domingo, 31 de março de 2019

Memórias da infância e juventude do irmão de um gênio das cores e da luz: Olivar Cunha

Sobrinhos Klingerly e Márcio, Linda (irmã), Marina (mãe), Olivar Cunha e Mel (irmã)

Por RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 31 DE MARÇO DE 2019 – Nasceu pesando 3,5 quilos e mamou até aos dois anos. Depois que começou a articular as primeiras palavras, quando queria mamar, pedia “piti”. Pode ser por isso que se tornou o xodó da mãe, a bela Marina Pereira Silva Cunha, que já tinha, então, uma prole de quatro homens e duas mulheres; tivera três filhas, porém a mais velha morreu em tenra idade. Olivar Cunha é, portanto, o oitavo de 11 filhos, e o primeiro a nascer em Macapá, seguido por mais dois irmãos, entre os quais, eu, e uma irmã.

Morávamos na Rua Iracema Carvão Nunes, esquina com a Rua Eliezer Levy, numa casa amarela, remanescente do antigo aeroporto, ao lado do Colégio Amapaense.  No dia do nascimento do Olivar, 31 de março de 1952, nosso pai, João Raimundo Cunha, plantou a Seringueira que intercepta o muro oeste do Colégio Amapaense, na Rua Eliezer Levy, e que escapou de ser decepada graças à intervenção do engenheiro florestal Luiz Guilherme Dias Façanha, nascido em 18 de julho de 1952, e amigo de infância do Olivar.

Em 1983, Luiz Façanha trabalhava como especialista em seringueira (Hevea brasiliensis) na extinta Superintendência da Borracha (Sudhevea), um dos órgãos federais absorvidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A Seringueira apresentava uma grande lesão no tronco. Debilitada, foi atacada por fungos e insetos.

Segundo Luiz Façanha, estudantes fizeram forte pressão junto à Prefeitura de Macapá e ao Governo do Estado para que autorizassem abater a árvore, alegando risco de vida para quem por ali transitava. Foi então que o repórter da Rede Globo, Antônio de Pádua, solicitou a Luiz Façanha que fizesse uma gravação no local, para dar sua opinião sobre o caso. Após minuciosa inspeção, Façanha verificou que a árvore estava se recuperando do ferimento, embora muito lentamente, e em razão disso posicionou-se contrário ao abate. “É claro que pesou na minha decisão todo o histórico da nossa infância brincando em volta daquela árvore: Olivar, João, Chico, Ray Cunha e eu.”

O fato é que a Rede Globo e Luiz Façanha salvaram a Seringueira. Em 2004, a Editora Cejup, de Belém do Pará, publicou meu romance A CASA AMARELA, ambientado em Macapá, a partir do ano de 1964. Nele, a Seringueira, já com inicial maiúscula, se tornou personagem do romance, com atitudes humanas, como, ao se emocionar, sacudir as folhas sem vento e verter leite sem golpe no tronco.

“Minha convivência com o Olivar foi, basicamente, no nosso período de infância. Estudamos juntos no então Grupo Escolar Anexo da Escola Normal e lá fizemos todo o Curso Primário, nos idos dos anos 1950/1960. Após as aulas, dividíamos nosso tempo brincando pelos quintais do seu João (pai do Olivar), correndo por cima dos muros e se pendurando nas árvores do quintal. Tempo bom que não volta mais” – lembra Luiz Façanha.

Olivar Cunha foi uma dessas crianças que as mulheres adoram apertar nos braços, beijar, acariciar. Não lembro quantos anos ele tinha quando sua então professora, que morava sozinha e que se manifesta, hoje, na minha memória, como uma mulata sensualíssima, se ofereceu para dar reforço escolar a ele na sua casa e ele não quis de jeito algum, porque, segundo pude intuir, mais tarde, de declarações suas, ela era exageradamente carinhosa para com ele, e ele ainda muito criança.

O gênio do artista plástico começou a se revelar no curso primário; seus trabalhos eram formalmente impecáveis, e já revelavam criatividade. Encarava também os trabalhos de educação artística de sua irmã Lindomar Cunha, então se preparando para trabalhar no jardim de infância. Pré-adolescente, começou a brincar com seu pequeno prato de massas coloridas e pincéis de tamanhos variados.

Sou dois anos mais jovem do que o Olivar. Em determinado momento da nossa vida, isso faz muita diferença. Aos 14 anos, em 1966, ele já pintava profissionalmente, saía à noite e bebia, e eu era um garoto de 12 anos. Aos 15, expôs pela primeira vez, e andava na companhia dos artistas mais conhecidos da cidade: o poeta Isnard Brandão Lima Filho, o escritor Alcy Araújo e o pintor Raimundo Peixe, além do nosso irmão Pedro Cunha, então com 22 anos, e que era, naquele momento, uma espécie de guru para o Olivar. Eu tinha 13 anos. Lembro-me que fiquei deslumbrado com a estreia do Olivar.

Comecei também a sair à noite, a beber e a frequentar a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho aos 14 anos. O Olivar estava com 16. Durante algum tempo, ele não aceitava que eu mergulhasse na vida noturna, e deixava claro que minha presença no mundo underground de Macapá, onde ele circulava, não era bem-vinda. Então, eu procurava evitar os bares frequentados por ele. Mas chegou um momento em que teve que me aceitar, pois me impus, seja lendo bastante e me tornando interessante nas rodas de artistas, seja porque bebia cada vez mais pesadamente, o que fazia de mim um adolescente irreverente, iconoclasta, que impunha respeito pelas besteiras que pudesse fazer caso fosse provocado.

Só que o Olivar estava muito além de mim, como, aliás, sempre esteve. Tornou-se um rapaz muito bonito, apolíneo, ariano, bom de porrada que só ele mesmo, hedonista, e que cada vez mais dominava as cores e a luz. Eu, que já o admirava, comecei a idolatrá-lo. Permaneci em Macapá durante meus primeiros 17 anos, quando, em dezembro de 1971, publiquei o livro de poemas Xarda Misturada, juntamente com José Edson dos Santos (Joy Edson) e José Montoril. No ano seguinte, comecei um período de 10 anos na estrada, começando pela viagem de Macapá ao Rio de Janeiro, em 1972, quando viajei de barco de Macapá para Belém, onde peguei carona para Brasília e daqui fui de ônibus para Rio.

De modo que o período mais intenso que convivi com Olivar Cunha foi dos meus 14 aos 17 anos, juntamente com artistas locais, como Joy Edson, Fernando Canto, Poeta Galego, Alcinéa Cavalcante, José Montoril, além de Isnard Brandão Lima Filho, pai literário da minha geração. Não sei agora, mas, naquela época, os artistas de Macapá incensavam uns aos outros, nos prefácios dos seus livros, em artigos e nas rodas de papo. Mais tarde, lendo biógrafos ingleses e americanos, observei como os biografados, por mais geniais que sejam, são dissecados, e, seus defeitos, checados, e revelados sem dó nem piedade, o que adotei neste curtíssimo ensaio biográfico sobre Olivar Cunha: sem incenso, revelando o homem através da lente mais precisa possível, muito embora, estou ciente disto, resgatar como as coisas eram seja tarefa impossível, ainda mais em um trabalho tão curto quanto este, com epicentro em apenas três anos e foco em uma personalidade tão extraordinária e que tanta emoção me provoca.

Contudo, o homem que vai surgindo na minha lembrança é o mesmo que me disse, certa vez, que “viver é um tesão”, um homem capaz de tomar um litro de Run Bacardi sozinho ao longo de um bate-papo, de sair para a porrada contra dois oponentes e se sair bem, de fumar três maços de cigarros em uma noite, de beber durante 48 horas seguidas, de pintar madrugada adentro. O Olivar Cunha que habita minha memória é beberrão, machão, idealista, bom de porrada, belo, amado, adorado, incansável como Pablo Picasso e esquizofrênico como Van Gogh.

Uma madrugada, um marchand francês acordou todo mundo, em casa, porque teria que viajar para a França naquela manhã e queria porque queria levar alguns quadros do Olivar, e levou o que estava disponível. Acho que foi mais ou menos por essa época que ele pintou os Beatles, 1969. Juntou na tela vários momentos diferentes do Beatles, recortando fotos de várias revistas, reproduzindo-as naquele óleo. Mais ou menos em 1970, vendeu o quadro dos Beatles para Luiz Façanha, que o mantém na casa dele, no Recife, onde mora.

Nas décadas de 1970/1980, casado com Maria da Glória Nascimento Cunha, o artista morou em Belém, quando produziu algumas dezenas de telas que o colocam como um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos: seus mendigos do Guamá, subúrbio da Cidade das Mangueiras, são chocantes. Olivar e Glória namoraram durante 7 anos e foram casados por 7 anos. Ela partiu cedo para o mundo espiritual. Em Belém, Olivar ganhou um novo nome: Lili, batizado pela sua filha Tatiana, assim que ela aprendeu a falar, e que lhe deu um neto: Bernardo Cunha Barros, hoje com 4 anos. Lili teve outra princesa com Glória: Taiana, que lhe deu um neto: Alexandre Cunha de Sousa, hoje com 3 anos.

Viúvo, Lili foi para o Rio de Janeiro, estudar artes plásticas no Parque Lage. De volta a Macapá, conhece a capixaba Célia Maria Rocha Cunha, em 1986, casam-se no ano seguinte, e, em agosto de 1988, mudam para o Espírito Santo, onde nascem os filhos Ângelo Ticiano Rocha Cunha e Luciano Rocha Cunha.

Nos anos de 1990, consolida sua posição como um dos grandes expressionistas contemporâneos, com a série de animais agonizando nos esgotos das grandes cidades, como na impressionante acrílica sobre tela Tuiuiú Crucificado, sobre a baía de Guanabara – talvez o berro mais fovista, o grito mais expressionista de Olivar Cunha. Ele pintou esse quadro em três meses, em 1992, em seu apartamento na praia atlântica de Jacaraípe, distrito do município de Serra, na grande Vitória do Espírito Santo.

Trata-se de uma acrílica sobre tela, em espátula e pincel, de 120 por 100 centímetros. Pertence à fase que o pintor chama de Habitat Transform, desenvolvida no Rio de Janeiro e em Jacaraípe, após pesquisa sobre a devastação da flora e da fauna do Amapá, do Pará e do Pantanal. Depois que se mudou para Jacaraípe, começou também a recuperar obras sacras de igrejas da região.

Apesar de contar com o mar onde foi fisgado o maior marlim azul do mundo, o Atlântico ao largo do Espírito Santo, é a Amazônia que pulsa nas telas do gênio, recriada à base de espilantol, o princípio ativo do jambu. O tacacá, que leva jambu, é gostoso servido naquele momento de transição em que a tarde escoa como um rio de planície, que vai se esvaindo, lentamente, ao mergulhar nas luzes do anoitecer. É o espilantol que dá aquela sensação de dormência nas papilas gustativas, ativando as papilas da alma. Então, sentimos gosto de Cerpinha, Run Bacardi, a vertigem do beijo, som de merengue.

O gênio pinta a alma das suas criaturas, sejam elas pessoas ou paisagens. Assim, as telas de Olivar Cunha gritam como o coração das trevas, mas também pulsam no rio da tarde, prenhes do perfume dos jasmineiros noturnos. O artista dá à luz a Amazônia eternamente viva, a Hileia que só os cabocos entendem – os apreciadores de merengue, de mapará assado na brasa servido com pirão de açaí, os que se emocionam com o trotar da mulher amazônida no calor equatorial, o mergulho no rio que deságua na tarde, os segredos que se encerram na Fortaleza de São José de Macapá, no Trapiche Eliezer Levy, no Ver-O-Peso, na Estação das Docas, em Mosqueiro, em Salinas, no Bailique, em Caiena.

Convivi com Lili, em outros momentos da minha vida, em Belém e no Rio de Janeiro. A presença dele, sua simples lembrança, me causa sempre alegria, uma espécie de sensação de coisa nova, de descoberta, de novas possibilidades, de viagem, de aventura. Ele emana uma força poderosa até no repouso, no silêncio, na simplicidade. Mas seu grande poder se manifesta ao usar a paleta, o pincel e a espátula, ao conceder à luz o triunfo.

domingo, 24 de março de 2019

Livro da jornalista Sônia Zaghetto conta a saga da fronteira entre o Amapá e a Guiana Francesa



RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 24 DE MARÇO DE 2019 – A jornalista Sônia Zaghetto autografa nesta segunda-feira 25, na biblioteca do Senado Federal, o livro História de Oiapoque, o município mais ao norte da costa atlântica brasileira, no estado do Amapá, Amazônia Oriental, ligado à Guiana Francesa por uma ponte que cruza o rio Oiapoque. A edição teve apoio do senador Randolfe Rodrigues (Rede/AP), que é professor de História. “São relatos extraordinários que o Amapá e o mundo precisam conhecer” – declarou. O Amapá só não foi anexado pela França porque os paraenses lutaram bravamente pela posse do setentrião, que pertencia ao Pará, e também porque contou com a genialidade diplomática do Barão do Rio Branco.

“A história da fronteira Brasil-França é muito rica. Ela foi sufocada pelas mazelas que hoje atingem a Amazônia: miséria, garimpo, poluição, abandono, danos ambientais. Minha esperança é que este livro remova a poeira do tempo e traga de volta as histórias de um passado aventureiro e fascinante. Os oiapoquenses devem se orgulhar de viver em um lugar extraordinário e de enorme importância histórica” – disse a autora, que está se mudando para a Califórnia, EUA, mas prometeu um romance ambientado na fronteira do Amapá com a Guiana Francesa.

A PONTE – Iniciada por iniciativa dos ex-presidentes do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, e da França, Jacques Chirac, em 1997 a ponte foi concluída em 2011. Com 378 metros de extensão e ao custo de R$ 70 milhões, só agora, em março corrente, começou a funcionar no lado brasileiro, por insistência da França e a meio-pau, enquanto no lado francês tudo ficou pronto em 2011 mesmo, quando a França concluiu toda a estrutura viária e aduaneira, incluindo a rodovia de 200 quilômetros entre Saint Georges de l’Oyapock a Caiene, com aquele asfalto caprichado visto nos Estados Unidos e Europa, e não o asfalto infame do Brasil.

No Amapá, o tempo é mais lento. A BR-156, que liga Macapá a Oiapoque, começou a ser construída na década de 1940, mas ainda há 110 quilômetros sem asfalto, o que se transforma em um inferno de lama durante 6 meses de chuvas e de poeira no período da estiagem. A previsão é que esses 110 quilômetros só fiquem prontos em 3 anos. A menos que o Exército entre na jogada.

Para o Amapá, a ponte é estratégica. Com 142.814,585 quilômetros quadrados, o Amapá é potencialmente rico, mas precisa, urgentemente, de infraestrutura básica para se desenvolver. Cortado longitudinalmente pela BR-156, o Amapá tem potencial econômico fabuloso, como, aliás, todos os estados da Amazônia, mas a roubalheira desenfreada; o tráfico de drogas, mulheres e crianças; a mentalidade de colonizado do amazônida; e a politicagem, tornam a região refém de mazelas crônicas.

Tão próximo da União Europeia e à margem do maior rio do mundo, o Amazonas, as costas do Amapá recebem 20% da água doce superficial do planeta e 3 milhões de toneladas de húmus por dia, ricas em manguezais e fabulosas em vidas marinhas, embora sejam as mais mal guardadas pela Marinha de Guerra e, também por isso, as mais disputadas pela pirataria global.

Macapá, na margem esquerda do Amazonas, a cerca de 200 quilômetros da boca do Mar Doce e seccionada pela Linha Imaginária do Equador, conta com aeroporto internacional e dista 8 horas de navio, ou 16 horas de barco, ou 50 minutos de avião, da Guiana Francesa, porta da União Europeia; e o porto mais estratégico da Amazônia, o de Santana, na região metropolitana de Macapá, com capacidade de receber navios de qualquer calado, é o porto brasileiro simultaneamente mais próximo dos mercados americano, europeu e asiático (via Canal do Panamá).

Mas Macapá, uma cidade com potencial turístico fabuloso, é de um absurdo emblemático: apesar de debruçar-se à margem do maior rio do planeta, costuma faltar água na cidade; na capital do Amapá há edifício de 20 andares, mas não há esgotamento sanitário, muito menos estação de tratamento de esgoto; o Amapá conta com a hidrelétrica de Paredão e agora com o linhão de Tucuruí, mas blecautes são comuns no estado, e muitas das localidades da hiterlândia não contam com energia firme; o Amapá tem, junto com o Pará, o maior potencial piscoso do planeta, mas sua universidade federal não oferece curso de oceanografia, muito menos de engenharia naval, ou de pesca.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Secretaria de Educação do DF se recusa a publicar no DO lista de alunos formados em curso técnico da Escola Nacional de Acupuntura


RAY CUNHA


BRASÍLIA, 13 DE MARÇO DE 2019 – Eu e mais dois acupunturistas entramos com ação na Justiça com o objetivo de que a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEE/DF) publique nossos nomes no Diário Oficial do DF como formando em curso técnico de Medicina Tradicional Chinesa, a fim de que a Escola Nacional de Acupuntura (ENAc) possa emitir nossos diplomas, para o que, ela só poderá fazê-lo com a mencionada publicação no Diário Oficial, apesar do direito adquirido e da obrigação do Estado.

Embora ação comum aos três pleiteantes, há algumas singularidades com relação a mim, as quais passo a esclarecer:

1 – Conforme está claro no texto do pleito, eu não estou pedindo nenhum centavo à ENAc, mas apenas pleiteando que a Secretaria de Educação do DF publique no Diário Oficial meu nome como técnico em Medicina Tradicional Chinesa, por direito adquirido, a fim de que a ENAc possa emitir meu diploma.

2 – Cursei Medicina Tradicional Chinesa na ENAc por força de contrato de permuta firmado entre o então diretor, Ricardo Antunes, e eu. Minha contrapartida foi prestar assessoria de imprensa para a ENAc, o que realizei integralmente. Inclusive esse trabalho me fez testemunhar a labuta incessante de Ricardo Antunes junto à Secretaria de Educação do DF pleiteando a publicação da lista dos alunos concluintes do Curso de MTC no Diário Oficial.

3 – Venho publicando matérias jornalísticas no meu blog, na condição de jornalista profissional, e não mais como assessor de imprensa da ENAc, noticiando o óbvio: que a Secretaria de Educação do DF se recusa, há anos, a publicar a lista de alunos aprovados no curso técnico da ENAc, o que é um direito desses alunos e um dever do Estado. Essas matérias jamais tiveram o objetivo de atacar a ENAc; pelo contrário.

4 – Finalmente, de minha parte, a ré nessa história é a Secretaria de Educação do DF, e não a ENAc. Aliás, a Escola Nacional de Acupuntura realiza, a meu ver, um dos mais completos cursos de Medicina Tradicional Chinesa do país, o qual tive o privilégio de concluir, e numa posição singular, como jornalista também, o que me deu a oportunidade de compreender não somente a essência da MTC, mas também a questão jurídica da profissão no Brasil, a qual ainda não foi regulamentada, o que me levou a me empenhar, como jornalista, pela categoria, escrevendo textos que divulgam a importância da MTC, não somente no Brasil, mas no planeta, e sobre a necessidade de o Ministério da Educação resgatar os cursos de acupuntura de nível técnico, e o Congresso Nacional regulamentar a profissão de terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa.

ENTENDA O PROBLEMA – Em 2008, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) criou o Catálogo Nacional de Cursos Técnicos (CNCT), incluindo Acupuntura. Mas, em 5 de dezembro de 2014, o então presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Luiz Roberto Alves, publicou Resolução atualizando e definindo novos critérios para a composição do catálogo, e disciplinando e orientando os sistemas de ensino e as instituições públicas e privadas de educação profissional e tecnológica quanto à oferta de cursos técnicos de nível médio.

A exclusão de Acupuntura do catálogo causou prejuízos financeiros e profissionais em todo o Brasil. Ao desqualificar os cursos técnicos de Medicina Tradicional Chinesa (MTC), ou Acupuntura, as secretarias de Educação dos estados e do Distrito Federal começaram a empurrar com a barriga a publicação dos nomes dos alunos matriculados em cursos técnicos de MTC antes de 5 de dezembro de 2014, à medida que iam se formando.

A Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), de Brasília/DF, por exemplo, quase fecha as portas, pois dezenas de alunos cancelaram o curso após a resolução do CNE. Fundada em 2000, A ENAc sempre foi reconhecida pelo MEC e credenciada pela Secretaria de Educação do DF.

Porém, desde o segundo semestre de 2016, a SEE se recusa a publicar no Diário Oficial do DF mais uma lista de alunos matriculados antes da resolução do CNE e que já concluíram o Curso de Medicina Tradicional Chinesa. Além do histórico escolar, a ENAc emite também uma declaração de conclusão do curso, mas depende da SEE para a entrega do diploma.

Ressalte-se que a ENAc realiza um dos melhores cursos de Medicina Tradicional Chinesa do país, com 2.080 horas/aula e 440 horas de estágio ambulatorial, num total de 2.520 horas/aula, em conformidade com orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), além de apresentação, no meu caso, de trabalhado de conclusão de curso, quando as aulas eram diárias e presenciais, com 4 horas/aula de segunda a sexta-feira.

Entrei em contato com o secretário da Presidência do Conselho Nacional de Educação, sr. Lindomar Junio, no dia 28 de janeiro, solicitando-lhe que me encaminhasse no sentido de obter esclarecimentos sobre os critérios utilizados na resolução do CNE, relatando-lhe toda a situação exposta nesta matéria. Ele prometeu encaminhar o assunto; continuo aguardando.

Também entrei em contato com a Assessoria de Comunicação Social da SEE/DF sobre o silêncio do órgão. Resposta: “A Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEE/DF) informa que foram verificadas irregularidades no percurso escolar da maioria dos estudantes da Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), o que comprometeu a validação de estudos de todos os alunos considerados concluintes pela instituição. A Gerência responsável pela publicação já orientou a instituição quanto aos procedimentos necessários para a publicação dos nomes daqueles alunos que tiveram seus estudos validados. A ENAc não mais possui credenciamento com esta Secretaria de Educação e seu atual funcionamento não permite a oferta de cursos técnicos, somente cursos livres que dispensam autorização deste órgão”.

Fato: Os alunos que começaram a fazer o curso da ENAc antes de dezembro de 2014 têm direito adquirido ao diploma técnico. A desqualificação da prática da Acupuntura ocorre num momento em que a profissão está prestes a ser regulamentada no Congresso Nacional, ou por meio do Projeto de Lei 1.549, de 2003, do deputado Celso Russomanno (PRB/SP), que se encontra na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara, ou por meio do Projeto de Lei 174, de 2017, do Senado, que se encontra na Comissão de Assuntos Sociais da casa.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

IASMIM



Eram 11 horas da noite, naquele fevereiro
Mas o sol brilhava, como se fosse dia, na Asa Sul
O mundo foi inundado, de repente, por intenso perfume
Ouviu-se o verbo no espaço, e uma ninfa nasceu

Desde então, nunca mais fui o mesmo
Pois, naquele instante, uma missão me foi determinada
A de estar de prontidão, com a luz da minha espada
No caminho daquela flor das estrelas

E foi assim que na manhã seguinte, como numa prece
E minha alma era só música, o som da Terra no espaço
Encontrei, me procurando, dois grandes olhos negros

Embarcamos numa nave, e, numa velocidade quântica, fomos transportados para o azul
O piloto era um anjo, com o riso das criaturas aladas
Desde então, o jasmim, o jasmineiro e eu, somos, por toda a eternidade, só um

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Macapá, meu amor! Sempre me perco em ti, e sempre de propósito. Enterrei meu coração na Casa Amarela, na rua Iracema Carvão Nunes



As cidades são como as mulheres. De manhã, douram-se ao sol, como as rosas, e, à tarde, se transformam em um rio azul. À noite, se perdem na luz. Da mesma forma que as mulheres, nas cidades latejam segredos, só desvendados pelos que sabem mergulhar no abismo da primavera. Quanto mais as amamos, mais belas ficam, e mais misteriosas. E, como as mulheres, nunca são nossas. Não podemos ser donos de uma cidade, da mesma forma que é impossível nos apossarmos de uma mulher, porque as mulheres serão sempre livres e misteriosas. A cada partida, fica implícito o encontro marcado, e as chegadas são regadas de risos, de luz, e perdão.

Amo várias cidades, e elas se entregam a mim sem reservas. Belém tem feitiço de rosas colombianas sangrando no azul do mar, deixando um rastro de Chanel 5, gim e perfume de mulher absorta ao toucador. Manaus evoca o cheiro de mulher, tão intenso que causa vertigem, a ponto de sentirmos os movimentos da Terra no espaço, como música de Mozart. O Rio de Janeiro tem o poder de me fazer voar, cavalgando besouros furta-cores num mar transparente sem fim. Há, ainda, outras cidades, a quem eu seduzo como o garanhão faz a corte, com paciência, concentração total e, sobretudo, fé. Percorro as cidades com amor. Assim é com Macapá.

Os tucujus a habitavam quando Carlos V de Espanha a chamou, em 1544, de Adelantado de Nueva Andaluzia e a deu ao navegador Francisco de Orellana. Em 1738, foi instalado, no cruzamento da Linha Imaginária do Equador com o rio Amazonas, um destacamento militar, na antiga Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral. Em 4 de fevereiro de 1758, o capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundou a Vila de São José de Macapá, que se debruça sobre o maior rio do mundo, não muito distante do Atlântico. Na maré alta, o gigante avança sobre a cidade, entre o açoite do vento e o muro de arrimo, onde estaca, recua e arremete com mais ímpeto. Em meio à agitação, o Trapiche Eliezer Levy emerge, indiferente.

A melhor maneira de descobrir Macapá é atravessando de barco o estuário do rio Amazonas. Quem sai do arquipélago do Marajó e mergulha no maior rio do mundo, em direção à Linha Imaginária do Equador, avista, de repente, a cidade, que surge como cunhantã se banhando no rio, o vestido molhado, colado ao corpo, os cabelos espargindo água, e, nos olhos, o mistério. É assim que gosto de pensar a cidade, e sentir seu cheiro de jasmim nas noites mornas.

Sou teu, Macapá, porque tu me pariste às 5 horas do dia 7 de agosto de 1954, no Hospital Geral, e de lá fui para a Casa Amarela, ao lado do Colégio Amapaense, na Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Eliezer Levy, ao lado da Mata do Rocha, e lá passei 11 anos da minha infância. Restou a Seringueira, que meu pai plantou, e que foi salva de ser decepada – porque se recusou a sair do caminho do muro do Colégio Amapaense – pelo agrônomo Luiz Façanha, que se abraçou ao seu tronco num gesto de amor. Meu pai, João Raimundo Cunha, semeou a Seringueira, em 1952, ano do nascimento do meu irmão, o pintor genial Olivar Cunha. Macapá, para mim, é isso, e é tanta coisa.

Macapá é como a mulher que desejamos por muito tempo e que inesperadamente está diante de nós, nua; mas só acredito que estou nela quando a cidade me engole. Entro no santuário despido de todas as feridas, e mergulho num mundo prenhe de jasmineiros que choram nas noites tórridas, merengue, mulheres que recendem a maresia, o embalar de uma rede no rio da tarde, tacacá, Cerpinha, e lhe oferto rosas, pedras preciosas, luz, toda a minha riqueza. É nesse mergulho que sempre me perco em ti, e sempre de propósito, numa vertigem da qual só me recupero em Brasília, dias depois.

As viagens que fazemos no coração são vertiginosas demais. A casa da minha infância, cada palavra que garimpei em madrugadas eternas, cada gota de álcool com que encharquei meus nervos, cada mulher que amei nos meus trêmulos primeiros versos, cada busca do éter nas noites alagadas de aguardente, o jardim da casa da Leila, no Igarapé das Mulheres, o Elesbão, a casa da Myrta Graciete, a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, o Macapá Hotel, o Trapiche Eliezer Levy, pulsam para sempre no meu coração, que enterrei na Rua Iracema Carvão Nunes.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Por que o Conselho Nacional de Educação retirou Acupuntura do Catálogo Nacional de Cursos Técnicos? Medida causa prejuízos


RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 4 DE FEVEREIRO DE 2019 – Em 2008, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) criou o Catálogo Nacional de Cursos Técnicos (CNCT), incluindo Acupuntura. Mas, em 5 de dezembro de 2014, o então presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Luiz Roberto Alves, publicou Resolução atualizando e definindo novos critérios para a composição do catálogo, e disciplinando e orientando os sistemas de ensino e as instituições públicas e privadas de educação profissional e tecnológica quanto à oferta de cursos técnicos de nível médio.

A exclusão de Acupuntura do catálogo causou prejuízos financeiros e profissionais em todo o Brasil. Ao desqualificar os cursos técnicos de Medicina Tradicional Chinesa (MTC), ou Acupuntura, as secretarias de Educação dos estados e do Distrito Federal começaram a empurrar com a barriga a publicação dos nomes dos alunos matriculados em cursos técnicos de MTC antes de 5 de dezembro de 2014, à medida que iam se formando.

A Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), de Brasília/DF, por exemplo, quase fecha as portas, pois dezenas de alunos cancelaram o curso após a resolução do CNE. Fundada em 2000, A ENAc sempre foi reconhecida pelo MEC e credenciada pela Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEE/DF).

Porém, desde o segundo semestre de 2016, a SEE se recusa a publicar no Diário Oficial do DF mais uma lista de alunos matriculados antes da resolução do CNE e que já concluíram o Curso de Medicina Tradicional Chinesa. Além do histórico escolar, a ENAc emite também uma declaração de conclusão do curso, mas depende da SEE para a entrega do diploma. Cansados de esperar pela boa vontade do órgão público, alguns alunos já entraram com ação na Justiça.

Esses alunos concluíram um dos melhores cursos técnicos de Medicina Tradicional Chinesa do país, com 2.080 horas/aula e 440 horas de estágio ambulatorial, num total de 2.520 horas/aula, em conformidade com orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), além de apresentação de trabalhado de conclusão de curso. As aulas eram diárias e presenciais, com 4 horas/aula de segunda a sexta-feira.

ATO MÉDICO – Por conta do silêncio do MEC, que jamais deu explicações sobre a retirava da Acupuntura da lista de cursos técnicos, desconfia-se que o Ato Médico tenha alguma coisa a ver com isso. O Ato Médico é como ficou conhecido o Projeto de Lei do Senado 268/2002/Projeto de Lei 7703/2006, que regulamenta o trabalho do médico.

A então presidente Dilma Rousseff sancionou o Ato Médico com vetos. Mesmo assim profissionais da área da saúde ainda desconfiam que os médicos querem controlar tudo, até a Acupuntura, que nada tem a ver com medicina ocidental, ou alopática. Nos meios dos acupunturistas, corre a tese de que os médicos estão fazendo cursinhos de acupuntura de fim de semana para reservaram o mercado da Acupuntura, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) como nos planos de saúde.

Diga-se, a Medicina Tradicional Chinesa é milenar e se baseia no taoísmo; para alguém praticá-la é necessário que saiba pelo menos o que é Yin e Yang. Outra coisa: a MTC trabalha diretamente em meridianos energéticos, que se encontram no corpo etéreo, um corpo sutil que a ciência não reconhece.

Entrei em contato com o secretário da Presidência do Conselho Nacional de Educação, sr. Lindomar Junio, no dia 28 de janeiro, solicitando-lhe que me encaminhasse no sentido de obter esclarecimentos sobre os critérios utilizados na resolução do CNE, relatando-lhe toda a situação exposta nesta matéria. Ele prometeu encaminhar o assunto; continuo aguardando.

Também entrei em contato com a Assessoria de Comunicação Social da SEE/DF sobre o silêncio do órgão. Resposta: “A Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEE/DF) informa que foram verificadas irregularidades no percurso escolar da maioria dos estudantes da Escola Nacional de Acupuntura (ENAC), o que comprometeu a validação de estudos de todos os alunos considerados concluintes pela instituição. A Gerência responsável pela publicação já orientou a instituição quanto aos procedimentos necessários para a publicação dos nomes daqueles alunos que tiveram seus estudos validados. A ENAc não mais possui credenciamento com esta Secretaria de Educação e seu atual funcionamento não permite a oferta de cursos técnicos, somente cursos livres que dispensam autorização deste órgão”.

Fato: Os alunos que começaram a fazer o curso da ENAc antes de dezembro de 2014 têm direito adquirido ao diploma técnico. A desqualificação da prática da Acupuntura ocorre num momento em que a profissão está prestes a ser regulamentada no Congresso Nacional, ou por meio do Projeto de Lei 1.549, de 2003, do deputado Celso Russomanno (PRB/SP), que se encontra na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara, ou por meio do Projeto de Lei 174, de 2017, do Senado, que se encontra na Comissão de Assuntos Sociais da casa.

O projeto do deputado Celso Russomanno apresenta um problema. O relator, deputado Hiran Gonçalves (PP/RR), é contra. Médico, ele acha que somente médicos devem praticar a Acupuntura, apesar de que audiência pública na CCJC mostrou que a filosofia, as técnicas e a prática da medicina alopática, ou medicina ocidental, não tem nada a ver com Medicina Tradicional Chinesa, ou acupuntura, como é conhecida no Brasil.

As entidades que reúnem terapeutas em MTC e práticas integrativas em saúde vêm se mobilizando para impedirem a barbaridade de travarem o projeto de Russomanno. O Brasil rema contra a maré, pois em todo o mundo, especialmente nos países mais ricos do planeta, quem pratica acupuntura são acupunturistas – médicos também, quando submetem-se a cursos de MTC, principalmente curso técnicos, ou faculdades de Medicina Chinesa.

Enquanto a medicina alopática cuida de órgãos, com medicamentos farmacêuticos e cirurgia, a acupuntura cuida do ser humano na sua integralidade: corpo, comportamento e espírito, e a ciência não acredita na existência do espírito.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

MÚSICA SUAVE



BRASÍLIA, 11 DEZEMBRO DE 2018 - Em agosto de 1994, lancei, em Brasília, o jornal mensal Intelligentsia, tiragem de 3 mil exemplares, que durou até fevereiro do ano seguinte – 7 edições, portanto. Era um tabloide de 16 páginas, parcialmente em cores, diagramado e ilustrado pelo pintor, artista gráfico e chargista André Cerino, e com fotografia do repórter fotográfico e ensaísta Ivaldo Cavalcante. O jornal era inteiramente redigido por mim. O primeiro número causou polêmica nos meios em que circulou, devido a uma coletânea de poemas eróticos, que intitulei DE TÃO AZUL SANGRA, ilustrados por André Cerino, que carregou no grafite. O trabalho foi um escândalo.

Em junho de 2018, sonhei com Roberto Carlos. Ele estava todo de branco e na minha casa; no sonho, era uma casa enorme e arejada. Eu chegava e o encontrava lá, e alguém me dizia que Roberto queria falar comigo. No instante seguinte, como só nos sonhos acontece, ele e eu estávamos na biblioteca da casa, ampla, bem iluminada e aconchegante. Lembro que Roberto segurava uma folha de papel e me pediu autorização para trocar uma palavra de um poema meu, para ajustá-lo à melodia na qual ele estava trabalhando. “Sim, é claro, Roberto” – disse-lhe, e acordei.

Acordei com o livro DE TÃO AZUL SANGRA na cabeça e passei aquele dia, e os dias seguintes trabalhando nisso. Reuni os poemas publicados no Intelligentsia, mais os poemas eróticos produzidos até julho de 2018, e publiquei, em dezembro, DE TÃO AZUL na amazon.com.br e no Clube de Autores.

No início dos anos 70, Roberto Carlos já era uma celebridade internacional, encantando o mundo com a melodia da sua voz, a MÚSICA SUAVE que ecoa na alma dos amantes. Em 1976, eu morava em Manaus, e trabalhava no jornal A NOTÍCIA, de Andrade Netto, pai da Natacha Fink de Andrade, uma das grandes chefs brasileiras, profunda conhecedora dos sabores da Amazônia, e proprietária do Espírito Santa, um dos restaurantes mais badalados do Rio de Janeiro, na Rua Almirante Alexandrino 264, bairro de Santa Teresa. Naquele ano, Roberto foi fazer um show em Manaus, e a produção do jornal conseguiu entrevista exclusiva com ele, no antigo Hotel Amazonas, centro da cidade, onde Roberto estava hospedado.

Na época, eu assinava a coluna mensal NO MUNDO DA ARTE, e era sempre eu que cobria matérias de cultura. O chefe de reportagem instruiu-me a perguntar ao Rei se ele usava, antes dos shows, meia de mulher como touca, para que sua cabeleira ficasse bem bacana. Esse assunto fora objeto de revista de fofoca. A pergunta era bizarra, mas satisfaria o suposto perfil dos leitores do jornal, que tendia ao sensacionalismo. Tudo bem! O problema era outro: o único gravador do jornal estava falhando, e isso foi meu terror, porque se chegasse à redação sem a entrevista só me restaria fazer o que fiz tempos depois: demiti-me e fui para A CRÍTICA, levado pelo senador Fábio Lucena, de quem fiquei amigo no Clube da Madrugada, sediado nos bares Caldeira e Nathalia, e que reunia jornalistas, artistas e apreciadores da enevoada Antarctica manauara.

Saí para fazer a entrevista, marcada para o fim daquela manhã. No hotel, fomos conduzidos, o fotógrafo e eu, ao corredor do apartamento do Rei, onde dois seguranças pediram para aguardamos ali. Roberto não nos recebeu no apartamento; acho que o apartamento era simples demais para as fotos. ele me recebeu no corredor, e me deu a entrevista ali mesmo.

O Rei é um sujeito carismático. Ele me deixou à vontade e eu me senti como se fosse velho amigo dele. Perguntei-lhe sobre o negócio da meia e ele me respondeu numa boa. Nem me lembro mais o que ele disse. Eu estava de olho no gravador, preocupadíssimo com o funcionamento dele, vigiando para ver se o rolo de fita estava girando. Fazia perguntas ao Rei e voltava-me para o gravador, um velho gravador de tamanho médio. Eu costumava fazer entrevistas anotando rapidamente a resposta, mas a orientação que recebera era a de que eu teria que transcrever ipsis litteris as palavras de Roberto.

Mais tarde, na redação, ao degravar a entrevista, vi o quanto foi burocrática, a pior que fiz como jornalista, e logo com quem, o Rei Roberto Carlos. Mas tudo bem! O jornal publicou a matéria, ninguém reclamou, e ainda restou uma fotografia com o Rei, por insistência do fotógrafo, de quem não lembro mais quem era.

Fui cobrir também o show do Roberto, e, naquele clima dos grandes shows, senti, na alma, o perfume que exalam muitas das canções do grande artista, algumas delas compostas com Erasmo Carlos. Certas gravações de Roberto nos remetem, num salto quântico, à eternidade da juventude, quando transitar pelos labirintos de uma mulher é como montar a luz, tão azul que sangra.

Segue-se o que o contista, ensaísta e compositor Fernando Canto escreveu como prefácio da coletânea de 1994.

VERSOS PROFANOS

Por FERNANDO CANTO

Nem fesceninos ao estilo bocageano, nem pornográfico à moda Boris Vian. Contudo, profanos são os novos versos do poeta Ray Cunha. Não no sentido antirreligioso – assim a poesia teria prosélitos fanáticos -, mas no sentido da irreverência, da violação, da transgressão do texto, em cuja tessitura surge o inopinado, que fragmenta, com certeza, a reação dos ouvidos suscetíveis.

Estes poemas, De tão azul sangra, evocam, invocam, enfocam a mulher, aliás, o sexo feminino; a afirmação do adolescente, o orgulho do adulto, ou, talvez, o fruto da observância do mundo mundano – experiência edipiana a penetrar em barreiras antes inacessíveis. Poemas que denotam a sensualidade e detonam-se em palavras lúbricas. Sutis, ás vezes, como em Bethania. Impolidas, como em Olhar para a mulher amadas – um rasgo narcisista, um produto da consciência machista e desembocadura para o gozo psicológico do autor.

A apologia de Ray Cunha à mulher é feita, então, sem disfarces. Despojada da roupa ela se torna provedora de sentidos, manancial e matéria-prima ao fabricante de versos. Está ali nua, nuinha na sua forma ímpar de ser apenas mulher, vênus perscrutada pela oportuna fresta que faz a felicidade de um voyeur; deusa mítica em seu mistério, desvendada pelo arguto e fulminante olhar e pelo sensível olfato do poeta.

Bem poderia chamar-se Essa Copacabana triste mulher o conjunto desta obra. O melhor poema da coletânea traz o melhor do autor, embora o contraste do “triste” trace o “ideal” do jovem solitário, qualquer jovem solitário nas praias deste Brasil afora. Essa irreverência trata da socialização do sexo no entendimento paradoxal de que todos possam ser burgueses em bacanais tropicais regadas a coquetéis afrodisíacos, num tempo hedonista que ficou há muito nos salões dos palacetes romanos. É forma compacta de abarcar o mundo. É válido. É poesia. Nela está o sol, o azul do mar no verão. Pois aí o azul que sangra não é o azul do céu. É o azul açoitado pela relação geográfica e íntima entre o sol e o mar. É o azul afetado pela natureza do gasoso (as nuvens) no espelho sangrado do mar. Mar que sangra, que se esvai, que beija a praia de Copacabana e salga o corpo nu da mulher desejada, da mulher que brilha com a clivagem dos grãos de areia e à noite vai para a cama gemer seu gozo e se sangrar de mar de Copacabana. Enorme, a cama de Copacabana.

Nostálgico e terrível é romper o laço em Um cheiro de madrugada. Neste poema Ray Cunha instiga um sentido amargo sobre o que se convenciona chamar de amor. É um trabalho sincero, diria, onde o conteúdo está exposto para o leitor atento; onde nada mais se precisa dizer, pois que a lembrança adquire a possibilidade de entrega a outros caminhos, nos quais existem outros remédios para os males da paixão. É simples, realista.

Ray Cunha ironiza a relação poética entre a morte e a poesia. Morrer na mesa de um bar é produto do inconsciente etilizado. Ser salvo, porém, é dormir com a princesa e metáfora-tônica de um anti-valor, concessão do sono ao acordar de sopetão de um pesadelo borgeano: sensação esquisita, estapafúrdia. Morte e poesia andando juntas, porque o trágico pode ser frenético, fétido e cômico – dura realidade! – exatamente na hora irônica do enforcamento.

Poemas como Sessenta e nove I e II trazem sobretudo o rústico, o rude, o seco mal lixado. São versos extraídos de uma realidade obstinadamente crua, ausentes de recursos semânticos mais elaborados, e duros como a pretensa e voraz virilidade do poeta. Nem por isso ele peca.

Se transgredir é a virtude do recurso, doces são as circunscrições c olocadas em Ah! Se tu fosses minha e nos dois poemas sem títulos que se entrepõem a ele. Chegam á trazer à tona a ingenuidade do poeta, que verdadeiramente ama sua musa de Parnaso, líricos como uma aquarela a Belle-Époque.

Não se pode deixar de enfocar o trato poético-erótico-libidinosos dos classificados de Acompanhantes. O autor ousa de várias maneiras. E coopta o leitor a acompanha-lo em aventuras sexomaníacas de pleno envolvimento. Comunicação, mídia impressa, espurcícia? Não. Mistura de elementos cuidadosamente colocados sob a arquitetura da realidade atual, ossatura forte dos arrabaldes das megalópoles. Assim é a estrutura desse poema. Real. Firme e transparente. Enfoque de uma sociedade periférica desprezada pela tradicional e hipócrita sociedade burguesa. É retrato da nova cultura urbana, nascida, infelizmente, ainda da miséria, da perda de status, de poder aquisitivo e que se torna antepasto para qualquer Sade pós-moderno, certamente. Instigante, claro e azul, o poema  indica água fervendo, páprica picante, poesia nova, e acima de tudo coragem de inovar pela forma e revolucionar pelo conteúdo da ideia.

Esta é a marca poética de Ray Cunha, que, sob o céu nas nuvens, descobre que o azul sangra como a vagina menstruada de uma nereida de qualquer gangue dos subúrbios brasileiros.