domingo, 3 de novembro de 2019

JAMBU, romance de Ray Cunha, homenageia o poeta Isnard Lima e o pintor Olivar Cunha

Isnard Lima, autor de ROSAS PARA A MADRUGADA
Olivar Cunha, gênio do pincel e da espátula
Capa de JAMBU do Clube de Autores
Trecho de JAMBU, novo romance de RAY CUNHA, homenageia a pianista Walkíria Ferreira Lima, pioneira das artes em Macapá, cidade natal do autor, e dois gigantes do Amapá: o poeta e cronista Isnard Brandão Lima Filho e o artista plástico Olivar Cunha. Segue-se o trecho:

"Além de estudantes e expectadores em geral, que disputaram uma das duas mil poltronas da luxuosa casa de espetáculos, a aristocracia amapaense estava em peso no Teatro Açaí, do Hotel Caranã, muitos deles em roupas de luxo, algumas, espalhafatosas, lembrando sapos encasacados, inchados de tanta comida e dinheiro, guardado em bancos e malas; se fossem postos de cabeça para baixo não cairia um níquel sequer, pois quem é viciado em dinheiro esconde-o. Alguns estavam tão inchados que se alguém ficasse olhando para eles esperaria ouvi-los coaxar.

"Quando a professora Walkíria Ferreira Lima entrou no palco, os músicos da Orquestra da Escola de Música do Amapá levantaram-se e o público também, aplaudindo-a em pé. De porte frágil, agigantava-se no púlpito. Nascera em Manaus, onde se formou em música, começando os estudos de piano aos 10 anos de idade. Chegou a Macapá na década de 1950, e começou a lecionar canto orfeônico na Escola Barão do Rio Branco e na Escola Industrial do Amapá, antes da criação do Conservatório Amapaense de Música, onde ensinou piano e solfejo. Walkíria Lima foi ainda uma das fundadoras da Academia de Letras do Amapá, patrocinando a cadeira 40. Casou-se com o mágico Isnard Brandão Lima e teve um único filho, o poeta manauara-macapaense Isnard Brandão Lima Filho, autor de Rosas Para a Madrugada e Malabar Azul. Isnard sentara-se na primeira fila. Pálido, olhos amendoados e olhar intenso, cabeleira penteada como a de Castro Alves, bigode, fumante inveterado e dipsomaníaco, lembrava um misto de toureiro e dançarino de tango. Ao lado dele, sentara-se o gênio do pincel e da espátula Olivar Cunha, que assinava os 21 painéis que compunham a exposição oficial do Festival de Gastronomia do Pará e Amapá".
Capa de JAMBU na amazon.com.br

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A cura do câncer


RAY CUNHA
raycunha@gmail.com 


BRASÍLIA, 31 DE OUTUBRO DE 2019 – A teoria mais difundida sobre a causa primordial do câncer é a da célula geneticamente defeituosa que escapou do sistema imunológico e começou a se multiplicar e a se espalhar no organismo. Drogas, como tabaco e álcool, enfraquecem a defesa orgânica, assim como obesidade, dieta pobre, sedentarismo, falta de higiene, poluição, defeitos genéticos hereditários, vírus e radiação.

As células defeituosas são como animais parasitas dentro de corpos hospedeiros. O sistema imunológico é composto de um exército de milhões de células especializadas em eliminar qualquer célula defeituosa e microrganismo invasor, um exército em permanente prontidão Mas um corpo debilitado não consegue defender-se.

Na medicina ocidental, ou alopática, os médicos tratam sintomas, nos órgãos ou regiões do corpo, utilizando fármacos e cirurgia. No caso de câncer, o paciente pode ser atendido com radioterapia, cirurgia, quimioterapia, cuidados paliativos e muito analgésico.

Na medicina tradicional chinesa, as síndromes são eliminadas por meio dos meridianos energéticos que circulam no corpo, os quais conduzem a energia primordial, Qi para os chineses, e que se manifesta como yin ou yang. Assim, enquanto na medicina alopática os efeitos colaterais incluem a morte, na medicina chinesa caem para zero.

Tumor, na medicina chinesa, é fleuma, ou massa viscosa, ou calor e umidade, fatores que causam desequilíbrio no meridiano do baço-pâncreas, órgão energeticamente incumbido de remover a umidade interna, a qual provoca travamento no livre e equilibrado fluxo energético. Exemplos de fleuma: catarro, cisto, mioma, cálculo renal ou na vesícula, e tumores benignos ou malignos.

O baço, na medicina chinesa, controla o sangue, os músculos, a ascendência do Qi e abriga o pensamento. Um dos maiores inimigos do baço são as emoções ruins, como a preocupação, por exemplo, e que levam o paciente à depressão. Assim, por meio de acupuntura, aurículo, fitoterapia e moxa, ao remover a umidade e calor internos do organismo está-se combatendo câncer.

Porém, uma coisa fundamental, que nem a medicina ocidental, nem a chinesa, têm, é a visão espiritualista da questão. Nenhuma doença, nada, começa a partir do corpo. Nem doença genética começa a partir do corpo. As doenças começam, sempre, na mente, como emoções ruins. O corpo físico apenas reflete essas emoções, em forma de síndromes, ou de acidentes e tragédias.

Tudo começa no espírito. Antes de encarnar, o espírito participa de uma reunião com seus mentores para definir sua evolução no plano da matéria, encarnando em um corpo, projetado por engenheiros espirituais, especial para aquele espírito que vai encarnar. Mas até um câncer programado para acometê-lo pode ser anulado, dependendo da performance do espírito no caminho da sua evolução.

A hipófise, ou glândula pituitária, localizada na base do cérebro e do tamanho de uma ervilha, é o chacra do duplo etéreo, ou corpo etéreo, por onde o perispirito, ou corpo astral, se comunica com o cérebro. Na acupuntura, esse chacra equivale ao ponto número 20 do vaso governador, o meridiano do yang, localizado no alto da cabeça. Ele nos conecta com o plano espiritual, razão porque o utilizo sempre, não importa que protocolo realize.

Emoções prolongadas, por exemplo, de medo, ódio, tristeza, remorso, preocupação, ressentimento, podem causar as mais diversas síndromes, inclusive câncer, se já houver predisposição para isso. A solução: mesmo que o paciente seja terminal, ele deve começar a amar, se não amava; a perdoar, se odiava; a agradecer, se era ingrato. E para que doença alguma não se torne um pesadelo, ame, seja grato, não julgue, seja útil. Isso é pura luz, e onde há luz não há câncer.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Tráfico de criança para escravidão sexual. Leia trecho de JAMBU, romance de RAY CUNHA, à venda no Clube de Autores e na amazon.com.br

Ray Cunha no Marco Zero do Equador, em Macapá, cidade natal
do autor de JAMBU, em foto do escritor Fernando Canto (2010) 
Edição da amazon.com.br


Às 9 horas, Danielle entrou na redação da revista mensal Trópico Úmido, na Avenida FAB, próximo ao Palácio do Setentrião. João Cunha, ou João do Bailique, era 4 centímetros mais alto e 16 anos mais velho do que Danielle; seus cabelos, negros, lisos e cheios, desciam-lhe até o pescoço, caindo de vez em quando sobre a testa, e prateavam-se nas têmporas. Sua pele, bastante clara nas partes que não apanhavam sol, estava queimada nos braços, magros e fortes; o que mais chamavam atenção nele eram seus olhos, grandes, negros, bondosos, serenos, como de cavalo. Estava escrevendo ao computador quando sentiu o cheiro de Chanel 5; voltou-se e se deparou com duas esmeraldas. Beijaram-se. Jornalista e oceanógrafo pela Universidade Federal do Pará, a UFPa., arqueólogo pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), sediado em Belém, taxidermista pelo Departamento de Taxidermia do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa), localizado no campus do quilômetro 10 da Rodovia Juscelino Kubitscheck, que liga o balneário de Fazendinha, à margem do rio Amazonas, a Macapá, e aventureiro, escrevia e editava sozinho a revista Trópico Úmido. Sobre sua mesa havia um uirapuru empalhado, que capturara no Parque Nacional Montanhas do Tumucumaqui, a noroeste do estado do Amapá, no Escudo das Guianas, região qual mergulhara em várias expedições, as últimas três desde que o parque fora criado, em 22 de agosto de 2002, com 38.670 quilômetros quadrados, o maior parque florestal do mundo nos trópicos, 27% do estado do Amapá, maior do que os estados de Sergipe e Alagoas juntos, e do tamanho da Holanda, abrangendo parte dos municípios de Oiapoque, Calçoene, Laranjal do Jari, Pedra Branca do Amapari e Serra do Navio, no Amapá, e uma pequena porção do município de Almeirim, no Pará, onde fica a Base Aérea de Tiriós, entre os municípios de Oriximiná e Óbidos, também no Pará, a menos de 10 quilômetros da fronteira com o Suriname, e que funciona como posto avançado do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), além de porta de entrada para o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaqui e da cidade de Serra do Navio.
Edição do Clube de Autores
Dedicava-se também a investigar o tráfico de escravos, pois no seu convívio com índios e ribeirinhos alguns casos foram chamando sua atenção para a mais cruel atividade na Amazônia profunda: crianças arrancadas de suas mães e atiradas a hienas do tráfico internacional. Atribuía esse crime máximo às circunstâncias do caboco, sua mentalidade de colonizado, o calor, a nudez e a corrupção na antiga colônia portuguesa, e agora americana, inglesa, do governo federal e paulistana, perpetuando na Hileia uma das nódoas mais negras da humanidade: a escravidão sexual de crianças. Para João do Bailique, a Amazônia se apresentava como um paradoxo. A maior diversidade biológica da Terra, a mais rica província mineral do planeta, é também O Coração das Trevas, obra-prima de Joseph Conrad. Esse pequeno romance, de pouco mais de 150 páginas, é um golpe de navalha seccionando tecido humano, “o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu”, disse o labiríntico Jorge Luís Borges. Assim é a face obscura da Amazônia. O Inferno Verde é o latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o malogro da civilização colonialista. A Amazônia é saqueada desde o século XVI. Potências europeias, americanos, brasileiros de todos os recantos do país, inclusive os governos federais, um após outro, todos têm repasto garantido na Amazônia. Nos dias de hoje, leva-se, de lá, a própria floresta, energia hidrelétrica, minérios, pedras preciosas, animais, mulheres e crianças. Até agora, o desenvolvimento imposto à Amazônia é para dizimar os amazônidas – índios, ribeirinhos, cabocos, quilombolas – e encher os cofres de políticos que transformam governos em lavanderia. Os presidentes da República que se sucedem governam de costas para a Amazônia, tratando-a como colônia, e colônias servem para serem saqueadas e os nativos traficados. A Interpol francesa calcula que a rede internacional de tráfico de pessoas movimenta cerca de 9 bilhões de dólares por ano. Nesse comércio brasileiro negro, assim como ocorre com políticos corruptos, a imunidade, ou melhor, impunidade, é garantida.
O tráfico humano perpassa toda a Amazônia. Já foram identificadas 76 rotas de tráfico de mulheres, adolescentes e crianças, pela Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins Sexuais, coordenada pelo Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria) e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Exploração Sexual, do Congresso Nacional. Naquela edição da Trópico Úmido, João do Bailique pinçou alguns casos.
Madrugada de 16 de setembro de 2004, marina da Ponta Negra, Manaus, capital do estado do Amazonas e maior cidade da Amazônia. Empresários de Brasília e de São Paulo aguardam, à bordo do iate Amazonian, de 25 metros de comprimento, 15 políticos e um carregamento para zarpar rio Negro acima, aparentemente para uma pescaria em Barcelos, a 450 quilômetros de Manaus, em passeio organizado pelo dentista paulista Flávio Talmelli. Era o terceiro ano que o grupo de políticos e empresários candango-paulistas se reunia. Finalmente o carregamento chega. São peixes servidos antes mesmo da pescaria: 17 meninas, a maioria delas menor, aliciadas em casas noturnas de Manaus. O programa de dois dias e duas noites renderia 400 reais a cada uma, fora gorjetas. As garotas foram conduzidas ao iate pela cafetina Dilcilane de Albuquerque Amorim, conhecida como Dil, então com 33 anos, e que ganharia 100 reais por garota. Domingo 19. As meninas se dividiram em dois grupos para o retorno a Manaus. O Amazonian, com os políticos e empresários, seguiu rio Negro acima, com destino a um hotel na selva. Doze meninas retornaram a Manaus. No fim do dia, as cinco meninas restantes retornaram também, no barco Princesa Laura, que naufragou naquele mesmo domingo, entre Manaus e Barcelos, com 100 passageiros. Morreram 13 pessoas, entre as quais as cinco garotas que participaram da orgia: Amanda Ferreira Silva, 20 anos; Marlene Cristina dos Santos Reis, 19; Suzie Nogueira Araújo, 18; Taiane Barros, 17; Hingridy Florêncio Viana, 16. Dois dias antes do acidente, alguns pais queixaram-se à polícia sobre o desaparecimento de suas filhas. Agentes da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente de Manaus (Deapca) descobriram que as meninas mortas haviam participado de uma bacanal e eram as mesmas que estavam sendo procuradas pelos pais. Depois, localizaram algumas meninas que retornaram do Amazonian a Manaus e descobriram que três homens que estavam no Amazonian deixaram a embarcação em Barcelos e, dia 23 de setembro, retornaram a Manaus, em avião da Apuí Táxi Aéreo. Foi aí que identificaram o então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital Benício Tavares da Cunha Melo, do PMDB; Sérgio Randal Mendes, cunhado de Benício Tavares e chefe de gabinete da presidência da Câmara Legislativa do DF; e o advogado brasiliense Marco Antônio Attié. Uma das menores ouvidas pela polícia disse que Benício Tavares manteve relações sexuais com pelo menos duas menores, uma das quais Taiane Barros, 17 anos, mãe de um bebê de sete meses, e que morreu afogada no Princesa Laura. Outra garota afirmou, em depoimento à polícia, que manteve relações sexuais com Benício, que teria pago 500 reais a ela. Uma menor disse que Benício lhe ofereceu 500 reais para manterem relações sexuais, mas ela recusou. Seis das moças que estiveram a bordo do Amazonian garantem que Benício chegou a pagar valores entre 200 e 1 mil reais para manterem relações sexuais com ele, inclusive com as menores de idade. Das 17 meninas contratadas para a bacanal, seis afirmaram, em depoimento à delegada Maria das Graças Silva, titular da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente, que Benício Tavares esteve no iate nos dias 17, 18 e 19 de setembro, e que manteve relações sexuais com várias garotas, entre as quais pelo menos duas menores. A delegada garante que coletou elementos suficientes para provar a participação de Benício Tavares em turismo sexual. Maria das Graças Silva mostrou, dia 27 de setembro, fotografias de Benício Tavares a três meninas que participaram da orgia. Elas identificaram imediatamente o parlamentar, que é paraplégico. Três meninas ouvidas pela polícia garantem que no iate Amazonian havia bebida alcoólica e drogas, e que foram realizados desfiles de garotas nuas e sorteio de brindes aos participantes. Em depoimento à polícia, a cafetina Dil declarou que a bacanal foi contratada pelo dentista paulista Flávio Talmelli. “Ele disse que o passeio seria muito divertido e que todas as despesas, desde hospedagem à alimentação, seriam pagas por seus amigos. Somente convidei algumas amigas” – defendeu-se Dil. As garotas disseram à polícia que foram enganadas por Dil. O combinado é que receberiam 400 reais mais gorjetas, mas, a bordo, receberam somente 200 reais. Em nota oficial, divulgada no dia 27 de setembro de 2004, Benício Tavares confirmou a viagem a Manaus, de 16 a 22 de setembro, para pescar no rio Negro, hobby até então insuspeito. Confirmou também o voo Barcelos-Manaus. Negou relacionamentos sexuais com garotas menores de idade. Para fazer a viagem turística, Benício se licenciou da Câmara, da qual era presidente, por 10 dias, embora a casa estivesse votando uma pilha de matérias e sua presença fosse importante. Foi confirmada também a presença, no iate, do chefe de gabinete da presidência da Câmara, Randal Mendes, o cunhado de Benício Tavares, e do advogado brasiliense Marco Antônio Attié. Em 2004, em Brasília, o plenário da Câmara Legislativa do DF fechou os olhos e arquivou processo contra o então deputado Benício Tavares, que respondia na Justiça por turismo sexual no estado do Amazonas. Benício foi liberado por 14 votos favoráveis e 10 abstenções. Em 2007, o então governador de Brasília, José Roberto Arruda, deu a Benício Tavares a Administração Regional de Ceilândia, o maior colégio eleitoral da cidade-estado. O povo se revoltou, pois, além da acusação de corruptor de menor, Benício Tavares era acusado de desvio de dinheiro. Arruda teve de tirá-lo do cargo. Em 2009, o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do DF (TJDF) instaurou processo penal contra Benício, em ação movida pelo Ministério Público, e o absolveu. Benício Tavares foi reeleito deputado distrital.  Em 2010, o governador José Roberto Arruda foi preso, acusado de comandar esquema de corrupção que flagrou até corrupto recebendo e escondendo pilhas de dinheiro na cueca. Em novembro de 2011, Benício Tavares perdeu o mandato de distrital no exercício da sexta legislatura, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que considerou, por unanimidade, que o deputado coagiu eleitores e praticou abuso de poder econômico.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

O assassino ataca em Sucuriju. Trecho de JAMBU, novo romance de RAY CUNHA

Capa da edição da amazon.com.br
Capa da edição do Clube de Autores
"Um dos peixes mais apreciados da costa do Amapá é a gurijuba; menos pela sua carne e mais pelo grude. A vila do Sucuriju, distrito do município de Amapá, localiza-se no Cabo Norte, à margem direita do rio homônimo, próximo à foz dele, no litoral, distante 220 quilômetros de Macapá. O Sucuriju está à mercê das grandes marés do Atlântico e é completamente percorrido pela pororoca, quando, nas marés cheias, o mar avança nos rios, em ondas de até cinco metros de altura, levando tudo o que encontra pela frente e arrancando árvores do barranco das margens, logo substituídas por filhotes em disputa pelo sol. A vila é toda de palafitas e as ruas são passarelas de madeira. O rio é salobro, por isso os moradores estocam água da chuva para beber. Durante o inverno, as caixas d'água coletivas são abastecidas e na estiagem cada um recebe 30 litros de água por semana. Os habitantes da vila, algumas centenas de famílias, vivem da pesca, principalmente de gurijuba, que desova nas águas mornas dos manguezais, entre a foz do rio Araguari e a do rio Cunani, e é pescada do arquipélago do Bailique até o limite com a Guiana Francesa. O povoado surgiu no início do século XX. A partir de uma promessa feita a Nossa Senhora de Nazaré, uma cobra grande abriu a embocadura do rio Sucuriju, fato celebrado na festa da padroeira, com missas, jogos e bailes. Até a década de 1920, apenas pescadores, sobretudo do arquipélago do Bailique e do lago do Piratuba, andavam por ali, acampavam, dando início ao povoamento, acossado pelo mar e pela Reserva Biológica do Lago Piratuba, região de manguezais e campos alagados, onde vive o pirarucu, capturado com arpão ligado à canoa por uma linha. Como a água dos lagos é escura, os pescadores aguardam as borbulhas que antecedem o pirarucu ao emergir para respirar. Já na pesca da gurijuba, ou bagre do mar, é utilizado o espinhel – centenas de anzóis conectados a uma linha de cerca de dois quilômetros, firmada em âncoras e boias. A bexiga natatória da gurijuba é conhecida como grude, matéria prima no fabrico de cola de precisão, medicamentos, cosméticos e bebidas. Os chineses pagam os melhores preços pelo grude, que apreciam na culinária. Esse peixe é tão procurado que corre o risco de ser extinto. A bexiga natatória é extraída, secada, durante três a quatro dias, ao sol ou na estufa, e vendida, principalmente para China, Japão, Europa e Estados Unidos. Muito parecida com o bagre de água doce, de cabeça grande, barbatanas e um corpo relativamente curto e amarelado, a gurijuba chega a 20 quilos, mas sua carne não é muito apreciada entre os cabocos, embora a cabeça do animal renda um caldo saboroso e nutritivo. O quilo da carne do peixe custa em torno de meio dólar. Mas o grude contém substâncias que, beneficiadas, produzem uma cola de alto teor de adesão, usada na indústria espacial e em cirurgias de alta precisão, pois o corpo humano não a rejeita. Pescadores de Sucuriju, Bailique, Calçoene e Oiapoque vendem o grude para atravessadores em torno de 5 dólares o quilo, revendido por cerca de 20 dólares no Pará e Maranhão, e alcançando 75 dólares no exterior. A exportação de grude chega a mais de 200 toneladas por ano pelos portos do Pará e do Amapá. Os pescadores de Sucuriju vinham entregando o quilo do grude por até 2 dólares, mas quando Danielle criou a cooperativa, todo mundo passou a receber 37,5 dólares pelo quilo do grude, causando grande prejuízo aos atravessadores. E isso só foi possível graças aos contatos internacionais de Danielle, especialmente em Hong Kong.
"O caldeirão vaporizava-se ao sol da tarde, provocando alucinações, quando Danielle avistou o assassino, ao sair de casa para retornar ao Catalina, fundeado no rio Sucuriju; ele avançava na estiva, a uns cem metros de distância da palafita, o rosto coberto por um saco de tarlatana creme, óculos escuros e chapéu de feltro marrom, segurando na mão esquerda, que deu para ver que era branca e peluda, uma pistola com silenciador. Instintivamente, Danielle retornou à casa e correu para a cozinha, pegou uma peixeira, esgueirou-se para o quintal e internou-se na vegetação. Desde que começara a correr ouvira três cusparadas; o chumbo da última passara tão rente ao seu ouvido esquerdo que sentiu uma pontada nos rins. Sabia que era seguida perigosamente de perto e procurava distanciar-se do perseguidor, a fim de surpreendê-lo. Normalmente alagado, o chão apresentava-se quase seco naquela baixa-mar de 30 de junho, facilitando o avanço da mulher, que trajava calças jeans e botas. Atingiu uma pequena clareira e viu um ponto mais elevado, onde emergia majestoso taperebazeiro. Alcançou-o e se posicionou ali. Se o homem parasse no meio da clareira não erraria a peixeira na garganta dele. Era exímia atiradora de faca. Aguardou. Pelo jeito o fantasma estava planejando o mesmo que ela. Então começou a se mover num grande círculo, até alcançar a cooperativa, uma hora depois. A aparição caíra fora numa lancha há uma hora, precisamente. Não, ninguém se aproximou do Catalina, afirmou o caboco que ficara de vigia. Quem teria interesse em matá-la? Ou assustá-la? “Tu não perdes por esperar” – pensou Danielle."

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Suave é a noite

Estou só, na tarde. A tarde está sempre cheia de mistérios. Visto uma camisa branca de algodão, calças e blazer azuis de linho, e sapatos pretos de couro. Meu rosto está bem barbeado e recendo a La Nuit de L’home, e assim misturo-me aos murmúrios e cheiros da tarde. Fragrâncias do mar, vindas do meu coração, amalgamam-se ao perfume das virgens ruivas. A tarde é azul, tão azul que escorre numa tela de Olivar Cunha. Ouço sussurros, como o roçar dos lábios de uma mulher de olhos verdes, mas sei que são apenas sons da tarde.

Estou só, na tarde, pois minha amada viajou. Assim, navego no rio da tarde ao encontro da minha amante. Meus passos me levam a um café no Setor Hoteleiro Sul. Há tantas mulheres lindas no café! Duas conversam sentadas em um sofá. Uma é loira e seus olhos são azuis como a tarde; a outra é ruiva, e seus olhos se confundem com esmeraldas. Riem. Seus risos são cristalinos como crianças recém-lavadas, ao sol matinal da primavera. Conversam tão animadamente que seus lábios, grandes e vermelhos, parecem uma dança. Degusto o primeiro coquetel do dia. Preparo-me para quando minha amante chegar.

A tarde agoniza. Morre como uma rosa, que, depois de se tornar a joia mais delicada, bela e preciosa do mundo, deixa eterno rastro de luz. Assim desliza o rio da tarde. Logo a cidade será um transatlântico iluminado, com as criaturas mais esplendorosas do universo, que são as mulheres, espargindo seu perfume, como jasmineiros em tórridas noites em Belém do Pará.

Uma jovem mulher passa ao meu lado, quase roçando em mim. Volto-me para vê-la. É uma negra em vestido de seda, tal qual uma que vi na Estação das Docas, em Belém. Talvez fosse da Guiana Francesa, ou de Trinidad e Tobago, ou da Martinica. Falar em Martinica, se Hemingway estivesse aqui comigo eu o convidaria para pescar ao largo de Sucuriju, no Amapá. Bem que Fernando Canto poderia estar comigo nesta tarde, que morre. Mas o poeta tem suas próprias tardes, que são, certamente, emersas no perfume das virgens ruivas, e mar, pois o poeta decifrou a dimensão da intensidade e tem olho clínico para cheiro de maresia.

Não tenho nem Hemingway, nem Fernando Canto, nem a mulher amada. Só me resta esperar mais um pouco para cair no colo da minha amante.

Ela chega suavemente, e, quando a percebo, sua luz ofuscante entra nos meus sentidos e me conduz à dimensão do primeiro beijo. Nunca estamos preparados para a intensidade da amante, que é puro mistério, é amante de todos os homens, e, principalmente, de todas as mulheres. Ela é a noite.

domingo, 6 de outubro de 2019

Leia trecho de JAMBU, novo romance de RAY CUNHA. Por que tantos Ovnis e ETs foram avistados na costa do Pará? A Amazônia é nossa?

 
BRASÍLIA, 6 DE OUTUBRO DE 2019 – “Em questões de segundos João do Bailique repassou a pesquisa que fizera sobre a Operação Prato, realizada pelo I Comando Aéreo Regional (I Comar) da Força Aérea Brasileira, sediado em Belém; agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI); a inteligência do Quarto Distrito Naval da Marinha do Brasil; e o Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa). Objetos voadores não identificados (Ovnis) começaram a aparecer nos municípios paraenses de Vigia, Colares e Santo Antônio do Tauá, na costa do estado. Houve uma histeria da população nesses municípios; afirmavam que os Ovnis lançavam raios luminosos nas vítimas, causando queimadura, perda de sangue, marcas de agulhas, paralisia, tremores e morte. Então, o povo começou a chamar os Ovnis de “chupa-chupa”. A operação foi realizada de outubro a dezembro de 1977, mas, na verdade, ainda investigaram os fenômenos durante o ano seguinte. Inicialmente, os ETs estiveram em franca atividade no município de Viseu, sul do Pará, na região do rio Gurupi, divisa com a Baixada Maranhense, mas o terror acabou se alastrando por todo o litoral do Pará, chegando até a Baia do Marajó, com Belém no meio. Os documentos oficiais foram parcialmente arquivados pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República no Arquivo Nacional, em Brasília.

“A coisa começou no Maranhão, na Ilha dos Caranguejos, localizada na baía de São Marcos, próxima a São Luís. Em 25 de abril de 1977, quatro homens se dirigiram, de barco, à ilha, para coletar madeira. Quando acabaram o trabalho a maré estava seca, de modo que precisariam aguardar a maré cheia até meia-noite. Por volta das 20 horas, agasalharam-se para dormir. Um deles, Apolinário, acordou somente às 5 horas, olhou para seus companheiros e viu que Auleriano e Firmino estavam reclamando de dores, com queimaduras de segundo grau, e José estava morto na rede. A polícia investigou e encerrou o caso sem entender o que acontecera. Mesmo sob hipnose regressiva, pelo doutor Sílvio Lago, os três sobreviventes jamais conseguiram lembrar o que aconteceu, mas um dos três disse que viu um fogo antes de desmaiar. O Instituto Médico Legal do Maranhão atestou que a morte de José foi por causa de hipertensão arterial e acidente vascular cerebral, devido a um grande choque emocional. A imprensa, tanto do Maranhão quando do Pará, já vinha noticiando o aparecimento de luzes muito fortes aparecendo para tripulantes e passageiros de embarcações, moradores da região, policiais e militares. Foram noticiadas também mortes de pessoas chupadas por uma luz. Às 18h45 de 18 de outubro de 1977, no município de Vigia, distante 99 quilômetros de Belém, uma revoada de Ovnis emitindo luz amarela cruzou o céu, em velocidade incomum, durante um apagão de energia elétrica. Entre 23 horas do dia 9 de dezembro e 2 horas do dia 10 de dezembro de 1997, numa localidade do rio Guajará, município de Ananindeua, que faz divisa com Belém, segundo depoimento do coronel Hollanda para o escritor e jornalista Bob Pratt, em 1981, foi registrada a presença de um disco voador amarelo âmbar e azulado, de 100 metros de comprimento, que, de repente, ficou parado uns três minutos. Suas luzes se apagaram e surgiu uma espécie de bola de futebol americano, gigantesca, a cerca de 70 metros de distância dos observadores. Em seguida, o objeto se deslocou para cima, sem o menor ruído; aproximadamente a 1.500 metros de altura ouviu-se um som de trovão, e o objeto disparou numa velocidade incrível, até sumir. A Operação Prato colheu depoimentos fantásticos. Em Belém, a imprensa registrou inúmeros relatos de pessoas afirmando que foram chupadas por uma luz.

“João do Bailique reservara, na edição de agosto da Trópico Úmido, na qual publicaria as fotos do festival gastronômico, as três páginas finais da revista para a Operação Prato. Mas agora, depois daquele papo com Danielle, colocaria também a visão dela, baseada no trabalho do professor Laércio Fonseca, sobre ETs e Ovnis.

“– Achei interessante o que disseste sobre o professor Laércio Fonseca. O que é mesmo que ele pensa sobre ETs e Ovnis?

“– O professor Laércio Fonseca se reúne com ETs. Os ETs são espíritos e outras raças que habitam o Universo, e Laércio Fonseca é médium, desses de sair do corpo e ir para o mundo astral. Os discos voadores são construídos com uma tecnologia que só agora começamos a estudar, e que chamam de quântica. Sempre estiveram entre nós; nós é que não podemos vê-los, já que vivem em um estado sutil da matéria, e não há ET do mal. Pelo contrário, são agentes que tentam minorar o sofrimento daqueles que estão mergulhados nas trevas, ou seja, na ignorância, com o objetivo de promover paz, amor, felicidade, progresso, compreensão, luz, influenciando a raça humana por meio de avatares e gênios no campo da ciência. A vida é um mistério, mas chegará o dia em que o mistério será esclarecido, que tudo faz sentido. Os espíritos, por meio dos médiuns, só dizem que tudo tem uma razão de ser, que os construtores do que Laércio Fonseca chama de Projeto Terra sabem o que fazem. Porém, quando nosso estado de consciência estiver devidamente ampliado, então será esclarecido o grande enigma que é a vida.

“João do Bailique raspou a segunda taça de sorvete e deu uma última lambida na colher.”

sábado, 5 de outubro de 2019

Os ianomâmis são uma farsa? Leia JAMBU, o romance que é um raio X da Amazônia


BRASÍLIA, 5 DE OUTUBRO DE 2019 – JAMBU (Brasília/DF, 190 páginas, 2019), o novo romance de Ray Cunha, já está à venda no Clube de Autores e na Amazon.com. Durante o Festival Gastronômico do Pará e Amapá, em Macapá, o jornalista João do Bailique traça um raio X da Amazônia, para edição especial da revista Trópico Úmido. Segue-se trecho do livro:

“O livro A Farsa Ianomâmi, do coronel Carlos Alberto Lima Menna Barreto, ex-comandante do Segundo Batalhão Especial de Fronteira, em Roraima, e ex-secretário de Segurança do antigo Território Federal de Roraima, procura provar que os ianomâmis são tribos indígenas espalhadas ao longo da fronteira do Brasil com a Venezuela, e não uma única tribo. O almirante Braz Dias de Aguiar, que morreu em 17 de setembro de 1947, dedicou 30 anos à Amazônia, ajudando na demarcação dos 10.948 quilômetros que a separam dos países vizinhos. Relatório de Braz de Aguiar dão conta de que as tribos indígenas do Vale dos Rios Negro e Branco pertencem às famílias aruaque e caribe. Segundo Menna Barreto, uma jornalista e fotógrafa suíça, Claudia Andujar, mencionou, pela primeira vez, em 1973, o grupo indígena por ela denominado “ianomâmi”, numa faixa na fronteira entre Brasil e Venezuela. Ela não agiu por conta própria, mas sob a orientação da Christian Church World Council, ou Conselho Mundial de Igrejas, sediada na Suíça, e dirigida por um Conselho Coordenador formado por seis entidades internacionais: Comitê International de la Defense de l´Amazon; Inter-American Indian Institute; The International Ethnical Survival; The International Cultural Survival; Workgroup for Indigenous Affairs; e The Berna-Geneve Ethnical Institute. Consta, nas diretrizes da Christian Church World Council: “É nosso dever garantir a preservação do território da Amazônia e de seus habitantes aborígines, para o seu desfrute pelas grandes civilizações europeias, cujas áreas naturais estejam reduzidas a um limite crítico”.

“Claudia Andujar promoveu a criação da organização não-governamental Comission for the Creation of the Yanomami Park, que, durante 15 anos, pressionou o governo brasileiro no sentido de criar uma área exclusiva para aqueles índios, que, na época, totalizavam pouco mais de 11 mil indivíduos. Em 1992, a organização foi vitoriosa. Fernando Collor de Mello, ex-presidente defenestrado do Palácio do Planalto, foi quem homologou a reserva Ianomâmi, em 25 de maio de 1992. São 97 mil quilômetros quadrados para um punhado de índios, além de ocupar faixa de fronteira, passando por cima da Constituição. A área contém as maiores jazidas de nióbio do planeta. O nióbio é de alto valor estratégico. Mais leve que o alumínio, adicionado ao aço é mais resistente do que aço amalgamado com cromo-niquelado. Além do seu uso na indústria aeroespacial, o nióbio é valioso na indústria bélica. A construção de cosmonaves e satélites depende de nióbio, resistente ao frio cósmico e ao impacto de pequenos meteoritos, além de ser um grande condutor de energia, em celulares, computadores e turbinas de aviões; 98% do nióbio do mundo estão na Amazônia.

“Outro ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, preso em 2018 por corrupção, homologou outra reserva, imensa, em Roraima, a Raposa Serra do Sol, onde só vivem índios aculturados.

“Ongs estrangeiras se amontoam na Amazônia, exatamente sobre gigantescas jazidas de minérios, especialmente nióbio. A Raposa e Serra do Sol mede 1.743.089 hectares para abrigar outro punhado de índios aculturados.

“João do Bailique olhou para a mesa dos jurados. Danielle continuava lá, conversando com aquele chefe francês. Deu uma bocada numa colherada de açaí com farinha de tapioca.

“A Raposa e Serra do Sol fica no nordeste do estado de Roraima, abrangendo terras dos municípios de Normandia, Pacaraima e Uiramutã, entre os rios Tacutu, Maú, Surumu e Miang, e a tríplice fronteira com a Venezuela e a Guiana. Nela, vivem cerca de 20 mil índios, ingaricós, macuxis, patamonas, taurepangues, uapixanas e patamonas. A maior parte da reserva é de cerrado; a porção montanhosa culmina com o monte Roraima, marco na tríplice fronteira Brasil, Venezuela e Guiana; o Monte Caburaí, onde fica a nascente do rio Ailã, ponto extremo do norte do país, também fica na reserva, demarcada no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1998, e homologada pelo seu sucessor, Luís Inácio Lula da Silva, em 2005. Nos anos de 1970, colonos começaram a plantar arroz nas terras, chegando a produzir 160 mil toneladas de grãos por ano, em uma área de 100 mil hectares, às margens do rio Surumu, na borda sul da reserva. Em junho de 2007, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a desocupação da reserva; em março de 2008, a Polícia Federal iniciou a Operação Upatakon III. Houve resistência, sob o argumento de que a área ocupada pelos arrozeiros correspondia a 1% do total da reserva, mas responsável por 6% da economia do estado Roraima. Em abril de 2008, o governo de Roraima entrou com representação no STF reivindicando a suspensão da ordem de desocupação. O governo federal enviou tropas da Força de Segurança Nacional, mas a representação foi acatada por unanimidade no Supremo e a Operação Upatakon III foi suspensa. Em 20 de março de 2009, o Supremo confirmou a homologação da Terra Indígena Raposa e Serra do Sol, determinando a retirada dos não indígenas da região. Na época, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, então comandante Militar da Amazônia, perguntou: “Como um brasileiro não pode entrar numa terra porque é uma terra indígena?”

“As reservas indígenas na Amazônia constituem uma inacreditável província mineral, mas é nelas que cerca de 100 mil Ongs estrangeiras deitam e rolam sobre esse tesouro brasileiro, segundo o general Durval Nery, do Centro de Estudos Estratégicos do Exército, e que comandou durante vários anos um Batalhão de Forças Especiais na Amazônia. Essas Ongs teriam a missão de desestabilizar o governo brasileiro e provocar uma intervenção internacional na Amazônia?”

terça-feira, 1 de outubro de 2019

A Amazônia é do Brasil ou é internacional? Por que os ETs gostam tanto de andar pela Hileia? Leia o novo romance de Ray Cunha: JAMBU


BRASÍLIA, 1 DE OUTUBRO DE 2019 – O que significa data-limite, mencionada por Chico Xavier? Quem são os ETs? O que querem na Terra? De ondem vêm? São seres materiais? Como fazem viagens intergalácticas? Por que os ETs se interessam tanto pela Amazônia? O que foi a Operação Prato? A Amazônia é mesmo do Brasil? Afinal, o que é a Amazônia? As respostas a essas perguntas estão em JAMBU (Clube de Autores, Brasília/DF, 190 páginas, 2019), novo romance de Ray Cunha, que se passa durante o Festival de Gastronomia do Pará e Amapá, no Hotel Caranã, em Macapá, a cidade mais emblemática da Hileia.

Enquanto o Festival Gastronômico do Pará e Amapá revela ao mundo a cozinha mais saborosa do planeta, o oceanógrafo, arqueólogo, taxidermista e jornalista João do Bailique, editor da revista Trópico Úmido, e sua esposa, a chefe de cozinha e oceanógrafa Danielle Silvestre Castro, dona do Hotel Caranã, estão à caça do traficante de crianças e de grude de gurijuba Jules Adolphe Lunier. Neste romance, a Bacia Amazônia se espraia em vários planos, um dos quais o espiritual.

Personagens vivas, como o filósofo japonês Masaharu Taniguchi; o escritor, astrofísico e médium Laércio Fonseca; o escritor, psicanalista e acupunturista Jorge Bessa; o pintor Olivar Cunha, se misturam a personagens de ficção nas ruas da cidade mais emblemática da Amazônia. Assim, a Fortaleza de São José de Macapá, maior ícone dos macapaenses, é a tradução perfeita da cidade que se debruça sobre o maior rio do mundo, o Amazonas, na confluência da Linha Imaginária do Equador.

Construída por escravos, negros e índios, sob o obsessivo domínio português, para resistir à marinha inglesa, embora só tenha sido atacada por malária, a Fortaleza de São José de Macapá foi o cadinho no qual se forjou a etnia macapaense. Os portugueses cruzaram com os africanos e geraram mulatos, e fornicaram com os índios, formando uma população de mamelucos; os africanos misturaram-se com os índios e legaram cafuzos; e mulatos, cafuzos e mamelucos misturaram-se, fechando o círculo, numa diversidade étnica viva nas ruas de Macapá, nas nuances de peles que vão do alabastro ao ébano, passando pelo bronze e jambo maduro, unidos pelo sotaque caboco: a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis, línguas africanas, patoá das Guianas, tudo triturado em corruptela. 

RAYCUNHA nasceu em Macapá e trabalhou por mais de uma década como repórter na Amazônia, baseado em Belém, Manaus, Santarém e Rio Branco. Em Brasília, onde mora desde 1987, embora trabalhando na imprensa local, continuou escrevendo sobre a Amazônia.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Guiana Francesa, a última colônia europeia na Amazônia, onde os franceses fazem a festa

BRASÍLIA, 26 DE SETEMBRO DE 2019 – Após o histórico discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), terça-feira 24, esclarecendo que a Amazônia não está à venda e que o Brasil não é a casa da mãe Joana, o presidente da França, Emmanuel Macron, com aquele seu jeitinho de garoto perdido da mãe, citou a Amazônia como cavalo de uma “batalha essencial para reduzir a emissão de carbono”, ignorando solenemente que os europeus arrasaram suas florestas e que metade do território francês é usada para a agricultura, enquanto que o Brasil só utiliza para isso menos de 10% do seu território e que a maior parte da Hileia está conservada. Nos últimos dias Macron tem acusado os brasileiros de tocar fogo na floresta, insinuando que deveria haver uma intervenção dos países hegemônicos na região.

Bolsonaro afirmou que “é uma falácia dizer que a Amazônia é um patrimônio da humanidade e um equívoco, como atestam os cientistas, afirmar que a Amazônia, a nossa floresta, é o pulmão do mundo. Valendo-se dessas falácias um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa e com espírito colonialista. Questionaram aquilo que nos é mais sagrado, a nossa soberania”. Macron, que dispõe da bomba atômica e de colônia na Amazônia, a Guiana Francesa, pode até espernear e ameaçar, mas o rapaz é apenas linguarudo mesmo.

Sente-se, nas entrelinhas do que diz Macron, para a mídia que come nas mãos dos comunistas, a arrogância do colonizador. A França é um dos países que mais sofrimento infringiu, e continua infringindo, nas suas colônias, especialmente na África. Na América do Sul, sua colônia é cinicamente chamada de departamento ultramarino, mas é refém das políticas da União Europeia em um continente estranho à Europa.

A verdade é que a Guiana Francesa é governada pela França em regime colonialista linha-dura, obrigada a exportar 70% de seus recursos naturais – especialmente minérios – para a França e importar 90% de todos os bens de consumo da metrópole, segundo o secretário de relações internacionais da União dos Trabalhadores da Guiana Francesa, Jean-Michel Aupoint, que luta pela independência da Guiana Francesa. Rafael Pindard, do Movimento de Descolonização e Emancipação Social da Guiana Francesa, afirma que os guianenses não têm o direito de utilizar os recursos naturais e a terra sem pedir autorização ao governo francês.

A França mantém várias colônias mundo afora, mas a Guiana Francesa é estratégica, por três motivos: é lá que a França mantém uma das maiores bases de lançamento de foguetes da União Europeia; a França mantém na região um aparato militar capaz de rápida e eficiente intervenção na Amazônia; e tem acesso a recursos naturais inimagináveis, muito dos quais ainda intocados. O que os guianenses recebem em troca disso é quase nada.

A França governa a Guiana Francesa com mão de ferro, com total controle político e militar. Como parte dessa política, não interessa à França munir a colônia com infraestrutura, nem desenvolvimento; interessa manter uma população mantida em casa, com bastante enlatados para comer e euro para comprar cachaça. Esqueçam saúde e educação. Segundo Aupoint, o interior da colônia está abandonado. Mas ninguém é besta de sair falando por aí sobre a situação dos guianenses. A repressão francesa é famosa. Basta um rápido olhar sobre a Argélia, por exemplo. Assim, o estado francês desestimula qualquer movimento de independência da última colônia europeia na América do Sul.

A Guiana Francesa é colônia, ou casa da mãe Joana, há mais de 400 anos. Ocupada originalmente por índios aruaques, a região já foi explorada por ingleses, holandeses, espanhóis e portugueses, até ser reivindicada para a França por Daniel de La Touche, o mesmo que fundou São Luís do Maranhão. De 1852 até 1938, foi um dos presídios mais degradantes do mundo; os franceses enviaram para lá, para morrer, cerca de 80 mil presos. Durante muito tempo, a França ambicionou o atual estado do Amapá, chegando, inclusive a invadir o território, então pertencente ao atual estado do Pará.

A maior parte da população é descendente de escravos e indígenas. A taxa de desemprego é de 22% e a expectativa de vida é de 58 anos. Cerca de 40% das crianças vivem abaixo da linha de pobreza. A violência também é explosiva. Uma rápida pesquisa em sites de instituições internacionais confirmam esses dados.

A ONU é cheia de falácias: “Todos os povos têm o direito inalienável à liberdade absoluta, ao exercício de sua soberania e à integridade de seu território nacional. Proclama-se solenemente a necessidade de pôr fim rápido e incondicional ao colonialismo em todas as suas formas e manifestações” – diz trecho da Carta de Concessão à Independência aos Países e Povos Coloniais da Organização das Nações Unidas (ONU), de 1960.

Hoje, mais de 61 países ainda são colônias: 16 da França, 15 da Grã-Bretanha, 14 dos Estados Unidos, seis da Austrália, três da Nova Zelândia, três da Noruega, dois da Dinamarca e dois da Holanda. A China, por exemplo, tem outras tantas colônias. É mais negócio para muitas dessas colônias continuarem comendo nas mãos dos colonizadores, porque suas economias são fracas. Será esse o caso da Guiana Francesa?

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Bolsonaro e A Menina que Brincava com Fogo

BRASÍLIA, 19 DE SETEMBRO DE 2019 – Saí, sábado passado, para bater perna. Fui à Cultura do CasaPark, a grande livraria de Brasília. O resto, são tudo lojas médias, metade papelaria, e todas elas com sistema de som só com canções populares em inglês que não dá para aguentar nem meia hora: só gritos e gemidos. Namorei os livros de sempre, até poder comprar todos eles e ler até ficar com ressaca. Depois, peguei o metrô e fui para o centro da cidade, e atentei para uma coisa que já vinha percebendo há tempo: cada vez mais bancas de revistas são transformadas em lanchonetes.

Na banca da Rodoviária os jornalões apresentavam as mesmas manchetes desde novembro de 2018: contra Bolsonaro. O capitão não dá a mínima. Ele ganhou as eleições utilizando mídia pós-moderna. Hoje, quando os esquerdopatas publicam manchetes com o intuito de desestabilizar Bolsonaro, imediatamente milhões de eleitores se manifestam e mostram por A mais B que a grita dos jornalões não passa de viúvas dos cofres públicos carpindo.

Sempre que vou ao Conjunto Nacional, paro, antes, na banca da Rodoviária, para ler a manchete dos jornalões; eles estão cada vez mais magros. Acredito que os jovens de hoje não sabem nem o que é jornal impresso. Hoje, todo mundo é jornalista na internet. Jornalistas profissionais geralmente comem em balcões de negócios ou na mão dos políticos.

Assim como o jornalismo mudou, também a preferência dos leitores mudou, e não me refiro, aqui, à questão tecnológica. As novas gerações não querem saber dos clássicos. Preferem Dan Brown, ou Stieg Larsson. Quanto a mim, prefiro ouvir notícias no YouTube, e Stieg Larsson, precisamente A Menina que Brincava com Fogo, no sofá de casa, levantando-me, de vez em quando, para beber água, ou mordiscar alguma coisa.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

JAMBU, novo romance de Ray Cunha, é um raio X da Amazônia, e explica qual é a intenção dos extra-terrestres e seus ovnis que aparecem por lá

Ray Cunha nasceu em Macapá, "a cidade mais emblemática da Amazônia"

BRASÍLIA, 28 DE AGOSTO DE 2019 – O Grupo Fortaleza, maior grupo empresarial do Amapá e Pará, realiza, no seu grande hotel, o Caranã, localizado no bairro do Pacoval, em Macapá/AP, o Festival Gastronômico do Pará e Amapá, que será documentado na revista Trópico Úmido, numa edição especial sobre a "Questão Amazônica". A revista é editada pelo jornalista João do Bailique, que investiga o tráfico de crianças e mulheres.

Bailique resolveu também abarcar na edição especial da revista a Operação Prato, popularmente conhecida como Chupa-Chupa, que se deu na ilha de Colares, na costa do Pará. A Operação Prato, a maior aparição de Ovnis e de ETs registrada pela Aeronáutica, foi arquivada sem um diagnóstico, o qual João do Bailique arrisca na sua matéria. Ainda: no contexto dessa reportagem, Bailique aborda a profecia de Chico Xavier, a Data-Limite.

O romance tem muita ação, ambientada em uma pesquisa histórica que abarca toda a Amazônia, tudo contextualizado com a mais singular culinária do planeta. E responde a perguntas como: Qual é a grande tragédia dos amazônidas? Por que as potências estrangeiras são obcecadas pela Hileia? A Amazônia resistiria a uma hecatombe nuclear? O que os ETs da Operação Prato, ou popular Chupa-Chupa, queriam? O que é a data-limite profetizada por Chico Xavier? Os ibéricos já sabiam que o Brasil é destinado a ser o coração do planeta e pátria do Evangelho?

“Acredito que este livro precisa ser publicado imediatamente, porque elucida questões que estão explodindo por aí, razão pela qual ando atrás de editora que banque a publicação, ou de patrocínio” – disse Ray Cunha.

O autor nasceu em Macapá, banhada pelo maior rio do planeta, o Amazonas, e seccionada pela Linha Imaginária do Equador. Para ele, Macapá é a cidade mais emblemática da Amazônia, porque nas suas ruas transitam índios, descendentes de europeus, negros, mamelucos, mulatos e cafuzos, em nuanças de peles que vão do alabastro ao ébano, passando pelo bronze e jambo maduro, unidos pelo sotaque caboco: a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis, línguas africanas, patoá das Guianas, tudo triturado em corruptela.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Conto Amazônico/CARNE DE CRIANÇA

Anoitecia. O rio Caracará estava parado. As árvores também não se moviam. Nada se movia na paisagem imobilizada, nem o som; um pacto de silêncio irrompera na selva. A imobilidade e o silêncio inundaram a tarde morta, exceto o azul escuro do anoitecer, que, lento, escorria. A casa mergulhou na noite e, contrariando o silêncio e a negrura, uma lamparina foi acesa e se ouviu choro, agora alto e cortante.

Os ratos d’água atacaram no meio da tarde. Deixaram o barco um pouco distante e chegaram remando numa ubá. Eram seis. Sabiam que o dono da casa, ausente, pescando em alto mar, estava juntando dinheiro para pagar um novo barco, em construção em Cachoeira do Arari. Encontravam-se na casa a dona, três filhas e três criadas. Os ratos d’água sabiam também disso, e passaram a tarde estuprando as moças, com exceção de Helenita, 14 anos, prometida virgem para um tubarão.

Diante de uma tigela de papa de açaí amassado à mão, com farinha de tapioca, daquela que se derrete na boca, acompanhado de camarão pitu, Ditão estremeceu, de repente angustiado, e largou a comida. No instante seguinte foi avisado da tragédia via rádio. Não entrou em desespero; precisava de esperança. Interrompeu a pescaria, retornou para Cachoeira do Arari, deu parte na polícia e começou a busca de sua Helenita, a caçula. Entretanto, Helenita estava no outro lado da baía de Marajó, num casarão no bairro da Cidade Velha, em Belém, tratada a pão de ló.

– Ficas quietinha, não falas com ninguém, fazes o que eu disser e voltarás para a tua casa dentro de um mês. Agora, se tu não fizeres o que a gente te mandar, vamos te matar e também toda a tua família, estás ouvindo? – disse a mulher, que era grande como um elefante, a quem Helenita foi entregue. A menina se transformara em um autômato; ouvia, o tempo todo, os gritos da mãe, das irmãs e das criadas, som de tapas, e risos de homens nus. Orava, pedia a Deus para acordar do pesadelo. – Dentro de uma semana, tu e outras meninas irão para um passeio com umas autoridades, uns homens bacanas. Tu vais fazer companhia a eles. Tens de fazer tudo o que eles te mandarem, estás ouvindo? Depois do passeio serás devolvida para o Ditão – disse a mulher gorda. E os dias se tornaram uma sucessão de comidas deliciosas, televisão, cama macia, banhos, massagens, um pouco de vinho, filmes com homens fazendo coisas horríveis com mulheres. Mas Helenita jamais deixara de orar, de pedir a Deus que a acordasse do pesadelo, até que numa noite um automóvel negro deslizou por ruas iluminadas e a levou da casa ao cais, onde um iate reinava na noite.

– Chegaram os peixes – dissera um homem de cabelos excessivamente negros, e tão branco que suas veias pareciam flutuar; trajava camisa de seda estampada, calças de linho, sapatos brancos e panamá. “Um boto!” – assustou-se Helenita. 

Havia mais um homem, quarentão, paraplégico. Os peixes eram seis meninas, como Helenita. A mais velha, de 17 anos, estava grávida, segundo ela mesma dissera. Três para cada homem. O pesadelo continuou. Agora, vinha na forma do aleijado chupando sua virilha, lambendo-a toda. Helenita fechava os olhos e sentia o fedor alcoólico da saliva do homem. Às vezes, o via sentado na cadeira de rodas, debruçado sobre ela, chupando-a, lambendo-a, insaciável, até que um dia o iate parou e as meninas foram transferidas para o barco Virgem de Nazaré, que rumou para a cidade de Oiapoque, no norte do Amapá, com carne fresca para a boate Senzala, especializada em pratos especiais para europeus que atravessavam o rio Oiapoque, oriundos de Caiena, a capital da colônia francesa da Guiana. O carregamento chegou de madrugada e o leilão seria na noite seguinte. 

– Aquele francês louco, mas que paga muito bem, o tal de Humbert Humbert, já reservou a Helenita. Ele vem pedindo uma menina faz tempo; chama elas de “Lolita”. Pagou para passar uma semana com a Lolita dele no sítio; depois disso, ela já foi vendida para o Kunathi; vai ser o prato principal da boate dele, em Paramaribo, até ficar estragada – disse, rindo, melífluo, o dono da Senzala, vulgo Caixinha de Pose, em conversa com Tota, seu contador. – Mas antes que Humbert Humbert saboreie a carne fresca até os ossos, e antes que os ossos sejam mamados até o tutano, vou sugar a alma dela; vou sugar todas elas, uma por dia – disse, levantando-se, apalpando o saco.

Era manhã, mas parecia noite. Um raio chicoteou a cidade, seguido de trovoada, que pareceu sugar o ar. A tempestade durou todo o dia e entrou pela noite.

– Nada como Heidsieck para a luz da minha vida, labareda em minha carne, minha alma, minha lama – disse o francês, alto, gordo e muito branco, num português ininteligível, servindo champagne para Helenita. Ela não sentia mais pavor; morrera no pesadelo infindo.

A Polícia Federal desencadeara a Operação Ninfeta no início da madrugada. O céu estacara, tenso como tumor maduro.

– Beba! Quero-a queimando-me a alma – Humbert Humbert ainda teve tempo de dizer.

domingo, 25 de agosto de 2019

JAMBU, novo romance de Ray Cunha, é um mergulho na Amazônia real e interpreta o que os ETs vieram fazer na Operação Prato e a data-limite profetizada pelo médium Chico Xavier


BRASÍLIA, 25 DE AGOSTO DE 2019 – No Hotel Caranã, bairro do Pacoval, em Macapá, é onde se desenrola o Festival Gastronômico do Pará e Amapá. João do Bailique, editor da Trópico Úmido, dá os últimos retoque na edição de agosto da revista, em edição especial sobre a “Questão Amazônica”. Uma das matérias é sobre a Operação Prato, a maior aparição de discos voadores e ETs já documentada no Brasil, observada nas costas do Pará.

Trópico Úmido traz uma entrevista com Jorge Bessa, escritor e pesquisador, que participou da Operação Prato, como agente da inteligência. A data-limite, mencionada por Chico Xavier, é também esmiuçada na trama, que envolve ainda o comércio negro de grude de gurijuba e o tráfico de crianças para escravidão sexual.

O escritor ressuscita a pianista Walkíria Ferreira Lima e seu filho, o poeta Isnard Brandão Lima Filho, além de colocar neste universo fictício um gênio real da paleta: Olivar Cunha. “Quando a professora Walkíria Ferreira Lima entrou no palco, os músicos da Orquestra da Escola de Música do Amapá levantaram-se e o público também, aplaudindo-a em pé. De porte frágil, agigantava-se no púlpito. Nascera em Manaus, onde se formou em música, começando os estudos de piano aos 10 anos de idade. Chegou a Macapá na década de 1950, e começou a lecionar canto orfeônico na Escola Barão do Rio Branco e na Escola Industrial do Amapá, antes da criação do Conservatório Amapaense de Música, onde ensinou piano e solfejo. Walkíria Lima foi ainda uma das fundadoras da Academia de Letras do Amapá, patrocinando a cadeira 40. Casou-se com o mágico Isnard Brandão Lima e teve um único filho, o poeta manauara-macapaense Isnard Brandão Lima Filho, autor de Rosas Para a Madrugada e Malabar Azul. Isnard sentara-se na primeira fila. Pálido, olhos amendoados e olhar intenso, cabeleira penteada como a de Castro Alves, bigode, fumante inveterado e dipsomaníaco, lembrava um misto de toureiro e dançarino de tango. Ao lado dele, sentara-se o gênio do pincel e da espátula Olivar Cunha, que assinava os 21 painéis que compunham a exposição oficial do Festival de Gastronomia do Pará e Amapá.”

O autor nasceu em Macapá, a cidade mais emblemática da Amazônia, onde os portugueses ergueram a Fortaleza de São José de Macapá, construída no século XVIII para resistir a uma força semelhante à da marinha inglesa, mas que só foi atacada por malária.

“Assim, a Fortaleza, maior ícone dos macapaenses, é a tradução perfeita de Macapá. Construída por escravos, negros e índios, sob o obsessivo domínio português, foi o cadinho no qual se forjou a etnia macapaense. Os portugueses cruzaram com os africanos e geraram mulatos, e fornicaram com os índios, formando uma população de mamelucos; os africanos fundaram o distrito de Curiaú e o bairro do Laguinho, misturaram-se com os índios e legaram cafuzos; e mulatos, cafuzos e mamelucos misturaram-se, fechando o círculo, numa diversidade étnica viva nas ruas de Macapá, nas nuanças de peles que vão do alabastro ao ébano, passando pelo bronze e jambo maduro, unidos pelo sotaque caboco: a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis, línguas africanas, patoá das Guianas, tudo triturado em corruptela.”

Ray Cunha trabalhou de 1975 a 1987 como repórter baseado em Belém, Manaus, Santarém e Rio Branco, conhece a selva profunda e é leitor da literatura científica sobre a região. Em Brasília, onde mora desde 1987, embora trabalhando como jornalista na imprensa local, continuou escrevendo também sobre a Amazônia, como correspondente e responsável por colunas especializadas sobre o Trópico Úmido publicadas em portais sediados na capital;

É autor dos romances CASA AMARELA, A CONFRARIA CABANAGEM, HIENA e FOGO NO CORAÇÃO; dos livros de contos TRÓPICO ÚMICO, NA BOCA DO JACARÉ, A GRANDE FARRA, O CASULO EXPOSTO e A CAÇA; e dos livros de poemas SOB O CÉU NAS NUVENS e DE TÃO AZUL SANGRA.

Esses livros podem ser adquiridos nos sites do Clube de Autores e da Amazon.com.br

O novo romance de Ray Cunha, JAMBU, que terá capa de Olivar Cunha, está à espera de editora, ou de patrocinador. Quem se manifesta?

sábado, 24 de agosto de 2019

Amazônia: o coração das trevas

Ray Cunha no Marco Zero do Equador, em
Macapá/AP (Foto de Fernando Canto - 2010)

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 24 DE AGOSTO DE 2019 – De repente, o mundo se volta para a Amazônia. O mundo, aqui, é um velho lobo em pele de ovelha, pele surrada e com lã bastante suja. Essa criatura diz, emocionada, que quer o bem da Amazônia. Mas ela foi identificado: é uma hiena europeia, e que, na verdade, ambiciona os bens da Amazônia. Esse subcontinente vem sendo assaltado, estuprado, currado, desde sempre, mas, agora, tudo o que acontece na Hileia, segundo os comunistas, é obra do presidente Jair Bolsonaro. Todo mundo sabe que isso é mentira. Aproveitando a última moda, se preocupar com a Amazônia, que para os especialistas em Amazônia é o pulmão do planeta, e agora todo mundo é especializado na grande selva, vamos, aqui, neste artigo, mudar o foco das queimadas, e abordar um incêndio muito mais infame. A mentalidade de colonizado, predominante nos amazônidas, o calor, a nudez e a corrupção crônica na antiga colônia portuguesa e agora até de Brasília, determinaram a perpetuação na Hileia de uma das nódoas mais negras da humanidade: a escravidão sexual de crianças. A Interpol francesa calcula que a rede internacional de tráfico de pessoas movimenta cerca de US$ 9 bilhões por ano.

A Amazônia é um paradoxo. O mais belo realismo fantástico da Terra, a mais rica província mineral do mundo, a maior diversidade biológica do planeta, é também O coração das trevas, obra-prima de Joseph Conrad. Esse pequeno romance de pouco mais de 150 páginas é um golpe de navalha seccionando tecido humano, obsceno como ataque de hienas. É o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu, disse o labiríntico Jorge Luís Borges. Assim é a face obscura da Amazônia. O Inferno Verde é o latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o malogro da civilização colonialista.

A Amazônia é saqueada desde o século XVI. Potências europeias, americanos, Brasília, todos têm repasto garantido na Amazônia. Nos dias de hoje, leva-se, de lá, a floresta, energia hidrelétrica, minérios, pedras preciosas, animais, mulheres e crianças, e é um dos locais onde mais se escraviza no mundo. Até agora, o desenvolvimento imposto à Amazônia é para dizimar os amazônidas – índios, ribeirinhos, caboclos, quilombolas – e encher os cofres de políticos que transformam o erário em lavanderia. Os presidentes da República governavam de costas para a Amazônia, tratando-a como colônia, e colônias servem para serem saqueadas.

Um caso que aconteceu em novembro de 2007, em Abaetetuba, cidade no quintal de Belém, constitui-se uma metáfora da Amazônia. Delegados da Polícia Civil do Pará, com a conivência de gente do Judiciário, atiraram uma menina a dezenas de criminosos na cadeia da cidade. Essa criança foi currada, dia após dia, durante um mês. Assassinos, estupradores, espancadores de mulheres e crianças, ladrões, arrombadores, batedores de bolsa de velhinhas, psicopatas, drogados, caíram em cima da garotinha como hienas, e os policiais, ali perto, ouvindo e vendo tudo.

Os berros de terror eram ouvidos pelos delegados e pelos moradores da cidade, já que a delegacia era um prédio velho praticamente aberto para a rua, e ninguém moveu uma palha pela menina. “Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das costas” – disse a mãe da jovem. “Cortaram o cabelo dela com um terçado (facão) para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de dizer, escalpelaram a minha filha.” O tempo todo, L ficou com as roupas que usava ao ser presa, uma saia curta e blusinha, cobrindo seios adolescentes. Ela media 1,40 m. “Aqui, no Pará, colocar homem e mulher na mesma cela é mais comum do que se imagina” – disse, na época, frei Flávio Giovenale, bispo de Abaetetuba. Há caso de atirarem uma mulher a 70 presos.

“Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada” – disse uma mulher na delegacia a jornalistas. “Antes de comer, os presos se serviam dela” – afirmou outra mulher, explicando que a menina só comia se não dificultasse a curra. “Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar” – afirmou outra mulher, explicando que era possível ver e ouvir da rua muito do que se passava na delegacia.

Seis delegados estiveram na delegacia durante o suplício da jovem. A delegada plantonista responsável pelo flagrante foi Flávia Verônica Monteiro e o delegado titular de Polícia de Abaetetuba, Celso Viana. “Embora ela estivesse misturada com os homens, o setor onde ela estava é aberto e permite uma ampla visão de qualquer policial” – declarou o delegado Celso Viana. Flávia Verônica Pereira e três policiais tinham conhecimento dos estupros. Nada fizeram. E policiais ameaçaram a menina de morte se não participasse de fraude em cartório para alterar-lhe a idade na certidão de nascimento.

O delegado Celso Viana alegou em depoimento que a adolescente disse ser maior de idade e afirmou que a responsabilidade da prisão da menor seria do sistema penal, e a delegada Flávia Verônica Monteiro afirmou que foi enganada ao ver o documento falso da jovem, indicando que ela tinha 20 anos. Flávia disse ainda que não transferiu a adolescente da delegacia para outra instituição porque esse procedimento só poderia ser feito com ordem judicial.

Em 27 de novembro de 2007, durante audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, o então delegado-geral do estado do Pará, Raimundo Benassuly Maués Júnior, insinuou que a jovem é que foi responsável pelo episódio e que devia ter “alguma debilidade mental” por não ter dito que era menor de idade. “Não sou médico legista nem tenho formação na área, mas essa moça tem certamente algum problema, alguma debilidade mental. Ela, em nenhum momento, declarou sua menoridade penal” – afirmou o gênio.

No dia 3 de outubro de 2013, leio na mídia que a juíza Clarice Maria de Andrade Rocha, que atuava em Abaetetuba quando a adolescente esteve presa, fora promovida, um dia antes, pelo Tribunal de Justiça do Pará, a titular da Vara de Crimes contra Crianças e Adolescentes de Belém. Segundo portaria da desembargadora Luzia Nadja Guimarães Nascimento, o critério para a promoção de Clarice foi por merecimento.

Clarice Maria de Andrade foi considerada omissa pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) durante o período em que a jovem paraense foi supliciada, e recebeu a punição de aposentadoria compulsória, em 2010. Mas a Associação dos Magistrados do Pará (Amepa) recorreu da decisão e a aposentadoria foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que entendeu que a punição foi exagerada, já que a magistrada não teria como saber da situação da carceragem da delegacia de Abaetetuba.

O fato é que quando o caso estourou na mídia, em novembro de 2007, a então governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa, tratou-o com habitual alienação, e tudo mergulhou no esquecimento. Aliás, crianças são emblemáticas na tragédia da Amazônia.

Em 1979, fiz, para o antigo mensário Varadouro, em Rio Branco, extremo oeste da Hileia, reportagem sobre o tráfico de meninas pela BR-364, espinha dorsal do Acre, ligando o estado ao resto do país. Frequentei boates e bares, pontos de encontro de caminhoneiros, entrevistei prostitutas e rodoviários, e pesquisei em registros policiais, concluindo que parte dessas meninas que sumiam em Rio Branco era atirada em prostíbulos de Porto Velho, Manaus e Goiânia. Outras, simplesmente fugiam da miséria. Quarenta anos depois a situação piorou, e muito. A tragédia, que afeta toda a Amazônia, foi ampliado em escala assustadora.

Foram identificadas 76 rotas de tráfico de mulheres, crianças e adolescentes na Amazônia, segundo a Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins Sexuais, coordenada pelo Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria) e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Exploração Sexual, do Congresso Nacional.

Nesse comércio negro, assim como ocorre com políticos corruptos, a imunidade, digo, impunidade, é garantida. O holandês Kunathi, um dos maiores traficantes de pessoas, em atividade na Amazônia, já foi preso em flagrante no Pará, mas a Justiça o soltou para responder ao processo em liberdade. Não deu outra, Kunathi fugiu para o Suriname, antiga Guiana Holandesa, onde é dono de boate na qual só trabalham brasileiras, muitas delas do Pará e do Amapá.

Em 2006, adolescentes de Altamira, no Pará, que caíram nas garras de uma quadrilha de exploração sexual e a denunciaram, foram ameaçadas de morte se falassem na Justiça. A polícia paraense, despreparada, não pôde dar segurança às vítimas e só conseguiu provas contra três dos 15 acusados. A ação da quadrilha envolvia inclusive um político e empresários. “É uma rede complexa de exploração sexual, com várias vítimas e vários adultos envolvidos; é preciso que haja vontade política para que se chegue aos outros envolvidos” – disse, à época, Ana Lins, advogada da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH).

Em março daquele ano, a polícia de Altamira localizou várias adolescentes, algumas dadas como desaparecidas por suas famílias, em uma chácara, onde eram embebedadas e servidas em banquetes sexuais fotografados. As fotos eram divulgadas na internet. As orgias ocorriam também em motéis da cidade e em imóveis de um dos acusados, além de chácaras e balneários no município, onde as bacanais duravam dias.

Ameaçadas de morte, vítimas, suas famílias e testemunhas, desdisseram nos depoimentos à Justiça as declarações prestadas no inquérito policial. Uma das vítimas contou que foi ameaçada na porta da escola onde estuda, e sua família recebeu bilhetes com ameaças de morte. A jornalista Iolanda Lopes, que denunciou a quadrilha em várias reportagens, disse que recebeu três telefonemas ameaçadores.

As adolescentes foram, ainda, humilhadas na Câmara de Altamira, onde tiveram seus nomes divulgados durante sessão plenária. “A vergonha, a humilhação, o sentimento de desesperança e a depressão são alguns sintomas encontrados em várias das vítimas desse tipo de crime” – comentou a advogada Ana Lins. “A revitimização é o calvário de ter que reviver os momentos do crime ao ter que relatá-los várias vezes. Esse calvário vai desde não ser atendida dignamente na delegacia, às vezes esperando horas e horas, até conseguir registrar a ocorrência policial, a realização de exames periciais sem a devida humanização do servidor responsável, até ver os algozes soltos livremente e voltando a delinquir em alguns casos.”

Em janeiro de 2005, o Jornal Nacional, da TV Globo, publicou uma série de reportagens intitulada Povos das Águas, na qual focalizou o trânsito de balsas em Breves, na ilha do Marajó, Pará. Nessas balsas, na cabine de carros, crianças marajoaras serviam de repasto sexual durante o cruzamento do rio. De um modo geral, os municípios marajoaras são miseráveis, apesar da natureza pujante da maior ilha flúvio-marítima do mundo. O Marajó, uma das mais belas regiões do planeta, é do tamanho da Suíça. A ilha é banhada pelos rios Amazonas, Pará e Tocantins, e pelo Oceano Atlântico.

O comércio de crianças amapaenses e paraenses é intenso na Guiana Francesa e no Suriname, ao norte do Amapá, principalmente em cidades como Kourou, onde fica a base francesa de lançamento de satélites; o balneário de Montjoly e Saint Laurent. Meninas e meninos amapaenses e paraenses são bastante apreciados para bacanais, corrompidos por promessas de casamento com franceses ou pela possibilidade de ir para a Europa, onde imaginam que possam ganhar até 100 euros, cerca de R$ 400, por programa, escapando, assim, da miséria.

Dos 200 mil habitantes da Guiana Francesa, 50 mil são brasileiros ilegais, amapaenses em sua maioria, que fogem do Amapá, estado assolado pela miséria social, roubalheira de colarinho branco, nepotismo, corrupção endêmica e imigração insuportável. A capital, Macapá, é reflexo do desleixo administrativo. Cidade sem esgoto, cheia de ruas esburacadas, com fornecimento precário de energia elétrica e água encanada, apesar de se situar na margem do maior rio do mundo, o Amazonas, a cada dia fica mais inchada e violenta.

Próximo de Caiena, a capital da colônia francesa na Amazônia, localiza-se a cidade amapaense de Oiapoque. Antes de as meninas seguirem para as três Guianas, passam, geralmente, por um estágio em Oiapoque. Boates locais são internatos de meninas e meninos para o abate.

Assim, guianenses que atravessam o rio Oiapoque atraídos por sexo são recebidos na cidade de braços abertos – inúmeros bares nos quais o lenocínio prospera, de manhã à noite, açougues onde é possível comprar crianças de, em média, 13 anos. No Amapá, cidades como Laranjal do Jari, Tartarugalzinho, Calçoene e Santana, esta, na zona metropolitana de Macapá, são, como Oiapoque, vitrines de carne infantil. O jornal O Liberal, de Belém, o mais influente da Amazônia, contém, no seu banco de dados, ene reportagens que confirmam o que eu estou dizendo, com nomes, lugares e datas.

SEREIAS – Madrugada de 16 de setembro de 2004, marina da Ponta Negra, Manaus, Amazonas. A bordo do iate Amazonian, de 25 metros de comprimento, 15 políticos e empresários de Brasília e de São Paulo aguardam um carregamento para zarpar rio Negro acima, aparentemente para uma pescaria em Barcelos, a 450 quilômetros da capital amazonense, em passeio organizado pelo dentista paulista Flávio Talmelli. Era o terceiro ano que o alegre grupo de políticos e empresários candangos-paulistas se reunia.

Finalmente o carregamento chega. São peixes servidos antes mesmo da pescaria: 17 meninas, a maioria delas menor, aliciadas em casas noturnas de Manaus. O programa de dois dias e duas noites renderia R$ 400 a cada uma, fora gorjetas. As garotas foram conduzidas ao iate pela cafetina Dilcilane de Albuquerque Amorim, conhecida como Dil, 33 anos, que ganharia R$ 100 por garota.

Domingo 19. As meninas se dividiram em dois grupos para o retorno a Manaus. O Amazonian, com os políticos e empresários, seguiu rio Negro acima, com destino a um hotel na selva. Doze meninas retornaram a Manaus. No fim do dia, as cinco meninas restantes retornaram também, no barco Princesa Laura. O barco naufragou naquele mesmo domingo, entre Manaus e Barcelos, com 100 passageiros. Morreram 13 pessoas, entre as quais as cinco garotas que participaram da orgia: Amanda Ferreira Silva, 20 anos; Marlene Cristina dos Santos Reis, 19; Suzie Nogueira Araújo, 18; Taiane Barros, 17; Hingridy Florêncio Viana, 16.

Dois dias antes do acidente, alguns pais queixaram-se à polícia sobre o desaparecimento de suas filhas. Agentes da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente de Manaus (Deapca) descobriram que as meninas mortas haviam participado de uma bacanal e eram as mesmas que estavam sendo procuradas pelos pais. Depois, localizaram algumas meninas que retornaram a Manaus, do Amazonian. Descobriu-se, então, que três homens que estavam no Amazonian deixaram a embarcação em Barcelos e, dia 23 de setembro, retornaram a Manaus, em avião da Apuí Táxi Aéreo.

Foi aí que identificaram o então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital Benício Tavares da Cunha Melo, do PMDB, que adotou o nome Benício Mello (prenome e último sobrenome); Randal Mendes (Sérgio Randal), cunhado de Benício Tavares e, então, chefe de gabinete da presidência da Câmara Legislativa do DF; e o advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

Uma das menores ouvidas pela polícia disse que Benício Tavares manteve relações sexuais com pelo menos duas menores, uma das quais Taiane Barros, 17 anos, mãe de um bebê de sete meses, e que morreu afogada no Princesa Laura. Outra garota afirmou, em depoimento à polícia, que manteve relações sexuais com Benício, que teria pago R$ 500 a ela. Uma menor disse que Benício lhe ofereceu R$ 500 para manterem relações sexuais, mas ela recusou. Seis das moças que estiveram a bordo do Amazonian garantem que Benício chegou a pagar valores entre R$ 200 e R$ 1 mil para manterem relações sexuais com ele, inclusive com as menores de idade.

Das 17 meninas contratadas para a bacanal, seis afirmaram, em depoimento à delegada Maria das Graças Silva, titular da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente, que Benício Tavares esteve no iate nos dias 17, 18 e 19 de setembro, e que manteve relações sexuais com várias garotas, entre as quais pelo menos duas menores. A delegada garante que coletou elementos suficientes para provar a participação de Benício Tavares em turismo sexual. Maria das Graças Silva mostrou, dia 27 de setembro, fotografias de Benício Tavares a três meninas que participaram da orgia. Elas identificaram imediatamente o parlamentar, paraplégico.

Três meninas ouvidas pela polícia garantem que no iate Amazonian havia bebida alcoólica e drogas, e que foram realizados desfiles de garotas nuas e sorteio de brindes aos participantes. Em depoimento à polícia, a cafetina Dil declarou que a bacanal foi contratada pelo dentista paulista Flávio Talmelli. “Ele disse que o passeio seria muito divertido e que todas as despesas, desde hospedagem a alimentação, seriam pagas por seus amigos. Somente convidei algumas amigas” – defendeu-se Dil. As garotas disseram à polícia que foram enganadas por Dil. O combinado é que receberiam R$ 400, mais gorjetas, mas, a bordo, receberam somente R$ 200.

Em nota oficial, divulgada no dia 27 de setembro de 2004, Benício Tavares confirmou a viagem a Manaus, de 16 a 22 de setembro, para pescar no rio Negro, hobby até então insuspeito. Confirmou também o voo Barcelos-Manaus. Negou relacionamentos sexuais com garotas menores de idade. Para fazer a viagem turística, Benício se licenciou da presidência da Câmara por 10 dias, embora a casa estivesse votando uma pilha de matérias e sua presença fosse importante. Foi confirmada também a presença, no iate, do chefe de gabinete da presidência da Câmara, Randal Mendes, cunhado de Benício Tavares, e do advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

Em 2004, em Brasília, o plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal fechou os olhos e arquivou processo contra o então deputado Benício Tavares (PMDB), que respondia na Justiça por turismo sexual no estado do Amazonas. Benício foi liberado por 14 votos favoráveis e 10 abstenções. Em 2007, o então governador de Brasília, José Roberto Arruda, deu a Benício Tavares a Administração Regional de Ceilândia, o maior colégio eleitoral da cidade-estado. O povo se revoltou, pois, além da acusação de corruptor de menor, Benício Tavares era acusado de desvio de dinheiro. Arruda teve de tirá-lo do cargo. Em 2009, o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do DF (TJDF) instaurou processo penal contra Benício, em ação movida pelo Ministério Público, e o absolveu. Benício Tavares foi reeleito deputado distrital.

Em 2010, o governador José Roberto Arruda foi preso, acusado de comandar um esquema de corrupção. Em novembro de 2011, Benício Tavares perdeu o mandato de distrital no exercício da sexta legislatura, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que considerou, por unanimidade, que o deputado coagiu eleitores e praticou abuso de poder econômico.

Como se vê, Brasília não vai à Amazônia apenas por energia hidrelétrica, minerais e madeira. Ainda bem que o aborto de ditador Lula Rousseff já está enjaulado, pois o Foro de São Paulo seria capaz de transpor as águas do rio Amazonas para o Nordeste, não que isso seja necessário, pois o Nordeste dorme sobre descomunal aquífero, mas porque a grana que isso renderia não está no gibi.