quarta-feira, 6 de junho de 2018

Como queimar a ponte que leva ao passado e extinguir o abismo do futuro

RAY CUNHA*

Aquela noite ecoou por duas décadas na vida de M, sobrepondo-lhe um peso na região cervical que ia curvando-a, formando uma corcova, apesar dos seus 37 anos. Quando a coisa aconteceu ela tinha 17 anos. Durante uma festinha na casa de um casal de amigos adolescentes, puseram “boa noite, cinderela” no seu refrigerante e a estupraram. Filha única, a mãe, viúva e beata, guardiã dos bons costumes, soube do caso três dias depois. A partir dali, o inferno baixou naquela casa. A mãe, que já era travada, tornou-se ainda mais carrancuda e se fechou em um luto sem trégua. M se graduou em Economia, passou em concurso para o Banco do Brasil e foi gerenciar uma agência no interior do Pará. Competente, tornou-se funcionária modelo. Vivia para o trabalho e para a mãe, que continuava mergulhada no drama de 20 anos atrás. Muito bonita e assediada, M chegou a ter alguns namoricos, mas havia sempre um momento em que ela não podia ir adiante e então interrompia bruscamente o relacionamento. À medida que o tempo passava, o que sua mãe chamava de “pecado imperdoável” pesava mais e mais nas costas de M, que começou a sentir dores na coluna; as dores eram tantas que um médico lhe disse que ela sofria de fibromialgia. Até que M encontrou um terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa. Alguém, no trabalho, lhe dera uma revista chamada “Mulher Feliz”, publicada pela Seicho-No-Ie; ela leu a revista de capa a capa e gostou, e soube, pela colega que lhe dera a publicação, que havia um pequeno grupo de pessoas na cidade que se reunia para estudar a obra do fundador da Seicho-No-Ie, o filósofo japonês Masaharu Taniguchi. M atendeu ao convite da colega e foi à reunião, semanal, na casa de uma das participantes do grupo, e lá conheceu o terapeuta. Ela contou sobre as dores que sentia e ele a convidou para ir ao seu ambulatório no dia seguinte. Ela foi.

O terapeuta examinou a língua e auscultou os pulsos de M, e começou o tratamento com tuiná, a massagem terapêutica chinesa, aplicando uma série de manobras na cabeça da paciente e massageando-lhe o peito na altura do timo. Depois, ela virou em decúbito ventral e ele a massageou e fez alongamento na sua região cervical. Novamente em decúbito dorsal, o acupunturista começou a aplicação de agulhas: VG 20, Os Quatro Cavaleiros, Yintang, VC 17, PC 6 e R 9. M, que não vinha dormindo bem, caiu em sono profundo; 40 minutos depois o terapeuta a acordou.

Pesquisador de Medicina Vibracional, ele percebera, na noite anterior, que M estava seriamente atingida no seu corpo astral, o estado de consciência das emoções.

– Agora, que você está bem relaxada, podemos começar a anamnese. Você está emocionalmente tensa, e isso vem travando suas energias Yin e Yang, causando desequilíbrio, e dores, no seu corpo etéreo, o que seu médico diagnosticou como fibromialgia. Precisamos identificar a origem dessa tensão; é ela que vem desequilibrando você; é a causa de todos os aborrecimentos que você enfrenta em casa e no trabalho. Precisamos encarar, de frente, esse... obstáculo, seja lá o que for. – O terapeuta fez uma pausa. – E então? – perguntou.

M começou a chorar. Chorou durante uns cinco minutos. O terapeuta parecia meditar enquanto ela chorava.

– Eu tinha 17 anos e cometi um pecado horrível; minha mãe disse que vou morrer pecadora e que vou para o inferno, porque, além do pecado original, ainda há esse outro que eu cometi – ela disse, em um arranco.

O terapeuta sorriu.

– Minha filha, ninguém é pecador, e não existe pecado original. Aliás, não existe pecado nenhum. Em a natureza, não há bem ou mal; nós é que qualificamos as coisas, os acontecimentos. Ninguém nasce pecador; pelo contrário, somos, todos, filhos de Deus. E se somos filhos de Deus, somos deuses também. O que ocorre é que muitos de nós ainda não manifestamos a luz, o mundo perfeito de Deus. Encarnamos na vibração da matéria para evoluir mais rapidamente, porque, aqui, os apelos e o apego são quase irresistíveis. Mas somos espíritos, nossa corpo original vibra em outra dimensão. Você nunca pecou; você apenas está acorrentada em certo momento do seu passado.

– Eu tinha 17 anos e fui a uma festinha na casa de um casal de coleguinhas; colocaram droga no meu refrigerante e me desvirginaram. Três dias depois minha mãe descobriu o que aconteceu e disse que eu estava perdida, e deixou de me amar, de me fazer carinho – disse isso e chorou de novo.

– Querida, o que é o hímen senão uma pelica? Quanto à opinião da sua mãe, trata-se de uma verdade apenas para ela, e cada qual tem seu estado de consciência, seu mundo, ou sua compreensão da vida. Nas suas orações, perdoe sua mãe, e a ame sempre; isso gerará luz, e a luz desata qualquer nó. O passado não existe, é uma ilusão. A menina desvirginada não existe mais; hoje, você é uma mulher, muito bonita, aliás, gerente de uma agência do Banco do Brasil, e que anda sobre suas próprias pernas. Sua mãe só ampliará a mente dela se você mudar a sua própria mente. Não mudamos as pessoas; o mundo muda quando nós mudamos. Sobre pecado original, isso é conversa fiada, ninguém peca por nascer; pelo contrário, nascer é um privilégio, a oportunidade de evoluirmos espiritualmente. Queime a ponte que leva ao passado, e você não poderá mais fazer essa viagem. Como queimar? Apenas pare de pensar nisso. Ao invés de pensar que é pecadora, conscientize-se de que você é filha de Deus, e de que todo o Universo depende de você, pois você, como todo mundo, é o centro do Universo. O Universo não é infinito? Pois bem, o infinito parte para todos os lados, e, se assim é, há sempre um centro, e você é o centro. Por isso, posicione-se na vertical, olhe para a frente, abra o peito para a vida, não se encolha mais, pois você, como todo mundo, é dona de todo o Universo, e tem o espaço infinito disponível para si mesma, sem tirar sequer um pedacinho do espaço alheio. Livre-se do tremendo peso que você carrega, e que nem existe. De manhã, quando fizer sua higiene e olhar pela primeira vez para o espelho, sorria, e diga que você é muito amada por você mesma.

Ela o olhou com os olhos brilhando.

– Nossa! O senhor tirou um peso das minhas costas que eu não estava mais suportando – disse, respirando profundamente, aliviada, sorridente. Pobre da minha mãe; sofreu tanto esses anos todos! Eu já a perdoei e vou pedir perdão a ela hoje mesmo!

Algum tempo depois, M deixou o Banco do Brasil, convidada para assumir um cargo de chefia em uma multinacional. Quanto à sua mãe, estava sorridente no casamento da sua amada filha.

O Universo é feito do que intuímos, e denominamos, de energia, que não pode ser criada nem destruída, mas apenas modificada, e que existe desde antes e existirá depois dos tempos. A energia se manifesta em campos vibracionais. Logo, nós, humanos, somos campos, ou corpos vibracionais. A mente é um conjunto de corpos vibracionais, entre os quais o corpo material, que vibra submetido a duas dimensões: espaço e tempo. O espaço pode ser medido por altura, largura e espessura; e o tempo está relacionado às transformações que ocorrem a cada instante à matéria, até a dissolução do corpo físico em átomos, quando o espírito se desassocia dos corpos, físico, etéreo (sede dos sentidos), e astral (sede das emoções). Dependendo o estado de consciência do espírito, às vezes, ao desencarnar, ele fica preso ao corpo astral, ou do corpo etéreo, até resolver pendência da vida material, e então ascender a orbe superior.

Enquanto mentes, encarnamos para evoluir, sair do estado de consciência material, imperfeito, e manifestar-se em um estado de consciência superior. Somos, por conseguinte, estados de consciência únicos, o núcleo do próprio Universo, que está sempre se expandindo para todos os lados, e para dentro também, manifestando a perfeição, o imutável, o eterno, o criador.

De modo que a existência material não passa de apego à matéria, que, como dizem os budistas, não existe de fato, esfarinha-se, muda a todo instante, até a morte física, quando tudo o que é material se dilui, desaparece. Assim, tudo o que é inerente à matéria, tempo e espaço, é sombra da mente. Logo, passado e futuro não existem. A eternidade, no mundo material, é agora.

Quando alguém se acorrenta ao passado, seja por nostalgia, seja por remorso, a vida não caminha; a energia vital, que os chineses chamam de Qi, empaca, o corpo astral se inflama, refletindo-se no corpo físico em doenças, acidentes, desemprego, pobreza financeira, dramas existenciais, tragédias, e atingindo, sempre, os filhos, e as pessoas amadas.

O que fazer, então? Arrepender-se do ato que o acorrentou ao passado, o propósito de não mais o cometer, e não voltar a pensar no assunto.

Quanto ao futuro, também é ilusão. Não sabemos sequer se estaremos fisicamente vivos no momento seguinte. Assim, viver no futuro, é um estado de consciência que os psicólogos chamam de ansiedade. Por exemplo: um estudante tem prova marcada para daqui a uma semana. Em vez de apenas estudar para a prova ele também passa a semana toda pensando na prova. Desse modo, ele se sentirá exausto no dia da prova, e sentirá um branco na memória, por conta do desgaste de ter passado a semana toda fazendo a prova, inclusive à noite. A ansiedade, ou preocupação com o futuro, depauperou seu meridiano energético do baço, que, segundo a Medicina Chinesa, produz sangue e governa os músculos; sem sangue tonificado não há repouso, e, sem tônus, os músculos murcham, gerando cansaço ao menor esforço.

Com efeito, não existe passado nem futuro; só há o agora, o momento mesmo da vida, que é eterno, porque é o núcleo do Universo. Um exercício prático para vivermos o agora é a meditação. Pessoas ansiosas são atacadas por um cipoal de pensamentos o tempo todo, e muitos desses pensamentos são pura fantasia. A meditação dissipa os pensamentos, até chegar ao foco, e o foco é sempre agora. A melhor meditação que eu conheço é a oração, formal ou informal, porque ela nos conduz ao divino, à vibração do núcleo do Universo. E, durante a meditação, ou da oração, agradeces aos teus antepassados, especialmente aos pais, e a tudo o que és, e que tens. A gratidão é uma vibração que nos harmoniza com o núcleo.

Se o nó que o prende ao passado formou-se de um erro cometido, ou do ressentimento que nutres contra alguém, pedes perdão a esse alguém, e o perdoas. Se o nó surgiu da expectativa de possuir alguém por quem estás apaixonado, e que não quer saber de ti, libertas essa pessoa da tua mente. Ages assim para todos os nós. E praticas, sempre, o bem. É assim que queimamos a ponte que leva ao passado e extinguir o abismo do futuro.

É tiro e queda. A tristeza, gerada pelos erros do passado, desaparece; a ansiedade se esfuma; o câncer murcha e some; e o riso volta a soar no jardim da vida, como rosa que se desnuda ao sol.


Biliografia

GERBER, Richard. Medicina vibracional: Uma medicina para o futuro. São Paulo: Cultrix, 2007.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos – 23ª Edição. São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1984.

MACIOCIA, Giovanni. Os fundamentos da Medicina Chinesa. São Paulo: Roca, 2007.

MIYAURA, Junji. Os 5 corpos do ser humano. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 2016.

TANIGUCHI, Masaharu. A verdade da vida – 1º Volume. 8ª Edição. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 1992.


* Leia de RAY CUNHA o romance FOGO NO CORAÇÃO, thriller ambientado no mundo da Medicina Chinesa em Brasília. O livro pode ser adquirido no Clube de Autores ou na loja virtual da Amazom.com.br

sábado, 31 de março de 2018

Olivar Cunha: gênio do Amapá, na Amazônia caribenha, completa 50 anos de artes plásticas

Macapá, 1985: Klingerly, Márcio André, Linda, Marina
(mãe do gênio), o gênio Olivar Cunha e Mel

RAY CUNHA


Tuiuiú Crucidicado
BRASÍLIA, 31 DE MARÇO DE 2018 – Em 31 de março de 1952, João Raimundo Cunha plantava uma seringueira no quintal da sua casa, na esquina das ruas Iracema Carvão Nunes e Eliezer Levy, onde é hoje o Colégio Amapaense, em Macapá; anos depois, a seringueira ficou no caminho do muro do colégio, mas foi poupada, com o desvio do muro. Também naquele ano nascia mais um varão na família Cunha, Olivar, chamado carinhosamente pelas suas filhas, Tatiana e Taiana, de Lili. Lili completa, hoje, 65 anos de idade, e 50 como artista plástico.

A seringueira é a mesma que aparece na capa da edição da Amazon.com do meu romance A CASA AMARELA, uma recriação da casa onde o gênio nasceu. Olivar Cunha também aparece em outro romance meu, HIENA, que pode ser adquirido na Amazon.com.br e no Clube de Autores. A CASA AMARELA foi publicado ainda no Clube de Autores

Olivar Cunha e favela amazônica
Ele tinha 15 anos, em 1967, quando expôs pela primeira vez, em Macapá. É fácil encontrar a antiga aldeia dos índios tucujus no mapa: fica no cruzamento da Linha Imaginária do Equador com o maior rio do planeta, o Amazonas. A cidade se debruça na margem esquerda do estuário do colosso, a cerca de 250 quilômetros do Atlântico, no setentrião brasileiro, a Amazônia caribenha. Naquela época, eu tinha 13 anos, e já era fã do grande artista. Hoje, são 30 exposições individuais e 35 coletivas, realizadas em diversas cidades do país.

Início dos anos 90: Lili, eu e Josiane, em Brasília
Em 1967, frequentávamos a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, próximo ao Macapá Hotel: R. Peixe; o poeta e cronista Alcy Araújo; Olivar Cunha; o poeta Rodrigues de Souza, o Galego; o pintor e poeta Manoel Bispo; o poeta e contista Joy Edson; o compositor, poeta e contista Fernando Canto; a poeta Alcinéa Cavalcante...

Auto-retrato do gênio
Nas décadas de 1970/1980, o artista mudou-se para Belém do Pará, quando produziu algumas dezenas de telas que o colocam como um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos: seus mendigos do Guamá, subúrbio da Cidade das Mangueiras, são tão chocantes quanto a colonização do Inferno Verde.

Depois de morar no Rio de Janeiro, onde estudou no Parque Lage, nos anos de 1990, consolidou sua posição como um dos grandes expressionistas contemporâneos com a série de animais agonizando no esgoto das grandes cidades, como na impressionante acrílica sobre tela Tuiuiú Crucificado, sobre o esgoto em que se transformou a baía de Guanabara.

O Tuiuiú Crucificado é, talvez, o berro mais fovista, o grito mais expressionista de Olivar Cunha. Ele a pintou em três meses, em 1992, em Jacareípe/ES. Trata-se de uma acrílica sobre tela, em espátula e pincel, de 120 cm por 100 cm. Pertence à fase que o pintor chama de Habitat Transform, desenvolvida no Rio de Janeiro e em Jacareípe/ES, após pesquisa sobre a devastação da flora e da fauna do Pará, do Amapá e do Pantanal.

Guamá, Belém do Pará, anos 70
A Amazônia é recriada na espátula do pintor à base de espilantol, o princípio ativo do jambu, indicador de que o gênio pinta, na verdade, a alma das suas criaturas, sejam elas pessoas ou paisagens. Assim, as telas de Olivar Cunha gritam como o coração das trevas, mas também pulsam no rio da tarde, prenhes do perfume dos jasmineiros noturnos. O artista dá à luz a Amazônia eternamente viva, a Hileia que só os caboclos entendem – os apreciadores de merengue, de mapará assado na brasa servido com pirão de açaí, os que se emocionam com o trotar da mulher amazônida no calor equatorial, o mergulho no rio que deságua na tarde, os segredos que se encerram em Macapá, Belém, Mosqueiro, Salinas, Caiena...

O grande artista vive hoje no paradisíaco Jacaraípe, distrito atlântico do município de Serra, na grande Vitória/ES, onde se consolida também como restaurador, recuperando obras sacras de igrejas da região. A trajetória artística de Olivar Cunha é a comprovação da sua genialidade. Vida longa ao gênio!

domingo, 25 de fevereiro de 2018

O Empreendimento




RAY CUNHA

Sou empreendedor. Empreendo por meio do verbo
Crio o azul, o mar, a eternidade, e os ponho em equilíbrio
Construo maravilhas, como a dimensão em que, apesar da queda
E do abismo, o cair é para cima

Sou escritor, dou à luz personagens e sei construir versos
E assim, como Deus, empreendo o Yang e o Yin
Ao criar, nos mundos em construção, os alicerces
Faço explodir, de um buraco negro, um Big Bang infinito

Mas minha maior criação, meu voo mais alto, não surgiu por meio do verbo
É fruto da conjunção de um amor que nunca teve começo nem terá fim
Quando a mulher amada e eu demos início ao nosso empreendimento

Foi assim, nos sentindo um só, que surgiu uma nova era
O nascimento da mais perfumada das flores, com o doce nome de Iasmim
E, desde então, o mundo se tornou a sagração da primavera


Brasília, 22 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Romance de Ray Cunha retrata o Golpe Militar de 1964, em Macapá/AP, Amazônia Caribenha

Capa da edição da Amazom.com
Lançado em 2004, pela Editora Cejup, de Belém/PA, as tiragens que a editora colocou no mercado estão esgotadas. Agora, A CASA AMARELA volta a ser publicado, agora pela Amazon.com e pelo Clube de Autores.

A história – que tem início com o golpe militar de 31 de março de 1964, início da Ditadura dos Generais, que durou até 1985 – é ambientada na Macapá dos anos 1960. A Fortaleza de São José de Macapá, o maior ícone dos amapaenses, é palco da tragédia que fornece o argumento do romance: a tortura e morte do presidente do Grêmio Literário Rui Barbosa, acusado de ser comunista.

Os Picanço Cardoso vivem na Casa Amarela, em torno da qual há um jardim prenhe de rosas e zínias, e onde predominam uma seringueira, uma mangueira e um cajueiro, cercados pelo muro do Colégio Amapaense. A casa e as árvores têm sentimentos humanos e o Quartinho é frequentado também por mortos, como Ernest Hemingway, ou Antoine de Saint-Exupéry.
Os bailes reunindo a juventude dourada macapaense, no clube conhecido como Piscina Territorial, a bela esposa infiel de um milionário, lutas de boxe, o aterrorizante Velho Rocha, o apolínio Alexandre Cardoso e o trágico Alexandre filho, o prostíbulo Suerda, o campeão onanista Pentelho de Vaca, o Colégio Amapaense, são personagens que compõe uma espécie de concerto com três movimentos, no qual se destaca A Casa Amarela.

Ao fundo, a cidade ribeirinha, seccionada pela Linha Imaginária do Equador, afoga-se na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, quando o gigante se avoluma para lançar no Atlântico 180 mil metros cúbicos de água por segundo, 16% da água doce despejada nos oceanos do mundo; em maio, sobe para 260 mil metros cúbicos por segundo, e, em novembro, cai para 100 mil metros cúbicos por segundo.

“Para quem acredita na máxima de que os livros nos fazem viajar, nada como aproveitar a literatura para conhecer o país. O UOL selecionou 27 livros que mostram características locais dos diferentes Estados brasileiros e do Distrito Federal” – recomenda o site UOL, citando A CASA AMARELA como o livro de ficção que melhor retrata o Amapá.

RAY CUNHA nasceu em Macapá, em 7 de agosto de 1954. Aos 17 anos, publica seu primeiro livro, XARDA MISTURADA, juntamente com os poetas José Edson dos Santos e José Montoril. Aos 21 anos, começa a carreira de jornalista, em Manaus. A partir daí, trabalha em vários jornais da Amazônia, viajando amplamente pela região. Atualmente, o autor vive em Brasília, onde, além do ofício de escritor, continua trabalhando como jornalista e também como terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, formado pela Escola Nacional de Acupuntura (ENAc).

RAY CUNHA é também autor dos romances:


E dos livros de contos:


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Sempre me perco em ti, e sempre de propósito

A Seringueira que intercepta o muro do Colégio
Amapaense, na Rua Eliezer Levy, é personagem no meu
romance A CASA AMARELA, que será publicado em
breve na Amazon.com e no Clube de Autores


As cidades são como as mulheres. De manhã, douram-se ao sol, como as rosas, e, à tarde, se transformam em um rio azul. À noite, se perdem na luz. Da mesma forma que as mulheres, nas cidades latejam segredos, só desvendados pelos que sabem mergulhar no abismo da primavera. Quanto mais as amamos, mais belas ficam, e mais misteriosas. E, como as mulheres, nunca são nossas. Não podemos ser donos de uma cidade, da mesma forma que é impossível nos apossarmos de uma mulher, porque as mulheres serão sempre livres e misteriosas. A cada partida, fica implícito o encontro marcado, e as chegadas são regadas de risos, de luz, e perdão.

Amo várias cidades, e elas se entregam a mim sem reservas. Belém tem feitiço de rosas colombianas sangrando no azul do mar, deixando um rastro de Chanel 5, gim e perfume de mulher absorta ao toucador. Manaus evoca o cheiro de mulher, tão intenso que causa vertigem, a ponto de sentirmos os movimentos da Terra no espaço, como música de Mozart. O Rio de Janeiro tem o poder de me fazer voar, cavalgando besouros furta-cores num mar transparente sem fim. Há, ainda, outras cidades, a quem eu seduzo como o garanhão faz a corte à sua próxima vítima, com paciência, concentração total e, sobretudo, fé. Percorro as cidades com amor. Assim é com Macapá.

Os tucujus a habitavam quando Carlos V de Espanha a chamou, em 1544, de Adelantado de Nueva Andaluzia e a deu ao navegador Francisco de Orellana. Em 1738, foi instalado, no cruzamento da Linha Imaginária do Equador com o rio Amazonas, um destacamento militar, na antiga Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral. Em 4 de fevereiro de 1758, o capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundou a Vila de São José de Macapá, que se debruça sobre o maior rio do mundo, não muito distante do Atlântico. Na maré alta, o gigante avança sobre a cidade, entre o açoite do vento e o muro de arrimo, onde estaca, recua e arremete com mais ímpeto. Em meio à agitação, o Trapiche Eliezer Levy emerge, indiferente.

A melhor maneira de descobrir Macapá é atravessando de barco o estuário do rio Amazonas. Quem sai do arquipélago do Marajó e mergulha no maior rio do mundo, em direção à Linha Imaginária do Equador, avista, de repente, a cidade, que surge como cunhantã se banhando no rio, o vestido molhado, colado ao corpo, os cabelos espargindo água, e, nos olhos, o mistério. É assim que gosto de pensar a cidade, e sentir seu cheiro tórrido de jasmim nas noites mornas.

Sou teu, Macapá, porque tu me pariste às 5 horas do dia 7 de agosto de 1954, no Hospital Geral, e de lá fui para a Casa Amarela, ao lado do Colégio Amapaense, na Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Eliezer Levy, ao lado da Mata do Rocha, e lá passei 11 anos da minha infância. Restou a Seringueira, que meu pai plantou, e que foi salva de ser decepada – porque se recusou a sair do caminho do muro do Colégio Amapaense – pelo agrônomo Luiz Façanha, que se abraçou ao seu tronco num gesto de amor. Meu pai, João Raimundo Cunha, semeou a Seringueira, em 1952, ano do nascimento do meu irmão, o pintor genial Olivar Cunha. Macapá, para mim, é isso, e é tanta coisa.

Macapá é como a mulher que desejamos por muito tempo e que inesperadamente está diante de nós, nua, mas só acredito que estou nela quando a cidade me engole. Entro no santuário despido de todas as feridas, e mergulho num mundo prenhe de jasmineiros que choram nas noites tórridas, merengue, mulheres que recendem a maresia, o embalar de uma rede no rio da tarde, tacacá, Cerpinha, e lhe oferto rosas, pedras preciosas, luz, toda a minha riqueza. É nesse mergulho que sempre me perco em ti, e sempre de propósito, numa vertigem da qual só me recupero em Brasília, dias depois.

As viagens que fazemos no coração são vertiginosas demais. A casa da minha infância, cada palavra que garimpei em madrugadas eternas, cada gota de álcool com que encharquei meus nervos, cada mulher que amei nos meus trêmulos primeiros versos, cada busca do éter nas noites alagadas de aguardente, o jardim da casa da Leila, no Igarapé das Mulheres, o Elesbão, a casa da Myrta Graciete, a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, o Macapá Hotel, o Trapiche Eliezer Levy, pulsam para sempre no meu coração, que enterrei na Rua Iracema Carvão Nunes.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Conheça o Brasil em 27 livros de ficção; o Amapá, pelo romance A CASA AMARELA


BRASÍLIA, 31 DE JANEIRO DE 2018 – O romance A CASA AMARELA terá nova edição, pela Amazom.com e pelo Clube de Autores. Lançado em 2004, pela Cejup, de Belém/PA, as tiragens que a editora colocou no mercado estão esgotadas. A história – que tem início com o golpe militar de 31 de março de 1964, início da Ditadura dos Generais, que durou até 1985 – é ambientada na Macapá dos anos 1960. Subjacente à cidade e aos acontecimentos, o Trópico Úmido permeia, latente, toda a história.
A Fortaleza de São José de Macapá, o maior ícone dos amapaenses, é palco da tragédia que fornece o argumento do romance: a tortura e morte do presidente do Grêmio Literário Rui Barbosa, acusado de ser comunista. Ao fundo, a cidade ribeirinha, seccionada pela Linha Imaginária do Equador, afoga-se na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, quando o gigante se avoluma para lançar no Atlântico 180 mil metros cúbicos de água por segundo, 16% da água doce despejada nos oceanos do mundo; em maio, sobe para 260 mil metros cúbicos por segundo, e, em novembro, cai para 100 mil metros cúbicos por segundo.
Os Picanço Cardoso vivem na Casa Amarela, em torno da qual há um jardim prenhe de rosas e zínias, e onde predominam uma seringueira, uma mangueira e um cajueiro, cercados pelo muro do Colégio Amapaense. A casa e as árvores têm sentimentos humanos e o Quartinho é frequentado também por mortos, como Ernest Hemingway, ou Antoine de Saint-Exupéry.
Os bailes reunindo a juventude dourada macapaense, no clube conhecido como Piscina Territorial, a bela esposa infiel de um milionário, lutas de boxe, o aterrorizante Velho Rocha, o apolínio Alexandre Cardoso e o trágico Alexandre filho, o prostíbulo Suerda, o campeão onanista Pentelho de Vaca, o Colégio Amapaense, são personagens que compõe uma espécie de concerto com três movimentos, no qual se destaca A Casa Amarela.

“Para quem acredita na máxima de que os livros nos fazem viajar, nada como aproveitar a literatura para conhecer o país. O UOL selecionou 27 livros que mostram características locais dos diferentes Estados brasileiros e do Distrito Federal” – recomenda o site, citando A CASA AMARELA como o livro de ficção que melhor retrata aquilo que podemos entender como a alma da capital do estado do Amapá, situado no setentrião brasileiro, a Amazônia atlântica, e caribenha.


RAY CUNHA é autor também dos romances:


E dos livros de contos:

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Livrarias

BRASÍLIA, 12 DE JANEIRO DE 2018 – A primeira vez que tive a sensação de estar numa grande livraria foi em Niterói/RJ, em 1982, aos 27 anos, quando encerrei 10 anos na estrada, ou de barco na Amazônia. Na minha cidade natal, Macapá/AP, não havia livraria quando saí de lá, em 1972. Havia papelaria. Leitores compravam livros em Belém, no Rio ou em São Paulo, tomavam livros emprestados, ou frequentavam a Biblioteca Pública; meu caso. Naquela época, conheci Gilberto Araújo, Betão, leitor voraz. Um dia, ele me falou de um escritor americano chamado J. D. Salinger, e do seu livro O Apanhador no Campo de Centeio.

Em 1982, eu vivia em Belém, e estava casado há dois anos. Foi meu primeiro casamento. No lançamento do meu livro de poemas Sob o Céu Nas Nuvens, numa livraria que ficava no centro de Belém, minha ex-mulher estava tão furiosa comigo que não apareceu lá. Reconheço que eu era como um predador que fugiu do zoológico – ele se esconde e ataca, e todos fogem dele, até que os bombeiros o acertam com um dardo e o levam de volta para a jaula. Eu achava tudo uma mesmice; não suportava nem a mim mesmo. Não deu outra: separamo-nos. E toda separação produz um vácuo, do qual podemos nos recuperar logo, ou não; meu caso.

Só me recuperei totalmente em 1987, quando parti de Belém para o Rio, mas acabei ficando em Brasília, por insistência do jornalista Walmir Botelho, que me convidou para ajuda-lo na edição da capa do extinto Correio do Brasil, do qual era diretor de Redação. Naquela época eu já estava domesticado, já não era mais um predador em fuga; apenas continuava bebendo muito, mas muito mesmo.

Pois bem, quando me vi no vácuo, fiquei completamente desorientado, pois no vácuo podemos ir para qualquer lado, para cima ou para baixo, ou ficar parados, à mercê do vazio. A única coisa que me veio à cabeça foi voltar a fazer o que fizera durante a década anterior, embora já não tivesse a mesma ousadia dos 17 anos. Mesmo assim, tomei a estrada e fui para Niterói, e me hospedei na casa de uma das pessoas que mais me apoiaram: o compositor Luiz Tadeu Magalhães.

Meu ganha-pão era Sob o Céu nas Nuvens, que eu vendia em pequenas sessões de autógrafos e em bares. Certa tarde, senti-me feliz e saí, fui procurar uma livraria. Encontrei uma linda livraria, com cafeteria e tudo o mais. Percorri os corredores, observando as capas e as lombadas dos livros, até topar com O Apanhador no Campo de Centeio. Comprei-o, escolhi uma mesa no bar e pedi uma Bohemia. Foi o Beto que me falou também da Bohemia. Era a primeira vez que iria prová-la. Essa experiência é um dos tesouros mais valiosos da minha alma. Obrigado, Gilberto!

Aqui em Brasília, um dos meus programas prediletos é passar horas em livrarias. São horas intensas, e estimulantes, pois, ao ver tantos escritores importantes, tantos livros tão bem editados, meu propósito de ser escritor fica mais forte. A maior livraria de Brasília é a Cultura da Casa Park, um shopping que tem até cinema de arte. Autografei lá Na Boca do Jacaré-Açu. Conta com um bom café e discoteca, além de uma revistaria com títulos que só vemos em São Paulo e Rio.

A Fnac fica no ParkShopping. É também bastante grande. No Pátio Brasil, no início da Avenida W3 Sul, há uma Livraria Leitura, muito agradável, também com um bom café, e mesinhas, e, noutro espaço, poltronas. Quando vou lá, às vezes peço um espresso, sento-me e fico ouvindo as pessoas conversando: estrangeiros, homens velhos cantando mulheres jovens, famílias, adolescentes cochichando, grudados nos seus celulares, todo tipo de pessoas. Já li muito trecho de livro, lá, livros que não posso comprar no momento, mas que tenho urgência em conhecer. E também já cochilei bastante nas poltronas da Leitura do Pátio Brasil, no conforto dos 21 graus centígrados. Certa vez quase li todo o romance A Noite dos Casacos Vermelhos, de Rey Vinas.

A Leitura do Conjunto Nacional, meu shopping predileto, já teve cafeteria; não tem mais, e não tem local para lermos. Leio em pé. A editora LGE, que é hoje a Libri Editorial, conseguiu colocar 10 exemplares de O Casulo Exposto, lá; vendeu tudo. O ambiente é meio silencioso e há uma variedade grande de gêneros e autores, e a saída dela dá para um dos locais mais aprazíveis de Brasília: a praça de alimentação do Conjunto Nacional.

Mas minha livraria favorita é a Saraiva, ao lado da cafeteria Copenhagen, também minha predileta. Na Saraiva há sempre uma música muito alta, geralmente rock atual, isto é, uma sequência de gritos andrógenos em inglês, mas deixo para lá, porque a livraria conta com um espaço onde puseram uma mesa e duas cadeiras, e o ar condicionado funciona que é uma beleza. Assim, leio a Veja inteira, bem como a Superinteressante, além, é claro, de trechos de livros. De modo que só me dou conta dos cantores andrógenos quando já estou cansado de ler. Então, procuro um local para comer, ou então já está na hora de escafeder-se.