém, economista, psicanalista e acupunturista, foi chefe da Divisão de Contra-Espionagem e Coordenador-Geral de Contra-Inteligência do Estado brasileiro. Participou de missões de Inteligência no exterior, principalmente na extinta União Soviética, e atuou na área de ensino de inteligência e relações internacionais em organizações civis e militares do país, autor de ensaios que vão de Medicina Tradicional Chinesa à presença de ETs entre nós, passando pela história da criação da raça humana.

Os discos voadores da Alemanha – Extraterrestres na Segunda Guerra Mundial vai muito além do título. Trata-se do mapeamento dos registros públicos e sigilosos da presença entre nós de seres de outros planetas, bons ou maus, e sempre mais adiantados tecnologicamente. Bessa explica por que eles não nos atacam em massa ou não se apresentam ao mundo, e o que querem. É o tipo do livro que a gente pega e lê de uma assentada. Quando os americanos souberem dele, lançarão imediatamente nos Estados Unidos.

Em 1977, quando OVNIs começaram a aparecer na Baía do Sol, próximo de Belém, eu trabalhava no extinto jornal O Estado do Pará, que fez uma bela cobertura do acontecimento. Jorge Bessa, então oficial de Inteligência do então SNI, também estava lá, juntamente com o capitão Uyrangê Bolivar Soares Nogueira de Hollanda Lima, que chefiava a Operação Prato.

Em abril de 2016, Bessa lançou Discos Voadores na Amazônia – A Operação Prato, pela Editora do Conhecimento. Em entrevista para a Rede Brasileira de Pesquisas Ufológicas, o pesquisador Edison Boaventura Júnior conversou com o escritor, que falou sobre a Operação Prato. Essa entrevista é indicativa do conhecimento de Bessa sobre ufologia, e uma pista do que o leitor devorará em Os discos voadores da Alemanha – Extraterrestres na Segunda Guerra Mundial. Vamos à entrevista:

Edison Boaventura Jr – Como escritor de vários livros e ex-oficial da Inteligência do extinto SNI, o senhor é o primeiro a vir a público admitindo em sua recente obra que participou como coadjuvante na Operação Prato, coordenada pela Aeronáutica. Qual foi a sua motivação para escrever o livro Discos Voadores na Amazônia – A Operação Prato?

Jorge Bessa – Em primeiro lugar, porque muitas pessoas ligadas à ufologia procuravam-me entrevistar para ter minha opinião sobre os fatos, uma vez que eu tinha participado como oficial de Inteligência. Eu sempre dizia que não tinha quase nada a acrescentar ao que foi dito pelo coronel Hollanda, mas, dado a insistência de alguns, resolvi que seria melhor colocar tudo em um livro.

O Segundo motivo foi a observação de que muitas obras e trabalhos sobre ufologia não davam nenhuma importância ao aspecto espiritual da questão. Ora, se o Velho Testamento e outros livros religiosos de diversas outras culturas religiosas antigas fazem referências aos OVNIs, e os resultados das pesquisas mais recentes sobre a civilização suméria falam de seres do espaço que criaram as religiões e mesmo aprimoraram a espécie humana, achei por bem ligar os dois assuntos e apresentá-los em um livro.

Edison Boaventura Jr – Os capítulos de sua obra estão muito ricos em informação ufológica e abordam outros aspectos também e até a questão da ufologia e a espiritualidade. Qual é a principal mensagem do seu livro?

Jorge Bessa – Creio que a humanidade atingiu, em um prazo de 50 anos, um nível de desenvolvimento técnico-científico que não aconteceu ao longo dos últimos 4 mil anos. No entanto, no que diz respeito à realidade do espírito e do universo que o cerca, o homem encontra-se aprisionado em um paradigma newtoniano-cartesiano que o impede de raciocinar e pesquisar além da matéria. No campo religioso a prevalência desse paradigma e a separação entre ciência e religião o torna prisioneiro da pregação irresponsável e infantil de líderes religiosos inescrupulosos e retrógrados, que engordam suas contas bancárias com o dinheiro extorquido dos pobres fiéis, que ainda pagam para obter um pedacinho do céu ou para ver um deus iracundo praticando prodígios de toda ordem.

Portanto, é chegada a hora de as pessoas abandonarem as crenças infantis e se prepararem para esse importante momento de transição planetária que estamos vivendo, e no qual o principado do espírito imortal deve ser difundido. Os extraterrestres – os deuses dos mitos – e os discos voadores que os transportam, fazem parte desse esforço, acostumando aos poucos as populações terrestres com a sua presença, para, em momento não muito distante, apresentarem-se publicamente e trazerem sua contribuição tecnológica e espiritual para nossa humanidade.

Edison Boaventura Jr – Qual foi a intenção de abordar a Espiritualidade atrelada à ufologia em seu livro?

Jorge Bessa – Sem acreditar na sobrevivência do espírito depois da morte, na sua permanente evolução em outros recantos do universo, e na ocorrência dos chamados eventos apocalípticos, fica difícil entender as visitas dos nossos irmãos das estrelas.

Edison Boaventura Jr – O senhor observou OVNIs na Baia do Sol durante as vigílias realizadas pelos integrantes do I Comar (Pará)? Conte-nos a sua experiência.

Jorge Bessa – Foi uma experiência única e inesquecível. Ao chegamos à Baia do Sol, cerca de quinze minutos para as 20 horas, assim que nos reunimos com o pessoal da Aeronáutica, uma imensa bola de luz, parecendo uma lua cheia bem próxima, pairou sobre nós, aparentemente para se exibir, como se as pessoas que a controlavam quisessem se apresentar para quem as procuravam. Esforcei-me por tentar um contato telepático, mas hoje creio que não tinha nenhuma condição de fazê-lo.

Depois de piscar por três vezes, o objeto disparou com grande velocidade, desaparecendo na direção do município de Vigia. O Hollanda acreditava que, de alguma forma, eles sabiam de nossa missão, coisa que não duvido.

Edison Boaventura Jr – O Coronel Filemon Menezes, chefe do extinto SNI em Belém – PA também participava das vigílias noturnas? Como era a sua interação com o capitão Uyrangê Hollanda e o sargento Flávio Costa? Vocês chegaram a fotografar ou filmar os objetos voadores luminosos avistados?

Jorge Bessa – O Filemon nunca participou de nenhuma vigília, pois à época não chefiava a Agência. Tive contato com o coronel Hollanda (à época capitão) em três oportunidades, facilitadas por um outro companheiro do SNI, que tinha sido seu colega na Academia da Aeronáutica, o dr. Maury Eudo Barros Pereira, e que também participou na primeira missão. Tínhamos também a companhia de um capitão da Polícia Militar, que à época estava servindo no SNI, e que realizou as filmagens e fotografias, sendo todo material remetido para a Agência Central, em Brasília. Quanto aos sargentos com os quais fizemos contato, não lembro os nomes.

Edison Boaventura Jr – Antes de sua participação como testemunha desses fenômenos ufológicos, durante a Operação Prato, houve algum interesse seu por ufologia ou vivenciou algum avistamento anterior?

Jorge Bessa – Havia o interesse pelo assunto, mas nem sonhava com avistamentos. Durante o curso das operações, os avistamentos tornaram-se visíveis para qualquer um, e tanto em Belém como nos municípios vizinhos, tornaram-se comuns. Por ocasião das aparições, apresentei-me ao chefe da Agência como voluntário, haja vista meu interesse pessoal pelo assunto.

Edison Boaventura Jr – Qual era a relação do extinto SNI (hoje Abin) e o fenômeno OVNI? Seriam esses aparelhos voadores uma ameaça à segurança nacional?

Jorge Bessa – Na verdade não houve essa preocupação com a segurança nacional. Nós insistimos com o chefe que deveríamos acompanhar o fenômeno, pois Brasília poderia pedir alguma coisa e tínhamos que estar cientes do que se passava. Pareceu-me que a chefia não levou muito a sério a questão, até ver os filmes e possivelmente ter tratado do tema com o brigadeiro Protásio Lopes de Oliveira, comandante do 1º Comar e que assistiu aos filmes, ficando muito impressionado.

Edison Boaventura Jr – Os relatórios oficiais das investigações ufológicas que foram gerados por sua equipe eram remetidos para qual órgão governamental? Na sua opinião, a Abin coleta esse tipo de informação na atualidade? Que metodologia era utilizada na coleta de informações no ano de 1977 e hoje como são os procedimentos? O que mudou?

Jorge Bessa – Os relatórios produzidos foram enviados para a Agência Central, em Brasília/DF; parece que não despertaram muito interesse; a fenomenologia ufológica estava muito distante das preocupações da Inteligência naquela época, mais voltada para as questões relativas à expansão do movimento comunista e com os movimentos armados contra o regime. Também não havia nenhum setor encarregado desse tipo de assunto, que era acompanhado apenas pelos interessados no tema. Não havia nem determinação de acompanhamento, nem metodologia a empregar.

Esclareço que, quando assumi a chefia da Contra-Inteligência da então Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, apresentei ao general Alberto Cardoso, então ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional e que era o responsável pelo órgão de Inteligência, um documento mostrando a importância de se criar um setor encarregado do acompanhamento dos fenômenos ufológicos, pois os principais serviços de Inteligência do mundo já acompanhavam esse assunto. O general Cardoso autorizou, pedindo apenas que o setor não fosse incluído oficialmente no organograma do órgão. Além disso, me proporcionou contatos excelentes no campo militar, com oficiais generais que tinham experiência com o assunto.

O setor foi criado de forma muito simples em 1996, apenas com duas pessoas que gostavam do tema.  O trabalho inicial foi juntar todo material possível sobre o assunto – livros, jornais e revistas – organizando-o e classificando-o. Também procuramos estabelecer contatos com pessoas ligadas aos diferentes grupos ufológicos para juntarmos experiências e trocarmos experiências, além das organizações militares.

Ocorreu que, pouco tempo depois, por questões internas, pedi exoneração do cargo, e os que me substituíram se apressaram em extinguir o recém-criado setor, pois faziam muitas críticas à essa ideia, considerando-a uma grande besteira. Hoje, desconheço se o assunto voltou a despertar o interesse dos atuais chefes e analistas da Inteligência, mas acho pouco provável que isso tenha acontecido.

Edison Boaventura Jr – Qual foi a conclusão da sua equipe de Inteligência à respeito das luzes não identificadas que apareceram no estado do Pará e circunvizinhanças na década de 70? Qual era o objetivo desse fenômeno em relação às populações ribeirinhas?

Jorge Bessa – A conclusão óbvia é que, à semelhança do que acontecia em outra partes do mundo, o avanço tecnológico de voo que esses objetos demonstravam possuir indicava se tratar de artefatos extraterrestres, embora saibamos que os cientistas de Hitler e mesmo os norte-americanos estivessem desenvolvendo artefatos parecidos. Quanto aos objetivos dos alienígenas, várias hipóteses foram levantadas: levantamento geoestratégico, geoeconômico, população, recursos minerais, ambiente ecológico etc.,  mas nada de concreto poderíamos afirmar.

Edison Boaventura Jr – Quando o senhor criou o setor de investigação e análise de fenômenos ufológicos em 1996, qual era a dinâmica de trabalho e quando foram extintas as atividades do setor e por que? Para onde foram os documentos?

Jorge Bessa – Já respondi anteriormente sobre a dinâmica e a extinção do setor. Pelo que soube, todos os documentos teriam sido enviados ao Arquivo Nacional.

Edison Boaventura Jr – Muito obrigado pelos esclarecimentos e deixe agora as suas considerações finais.

Jorge Bessa – Agradeço pela gentileza da entrevista e aproveito para novamente alertar para a seriedade do momento que atravessamos, de encerramento de um ciclo cósmico para o planeta Terra, conhecido como Juízo Final ou Transição Planetária, conforme tenho abordado em meus livros: Decifrando as Profecias de Daniel, Decifrando as Profecias de João, O Aquecimento Global – Uma Visão Espiritualista, dentre outros.

Conforme preconizado por Jesus de Nazaré, considerado o governador espiritual do planeta Terra, no Final dos Tempos, ou Tempos Chegados, toda a verdade seria revelada. Nossa humanidade já atingiu um patamar de evolução que lhe habilita a passar de um mundo de provas e expiações para um mundo de regeneração, e entender melhor o que os profetas e videntes do passado queriam nos dizer, com palavras simples. Também a física quântica nos abre uma grande janela para a compreensão do mundo espiritual, dos universos paralelos e de toda uma fenomenologia que até recentemente ficava por conta do milagroso e maravilhoso.

Diversas obras de cunho espiritualistas vêm trazendo uma série de revelações sobre o passado de nosso planeta, e sobre a colaboração dos extraterrestres – os deuses do passado – no desenvolvimento do chamado Homo Sapiens. Também falam de seu retorno nesse momento atual de transição, para colaborar com a nossa humanidade nos momentos difíceis dessa transição, bem como na reconstrução do planeta após os grandes abalos geológicos causadas pelos eventos cósmicos que já haviam sido alertados por Jesus há mais de 2 mil anos, quando ditou a João Evangelista os pormenores que ficaram  registrados no Livro do Apocalipse.

Preparemo-nos para grandes revelações, sem temores religiosos infundados, ou com desesperos infantis, balizando-nos pela ciência, pela inteligência e pela intuição. Mas, a única forma de passarmos incólumes por isso ainda é a velha e sábia recomendação do “Amai-vos uns aos outros”.

sábado, 18 de novembro de 2017

Como o delegado Ricardo Larroyed, da Homicídios, também se tornou acupunturista


Segundo capítulo do romance de Ray Cunha, FOGO NO CORAÇÃO, trabalho de conclusão do curso de Medicina Tradicional Chinesa na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc). FOGO NO CORAÇÃO está à venda na Amazon.com.br e no Clube de Autores.

O relógio despertou às 5 horas. Ricardo Larroyed desligou-o; o sabiá estava cantando. Ergueu-se da cama e olhou pela janela. Chovera. A madrugada quedava-se quieta como ave encharcada. Do seu quarto dava para ver as mangueiras à luz das luminárias públicas. Não dormira muito, pois deitara-se tarde. Levantou-se e foi ao banheiro; sentou-se no vaso e ficou lá um certo tempo. Habituara-se a urinar sentado quando ainda vivia com Mara. Levantou-se, acionou a descarga, lavou as mãos e o rosto, sacudiu água na boca e passou as mãos úmidas na cabeça. Era bastante calvo na frente e usava os cabelos aparados à máquina. Ajeitou o pijama, saiu do banheiro e se dirigiu à cozinha. Pôs água para ferver e preparou uma xícara média de Antonello Monardo, encorpado e sem açúcar. Excedera-se um pouco na noite anterior; devia ter tomado quase meia garrafa de Anísio Santiago. Dali da cozinha foi para a biblioteca. Herdara a casa de seu pai. Mais uma semelhança com seu sócio, Emanoel Vorcaro. Quando separara-se, Mara fora para o Rio, sua cidade natal e onde conhecera o novo marido, próspero empresário da área de alimentação, dono de três restaurantes na Cidade Maravilhosa. Ricardo sentia profunda gratidão por ela. Amigos de infância, começaram a namorar adolescentes. Naquela época, o talento, que não sabia ainda para quê, começava, de alguma forma, a agitá-lo, e ele não tinha o necessário direcionamento para canalizar aquela tremenda energia. Foi aí que Mara entrou, conduzindo-o, por circunstâncias que nunca lhe ficaram claras, aos cursos que Ricardo fizera. Casaram-se e logo depois sua missão se revelou com clareza solar. O gatilho que o levou a compreender sua missão deixara uma lembrança na sua barriga: uma cicatriz. Anos depois soube que tudo o que queria era seguir a carreira de policial. Três anos após seu casamento com Mara, ela se queixou de que não conseguia gozar com o travesseiro, desejou-lhe felicidade na polícia e se mandou para o Rio. Chefe de cozinha competente, conquistou não só a clientela do seu futuro marido, como principalmente a ele mesmo. No início, a dor da perda queria estrangular o coração de Larroyed; mas que policial seria se não conseguisse ignorar agulhadas em nervos expostos? O caso é que policiais não podem ter nervos expostos. Sua trama nervosa tem que estar agasalhada em meridianos de liga de aço e nióbio. Mas ainda pensou nela durante anos, até conhecer Greta Cantanhede.
Enquanto se vestia, Ricardo Larroyed olhava pela janela as mangueiras da rua. Morava sozinho, no coração do Cruzeiro Velho. Adorava mangueiras, e, naturalmente, manga era sua fruta predileta, daí que ficava possesso quando via, impotente, pessoas açoitando mangueiras, os frutos ainda verdes. As mangueiras públicas sempre o deixavam com um sentimento ambíguo, de prazer e revolta: prazer porque as amava, e de revolta porque estavam sempre podadas só de um lado, por causa da fiação elétrica, “que deveria estar debaixo do solo”.
Ricardo Larroyed era um espanto. Delegado especial da Polícia Civil, lotado na Coordenação de Repressão a Homicídios, fizera graduação simultânea em direito e medicina, com pós-graduação em medicina legal, além da graduação em programação em informática. Fora também alpinista, e quase perdera o joelho direito tentando escalar o Pico da Neblina, o que jamais conseguiu. Um ortopedista, amigo da família, lhe deu um conselho:
– Procura um acupunturista, agora! – e lhe forneceu o número de telefone do dr. Emanoel Vorcaro.
Não só foi curado, como fez o curso de medicina tradicional chinesa no Instituto Holístico e se tornou professor da instituição, além de fazer uma amizade tão sólida com Emanoel Vorcaro a ponto de em determinado momento passarem a almoçar juntos todo sábado, a menos, é claro, que motivos de força maior os impedissem. Acabaram abrindo a Clínica de Terapias Holísticas. Tanto a amizade quanto a sociedade eram inabaláveis, pois alicerçavam-se na empatia, na medicina chinesa e no mandarim. Estudioso de antigas confrarias, Larroyed lia em pelo menos doze idiomas, entre os quais o mandarim, e até línguas mortas, como latim e aramaico. Media 1,90 metro e pesava 90 quilos e fora pugilista amador na juventude. Aos 41 anos, evocava um boa-vida, com o devido ar cínico. Nada mais enganoso, pois cultivava disciplina espartana. Ao levantar-se e ao deitar-se fazia religiosamente a Meditação Shinsokan, criada pelo filósofo japonês Masaharu Taniguchi, fundador da Seicho-No-Ie, e vivia no que chamava de “a eternidade do agora”, filosofia que empregava ao extremo nos pegas amorosos com sua gata, a oncologista e urologista Greta Cantanhede, “a negra mais bonita do planeta, incluindo-se, para ficar mesmo redundante, a África!”
Começaram a namorar a partir de um check-up. Ricardo estava com sintomas de herpes simples no pênis e ainda não sabia o que era.
– Você já viu todo tipo de pinto, mas se apaixonou por mim quando viu o pinto mais bonito do mundo – dizia-lhe, rindo.
– Deixas de ser besta, rapaz, para a tua altura és quase aleijado; eu me apaixonei porque desde que te vi senti um cataclismo! – ela lhe respondia, no seu sotaque macapaense, rindo também com seus olhos grandes e escancarados, brilhando como uma prece, negros como o azul do céu ao anoitecer em julho em Macapá, e o beijava como na primeira vez. Era dessa parte que ele gostava.
Greta era filha de uma descendente de escravos usados na construção da Fortaleza de São José de Macapá, dona Joana, e de um pesquisador italiano, ginecologista e obstetra, que foi à Amazônia para estudar as parteiras e as condições em que nasciam ribeirinhos e índios. Era tão belo e tinha os olhos tão azuis que as mulheres, inclusive casadas, chegavam a se ajoelhar aos seus pés suplicando que as possuíssem. Até chegar em dona Joana, uma pérola autêntica, uma dessas mulheres que encerram a redenção de todos os homens. Aí terminou a pesquisa. O dr. Catanhede voltou casado para Roma, mas os romanos não aceitaram dona Joana; então, o casal mudou-se para Macapá. Greta tinha 17 anos quando o dr. Cantanhede foi chamado ao Ministério da Saúde, em Brasília, para criar e assumir o Departamento Nacional de Ginecologia e Obstetrícia. Greta já estava terminando a faculdade de medicina da Universidade Católica de Brasília quando o dr. Cantanhede foi diagnosticado com câncer na próstata. Foi então que a planejada residência em ginecologia e obstetrícia mudou para oncologia, além de uma especialização em urologia, na esperança de salvar o pai.
– Deus escreve por linhas tortas, minha filha! – foram as últimas palavras do cientista. Greta se tornou uma referência, uma luz para os pacientes acometidos de câncer ou das doenças horripilantes que se alojam no sexo masculino.
Dona Joana morreu na semana seguinte, simplesmente porque queria encontrar-se com seu querido no mundo espiritual. Morreu como um passarinho, que tomba de um momento para outro. Então Greta fez mais uma especialização: acolhimento de pacientes e familiares, também conhecido como paliativismo. Foi quando conheceu Ricardo Larroyed; o policial internara sua mãe, viúva, no Hospital Sírio-Libanês, e foram acolhidos pela dra. Greta Cantanhede. A gota d’água foi o herpes simples, e deu-se a magia das almas gêmeas.
            Uma hora depois Ricardo Larroyed entrou na sua sala na Coordenação de Repressão a Homicídios, na sede da Polícia Civil, Parque da Cidade, defronte para o Sudoeste, bairro de Brasília. Recebera uma demanda nova e começaria naquela manhã a inteirar-se do caso. Três modelos foram assassinadas ao longo daquele ano e havia indícios de ligação entre os crimes. Ricardo começou a ler o primeiro caso, ocorrido em janeiro. Patrícia Montenegro, 21 anos, de Belém do Pará, hospedada na suíte 1.134, décimo primeiro andar do Grande Hotel, foi encontrada morta, por volta das 6h30 do dia 7 de janeiro, no jardim do cinco estrelas, no Setor Hoteleiro Sul, coração de Brasília. O caso foi investigado pela Primeira Delegacia de Polícia. Havia uma foto de corpo inteiro de Patrícia Montenegro. Com 1,73 de altura, 60 quilos de peso, morena de olhos verdes, fora eleita Musa Verão de Mosqueiro 2014, e iria concorrer ao Miss Pará no concurso Beleza Brasil. Sonhava com o Miss Brasil 2015. Por volta das 21 horas do dia 6 de janeiro, Patrícia ligou para sua irmã ao telefone celular. Estava chorosa e pediu à irmã que guardasse as fotos de sua carreira de modelo. Às 5 horas do dia seguinte, Patrícia voltou a telefonar para casa e pediu à sua mãe que viesse buscá-la. Às 6h30, o corpo foi encontrado num pequeno jardim na frente do hotel, na direção do estacionamento de táxi no outro lado da rua, de onde ouviram gritos e o som da queda. Patrícia Montenegro morava no Sudoeste há um mês e fazia o famoso curso de modelo da qualificada agência Modelo Cerrado. Em torno das 6 horas do dia 7 de janeiro, o porteiro da noite teria visto um homem magro, de terno, panamá e óculos escuros tomar um dos elevadores, descendo no décimo primeiro andar, o que foi confirmado por uma camareira; o homem foi visto saindo meia hora depois.
As outras duas modelos eram da mesma agência. Em fevereiro, Roberta de Castro e Silva foi encontrada num dos banheiros do estacionamento do primeiro subsolo do Grande Hotel. Recebera uma punhalada no baço; coisa de cirurgião, e uma no púbis, perfurando o útero. Também não havia sinal de esperma. O terceiro caso ocorreu no início de dezembro. Dessa vez a estudante e modelo Gabriela Costa Médici fora encontrada na sua kitnet na Asa Sul, onde morava sozinha. Era ruiva e estava nua na cama, os cabelos espalhados em torno de um corpo que mesmo morto ainda exalava luz, especialmente os pelos pubianos, salpicados de sangue. Não havia indício de esperma, mas seu útero fora perfurado por punhal. Estava entupida de rupinol, o boa noite Cinderela, e morrera devido à hemorragia do ferimento no útero; sangrara até morrer, anestesiada pela grande quantidade de rupinol que ingerira.
Ricardo Larroyed pegou o telefone e ligou para o delegado Mariano Braga, da Primeira DP, que investigara os três casos. Ele estava lá. Identificou-se ao agente que atendera ao telefone e esperou um pouco.
– Delegado Mariano Braga – ouviu do outro lado da linha.
– Ricardo Larroyed, da Homicídios. Recebi o caso de três modelos assassinadas, uma das quais parece suicídio, e os três casos foram investigados por você. As modelos são Patrícia Montenegro, Roberta de Castro e Silva e Gabriela Costa Médici. Queria conversar com você sobre isso.
O delegado Mariano Braga pensou um pouco.
– Acho que o conheço da academia – disse. – Fiz o máximo que pude nos três casos, como você pode ver nos relatórios.
– De qualquer modo, se não se importa, eu gostaria de conversar com você; quem sabe não encontro mais alguma coisa que ligue os três casos? As três frequentavam a agência Modelo Cerrado, que fica no Grande Hotel.
– Poderemos conversar amanhã, o que lhe parece? – propôs o delegado Mariano Braga.
– Ótimo! Aí ou fora daí?
– Você gosta de café?
– Sou aficionado por café!
– Então vamos nos encontrar no Café Picasso, que fica no térreo do Grande Hotel? Às 19 horas? É lá que gosto de tomar um relaxante, e aí aproveitaremos para dar uma olhada no Grande Hotel.
– Fechado!
Ricardo Larroyed ligou para a Modelo Cerrado; identificou-se e pediu para falar com o diretor. Era diretora, Maíra da Matta. Marcaram para as 17 horas, na agência. Pegou o paletó e saiu. Pouco depois estacionava sua Chevrolet Blazer negra, modelo 2014, na Superquadra 410 Sul, por trás do restaurante Bali. Conseguiu uma mesa pequena e pediu tucunaré frito e arroz com espinafre. Frequentava o Bali por dois pratos: tucunaré e yakisoba, “os melhores de Brasília”. Gostava muito também da banana caramelada, mas raramente a pedia, pois um tucunaré com arroz, ou a tigela de yakisoba, que comia com gosto, não deixavam espaço para a banana.
Filho de um clínico médico carioca e que viveu durante dez anos na China, o dr. Reinaldo Larroyed, transferido do Rio para Brasília, onde conheceu a paraense Karina Monarcha, promotora pública, Ricardo Monarcha Larroyed se tornou apreciador da Amazônia Azul e dos rios da Hileia, e, naturalmente, de peixes e frutos do mar. Costumava ir a Belém duas vezes por ano, repetindo o que faziam seus pais. Ia em julho, auge do verão amazônico, quando as praias fluviais do subcontinente surgem em toda a sua exuberância, e durante o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em outubro. Também a família ia sempre que podia ao Rio e a Cabo Frio, e Ricardo repetia esse périplo, ano após ano. Outros lugares que lhe interessavam, e aonde ia de vez em quando, eram Hong Kong, Pequim, Tóquio, a Europa de um modo geral, o Caribe e os Estados Unidos, especialmente Nova Orleans e Miami. Em outras palavras, o planeta inteiro lhe despertava apetite. Era daquele tipo que curte tudo, e que pode trabalhar o dia inteiro, dia após dia, sem sentir-se cansado, e Greta não lhe dava descanso. Sabia, contudo, de onde vinha aquela energia. Seu pai fora uma espécie de missionário, pois fez da sua carreira médica uma missão; nunca deixava de atender um paciente, mesmo sabendo que ele não poderia pagá-lo, e fazia trabalho voluntário num centro de triagem no Rio, por onde passava todo tipo de derrotados: moradores de rua, vagabundos, alcoólatras, drogados de todas as espécies, suicidas, assassinos se escondendo, loucos varridos. Atendia cada um, não importando seu fedor, com a mesma atenção, e tinha sempre, na manga, uma palavra de conforto, um elogio, capaz de extrair luz do meio da podridão. Podia atender, ao longo do dia que reservava na semana para trabalhar ali, 10, 40, 70 pessoas, 100, se fosse preciso, e no fim mostrava a mesma energia inicial, o que deixava seus colegas intrigados e ciumentos. Quanto à dra. Karina Monarcha, quando investigava e fazia acusação a um bandido, dormia muito pouco, mas jamais Ricardo vira-a cochilando. Pensando bem, ele não se lembrava de ter contraído sequer um resfriado. Dava-se conta agora disso. Os únicos problemas de que se lembrava foram o joelho, na sua tentativa frustrada de escalar o Pico da Neblina (“Poderia ter escolhido o Pão de Açúcar, mas, não, fui logo ao Pico da Neblina!”), e herpes simples, “provavelmente contraída durante o encontro fortuito com uma loira escultural, e casada, num restaurante chique do Lago Sul, e que me inoculou uma carga de vírus capaz de atravessar a parede de aço e nióbio dos meus meridianos neuronais” – como dizia para si mesmo. Havia também a cicatriz na barriga, embora não fosse proveniente de doença. E depois, a autoacupuntura, a alimentação baseada em princípios da medicina tradicional chinesa, e a meditação, produziram-lhe um efeito paradoxal: ao mesmo tempo em que se sentia rijo como liga de aço e nióbio, experimentava a flexibilidade de um galho de goiabeira. Só perdia o humor quando se deparava com casos de discriminação, étnica, social, geográfica, de peso corporal, de gênero, de escolha sexual, financeira, qualquer tipo de discriminação. Para ele, discriminação era o ponto mais baixa da imbecilidade humana. Também sentia horror a ladrões. Mas o que o fez decidir-se a ser policial especializado em homicídios foi um caso que ainda o visitava em pesadelos, embora cada vez mais esparsos.
            Na época, era um fedelho, mas por ser alto, bem apessoado e intelectualmente brilhante, atraía as mulheres, e foi assim que se tornou confidente de uma professora que tivera no Elefante Branco. Ela apresentava olheiras e tristeza. Ele podia sentir isso. Até que um dia, depois da aula, foram para um motel no Núcleo Bandeirante.
            – Nunca tinha sentido o que senti hoje – ela disse. – Na noite de núpcias, quando meu marido pressentiu que eu ia... gozar, ele saiu de cima de mim e me olhou pela primeira vez com aquele olhar assassino e me bateu, bateu na boca, e depois me deu outros tapas até eu suplicar que não me batesse mais, e depois fez todas as coisas, torpes, que ele vem fazendo desde então. A minha lua de mel foi assim, uma lua de fel. Ele me bate quase todos os dias, e faz coisas repugnantes comigo. Quando o meu pai era vivo, não tinha coragem de contar para ele, porque era ele que batia em mim, antes de eu casar, e minha mãe fazia tudo o que meu pai mandasse ela fazer. A sorte é que, quando nos casamos, eu já era professora, embora o meu salário seja todo entregue a ele, apesar de que ele é um empresário cheio da grana. Já pensei em matá-lo! Mas como? – Ela o abraçou. Era uma mulher ainda bonita, apesar das marcas roxas pelo corpo todo, especialmente as de quem abandona a si mesma.
            Aquilo durou todo um trimestre, até o dia em que ela garantiu que seu marido viajara e que eles podiam ir à casa dela, no Lago Sul, naquele domingo, pois não haveria nenhum empregado. No domingo, Ricardo estava lá. Assim que ele chegou, no fim da manhã, foram imediatamente para a alcova. O rapaz já ia mergulhar no acme quando recebeu a cacetada na nuca. Acordou solidamente amarrado numa cadeira e com uma fita na boca.
            – Primeiro vou matar essa vagabunda e depois extirpar teus bagos – disse o sujeito à sua frente, empunhando uma faca de caça.
            Ricardo olhou para a cama e a viu. Estava fortemente amarrada e com uma fita na boca, os olhos arregalados, aterrorizados. Olhou novamente para o sujeito. Era um cara bombado, parecia mais jovem do que a esposa, e bem vestido.
            – Planejei tudo, sujeitinho escroto; ela pensou que eu tinha viajado mesmo. Nunca viajo. Segui vocês dois até me certificar que essa vagabunda dá até para cachorro – e aplicou a primeira facada na mulher, na vagina.
            Ricardo ergueu a cadeira e se arremessou contra o tipo, conseguindo atingi-lo com a cabeça no queixo; quando a cadeira caiu quebrou uma perna, afrouxando as amarras. Entupido de adrenalina, o rapaz livrou-se das amarras frouxas e da fita num urro leonino de agonia e partiu para cima do sujeito, que havia perdido a faca. Mas o cara sabia bater e o atingiu na boca do estômago. Ricardo dobrou-se em dois e quando recobrava-se levou um coice na boca. Sem dúvida, aquele empresário não sabia só ganhar dinheiro e bater na esposa; batia, e muito bem, nos fedelhos que ela levava para a cama. Um soco na nuca quase o pôs a nocaute pela segunda vez naquela manhã, mas a dor aguda que sentiu no ventre o acordou de vez. Pôs a mão em cima do ferimento onde fora esfaqueado e olhou para a cama. O corno estava degolando a mulher. Dessa vez o urro saiu-lhe da alma; voou para cima do sujeito e só parou de socá-lo quando ele desfaleceu. Na cama, a cena dantesca: a cabeça praticamente separada do corpo.
            O caso foi parar na Delegacia da Mulher e depois no Júri Popular, onde o assassino pegou pena máxima, mas não cumpriu sequer metade disso, pois encontrou na cadeia um sujeito ainda mais violento do que ele, e que não suportava o convívio com quem bate em mulher; se a mata, então, é porque já portava passagem só de ida para o inferno. Durante os processos policial e judicial, Ricardo tomou contato com o mundo dos assassinos, inclusive comprou um livro sobre a mente dos psicopatas e soube, então, que estava destinado a identificar e afastar do convívio da sociedade todos aqueles que atentam contra a obra de Deus e que atravessassem seu caminho.
            Do restaurante, foi fazer uma pesquisa nos arquivos da Polícia Civil e dar alguns telefonemas. Às 17 horas chegou à agência de modelos, que ocupava várias salas naquele misto de shopping, centro empresarial e hotel no Setor Hoteleiro Sul, o Grande Hotel, ponto de encontro de mariposas esculturais. Foi introduzido numa sala de espera onde havia pelo menos meia dúzia de garotas, todas lindas, conversando. Uma senhora de avental perguntou se ele aceitaria água e café. Sim. A água estava fresquinha e o café era um ótimo blend. Não demorou quase nada para que Ricardo Larroyed fosse chamado. Quando entrou na sala da senhora Maíra da Matta não havia ninguém. Sentou-se num sofá, de onde dava para ver a Torre de TV. Não demorou muito a diretora surgiu de uma entrada atrás da ampla escrivaninha. Ricardo se levantou para cumprimentá-la. A mulher lembrava uma ave de rapina e sua voz era aguda, quase uma sequência de piados.
             – Conforme eu disse à senhora ao telefone, a morte misteriosa de três modelos, e todas elas desta agência, nos levou a desconfiar que pode haver um assassino comum – disse o policial.
            – E o senhor acha que o assassino trabalha aqui, na agência! – ela exclamou.
            – Quando a senhora soube da morte das três modelos não achou estranho que três se foram só neste ano, e todas assassinadas? – Ricardo perguntou-lhe.
– Sim, achei. Li tudo sobre a investigação de cada caso, além de conversar longamente com familiares delas. A Patrícia Montenegro se envolveu com o professor de dança da nossa academia, o professor Sebastião Estrela, o que levou, inclusive, o noivo de Patrícia Montenegro a terminar com ela. Sei disso porque a mãe dela, que me ligava toda semana, estava preocupada e me falou sobre tudo isso, pormenorizadamente, em longo telefonema. O namorado dela era muito ciumento, e foi por uma besteira que ele pôs fim ao noivado; isso deixou a Patrícia deprimida. Parece que ela o amava e sofria por tê-lo perdido por causa do professor Sebastião Estrela, com quem havia apenas flertado, como de resto nos dois outros casos.
– O professor se envolveu também com as outras duas modelos mortas? – o policial perguntou.
– Como eu disse, foram apenas flertes. O delegado que investigou todos os casos esquadrinhou a vida do professor, a ponto de Sebastião Estrela ter ficado com esgotamento nervoso. Mas não encontrou nada que pudesse comprometê-lo. Em todos os casos ele tinha álibi, que inclusive eu mesma chequei. Pessoalmente, estou certa de que o flerte entre o professor e minhas três meninas, e a morte delas, foi coincidência, uma infeliz coincidência. Mas voltando à Patrícia Montenegro, o quadro psicológico dela se agravou com o anúncio do casamento do ex-noivo, logo depois do rompimento deles. Parecia até que ele só estava esperando um motivo para terminar com ela. Isso a deixou agressiva, nervosa, quando, normalmente, era um doce de pessoa. Sabe, delegado, tenho o dom de atrair pessoas com necessidade de desabafar, e também de as ouvir e lhes dar conselhos. O que já ouvi das minhas meninas o senhor nem imagina; seria material farto para Honoré de Balzac. Porém o mais intrigante é que as três tinham mioma, e eram tratadas com acupuntura – a mulher lembrava um falcão, e seus olhos pareciam ocupar toda a sala.
O policial quase cai da cadeira, uma cadeira sólida, construída por marceneiro; ajeitou-se.
            – As três eram tratadas com acupuntura?         Então o assassino poderá ser acupunturista? – balbuciou.
            – Cabe ao senhor comprovar isso. Quanto a mim, vou lhe dar todo o apoio possível para que encontre esse psicopata. Uma das meninas, Gabriela Costa Médici, a última que foi morta, era filha de uma amiga minha, do Rio Grande do Sul, a quem eu devo muito; uma pessoa altruísta. Nunca a vi fazendo mal a alguém; minha amiga está sofrendo muito! Muito! Mas que não seja por isso; eram moças muito jovens, que estavam começando a vida, cheias de sonhos, e também de ilusões, como é comum nessa idade, sobretudo na profissão que elas haviam abraçado.
            – Naturalmente a senhora investigou para ver se há alguém, aqui na agência, que seja versado em acupuntura?
– Sim! Não há nenhum acupunturista aqui.
– Precisamos descobrir por quem as três eram tratadas.
            – A Patrícia Montenegro tratava-se em Belém, mas as duas daqui, eu sei onde foram tratadas – disse a mulher.
            – Onde? – Ricardo perguntou, ansioso.
– No Instituto Holístico.
Pela segunda vez Ricardo Larroyed quase cai da cadeira. Olhou para o relógio. Às 19 horas teria uma reunião de professores no Instituto Holístico.
– Gostaria de conversar com o professor Sebastião Estrela – disse à senhora Maíra da Matta.
– Pode ser amanhã à tarde, por volta das 16 horas? – os cabelos tingidos de negro, a blusa também negra e a saia branca da diretora a deixavam ainda mais parecida a um falcão-peregrino. – O senhor poderá conversar com ele aqui mesmo, na minha sala.
– Combinado! – ele disse, levantando-se.
Pouco depois encontrou vaga na 203 Sul, distante uns 500 metros da Fundação Holística, um prédio de dois andares e subsolo no Bloco A. Eram ainda 18 horas, o que lhe dava uma hora para dar uma olhada nos arquivos do ambulatório. A secretária-executiva da escola, dona Maria das Dores Craveiro, estava na portaria. Seu nome caía-lhe como uma luva. Era uma mulher empertigada e encarangada; sentia dores nas mãos, como se fossem transpassadas por cravos. Fora tratada por todos os professores, mas só encontrava alívio nas mãos do professor Bartolomeu Amado, o Bafo de Onça.
A Fundação Holística fora criada pelo professor Marcelo Quintela, um boa-vida de família endinheirada. Tinha 21 anos quando começou a perder massa muscular na coxa esquerda, após um acidente automobilístico. Nenhum tratamento estava dando certo quando foi encaminhado para um velho médico chinês, em São Paulo. Logo na primeira sessão o chinês deu uma espécie de beliscão na coxa do paciente e a perna deu um salto. Em dez sessões a perda de massa muscular cessou. Isso deixou o jovem empresário do ramo automobilístico tão empolgado que ele resolveu fazer o curso de medicina tradicional chinesa, com especialização na China. Ao assistir a uma conferência de Giovanni Maciocia em Londres, decidiu criar uma escola em Brasília. Ricardo Larroyed, que o conhecia desde o Elefante Branco, lembrou-se do dia em que foi convidado para lecionar na Fundação Holística. Naquele dia, foram almoçar num daqueles restaurantes da 404 Sul. Marcelo Quintela ainda não se convencera de que Ricardo Larroyed aceitara lecionar no Instituto Holístico, e puxava assunto; então, começou a contar uma história.
– Certo dia dos anos de 1960, o jornalista e escritor Joy Hyams almoçava com Bruce Lee num restaurante chinês no centro de Los Angeles. Não era sempre que Hyams tinha esse privilégio, de modo que aproveitou a oportunidade para queixar-se a Bruce, confessando-lhe que andava desanimado, sentindo-se velho, embora só tivesse 45 anos. Achava-se rígido demais para o Jeet Kune Do, a arte marcial criada por Bruce.
– Você jamais aprenderá nada de novo se não estiver disposto a aceitar-se com suas limitações – disse-lhe Bruce. – Você precisa aceitar o fato de que é capaz em algumas coisas e limitado em outras, e que precisa desenvolver suas aptidões.
Hyams retrucou que aos 35 anos podia facilmente aplicar um golpe de pé acima de sua cabeça. Bruce fez uma pausa na mastigação e olhou para Hyams.
– Isso foi há dez anos – disse Bruce. – Agora você está mais velho e seu corpo mudou. Todos têm limitações físicas a vencer.
Hyams continuou argumentando, comparando-se a Bruce.
– Isso é fácil para você dizer. Se alguma vez alguém nasceu com habilidade natural para as artes marciais, esse alguém é você – insistiu.
– Vou lhe contar algo que pouca gente sabe: tornei-me um praticante de arte marcial apesar das minhas limitações – confidenciou-lhe Bruce, com um sorriso. – Por certo você não se deu conta, mas minha perna direita é quase 2,5 centímetros mais curta que a esquerda. Isso determinou minha melhor postura: o comando do pé esquerdo. Percebi, então, que, devido à perna direita ser menor, eu levava vantagem em certos golpes de pé, pois a pisada desigual deva-me um impulso maior. Além disso, uso lentes de contato. Desde criança sou míope, o que significa que, quando estava sem óculos, tinha dificuldade em ver meu adversário à distância. No início, voltei-me para o estudo de wing chun, que é uma técnica ideal para a luta corpo-a-corpo. Aceitei minhas limitações como elas eram e tirei proveito delas. É isso que você precisa aprender. Você diz que é incapaz de dar golpes de pé acima da cabeça antes de longo aquecimento, mas o problema efetivo é: importa realmente dar golpes dessa altura? A verdade é que, até recentemente, os praticantes de artes marciais raramente davam golpes de pé acima dos joelhos. Esses golpes à altura da cabeça são em sua maioria para exibição. Por isso, aperfeiçoe seus golpes de pé no nível da cintura e eles se tornarão tão formidáveis que você nunca precisará de golpes mais altos. Em vez de tentar fazer tudo bem, faça com perfeição apenas as coisas que pode. Embora a maioria dos praticantes de artes marciais competentes tenha gasto anos dominando centenas de técnicas e movimentos, num ataque, ou kumite, um campeão não usa efetivamente mais do que quatro ou cinco técnicas, sempre. São essas técnicas que ele aperfeiçoou e das quais sabe que depende.
Hyams protestou.
– Mas permanece o fato de que o meu verdadeiro adversário é a idade – insistiu.
– Pare de se comparar, aos 45 anos, com o homem que você era aos 20 ou 30 – disse Bruce. – O passado é uma ilusão. Você precisa aprender a viver no presente, aceitando-se como você é agora. O que lhe falta em flexibilidade e agilidade cabe-lhe suprir com conhecimentos e exercício permanente.
– Depois dessa conversa, Hyams não perdeu mais tempo tentando golpear com os pés acima da cabeça; em vez disso, trabalhou golpes à altura da cintura, até agradarem ao próprio Bruce. Em fins de 1965, Bruce foi até a casa de Hyams, despedir-se, pois partiria para Hong Kong, onde pretendia se tornar um astro do cinema – disse Marcelo Quintela.
– Lembra-se da nossa conversa sobre limitações. Pois bem, estou limitado pelo meu tamanho e dificuldades no inglês, além de ser chinês e nunca ter havido um grande astro chinês nos filmes americanos. Gastei os últimos três anos estudando cinema e creio que chegou a hora para um bom filme de artes marciais, e eu sou o mais qualificado para estrelá-lo. Minhas aptidões superaram minhas limitações – disse Bruce.
– As aptidões de Bruce superaram efetivamente suas limitações, e, até sua morte prematura, ele foi um dos maiores astros do cinema. Sua carreira foi um exemplo perfeito do seu ensino: na medida em que descobrimos e desenvolvemos nossos pontos fortes, eles se impõem às nossas fraquezas – conclui Hyams, no seu livro O Zen nas Artes Marciais.
– Pois bem – disse Marcelo Quintela – quando fiz o curso de medicina chinesa em São Paulo, entre os meus extraordinários professores havia um, o professor Camarão, um japonês que era ouvido e procurado até pelos seus colegas de cátedra. Ele dominava um modo único de pegar as agulhas durante uma sessão, todas as dez de um pacotinho, colocando-as entre os dedos anelar e mindinho, e aplicando-as em questão de segundos. Tentei imitá-lo na minha primeira tentativa, tendo como paciente uma gata que eu estava comendo. Uma semana depois eu ainda encontrava agulhas no chão da sala do meu apê. Desisti de imitar o professor Camarão. Ele também introduz as agulhas numa batida seca, com a ponta do dedo médio, que apoia na unha do indicador, soltando-o como um martelo, bam!, e assim introduzindo a agulha, por meio do mandril, em milésimos de segundo. Isso eu tentei, gostei, e é o que faço – continuou Marcelo Quintela, que gostava muito de falar. – A medicina tradicional chinesa, que se baseia no Tao, o caminho, o equilíbrio entre yin e yang, conta com know-how em torno de 5 mil anos. Holística, trata o paciente como um todo, e considera a dimensão da matéria tão somente energia, como, aliás, confirmou o físico alemão Albert Einstein. Só as possibilidades com as agulhas já são ilimitadas, quando mais se considerarmos outros pilares da MTC, como alimentação correta, fitoterapia, tuiná, tai chi chuan, que é meditação em ação, e um mundo de conhecimentos terapêuticos da filosofia oriental, que é, também, religião. Assim, o acupunturista terá inesgotável manancial de possibilidades para tratar o paciente. E da mesma forma como pensava Bruce Lee, o acupunturista não deve perder tempo com algo que o Tao está a lhe dizer que não é importante; precisa somente concentrar-se naquilo em que mais sente fluir seu talento, mesmo que seja apenas sorrir – disse, entremeando o monólogo com grandes garfadas do saboroso bacalhau.
O prédio da Fundação Holística pertencia à família do professor Marcelo Quintela, e fora adaptado para a escola. Bem conservado e iluminado, o ambiente era silencioso e fresco. O arquivo ficava numa sala no térreo, pegada à secretaria. Maria das Dores Craveiro mostrou a Ricardo Larroyed o armário onde eram guardados todos os documentos do ambulatório. O policial remexeu o armário durante pelo menos meia hora. Às 19, Maria das Dores o avisou que Marcelo Quintela acabara de chegar. Ricardo guardou na sua pasta algumas cópias que fizera na impressora Xerox e se dirigiu para a sala dos professores. Estavam todos lá. Havia alguma coisa diferente em Emanoel Vorcaro. Os olhos dele brilhavam.