sexta-feira, 8 de junho de 2018

Como se alimentar para conservar a energia e a saúde, e a manter o peso ideal, por meio da Medicina Tradicional Chinesa


RAY CUNHA* 

Um dos dramas dos nossos dias, em especial no Ocidente, é o excesso de peso e a luta para perdê-lo, quase sempre inglória, porque apenas paliativa. O advento da pecuária e da agricultura em escala, e a massificação das redes de supermercados, mais sofá e televisão, produzem milhões de corpos adiposos em todas as democracias do planeta (nas ditaduras, nos regimes comunistas, o povo cata comida no lixo da elite).

Pois bem, na medida em que os gordos se multiplicam rapidamente, as doenças se alastram, e se multiplicam as dietas miraculosas, inclusive as que deixam o paciente sem apetite para sempre. Mas por que as pessoas engordam muito? É possível emagrecer e manter-se magro e saudável? Grosso modo, a questão é matemática: se uma pessoa come duas mil calorias por dia e gasta a metade, mil serão estocadas no corpo dela, geralmente na barriga e ancas, como gordura. Se fechar a boca, emagrecerá. Mas a questão está em fechar a boca.

É preciso deixar claro que não é apenas o terapeuta que leva o paciente a emagrecer, mas, principalmente, a força de vontade do paciente em seguir a orientação do terapeuta. O eu é a mente, que se manifesta por meio de vários corpos vibracionais. O corpo carnal é o mais denso deles, encerrado num universo limitado por altura, largura, fundura, tempo e força de gravidade, e que reflete o que se passa nos corpos sutis, aqueles que não podem ser sentidos pela matéria.

A mente comanda o cérebro, que, por sua vez, mobiliza o sistema endocrinológico para o funcionamento do corpo. Sentimentos deletérios, como ódio, inflamam o corpo astral, sede das emoções, e isso acaba transpassando o corpo etéreo, sede dos sentidos e escudo do corpo carnal, manifestando-se neste em forma de doenças.

A ansiedade é outro drama da Humanidade. Ansiedade é viver no futuro; como o futuro não existe, vive-se uma fantasia, o que desequilibra os corpos astral e etéreo, atingindo o corpo carnal em forma de fome canina e obesidade.

No tratamento em Medicina Tradicional Chinesa são realizadas anamnese, auscultação de pulso e observação da língua do paciente, para cercar-se tudo aquilo que esteja concorrendo para o aumento de peso. A gênese das doenças, e a obesidade é uma doença, começa no desequilíbrio das energias básicas, Yin e Yang. Assim, o paciente terá que equilibrar sua caminhada, seu posicionamento e atitudes perante a vida; sua alimentação será revista, bem como seus horários; enfim, sua vida será sacolejada. Quando mudamos, o Universo muda também. Se o paciente for ansioso, será orientado a se exercitar em meditação, inclusive para escapar dos sequestros emocionais e da tirania do subconsciente. Então, começará seu emagrecimento. E ele verá que quem come menos vive mais, e melhor, já que o desgaste das células é menor.

Quando ampliamos nosso estado de consciência, transcendemos a dimensão dos gordos. Os gordos só pensam naquilo: comida. Então é hora de mudar os hábitos, hora de introduzir a alimentação energética, fitoterapia, massagem terapêutica chinesa e acupuntura, pilares que alicerçarão a mudança na vida do paciente. O corpo é animado pela energia vital, o Qi da Medicina Chinesa, que circula por meio de canais, os meridianos, conectados aos órgãos. Quando essa energia – que é dupla, Yin e Yang, oposta uma a outra, mas complementares – encontra-se em desarmonia, ocorre a doença e surge a dor. Os pontos de acupuntura são chacras, que, estimulados, promovem a desobstrução dos meridianos, reequilibrando o fluxo Yin e Yang.

Para emagrecer não existe fórmula mágica, e cada caso é um caso. Às vezes, pode demorar muito para um paciente emagrecer porque ele está com seu corpo etéreo tomado por microrganismos e larvas do mundo astral; é a obesidade mórbida. Uma coisa é certa, porém: a magreza, o corpo esbelto, flexível, com tônus, que todos nós, homens e mulheres, jovens e velhos, desejamos, está na mente. O corpo é reflexo da mente. Então, o primeiro passo é amarmos a nós mesmos, do jeito que somos. Depois, que venham as batalhas.

É comum alguém resolver começar uma dieta numa segunda-feira. A decisão é tomada no domingo, após um fim de semana de comilança, bebedeira, ressaca e ódio contra si mesmo, porque o corpo já tomou as rédeas do espírito; o corpo, que é o cavalo do espírito, começa a comandar o atalho do caminho, em descida desabalada na íngreme ladeira do subconsciente, que sempre desemboca no precipício existencial. Chega a segunda-feira e ao sair do trabalho essa pessoa recebe um convite irrecusável: um banquete, com fartura de champagne francês.

Não dá outra: ocorre o que os psicólogos chamam de sequestro emocional; a pessoa esquece imediatamente o propósito tomado no domingo. Sua memória é toda comida; é como se as células implorassem por comida. E ele come, come, come. No dia seguinte, estará mais gordo e com mais ódio de si mesmo.

Alguns ingerem qualquer droga milagrosa que lhes extirpará o apetite, adoecendo-os, e, quando não suportam mais ingerir a droga voltam a comer ainda mais. É o efeito sanfona – encolhe e volta a inchar. Outros se submetem a cirurgias para redução do estômago, continuando gordos e, agora, doentes. O estômago é basicamente como uma máquina de lavar roupa. Se a capacidade da máquina é para cinco quilos de roupa e colocarem seis quilos, não haverá espaço para a roupa ser lavada e ao fim da lavagem a roupa estará manchada de sabão em pó. O estômago tem o espaço certo para metabolizar até determinada quantidade de alimento por vez; se for reduzido, a pessoa terá que comer menos do que o necessário, e ficará desnutrida.

Assim, a dieta, a cirurgia, deve ser mental. Começará pela meditação, que é viver o agora. Isso, é claro, não é fácil, como nada é fácil no mundo material, que muda a todo instante, se degrada, se dilui, incluindo a energia pré-celestial, a que os cientistas chamam de mensagem genética. Para se medir a dificuldade de se viver no mundo carnal basta pensarmos na força de gravidade, que exige esforço até para ficarmos em pé. E há os apelos, alguns irresistíveis, como sexo, por exemplo. Criou-se a pílula azul para os que não conseguem ereção, mas a pílula azul exige um esforço que o coração, às vezes, não suporta. Mas com alimentação saudável as artérias e veias não engordam, não enrijecem, e o Qi conduz naturalmente o sangue.

São três os alimentos, o combustível da existência no mundo carnal: oxigênio, sem o qual não duramos dois ou três minutos; água e comida, sem as quais morremos em três a quatro dias; e alegria, sem a qual morremos em vida. Como obtê-los e consumi-los no momento e em quantidades ideais?

O oxigênio deve ser puxado via narinas pelo diafragma, músculo situado na barriga. De manhã, ao levantar-se, deve-se inspirar profundamente umas dez vezes, e soltar o ar pela boca; desse modo, estaremos oxigenando todo o corpo, especialmente o cérebro, e damos a partida para aquele dia com todo o fôlego.

Pelo menos 90 por cento do nosso corpo são água, matéria-prima para a produção de sangue, líquido sinovial, lágrima, suor; o estômago e os intestinos precisam de água para funcionar, e o sistema linfático só funciona com água. Uma pessoa adulta perde cerca de dois litros de água por dia, e essa água precisa ser reposta. Perceberam por que é importante tomar dois litros de água por dia? Já atendi paciente se queixando de fibromialgia diagnosticada por médico; ele não tomava nem meio livro de água por dia. Prescrevi dois litros de água diariamente e o paciente ficou bonzinho. Àqueles que não conseguem ingerir água, beba-a aos pouquinhos, adicione-lhe sabor, como hortelã, por exemplo, e procure beber bastante suco.

Quanto à comida, há algumas regras básicas. Evite tudo o que você sente que lhe faz mal. Procure também evitar, mas sem estresse, alimentos com muitos produtos químicos, como margarina, por exemplo, que nem os microrganismos comem, ou refrigerantes, como Coca-Cola, que depaupera o baço, órgão que, conforme entendimento da Medicina Chinesa, produz sangue, governa os músculos e enxuga o organismo, inclusive de tumores.

Após as 18 horas, é radicalmente proibido determinados alimentos de natureza fria. O frio trava a circulação do Qi, a energia vital. Esses alimentos de natureza fria são qualquer tipo de fruta, verduras, legumes crus, leite e doces. A noite é fria, de modo que ao alimentar-se com esses alimentos estar-se-á gerando excesso de frio, ou seja, travamento energético. O sono será ruim e o corpo ficará inchado. O melhor alimento, após as 18 horas, é aquele que vai ao fogo, especialmente abóbora e raízes, como mandioca, batata, inhame e cará, pois eles tonificam o baço.

Outro pecado é comer muito à noite. Como quase não gastamos energia ao deitar-nos, o alimento é estocado no corpo em forma de gordura. Assim, à noite, deve-se comer pouco, e pelo menos três horas antes de dormir.

E a alegria? Há muitas coisas que geram alegria. Perdoar-se a si mesmo, e perdoar o próximo, é uma delas; agradecer aos antepassados, a todas as pessoas e a todas as coisas é outra; disciplina, que é a base da liberdade – liberdade é equilíbrio, harmonia –, é garantia de felicidade. A mente rica é a mente feliz. O bilionário que está preso, ou que é paciente de câncer, é infeliz, logo sua mente não é rica; inclusive dinheiro pode, e não devia ser assim, gerar preocupação, ansiedade. Daí que dinheiro é um valor simbólico, que vale pelo bem que pode proporcionar. Creio que o fator que mais gera alegria é fazer o bem. E só podemos fazer o bem por meio do sentimento de amor, e, para amarmos, é preciso que amemos primeiramente a nós mesmos. Então entenderemos a leveza da luz.  

Biliografia

DUKAN, Pierre. A escada Nutricional: Uma alternativa ao método Dukan clássico. Rio de Janeiro: BestSeller, 2015.

GERBER, Richard. Medicina vibracional: Uma medicina para o futuro. São Paulo: Cultrix, 2007.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos – 23ª Edição. São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1984.

MACIOCIA, Giovanni. Os fundamentos da Medicina Chinesa. São Paulo: Roca, 2007.

MIYAURA, Junji. Os 5 corpos do ser humano. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 2016.

PINHEIRO, Robson: pelo espírito de Joseph Gleber. Medicina da alma – 2ª Edição. São Paulo: Casa dos Espíritos, 2007.

TANIGUCHI, Masaharu. A verdade da vida – 1º Volume. 8ª Edição. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 1992.

*RAY CUNHA é autor do romance FOGO NO CORAÇÃO, ambientado no mundo dos acupunturistas de Brasília/DF. FOGO NO CORAÇÃO e outros livros do autor poderão ser adquiridos na Amazom.com.br e no Clube de Autores

quinta-feira, 7 de junho de 2018

O Universo é vibração. Câncer também


RAY CUNHA*


As células nascem e morrem ao longo de toda a vida, exceto os neurônios, que permanecem vivos da formação do feto até a morte do corpo físico. A cada divisão das células, fragmentos de DNA podem ser perdidos, causando erros genéticos que são transmitidos para as células-filhas; chega um momento em que a célula não consegue mais se dividir e é destruída pelo próprio organismo. Isso acontece o tempo todo, e pode ocorrer de uma célula mutante sobreviver e começar a se multiplicar, até formar um aglomerado capaz de resistir aos linfócitos. Isso é um conceito alopático de câncer.

Mas por que algumas pessoas são vítimas de câncer e outras não? Na condição de terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, cuidei de uma paciente oncológica septuagenária, que tomava 15 medicamentos diariamente, alguns dos quais de tarja preta, sentia dores generalizadas e não dormia bem. Tensa, qualquer preocupação a deixava mais tensa ainda. Como não conseguia deitar-se para ser massageada ou para acupuntura o atendimento era feito com ela sentada. Conseguia fazê-la relaxar com a massagem terapêutica chinesa (tuiná), mas logo depois sua região cervical assemelhava-se a um pedaço de madeira.

Após várias sessões e perguntas recorrentes, mas feitas de forma sutil, consegui entender o que lhe ocorrera. Anulara-se a vida toda primeiramente perante o pai e, depois, o marido. Seu filho único tirou a própria vida naquele momento em que a juventude é imortal. E ela, desde então, levantava-se e ia dormir pensando no filho, numa saudade que a sufocava, e a matava a conta-gotas. Foi quando o cancro começou a latejar no seio direito dela.

A coisa toda surgiu no corpo astral, sede das emoções, minou o corpo etéreo, sede dos sentidos e escudo do corpo físico, e se instalou no seio direito, que é o lado feminino. Ela me contou que logo depois da morte do filho, ele lhe disse, em sonho, que estava bem. Mas como serenar a mente da mãe que perde o filho? Como devolver a alegria da mãe que perde de vista o filho único, no esplendor da juventude, perdido nos corredores escorregadios da loucura dos suicidas? Agulha alguma faz isso. Mas pode-se reequilibrar o corpo físico, fechar as frestas do duplo etéreo e extirpar a inflamação astral.

Na Medicina Tradicional Chinesa, identificamos causas externas e internas das doenças. Aquelas são o vento, o frio e o calor excessivos, secura e umidade; estas, raiva, alegria excessiva, preocupação, pensamento obsessivo, choque emocional violento, tristeza, medo. Tudo isso pode causar desequilíbrio energético e disparar a doença. Neste contexto, câncer é o equivalente a desequilíbrio energético no meridiano do baço, que, então, encontra-se depauperado, falhando numa de suas funções, a de remover a umidade interna, massa viscosa, como catarro, mioma no útero, cisto no ovário, cálculos renais ou na vesícula, tumores benignos ou malignos.

Em termos energéticos, preocupação e estresse depauperam o baço, levando a distúrbios digestivos e à fadiga crônica, como se o paciente estivesse carregando o mundo nas costas. Daí à depressão é um passo. Consumo em excesso de alimentos frios, crus e úmidos, muito açúcar e gordura também enfraquecem o baço, assim como trabalho em excesso e frequente perda de sangue. Assim, em termos energéticos, prevenir o câncer é evitar tudo o que afunda o Qi do baço. Quanto ao câncer oriundo de predisposição genética, teoricamente pode ser tratado pelo meridiano do rim, que contém a energia pré-celestial, ou o Qi essencial.

Além disso, deve-se, imediatamente, cortar os suprimentos favoritos do parasita que cresce no organismo do paciente oncológico: açúcar, leite e carne. E procurar oxigenar o máximo possível as células sãs, pois cancro não suporta ambiente oxigenado.

Contudo, muitos males surgem no corpo astral. Ódio, medo, tristeza, ira, crueldade, inveja, ambição desmedida, avareza, são alguns dos sentimentos que provocam inflamações no corpo astral e frestas no escudo do corpo físico, o duplo etéreo, provocando as mais diversas e assustadoras doenças, inclusive a loucura, e desfechos como o suicídio, que é um cancro que corrói tanto o paciente danado quanto o coração dos que ficam neste plano, porque o suicida abrevia a vida às vezes no momento mais esplendoroso da sua juventude, e fica no limbo, agarrado ao corpo etéreo, ou seja, nem no mundo espiritual nem no mundo físico.

Assim, amar, principalmente a si mesmo; perdoar; ter gratidão por tudo o que tem, mesmo que seja um par de sandálias japonesas, uma bermuda e uma camiseta; ser útil à família, à sociedade e à pátria é remédio, que, embora em doses cavalares, não se transforma em veneno, porque é, sempre, luz.

E se o câncer já tiver avançado e deteriorado a matéria de maneira que não haja mais recuperação, perdoar-se a si mesmo é o antídoto que devolverá o equilíbrio, a serenidade, o riso, e levará ao degrau seguinte na caminhada infinita do Tao.

Os meridianos da acupuntura estão situados no corpo etéreo. Isso ficou bem claro para mim quando atendi o sr. V, no Centro Espírita André Luiz (Ceal), no Guará I, Brasília/DF, onde realizo trabalho voluntário aos domingos de manhã, juntamente com uma equipe de terapeutas holísticos. No Ceal, os pacientes são atendidos de acordo com a ordem de chegada e pelo terapeuta que estiver disponível. Examinei a ficha do sr. V, que tinha 70 anos; sua grande queixa era a extração do intestino grosso. Era a trigésima terceira sessão dele, mas fui direto à queixa original, que, além da retirada do intestino grosso, registrava também dores lombar, sacral e nos ombros e braços, insônia, prisão de ventre e úlcera gástrica.

O sr. V me contou que todas as semanas procurava o pronto-socorro, sofria de diarreia crônica e tudo o que comia lhe fazia mal. Observei-lhe a língua e senti seus pulsos; suas energias esvaíam-se. Eu começara, então, a desenvolver uma técnica, a que chamo de acupuntura dos corpos vibracionais, físico, etéreo, astral, espiritual e divino.

 – O senhor sabe que ainda tem seu intestino grosso, não sabe? – perguntei-lhe, olhando-o nos olhos. Os olhos dele brilharam, numa interrogação. – O senhor continua com o seu intestino grosso, só que no corpo etéreo, que liga o corpo carnal ao corpo espiritual, daí que o corpo etéreo é conhecido também como perispírito, ou duplo etéreo, porque liga o corpo físico ao espírito, e o espírito é imortal, não pode adoecer, não com as doenças que conhecemos aqui, neste plano. Seu intestino grosso foi extraído do corpo físico, mas ele continua intacto no corpo etéreo. Não podemos ver o corpo etéreo, porque sua vibração é muito mais fina do que a do corpo material, que tem uma vibração tão baixa que se materializa.

Ele entendeu na hora, e o brilho dos seus olhos continuou, como duas pequenas lanternas. Sei que só eu podia ver o brilho dos seus olhos, e percebi também que ele sorria.

– Bem, como o senhor não perdeu nada, muito menos seu intestino grosso, vou fazer a limpeza do canal do intestino grosso – disse-lhe, explicando-lhe, rapidamente, sobre os meridianos, que atravessam o corpo como um feixe de fios. Na Medicina Chinesa, limpar um canal quer dizer aplicar agulhas no primeiro ponto daquele canal e cruzar com o último ponto. Então apliquei agulhas no IG 1 esquerdo, que fica no leito ungueal radial do dedo indicador, e o IG 20 direito, no ponto de encontro entre a linha nasolabial e a lateral da asa do nariz.

Apliquei mais o estômago 36 bi, para fortalecer o Qi e o sangue, aumentar o Yang e minorar dores epigástricas, náusea, vômito, má digestão, tontura, fadiga, e fortalecer o corpo e a mente, além do estômago 25, para equilibrar o baço, estômago e intestinos, pondo fim à diarreia. Ainda, apliquei o vaso concepção 12, para tonificar estômago e baço, e o yintang, para extirpar ansiedade e disciplinar os pensamentos, acalmando, assim, a mente, o que acaba melhorando o sono.

Pouco mais de 20 minutos depois foram retiradas as agulhas do sr. V. Orientei-o a tomar pelo menos dois litros de água por dia e a cortar leite, frutas, salada e legumes crus a partir das 18 horas e a passar a comer, à noite, alimentos quentes, principalmente abóbora e raízes, como batata, cará, inhame e mandioca. Frutas, salada, alimentos crus e gelados são de natureza fria; a noite é de natureza fria, o que gera excesso de frio. Frio, na Medicina Chinesa, é travamento energético, e arrasa com o baço.

Notei que o sr. V saiu do ambulatório com vivacidade, “pois agora” – pensei – “ele sabe que seu intestino grosso está lá com ele”. Orientei-o também a me procurar no domingo seguinte. Uma semana depois ele voltou e me disse que não baixou hospital. Outro terapeuta o atendeu e repetiu o protocolo da semana anterior.

Três meses depois recebi a notícia: o sr. V se deu alta.

Atendemos, no André Luiz, médiuns que trabalham no centro, muitos deles com todo tipo de doenças. São obsedados por espíritos que pensam que ainda se encontram no plano carnal e que estão doentes. Digo-lhes que precisam, ao orarem, de manhã, e à noite, agradecer aos seus antepassados, especialmente aos pais; a perdoarem a si mesmos e a enxergarem no próximo – incluindo os drogados, os raivosos, os cancerosos, os que foram estuprados, os que gritam de dor – apenas perfeição. É assim que se limparão das larvas espirituais.

Interessante que esses médiuns veem que nós, os voluntários, estamos cercados de mestres vindos do mundo espiritual, que nos orientam, vigilantes, para que o amor triunfe ali naquele ambulatório. Foi por isso que o sr. V pôde se dar alta.

Tudo no Universo é energia, vibração. O físico alemão Albert Einstein teorizou isso no século 20 por meio da equação E (energia) = m (massa) vezes c2, a velocidade da luz – 300 mil quilômetros por segundo – elevada ao quadrado – 90 bilhões. Nada no Universo está parado, tudo está em movimento. Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma: o Universo não teve início e não terá fim, e está em eterna transformação. Alguém prova o contrário?

O movimento do Universo obedece à lei. A Terra gira em torno do seu eixo e gravita em torno do Sol a 108 mil quilômetros por hora; o sistema solar gira em volta do núcleo da Via Láctea a 830 mil quilômetros por hora; a Via Láctea dirige-se para o Grupo Local a 144 mil quilômetros por hora; o Grupo Local voa para o aglomerado de Virgem a 900 mil quilômetros por hora; tudo isso segue em direção ao Grande Atrator, a 2,2 milhões de quilômetros por hora; o Grande Atrator fica para além de Centauro, a 137 milhões de anos-luz da Terra.

E por que a Terra não despenca no espaço sideral? Porque um tipo de energia garante que o planeta siga na sua rota. Mas se o homem começar a detonar bombas atômicas, ou a poluir em excesso a natureza, a inclinação do eixo da Terra, ou seu clima, sofrerá mudança dramática, e então virá o caos.

Assim, tudo no Universo é energia, vibração e sintonia. O que sintonizamos nas ondas de rádio é a sua vibração, assim como as pessoas tristes e que odeiam atraem a tragédia, a morte, e os que se alegram e amam são os leões de asas, porque cavalgam a luz.
  

Biliografia

GERBER, Richard. Medicina vibracional: Uma medicina para o futuro. São Paulo: Cultrix, 2007.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos – 23ª Edição. São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1984.

MACIOCIA, Giovanni. Os fundamentos da Medicina Chinesa. São Paulo: Roca, 2007.

MIYAURA, Junji. Os 5 corpos do ser humano. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 2016.

PINHEIRO, Robson: pelo espírito de Joseph Gleber. Medicina da alma – 2ª Edição. São Paulo: Casa dos Espíritos, 2007.

TANIGUCHI, Masaharu. A verdade da vida – 1º Volume. 8ª Edição. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 1992.


*RAY CUNHA é escritor e terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, autor do romance FOGO NO CORAÇÃO, ambientado no mundo da acupuntura em Brasília/DF

Você pode adquirir FOGO NO CORAÇÃO e outros romances de RAY CUNHA na Amazon.com.br ou no Clube de Autores

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Como queimar a ponte que leva ao passado e extinguir o abismo do futuro

RAY CUNHA*

Aquela noite ecoou por duas décadas na vida de M, sobrepondo-lhe um peso na região cervical que ia curvando-a, formando uma corcova, apesar dos seus 37 anos. Quando a coisa aconteceu ela tinha 17 anos. Durante uma festinha na casa de um casal de amigos adolescentes, puseram “boa noite, cinderela” no seu refrigerante e a estupraram. Filha única, a mãe, viúva e beata, guardiã dos bons costumes, soube do caso três dias depois. A partir dali, o inferno baixou naquela casa. A mãe, que já era travada, tornou-se ainda mais carrancuda e se fechou em um luto sem trégua. M se graduou em Economia, passou em concurso para o Banco do Brasil e foi gerenciar uma agência no interior do Pará. Competente, tornou-se funcionária modelo. Vivia para o trabalho e para a mãe, que continuava mergulhada no drama de 20 anos atrás. Muito bonita e assediada, M chegou a ter alguns namoricos, mas havia sempre um momento em que ela não podia ir adiante e então interrompia bruscamente o relacionamento. À medida que o tempo passava, o que sua mãe chamava de “pecado imperdoável” pesava mais e mais nas costas de M, que começou a sentir dores na coluna; as dores eram tantas que um médico lhe disse que ela sofria de fibromialgia. Até que M encontrou um terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa. Alguém, no trabalho, lhe dera uma revista chamada “Mulher Feliz”, publicada pela Seicho-No-Ie; ela leu a revista de capa a capa e gostou, e soube, pela colega que lhe dera a publicação, que havia um pequeno grupo de pessoas na cidade que se reunia para estudar a obra do fundador da Seicho-No-Ie, o filósofo japonês Masaharu Taniguchi. M atendeu ao convite da colega e foi à reunião, semanal, na casa de uma das participantes do grupo, e lá conheceu o terapeuta. Ela contou sobre as dores que sentia e ele a convidou para ir ao seu ambulatório no dia seguinte. Ela foi.

O terapeuta examinou a língua e auscultou os pulsos de M, e começou o tratamento com tuiná, a massagem terapêutica chinesa, aplicando uma série de manobras na cabeça da paciente e massageando-lhe o peito na altura do timo. Depois, ela virou em decúbito ventral e ele a massageou e fez alongamento na sua região cervical. Novamente em decúbito dorsal, o acupunturista começou a aplicação de agulhas: VG 20, Os Quatro Cavaleiros, Yintang, VC 17, PC 6 e R 9. M, que não vinha dormindo bem, caiu em sono profundo; 40 minutos depois o terapeuta a acordou.

Pesquisador de Medicina Vibracional, ele percebera, na noite anterior, que M estava seriamente atingida no seu corpo astral, o estado de consciência das emoções.

– Agora, que você está bem relaxada, podemos começar a anamnese. Você está emocionalmente tensa, e isso vem travando suas energias Yin e Yang, causando desequilíbrio, e dores, no seu corpo etéreo, o que seu médico diagnosticou como fibromialgia. Precisamos identificar a origem dessa tensão; é ela que vem desequilibrando você; é a causa de todos os aborrecimentos que você enfrenta em casa e no trabalho. Precisamos encarar, de frente, esse... obstáculo, seja lá o que for. – O terapeuta fez uma pausa. – E então? – perguntou.

M começou a chorar. Chorou durante uns cinco minutos. O terapeuta parecia meditar enquanto ela chorava.

– Eu tinha 17 anos e cometi um pecado horrível; minha mãe disse que vou morrer pecadora e que vou para o inferno, porque, além do pecado original, ainda há esse outro que eu cometi – ela disse, em um arranco.

O terapeuta sorriu.

– Minha filha, ninguém é pecador, e não existe pecado original. Aliás, não existe pecado nenhum. Em a natureza, não há bem ou mal; nós é que qualificamos as coisas, os acontecimentos. Ninguém nasce pecador; pelo contrário, somos, todos, filhos de Deus. E se somos filhos de Deus, somos deuses também. O que ocorre é que muitos de nós ainda não manifestamos a luz, o mundo perfeito de Deus. Encarnamos na vibração da matéria para evoluir mais rapidamente, porque, aqui, os apelos e o apego são quase irresistíveis. Mas somos espíritos, nossa corpo original vibra em outra dimensão. Você nunca pecou; você apenas está acorrentada em certo momento do seu passado.

– Eu tinha 17 anos e fui a uma festinha na casa de um casal de coleguinhas; colocaram droga no meu refrigerante e me desvirginaram. Três dias depois minha mãe descobriu o que aconteceu e disse que eu estava perdida, e deixou de me amar, de me fazer carinho – disse isso e chorou de novo.

– Querida, o que é o hímen senão uma pelica? Quanto à opinião da sua mãe, trata-se de uma verdade apenas para ela, e cada qual tem seu estado de consciência, seu mundo, ou sua compreensão da vida. Nas suas orações, perdoe sua mãe, e a ame sempre; isso gerará luz, e a luz desata qualquer nó. O passado não existe, é uma ilusão. A menina desvirginada não existe mais; hoje, você é uma mulher, muito bonita, aliás, gerente de uma agência do Banco do Brasil, e que anda sobre suas próprias pernas. Sua mãe só ampliará a mente dela se você mudar a sua própria mente. Não mudamos as pessoas; o mundo muda quando nós mudamos. Sobre pecado original, isso é conversa fiada, ninguém peca por nascer; pelo contrário, nascer é um privilégio, a oportunidade de evoluirmos espiritualmente. Queime a ponte que leva ao passado, e você não poderá mais fazer essa viagem. Como queimar? Apenas pare de pensar nisso. Ao invés de pensar que é pecadora, conscientize-se de que você é filha de Deus, e de que todo o Universo depende de você, pois você, como todo mundo, é o centro do Universo. O Universo não é infinito? Pois bem, o infinito parte para todos os lados, e, se assim é, há sempre um centro, e você é o centro. Por isso, posicione-se na vertical, olhe para a frente, abra o peito para a vida, não se encolha mais, pois você, como todo mundo, é dona de todo o Universo, e tem o espaço infinito disponível para si mesma, sem tirar sequer um pedacinho do espaço alheio. Livre-se do tremendo peso que você carrega, e que nem existe. De manhã, quando fizer sua higiene e olhar pela primeira vez para o espelho, sorria, e diga que você é muito amada por você mesma.

Ela o olhou com os olhos brilhando.

– Nossa! O senhor tirou um peso das minhas costas que eu não estava mais suportando – disse, respirando profundamente, aliviada, sorridente. Pobre da minha mãe; sofreu tanto esses anos todos! Eu já a perdoei e vou pedir perdão a ela hoje mesmo!

Algum tempo depois, M deixou o Banco do Brasil, convidada para assumir um cargo de chefia em uma multinacional. Quanto à sua mãe, estava sorridente no casamento da sua amada filha.

O Universo é feito do que intuímos, e denominamos, de energia, que não pode ser criada nem destruída, mas apenas modificada, e que existe desde antes e existirá depois dos tempos. A energia se manifesta em campos vibracionais. Logo, nós, humanos, somos campos, ou corpos vibracionais. A mente é um conjunto de corpos vibracionais, entre os quais o corpo material, que vibra submetido a duas dimensões: espaço e tempo. O espaço pode ser medido por altura, largura e espessura; e o tempo está relacionado às transformações que ocorrem a cada instante à matéria, até a dissolução do corpo físico em átomos, quando o espírito se desassocia dos corpos, físico, etéreo (sede dos sentidos), e astral (sede das emoções). Dependendo o estado de consciência do espírito, às vezes, ao desencarnar, ele fica preso ao corpo astral, ou do corpo etéreo, até resolver pendência da vida material, e então ascender a orbe superior.

Enquanto mentes, encarnamos para evoluir, sair do estado de consciência material, imperfeito, e manifestar-se em um estado de consciência superior. Somos, por conseguinte, estados de consciência únicos, o núcleo do próprio Universo, que está sempre se expandindo para todos os lados, e para dentro também, manifestando a perfeição, o imutável, o eterno, o criador.

De modo que a existência material não passa de apego à matéria, que, como dizem os budistas, não existe de fato, esfarinha-se, muda a todo instante, até a morte física, quando tudo o que é material se dilui, desaparece. Assim, tudo o que é inerente à matéria, tempo e espaço, é sombra da mente. Logo, passado e futuro não existem. A eternidade, no mundo material, é agora.

Quando alguém se acorrenta ao passado, seja por nostalgia, seja por remorso, a vida não caminha; a energia vital, que os chineses chamam de Qi, empaca, o corpo astral se inflama, refletindo-se no corpo físico em doenças, acidentes, desemprego, pobreza financeira, dramas existenciais, tragédias, e atingindo, sempre, os filhos, e as pessoas amadas.

O que fazer, então? Arrepender-se do ato que o acorrentou ao passado, o propósito de não mais o cometer, e não voltar a pensar no assunto.

Quanto ao futuro, também é ilusão. Não sabemos sequer se estaremos fisicamente vivos no momento seguinte. Assim, viver no futuro, é um estado de consciência que os psicólogos chamam de ansiedade. Por exemplo: um estudante tem prova marcada para daqui a uma semana. Em vez de apenas estudar para a prova ele também passa a semana toda pensando na prova. Desse modo, ele se sentirá exausto no dia da prova, e sentirá um branco na memória, por conta do desgaste de ter passado a semana toda fazendo a prova, inclusive à noite. A ansiedade, ou preocupação com o futuro, depauperou seu meridiano energético do baço, que, segundo a Medicina Chinesa, produz sangue e governa os músculos; sem sangue tonificado não há repouso, e, sem tônus, os músculos murcham, gerando cansaço ao menor esforço.

Com efeito, não existe passado nem futuro; só há o agora, o momento mesmo da vida, que é eterno, porque é o núcleo do Universo. Um exercício prático para vivermos o agora é a meditação. Pessoas ansiosas são atacadas por um cipoal de pensamentos o tempo todo, e muitos desses pensamentos são pura fantasia. A meditação dissipa os pensamentos, até chegar ao foco, e o foco é sempre agora. A melhor meditação que eu conheço é a oração, formal ou informal, porque ela nos conduz ao divino, à vibração do núcleo do Universo. E, durante a meditação, ou da oração, agradeces aos teus antepassados, especialmente aos pais, e a tudo o que és, e que tens. A gratidão é uma vibração que nos harmoniza com o núcleo.

Se o nó que o prende ao passado formou-se de um erro cometido, ou do ressentimento que nutres contra alguém, pedes perdão a esse alguém, e o perdoas. Se o nó surgiu da expectativa de possuir alguém por quem estás apaixonado, e que não quer saber de ti, libertas essa pessoa da tua mente. Ages assim para todos os nós. E praticas, sempre, o bem. É assim que queimamos a ponte que leva ao passado e extinguir o abismo do futuro.

É tiro e queda. A tristeza, gerada pelos erros do passado, desaparece; a ansiedade se esfuma; o câncer murcha e some; e o riso volta a soar no jardim da vida, como rosa que se desnuda ao sol.


Biliografia

GERBER, Richard. Medicina vibracional: Uma medicina para o futuro. São Paulo: Cultrix, 2007.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos – 23ª Edição. São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1984.

MACIOCIA, Giovanni. Os fundamentos da Medicina Chinesa. São Paulo: Roca, 2007.

MIYAURA, Junji. Os 5 corpos do ser humano. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 2016.

TANIGUCHI, Masaharu. A verdade da vida – 1º Volume. 8ª Edição. São Paulo: Seicho-No-Ie do Brasil, 1992.


* Leia de RAY CUNHA o romance FOGO NO CORAÇÃO, thriller ambientado no mundo da Medicina Chinesa em Brasília. O livro pode ser adquirido no Clube de Autores ou na loja virtual da Amazom.com.br

sábado, 31 de março de 2018

Olivar Cunha: gênio do Amapá, na Amazônia caribenha, completa 50 anos de artes plásticas

Macapá, 1985: Klingerly, Márcio André, Linda, Marina
(mãe do gênio), o gênio Olivar Cunha e Mel

RAY CUNHA


Tuiuiú Crucidicado
BRASÍLIA, 31 DE MARÇO DE 2018 – Em 31 de março de 1952, João Raimundo Cunha plantava uma seringueira no quintal da sua casa, na esquina das ruas Iracema Carvão Nunes e Eliezer Levy, onde é hoje o Colégio Amapaense, em Macapá; anos depois, a seringueira ficou no caminho do muro do colégio, mas foi poupada, com o desvio do muro. Também naquele ano nascia mais um varão na família Cunha, Olivar, chamado carinhosamente pelas suas filhas, Tatiana e Taiana, de Lili. Lili completa, hoje, 65 anos de idade, e 50 como artista plástico.

A seringueira é a mesma que aparece na capa da edição da Amazon.com do meu romance A CASA AMARELA, uma recriação da casa onde o gênio nasceu. Olivar Cunha também aparece em outro romance meu, HIENA, que pode ser adquirido na Amazon.com.br e no Clube de Autores. A CASA AMARELA foi publicado ainda no Clube de Autores

Olivar Cunha e favela amazônica
Ele tinha 15 anos, em 1967, quando expôs pela primeira vez, em Macapá. É fácil encontrar a antiga aldeia dos índios tucujus no mapa: fica no cruzamento da Linha Imaginária do Equador com o maior rio do planeta, o Amazonas. A cidade se debruça na margem esquerda do estuário do colosso, a cerca de 250 quilômetros do Atlântico, no setentrião brasileiro, a Amazônia caribenha. Naquela época, eu tinha 13 anos, e já era fã do grande artista. Hoje, são 30 exposições individuais e 35 coletivas, realizadas em diversas cidades do país.

Início dos anos 90: Lili, eu e Josiane, em Brasília
Em 1967, frequentávamos a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, próximo ao Macapá Hotel: R. Peixe; o poeta e cronista Alcy Araújo; Olivar Cunha; o poeta Rodrigues de Souza, o Galego; o pintor e poeta Manoel Bispo; o poeta e contista Joy Edson; o compositor, poeta e contista Fernando Canto; a poeta Alcinéa Cavalcante...

Auto-retrato do gênio
Nas décadas de 1970/1980, o artista mudou-se para Belém do Pará, quando produziu algumas dezenas de telas que o colocam como um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos: seus mendigos do Guamá, subúrbio da Cidade das Mangueiras, são tão chocantes quanto a colonização do Inferno Verde.

Depois de morar no Rio de Janeiro, onde estudou no Parque Lage, nos anos de 1990, consolidou sua posição como um dos grandes expressionistas contemporâneos com a série de animais agonizando no esgoto das grandes cidades, como na impressionante acrílica sobre tela Tuiuiú Crucificado, sobre o esgoto em que se transformou a baía de Guanabara.

O Tuiuiú Crucificado é, talvez, o berro mais fovista, o grito mais expressionista de Olivar Cunha. Ele a pintou em três meses, em 1992, em Jacareípe/ES. Trata-se de uma acrílica sobre tela, em espátula e pincel, de 120 cm por 100 cm. Pertence à fase que o pintor chama de Habitat Transform, desenvolvida no Rio de Janeiro e em Jacareípe/ES, após pesquisa sobre a devastação da flora e da fauna do Pará, do Amapá e do Pantanal.

Guamá, Belém do Pará, anos 70
A Amazônia é recriada na espátula do pintor à base de espilantol, o princípio ativo do jambu, indicador de que o gênio pinta, na verdade, a alma das suas criaturas, sejam elas pessoas ou paisagens. Assim, as telas de Olivar Cunha gritam como o coração das trevas, mas também pulsam no rio da tarde, prenhes do perfume dos jasmineiros noturnos. O artista dá à luz a Amazônia eternamente viva, a Hileia que só os caboclos entendem – os apreciadores de merengue, de mapará assado na brasa servido com pirão de açaí, os que se emocionam com o trotar da mulher amazônida no calor equatorial, o mergulho no rio que deságua na tarde, os segredos que se encerram em Macapá, Belém, Mosqueiro, Salinas, Caiena...

O grande artista vive hoje no paradisíaco Jacaraípe, distrito atlântico do município de Serra, na grande Vitória/ES, onde se consolida também como restaurador, recuperando obras sacras de igrejas da região. A trajetória artística de Olivar Cunha é a comprovação da sua genialidade. Vida longa ao gênio!

domingo, 25 de fevereiro de 2018

O Empreendimento




RAY CUNHA

Sou empreendedor. Empreendo por meio do verbo
Crio o azul, o mar, a eternidade, e os ponho em equilíbrio
Construo maravilhas, como a dimensão em que, apesar da queda
E do abismo, o cair é para cima

Sou escritor, dou à luz personagens e sei construir versos
E assim, como Deus, empreendo o Yang e o Yin
Ao criar, nos mundos em construção, os alicerces
Faço explodir, de um buraco negro, um Big Bang infinito

Mas minha maior criação, meu voo mais alto, não surgiu por meio do verbo
É fruto da conjunção de um amor que nunca teve começo nem terá fim
Quando a mulher amada e eu demos início ao nosso empreendimento

Foi assim, nos sentindo um só, que surgiu uma nova era
O nascimento da mais perfumada das flores, com o doce nome de Iasmim
E, desde então, o mundo se tornou a sagração da primavera


Brasília, 22 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Romance de Ray Cunha retrata o Golpe Militar de 1964, em Macapá/AP, Amazônia Caribenha

Capa da edição da Amazom.com
Lançado em 2004, pela Editora Cejup, de Belém/PA, as tiragens que a editora colocou no mercado estão esgotadas. Agora, A CASA AMARELA volta a ser publicado, agora pela Amazon.com e pelo Clube de Autores.

A história – que tem início com o golpe militar de 31 de março de 1964, início da Ditadura dos Generais, que durou até 1985 – é ambientada na Macapá dos anos 1960. A Fortaleza de São José de Macapá, o maior ícone dos amapaenses, é palco da tragédia que fornece o argumento do romance: a tortura e morte do presidente do Grêmio Literário Rui Barbosa, acusado de ser comunista.

Os Picanço Cardoso vivem na Casa Amarela, em torno da qual há um jardim prenhe de rosas e zínias, e onde predominam uma seringueira, uma mangueira e um cajueiro, cercados pelo muro do Colégio Amapaense. A casa e as árvores têm sentimentos humanos e o Quartinho é frequentado também por mortos, como Ernest Hemingway, ou Antoine de Saint-Exupéry.
Os bailes reunindo a juventude dourada macapaense, no clube conhecido como Piscina Territorial, a bela esposa infiel de um milionário, lutas de boxe, o aterrorizante Velho Rocha, o apolínio Alexandre Cardoso e o trágico Alexandre filho, o prostíbulo Suerda, o campeão onanista Pentelho de Vaca, o Colégio Amapaense, são personagens que compõe uma espécie de concerto com três movimentos, no qual se destaca A Casa Amarela.

Ao fundo, a cidade ribeirinha, seccionada pela Linha Imaginária do Equador, afoga-se na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, quando o gigante se avoluma para lançar no Atlântico 180 mil metros cúbicos de água por segundo, 16% da água doce despejada nos oceanos do mundo; em maio, sobe para 260 mil metros cúbicos por segundo, e, em novembro, cai para 100 mil metros cúbicos por segundo.

“Para quem acredita na máxima de que os livros nos fazem viajar, nada como aproveitar a literatura para conhecer o país. O UOL selecionou 27 livros que mostram características locais dos diferentes Estados brasileiros e do Distrito Federal” – recomenda o site UOL, citando A CASA AMARELA como o livro de ficção que melhor retrata o Amapá.

RAY CUNHA nasceu em Macapá, em 7 de agosto de 1954. Aos 17 anos, publica seu primeiro livro, XARDA MISTURADA, juntamente com os poetas José Edson dos Santos e José Montoril. Aos 21 anos, começa a carreira de jornalista, em Manaus. A partir daí, trabalha em vários jornais da Amazônia, viajando amplamente pela região. Atualmente, o autor vive em Brasília, onde, além do ofício de escritor, continua trabalhando como jornalista e também como terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, formado pela Escola Nacional de Acupuntura (ENAc).

RAY CUNHA é também autor dos romances:


E dos livros de contos:


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Sempre me perco em ti, e sempre de propósito

A Seringueira que intercepta o muro do Colégio
Amapaense, na Rua Eliezer Levy, é personagem no meu
romance A CASA AMARELA, que será publicado em
breve na Amazon.com e no Clube de Autores


As cidades são como as mulheres. De manhã, douram-se ao sol, como as rosas, e, à tarde, se transformam em um rio azul. À noite, se perdem na luz. Da mesma forma que as mulheres, nas cidades latejam segredos, só desvendados pelos que sabem mergulhar no abismo da primavera. Quanto mais as amamos, mais belas ficam, e mais misteriosas. E, como as mulheres, nunca são nossas. Não podemos ser donos de uma cidade, da mesma forma que é impossível nos apossarmos de uma mulher, porque as mulheres serão sempre livres e misteriosas. A cada partida, fica implícito o encontro marcado, e as chegadas são regadas de risos, de luz, e perdão.

Amo várias cidades, e elas se entregam a mim sem reservas. Belém tem feitiço de rosas colombianas sangrando no azul do mar, deixando um rastro de Chanel 5, gim e perfume de mulher absorta ao toucador. Manaus evoca o cheiro de mulher, tão intenso que causa vertigem, a ponto de sentirmos os movimentos da Terra no espaço, como música de Mozart. O Rio de Janeiro tem o poder de me fazer voar, cavalgando besouros furta-cores num mar transparente sem fim. Há, ainda, outras cidades, a quem eu seduzo como o garanhão faz a corte à sua próxima vítima, com paciência, concentração total e, sobretudo, fé. Percorro as cidades com amor. Assim é com Macapá.

Os tucujus a habitavam quando Carlos V de Espanha a chamou, em 1544, de Adelantado de Nueva Andaluzia e a deu ao navegador Francisco de Orellana. Em 1738, foi instalado, no cruzamento da Linha Imaginária do Equador com o rio Amazonas, um destacamento militar, na antiga Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral. Em 4 de fevereiro de 1758, o capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundou a Vila de São José de Macapá, que se debruça sobre o maior rio do mundo, não muito distante do Atlântico. Na maré alta, o gigante avança sobre a cidade, entre o açoite do vento e o muro de arrimo, onde estaca, recua e arremete com mais ímpeto. Em meio à agitação, o Trapiche Eliezer Levy emerge, indiferente.

A melhor maneira de descobrir Macapá é atravessando de barco o estuário do rio Amazonas. Quem sai do arquipélago do Marajó e mergulha no maior rio do mundo, em direção à Linha Imaginária do Equador, avista, de repente, a cidade, que surge como cunhantã se banhando no rio, o vestido molhado, colado ao corpo, os cabelos espargindo água, e, nos olhos, o mistério. É assim que gosto de pensar a cidade, e sentir seu cheiro tórrido de jasmim nas noites mornas.

Sou teu, Macapá, porque tu me pariste às 5 horas do dia 7 de agosto de 1954, no Hospital Geral, e de lá fui para a Casa Amarela, ao lado do Colégio Amapaense, na Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Eliezer Levy, ao lado da Mata do Rocha, e lá passei 11 anos da minha infância. Restou a Seringueira, que meu pai plantou, e que foi salva de ser decepada – porque se recusou a sair do caminho do muro do Colégio Amapaense – pelo agrônomo Luiz Façanha, que se abraçou ao seu tronco num gesto de amor. Meu pai, João Raimundo Cunha, semeou a Seringueira, em 1952, ano do nascimento do meu irmão, o pintor genial Olivar Cunha. Macapá, para mim, é isso, e é tanta coisa.

Macapá é como a mulher que desejamos por muito tempo e que inesperadamente está diante de nós, nua, mas só acredito que estou nela quando a cidade me engole. Entro no santuário despido de todas as feridas, e mergulho num mundo prenhe de jasmineiros que choram nas noites tórridas, merengue, mulheres que recendem a maresia, o embalar de uma rede no rio da tarde, tacacá, Cerpinha, e lhe oferto rosas, pedras preciosas, luz, toda a minha riqueza. É nesse mergulho que sempre me perco em ti, e sempre de propósito, numa vertigem da qual só me recupero em Brasília, dias depois.

As viagens que fazemos no coração são vertiginosas demais. A casa da minha infância, cada palavra que garimpei em madrugadas eternas, cada gota de álcool com que encharquei meus nervos, cada mulher que amei nos meus trêmulos primeiros versos, cada busca do éter nas noites alagadas de aguardente, o jardim da casa da Leila, no Igarapé das Mulheres, o Elesbão, a casa da Myrta Graciete, a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, o Macapá Hotel, o Trapiche Eliezer Levy, pulsam para sempre no meu coração, que enterrei na Rua Iracema Carvão Nunes.