sexta-feira, 3 de abril de 2020

QUARENTENA

Eu, de quarentena, no meu quarto (31-03-2020)

RAY CUNHA


Os dias desfilam à minha frente com lentidão mortal
Tento sair deles movido pelo desespero dos afogados
Mas o mar é um abismo de eternidade
Penetrando minhas células, ocupando meu DNA, como líquido metal

São dias de espera, de mortos nas esquinas
Pesadelos no umbral, o horror
Terrorista à espreita, arma biológica
A morte que vem da China

Se é noite, há a Lua e estrelas, e o Sol, se é dia
Mas com sons sem origem, em meio ao nada
Como se a vida ainda não existisse

Sinto a angústia se avolumar, se transformar no próprio Universo
Mas percebo que isso se passa apenas na minha alma
Como um danado que não morre de vírus, mas de quarentena


Brasília, 3 de abril de 2020

quarta-feira, 1 de abril de 2020

A batalha entre os magos negros e os anjos de luz

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 1 DE ABRIL DE 2020 – O Sudoeste é um bairro de Brasília situado entre o Parque da Cidade, ao sul, e o Eixo Monumental, ao norte, o Cruzeiro Velho e Novo e a Octogonal a oeste e o Setor Gráfico a leste. É onde a noite fervilha. Nestes tempos de corona, o silêncio se abateu na região, a favorita de altos funcionários dos três poderes, empresários e jornalistas (pela proximidade geográfica do poder?), que, de quarentena, pedem por telefone comida e produtos vendidos em supermercados e farmácias.

Aos poucos, o bairro desperta. Hoje, como ontem, o sol se impôs, bom para um banho de raios ultravioletas de 20 minutos, para ativar vitamina D. Ouço sons de operários trabalhando e já vi mulheres, crianças e cachorros passeando na pracinha defronte ao prédio onde moro. Outro dia, vi um vendedor de pamonha. Quanto à caçamba que recolhe o lixo, nunca deixou de passar. À noite, jamais vi tantas estrelas em Brasília, porque a frota de carros nas ruas caiu 70 por cento.

Enquanto os cientistas não criam vacina contra o covide-19, vem-se utilizando hidroxicloroquina. A cloroquina foi descoberta em 1934, por Hans Andersag, da Bayer. Normalmente usada contra malária, hidroxicloroquina é também aplicada, ocasionalmente, contra algumas doenças autoimunes, como artrite reumatoide e lúpus eritematoso, além de abcesso de fígado por amebíase.

A ingestão de cloroquina provoca efeitos adversos, como náusea, vômito, dores abdominais, diarreia, dor de cabeça, tornozelos e pernas inchados, dificuldade para respirar, palidez, fraqueza muscular, sangramentos, surdez, visão turva, confusão mental e, mais raramente, problemas cardiovasculares. Mas a droga é excretada pelos rins.

Em janeiro passado, pesquisadores chineses realizaram um teste experimental com cloroquina, em combinação com remdesivir e lopinavir/ritonavir, conseguindo inibir o vírus que causa o covid-19. Em relatório, o Departamento de Ciências e Tecnologia da Província de Guandong informou que o fosfato de cloroquina “aumenta o índice de tratamento e diminuí o tempo do paciente no hospital”. A cloroquina já foi recomendada por entidades de saúde chinesas, sul-coreanas e italianas para o tratamento do covid-19, com recomendações de contraindicação para pessoas que apresentam problemas cardíacos ou diabetes.

Em fevereiro, estudos indicaram que a hidroxicloroquina é mais potente do que a cloroquina, e com mais tolerância, “melhorando as funções dos pulmões, promovendo uma ação negativa contra o vírus e diminuindo o tempo de duplicação da doença”. A Food and Drug Administration (FDA) aprovou emergencialmente uso de cloroquina e de hidroxicloroquina nos Estados Unidos; no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro também vem incentivando o uso da droga contra o covid-19.

Enquanto o surto do vírus não desaparece, e vai desaparecer, bolivarianos, incluindo jornalistas acossados por outra ordem de quarentena, a do balcão de negócios, arremetem contra Bolsonaro, que, como já se sabe, não foi eleito para distribuir flores, mas para entrar com os dois pés no covil dos corruptos.

Nos lares, alguns gozam de paz, e casais felizes aproveitam para as viagens interiores que vêm adiando. Em outros lares, desaba o inferno. Em muitos, há fartura de comida; em muitos mais, a morte pela fome ronda cada vez mais próxima.

Talvez seja esta a batalha decisiva entre os magos negros e os anjos de luz, e só há um de dois resultados: ou o Brasil, a pátria do Cruzeiro, fenecerá, sugado pelos gafanhotos bolivarianos, ou entraremos em longo período de luz, amor, paz e prosperidade.

Com a Wikipédia

terça-feira, 31 de março de 2020

Olivar Cunha: a dimensão do gênio

Lili, Márcio, Linda, Marina, Olivar Cunha e Mel
RAY CUNHA

BRASÍLIA, 31 DE MARÇO DE 2020 – O gênio do pincel e da espátula Olivar Cunha mergulha hoje em mais uma primavera. Em sua homenagem publico, aqui, o Capítulo V do romance JAMBU:

Além de estudantes e expectadores em geral, que disputaram uma das duas mil poltronas da luxuosa casa de espetáculos, a aristocracia amapaense estava em peso no Teatro Açaí, do Hotel Caranã, muitos deles em roupas de luxo, algumas, espalhafatosas, lembrando sapos encasacados, inchados de tanta comida e dinheiro, guardado em bancos e malas; se fossem postos de cabeça para baixo não cairia um níquel sequer, pois quem é viciado em dinheiro esconde-o. Alguns estavam tão inchados que se alguém ficasse olhando para eles esperaria ouvi-los coaxar.

Quando a professora Walkíria Ferreira Lima entrou no palco, os músicos da Orquestra da Escola de Música do Amapá levantaram-se e o público também, aplaudindo-a em pé. De porte frágil, agigantava-se no púlpito. Nascera em Manaus, onde se formou em música, começando os estudos de piano aos 10 anos de idade. Chegou a Macapá na década de 1950, e começou a lecionar canto orfeônico na Escola Barão do Rio Branco e na Escola Industrial do Amapá, antes da criação do Conservatório Amapaense de Música, onde ensinou piano e solfejo. Walkíria Lima foi ainda uma das fundadoras da Academia de Letras do Amapá, patrocinando a cadeira 40. Casou-se com o mágico Isnard Brandão Lima e teve um único filho, o poeta manauara-macapaense Isnard Brandão Lima Filho, autor de Rosas Para a Madrugada e Malabar Azul. Isnard sentara-se na primeira fila. Pálido, olhos amendoados e olhar intenso, cabeleira penteada como a de Castro Alves, bigode, fumante inveterado e dipsomaníaco, lembrava um misto de toureiro e dançarino de tango. Ao lado dele, sentara-se o gênio do pincel e da espátula Olivar Cunha, que assinava os 21 painéis que compunham a exposição oficial do Festival de Gastronomia do Pará e Amapá.

A etimologia da palavra “cunha” é remota. Vem do latim “cuneus”. Colonizadores romanos fixaram-se na Península Ibérica, que, mais tarde, foi invadida pelos visigodos e depois pelos árabes, em 711 DC. No decorrer dos séculos e várias invasões, a língua latina foi perdendo a pureza, surgindo as línguas neo-latinas, entre as quais o português. A palavra “cunha” tem conotação guerreira: fender, ferir madeira e pedra. O avô paterno de Olivar Cunha se chamava Manuel Raimundo Cunha, nasceu em 1875, em Portugal, e migrara para Pernambuco; e sua avó paterna, Rosa Maria Cunha, nasceu em 1882, em Sobral, Ceará, e faleceu em Manaus, em 1973, aos 91 anos, vítima de congestão; era negra. Os bisavós maternos do grande pintor eram Domingos Pereira Silva, pernambucano, e Francisca de Oliveira Bessa, cearense; e seus avós maternos eram Pedro Pereira Silva (1895-1952), apelidado de Pedro Correto, pela sua retidão de caráter, e Alice Pereira Silva (1898-1961), nascida na cidade do Crato, Ceará. Pedro Correto era moreno-claro e de cabelos encarapinhados, feição negroide, cearense; migrou, ainda rapaz, para a Amazônia, atraído pela febre da borracha no início do século 20. Quando se casou, tornara-se fazendeiro abastado e residia em Porto Velho, mas vendeu todos os seus bens e entrou na Companhia Ford Motors, em Fordlândia, então distrito de Santarém, Pará. Em 1932, separou-se da esposa, Alice Pereira Silva, e mudou-se para Belém, onde morreu. Nos últimos anos da sua vida foi guarda-costas do general Magalhães Barata, nas suas andanças políticas pelo interior do Pará. Magalhães Barata foi revolucionário do Movimento Tenentista, duas vezes governador e duas vezes interventor federal no Pará. Alice Pereira Silva continuou em Fordlândia. Branca, loura e de olhos claros, era uma mulher com a fibra necessária para enfrentar o Inferno Verde. O início da vida do casal foi nas proximidades do rio Abunã, tributário pela margem esquerda do rio Madeira, no extremo oeste da Amazônia; tiveram nove filhos, a maioria deles natimortos, assassinados ou mortos por doença na juventude. A caçula era Marina Pereira Silva Cunha, “a mulher mais bonita, forte, corajosa, poderosa e eterna como as rosas que eu já tive a oportunidade de conhecer” – escreveu João do Bailique, irmão de Olivar Cunha.

Marina Pereira Silva Cunha nasceu na região do rio Abunã, em 2 de março de 1924. Ela se casou em Belterra, em 22 de junho de 1947, com João Raimundo Cunha, que nasceu em 16 de maio de 1915, em Sobral, Ceará. Ainda criança, migrou para Santarém, com a mãe, Rosa Maria Cunha, e três irmãs; seus irmãos morreram em tenra idade. Perdeu cedo o pai e começou a trabalhar na lavoura. Foi capataz de quadreiro, que era o capinador de campo de seringal, e serrador, na Companhia Ford Motors, no distrito de Belterra, e depois começou a trabalhar nos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, em Belterra, em 1 de setembro de 1946; depois na cidade de Santarém, e, finalmente, em Macapá, onde chegou em janeiro de 1950, sucedido pela família, em outubro do mesmo ano. Trabalhou nos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul até 15 de outubro de 1972. Em 1 de maio de 1973, começou a trabalhar na empresa Irmãos Zagury e Cia. Ltda., como ajudante de mecânico, até 6 de março de 1977, quando se aposentou, somando 35 anos de serviço ativo.

Alguns trechos da crônica “Papai faz 100 anos”, que João do Bailique publicou na Trópico Úmido:

“Alguns dos meus ídolos – Ernest Hemingway, Jack London, Antoine de Saint-Exupéry – manifestam duas características em comum: são escritores classe A e foram homens de ação. Um homem de ação é aquele que pensa e age simultaneamente, e também não vive quieto, pois está sempre metido em alguma aventura. A própria vida é sua grande aventura, até que, no caminho, é derrotado pela barreira da dimensão física, mas não é vencido, e passa a povoar o universo azul. Meu pai, o maior dos meus ídolos, não era escritor, mas era homem de ação, e me contou histórias eternas.

“Meu pai media 1,68, era seco e forte, o rosto oval, olhos castanhos e oblíquos, e usava uma loção à base de pinho após raspar, com navalha, o rosto, deixando apenas o bigode. Foi o homem mais corajoso que já encontrei; nada o intimidava. Internava-se na selva dias seguidos, sozinho, e era capaz de meter uma bala no buraco de outra, a mais de 100 metros de distância. Ele não era escritor, mas escreveu alguns poemas, que se perderam no tempo.

“Um dia, peguei os originais dos poemas que o papai escrevia de vez em quando e li alguns na Rádio Educadora, em um programa do Luiz Tadeu Magalhães. Papai soube e me passou uma reprimenda. Mas senti, ali, naquele momento, que, de alguma forma, ele não se importou muito que eu tivesse lido publicamente seus poemas, e isso me deixou feliz, pois agradar o ídolo é para o fã o sonho mais ousado.

“Papai não era escritor, mas foi um extraordinário contador de histórias. Leu Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, e contava a história para nós, meus irmãos e eu, como se Tarzan fosse real. Porém o que mais me fascinava eram as aventuras do próprio papai, especialmente quando se internou na selva profunda e foi atraído por uma sucuri. Tonto, quase desmaiando, foi salvo pelo seu anjo da guarda; conseguiu avistar a cabeça da sucuri, apoiou o rifle numa forquilha e estourou a cabeça da serpente, uma cabeçorra do tamanho de uma lata de leite Ninho.

“Papai chefiava todo o trabalho pesado no Aeroporto de Macapá, nos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, como faz-tudo, oficialmente como feitor de pista, sinalizando a descida e subida dos Douglas DC-3, abastecia os aviões e os despachava. A primeira vez que o vi fazendo isso fiquei deslumbrado, e quando fui autorizado a entrar no avião foi como se houvesse entrado numa nave espacial. Meu pai conversava com os pilotos da nave e entrava no avião como se estivesse em casa, e serviram-me sanduíches e biscoitos inimagináveis.

“Apenas uma vez o vi fraquejar. Foi quando a tragédia invadiu a Casa Amarela, a casa da minha infância, na esquina das ruas Iracema Carvão Nunes e Eliézer Levy, onde hoje uma seringueira plantada por meu pai no ano de nascimento do gênio do pincel Olivar Cunha, intercepta o muro do Colégio Amapaense. Foi quando anunciaram a morte do meu irmão Francisco Pereira Cunha. Era 22 de novembro de 1965. Francisco tinha 18 anos e era belo como Zeus, e imortal como todo jovem. Meu pai foi atingindo por um raio. Caiu numa cadeira, mole, sem tônus, os olhos, sempre tão interessados pela vida, gritavam de dor. E logo depois veio o segundo choque: o corpo chegando. Não compreendi bem aquilo. Para mim, a matéria era para sempre, e só fui entender o que se passara quando, no Cemitério São José de Macapá, vi todos se sacudindo em choro, como chuva que não passa nunca.

“Meu pai morreu com a mesma idade que Ernest Hemingway, aos 61 anos, mas, naquela época, eu já conversava com Papa nos bares da mente, quando o desejo de também bater longos papos com papai começou a se avolumar na minha alma. Meu quarto, na Casa Amarela, a casa da minha infância, era conhecido como Quartinho; é lá que costumo encontrar-me com papai, Ernest Hemingway, Jack London, Antoine de Saint-Exupéry e todos os mortos que amo, num bate-papo interminável.”

Em outro artigo de memórias, João do Bailique escreveu sobre o gênio Olivar Cunha:

“Nasceu pesando 3,5 quilos e mamou até aos dois anos. Depois que começou a articular as primeiras palavras, quando queria mamar, pedia “piti”. Pode ser por isso que se tornou o xodó da mãe, a bela Marina Pereira Silva Cunha. Morávamos na Rua Iracema Carvão Nunes, esquina com a Rua Eliezer Levy, numa casa amarela, remanescente do antigo aeroporto, ao lado do Colégio Amapaense. No dia do nascimento do Olivar, 31 de março de 1952, nosso pai, João Raimundo Cunha, plantou a Seringueira que intercepta o muro oeste do Colégio Amapaense, na Rua Eliezer Levy, e que escapou de ser decepada graças à intervenção do engenheiro florestal Luiz Guilherme Dias Façanha, nascido em 18 de julho de 1952, e amigo de infância do Olivar.

“Em 1983, Luiz Façanha trabalhava como especialista em seringueira (Hevea brasiliensis) na extinta Superintendência da Borracha (Sudhevea), um dos órgãos federais absorvidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A Seringueira apresentava uma grande lesão no tronco. Debilitada, foi atacada por fungos e insetos. Segundo Luiz Façanha, estudantes fizeram forte pressão junto à Prefeitura de Macapá e ao Governo do Estado para que autorizassem abater a árvore, alegando risco de vida para quem por ali transitava. Foi então que o repórter da Rede Globo, Antônio de Pádua, solicitou a Luiz Façanha que fizesse uma gravação no local, para dar sua opinião sobre o caso. Após minuciosa inspeção, Façanha verificou que a árvore estava se recuperando do ferimento, embora muito lentamente, e em razão disso posicionou-se contrário ao abate. “É claro que pesou na minha decisão todo o histórico da nossa infância brincando em volta daquela árvore: Olivar, João, Chico e eu.” O fato é que a Rede Globo e Luiz Façanha salvaram a Seringueira. Minha convivência com o Olivar foi, basicamente, no nosso período de infância. Estudamos juntos no então Grupo Escolar Anexo da Escola Normal e lá fizemos todo o Curso Primário, nos idos dos anos 1950/1960. Após as aulas, dividíamos nosso tempo brincando pelos quintais do seu João (pai do Olivar), correndo por cima dos muros e se pendurando nas árvores do quintal. Tempo bom que não volta mais” – lembra Luiz Façanha.

“Olivar Cunha foi uma dessas crianças que as mulheres adoram apertar nos braços, beijar, acariciar. Não lembro quantos anos ele tinha quando sua então professora, que morava sozinha e que se manifesta, hoje, na minha memória, como uma mulata sensualíssima, se ofereceu para dar reforço escolar a ele na sua casa e ele não quis de jeito algum, porque, segundo pude intuir, mais tarde, de declarações suas, ela era exageradamente carinhosa para com ele, e ele ainda muito criança. O gênio do artista plástico começou a se revelar no curso primário; seus trabalhos eram formalmente impecáveis, e já revelavam criatividade. Encarava também os trabalhos de educação artística de sua irmã Lindomar Cunha, então se preparando para trabalhar no jardim de infância. Pré-adolescente, começou a brincar com seu pequeno prato de massas coloridas e pincéis de tamanhos variados.

“Aos 14 anos, em 1966, ele já pintava profissionalmente, saía à noite e bebia. Aos 15, expôs pela primeira vez, e andava na companhia dos artistas mais conhecidos da cidade: o poeta Isnard Brandão Lima Filho, o escritor Alcy Araújo e o pintor Raimundo Peixe, além do nosso irmão Pedro Cunha, então com 22 anos, e que era, naquele momento, uma espécie de guru para o Olivar.

“Olivar Cunha se tornou um rapaz muito bonito, apolíneo, ariano, bom de porrada que só ele mesmo, hedonista, e que cada vez mais dominava as cores e a luz. Sua filosofia era: “Viver é um tesão”. Podia tomar um litro de Run Bacardi sozinho ao longo de um bate-papo, podia sair para a porrada contra dois oponentes e se saía bem, podia fumar três maços de cigarros em uma noite, beber durante 48 horas seguidas, pintar madrugada adentro. Na juventude, era beberrão, machão, idealista, bom de porrada, belo, amado, adorado, incansável como Pablo Picasso e esquizofrênico como Van Gogh.

“Uma madrugada, um marchand francês acordou todo mundo, em casa, porque teria que viajar para a França naquela manhã e queria porque queria levar alguns quadros do Olivar, e levou o que estava disponível. Acho que foi mais ou menos por essa época que ele pintou os Beatles, 1969. Juntou na tela vários momentos diferentes do Beatles, recortando fotos de várias revistas, reproduzindo-as naquele óleo. Mais ou menos em 1970, vendeu o quadro dos Beatles para Luiz Façanha, que o mantém na casa dele, no Recife, onde mora.

“Nas décadas de 1970/1980, casado com Maria da Glória Nascimento Cunha, o artista morou em Belém, quando produziu algumas dezenas de telas que o colocam como um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos: seus mendigos do Guamá, subúrbio da Cidade das Mangueiras, são chocantes. Olivar e Glória namoraram durante 7 anos e foram casados por 7 anos. Ela partiu cedo para o mundo espiritual. Em Belém, Olivar ganhou um novo nome: Lili, batizado pela sua filha Tatiana, assim que ela aprendeu a falar, e que lhe deu um neto: Bernardo Cunha Barros. Lili teve outra princesa com Glória: Taiana, que lhe deu um neto: Alexandre Cunha de Sousa.

“Viúvo, Lili foi para o Rio de Janeiro, estudar artes plásticas no Parque Lage. De volta a Macapá, conhece a capixaba Célia Maria Rocha Cunha, em 1986, casam-se no ano seguinte, e, em agosto de 1988, mudam para o Espírito Santo, onde nascem os filhos Ângelo Ticiano Rocha Cunha e Luciano Rocha Cunha.

“Nos anos de 1990, consolida sua posição como um dos grandes expressionistas contemporâneos, com a série de animais agonizando nos esgotos das grandes cidades, como na impressionante acrílica sobre tela Tuiuiú Crucificado, sobre a baía de Guanabara – talvez o berro mais fovista, o grito mais expressionista de Olivar Cunha. Ele pintou esse quadro em três meses, em 1992, em seu apartamento na praia atlântica de Jacaraípe, distrito do município de Serra, na grande Vitória do Espírito Santo. Trata-se de uma acrílica sobre tela, em espátula e pincel, de 120 por 100 centímetros. Pertence à fase que o pintor chama de Habitat Transform, desenvolvida no Rio de Janeiro e em Jacaraípe, após pesquisa sobre a devastação da flora e da fauna do Amapá, do Pará e do Pantanal. Depois que se mudou para Jacaraípe, começou também a recuperar obras sacras de igrejas da região.

“Apesar de contar com o mar onde foi fisgado o maior marlim azul do mundo, o Atlântico ao largo do Espírito Santo, é a Amazônia que pulsa nas telas do gênio, recriada à base de espilantol, o princípio ativo do jambu. O tacacá, que leva jambu, é gostoso servido naquele momento de transição em que a tarde escoa como um rio de planície, que vai se esvaindo, lentamente, ao mergulhar nas luzes do anoitecer. É o espilantol que dá aquela sensação de dormência nas papilas gustativas, ativando as papilas da alma. Então, sentimos gosto de Cerpinha, Run Bacardi, a vertigem do beijo, som de merengue.

“O gênio pinta a alma das suas criaturas, sejam elas pessoas ou paisagens. Assim, as telas de Olivar Cunha gritam como o coração das trevas, mas também pulsam no rio da tarde, prenhes do perfume dos jasmineiros noturnos. O artista dá à luz a Amazônia eternamente viva, a Hileia que só os cabocos entendem – os apreciadores de merengue, de mapará assado na brasa servido com pirão de açaí, os que se emocionam com o trotar da mulher amazônida no calor equatorial, o mergulho no rio que deságua na tarde, os segredos que se encerram na Fortaleza de São José de Macapá, no Trapiche Eliezer Levy, no Ver-O-Peso, na Estação das Docas, em Mosqueiro, em Salinas, no Bailique, em Caiena.

“A presença dele, sua simples lembrança, me causa sempre alegria, uma espécie de sensação de coisa nova, de descoberta, de novas possibilidades, de viagem, de aventura. Ele emana uma força poderosa até no repouso, no silêncio, na simplicidade. Mas seu grande poder se manifesta ao usar a paleta, o pincel e a espátula, ao conceder à luz o triunfo”.

No palco, Uirapuru, de Heitor Villa-Lobos. Trata-se de um poema ou balé sinfônico, composto em 1917 e concluído em 1934, com 20 minutos e 33 segundos de duração, que teve sua gênese em um poema sinfônico de 15 minutos, intitulado Tédio de Alvorada, composto em 1916. Uirapuru foi incluído no programa do último concerto de Villa-Lobos, em 12 de julho de 1959, no Empire State Music Festival, em Nova York. O impressionante é que quem conhece a selva amazônica profunda, sente, nesta composição de Villa-Lobos, o tédio que a grande floresta pode provocar, pela mesmice do terror que o Inferno Verde impõe a quem não se familiariza com o ventre da besta. Mas, para quem ama o abismo, ouvir o próprio uirapuru, na eternidade da grande floresta, é como ouvir Mozart, o som da Terra girando sobre si mesma, gravitando em torno do Sol a 108 mil quilômetros por hora, o sistema solar girando em volta do núcleo da Via Láctea a 830 mil quilômetros por hora, a Via Láctea indo para o Grupo Local a 144 mil quilômetros por hora, o Grupo Local voando para o aglomerado de Virgem a 900 mil quilômetros por hora, tudo isso seguindo em direção ao Grande Atrator, a 2,2 milhões de quilômetros por hora; o Grande Atrator fica para além de Centauro, a 137 milhões de anos-luz da Terra. Walkíria Lima deixou o palco e voltou sob uma avalanche de aplauso.

domingo, 29 de março de 2020

Não se trata doença com guerra, mas com amor

Ray Cunha em quarentena na Praia dos Cações,
em Marataízes, Espírito Santo
(Foto: Olivar Cunha - 24 de março de 2020)

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 29 de MARÇO DE 2020 – A empresa Clube de Autores, maior editora de livros no varejo da Ibero-América, promove o Projeto Crônicas de Quarentena, com textos entre 400 a 800 palavras. A palavra “quarentena” precisa aparecer pelo menos uma vez no texto, que pode ser enviado para o site em questão até terça-feira 31. As três melhores crônicas, selecionadas pelo júri instituído pelo Clube, serão publicadas no Instagram da empresa. Dependendo do engajamento ao desafio, será publicado um ebook e um livro impresso com crônicas selecionadas por um comitê do Clube.

O Clube, juntamente com a amazon.com.br, é a editora que publica meus livros, e vencer um concurso desses poderia impulsionar as vendas, mas não participo de concursos literários. Há, por exemplo, concurso que recebe milhares de originais de romances, alguns volumosos, e o júri anunciado é de três, quatro jurados, que, teoricamente, leem esses originais em um prazo em que não daria para lerem nem meia dúzia de livros. E quando esses concursos são pagos, imagina a arrecadação! E há aqueles concursos pagos, geralmente de poesia, que publica o trabalho em livro dos poetas, que recebem uma cota de livros. É uma forma enviesada de algumas editoras ganharem um troco. Também já ouvi dizer que há cartas marcadas até nesse ramo de atividade.

O que não quer dizer que não haja concursos sérios. E depois, o importante é escrever o romance, o conto, a crônica ou o poema. Ganhar concurso não é preciso; escrever é preciso. Neste caso, o Clube publicará, de qualquer forma, vários mergulhos, olhares focados, e até iluminados, sobre a presente quarentena que o Brasil atravessa.

Quanto a mim, não vou escrever uma crônica, mas republicar um artigo, que publiquei no meu blog em 3 de março, e que o jornalista José Seabra Neto, editor do Notibras, publicou no dia seguinte, com o inspirado título: “Não se trata doença com guerra, mas com amor”.

A palavra “quarentena”, de origem vêneta, designava o período de quarenta dias de isolamento de todos os barcos antes que passageiros e tripulantes desembarcassem, durante a peste negra, no século 14. Na época, as autoridades defendiam o povo de espíritos maus, e não de microrganismos, dos quais nem suspeitavam.

Modernamente, quarentena é isolamento, como o dos bandidos nas penitenciárias. Vários governadores brasileiros defendem a paralisação total do setor econômico. Estarão aproveitando a atual quarentena para varrer da sociedade os que não tem nada para comer em casa, nem condições de fazer pedidos aos supermercados? No Brasil, há uma parcela da população que vive nababescamente nos seus cabides de emprego, e outra que come lixo.

Agora, a quarentena foi imposta devido a uma pandemia de coronavírus, que já é conhecido desde os anos de 1960. A coisa começou de novo na China, um regime totalitário. Ninguém sabe o que se passa na China. Em janeiro, centenas de chineses já haviam morrido. Em 11 de março, o surto foi declarado pandemia, com mais de 121 mil mortos em todo o planeta. O artigo já publicado:

BRASÍLIA, 3 DE MARÇO DE 2020 – A ideia de que o coronavírus seja arma biológica criada nos Estados Unidos contra a China só poderia partir da mente de Hugo Chávez Maduro, ditador da Venezuela, dos políticos-hienas e da mídia mentirosa. Em primeiro lugar, os americanos não são idiotas a ponto de dar um tiro no próprio pé, pois em resposta os chineses despejariam petardos atômicos em solo americano e aí o inferno se desencadearia na Terra. Mas não acredito que outras raças da galáxia, muito mais adiantadas tecnologicamente do que nós, permitiriam isso. Em segundo lugar, os Estados Unidos, assim como a China e como o Brasil, ou qualquer país capitalista (para sobreviver, o Partido Comunista Chinês criou um bolsão capitalista), querem é mercado, e não é matando a população que se obtêm mercado.

Coronavírus são conhecidos desde meados dos anos 1960. São transmitidos por diversos animais e de pessoa para pessoa, por tosse, espirro e contato pessoal ou de objeto contaminado, causando infecções respiratórias com falta de ar, tosse, dor muscular e de cabeça, e febre. Recentemente, matou centenas de pessoas na China, o que deixou o planeta apavorado, embora a mídia não observe que os mortos na China viviam geralmente numa temperatura abaixo de zero grau e num estresse que só um sistema político totalitário como o da China produz.

A Gripe Espanhola, em 1918, matou 100 milhões de pessoas no mundo, 5% da população mundial, 35 mil só no Brasil. O vírus foi observado inicialmente nos Estados Unidos. Soldados americanos a levaram para a Europa na Primeira Guerra Mundial. Foi chamada de Gripe Espanhola porque a Espanha, que não entrou na Primeira Grande Guerra e tinha a imprensa livre, noticiou-a fartamente. Seu vírus é comum entre mamíferos e aves, e os sintomas são tosse, dor de garganta, febre, dores nos músculos e juntas, fraqueza, calafrios e prostração. O contágio se dá por perdigotas.

Em 2009, o vírus da Gripe Espanhola, H1N1, do tipo A, assustou novamente o mundo. Mas a vacina já tinha sido criada. Acredito que a vacina contra o coronavírus logo será criada também. Contudo, é importante destacar, a vacina, aquela que imuniza contra todos os males, é o esforço de cada um de não poluir, de informar-se devidamente sobre o que é o conjunto de cuidados a que chamamos de higiene, e, sobretudo, como disse Jesus Cristo, amar o próximo como a si mesmo. Inclusive os animais.

E vírus é só um dos demônios microscópicos. A Peste Negra, ou Morte Negra, causada por uma bactéria que se hospeda na pulga de roedores, principalmente do rato preto indiano, matou, entre 1346 e 1353, metade da população mundial: matou 200 milhões de pessoas. É fato que um século antes disso, o imperador mongol Gêngis Khan conquistou a Eurásia setentrional, incluindo a Manchúria, na China. Pois bem, os mongóis teriam sido infectados no Himalaia pela peste, onde o rato preto mandava. A peste se espalhou para a Europa no século 14, levada pelos mongóis e também via Constantinopla. Já no século 19, a Peste matou 12 milhões de pessoas na China e Índia.

A poluição, que é o desequilíbrio dos ecossistemas, inclusive do ecossistema do corpo humano, desequilíbrio provocado por reações químicas e energéticas tóxicas, enfraquece o sistema imunológico, que é a melhor vacina contra vírus. Vacinas são vírus enfraquecidos que se injeta numa pessoa para que um exército de células guerreiras entenda como os vírus agem e partir para matá-los. Há pessoas que estiveram em situações nas quais poderiam se infectar com o vírus da Aids e não se infectaram. Mas uma das maiores poluições é comer animais.

Sabe-se que muita gente precisa, na sua atual encarnação, de proteína da carne, mas todos nós sabemos o que comer, ou quando deixar de comer carne. No Ocidente, observa-se hipocrisia e ignorância quanto a comer carne. Tenho ouvido pessoas comentarem com nojo, raiva e arrogância que os chineses comem tudo o que se mova, até cachorro, mas nós apreciamos dos testículos ao cérebro de boi, passando pelo filé. Nesse quesito, boi, cachorro, gato, morcego, rato, e carne humana, contêm proteína. Tanto faz comer carne de boi, de cachorro, de gato, ou humana, o problema está na vibração provocada pelo sofrimento dos animais de corte, caçados, aprisionados, torturados e mortos; esse sofrimento potencializa a poluição material e transforma a harmonia do genoma em caos, levando às emoções vis e até à loucura.

Médiuns, como o astrofísico Laércio Fonseca, em contato com espíritos de luz, têm trazido do mundo espiritual informações à frente bilhões de anos da ciência humana. Por exemplo: tanto a Terra quanto nossos corpos foram criados por engenheiros astrais, assim como vírus, tudo isso fazendo parte da roda de Sansara, a roda da vida. Vírus, do latim virus, veneno, ou toxina, estão em toda parte, são extremamente pequenos e inertes, mas dentro de uma célula viram o cão. Em poucas horas, multiplicam-se aos milhares, infectando qualquer animal. Só foram descobertos e combatidos em passado recente.

A tortura, matança e consumo de animais, de corte ou selvagens, as guerras, os crimes bárbaros, a poluição, a busca desenfreada por dinheiro e prazer, a loucura, a poluição, afetam os microrganismos, os que vivem dentro de nós e os que entram em nós, levando-os a nos atacar de forma fulminante.

Ainda como carne, porque ainda preciso de proteína animal, mas, ao fazê-lo, oro e agradeço a todos que me proporcionaram aquela refeição, e ao próprio alimento, até o dia em que, ainda nesta encarnação, ou em outra, não sinta mais necessidade de me alimentar de animais, principalmente mamíferos, que vibram de forma semelhante a nós, humanos. Quando comemos a carne de uma vaca, que, desde seu nascimento foi imobilizada, e quando estava pronta para procriar foi fertilizada manualmente todo o tempo, para produzir bastante leite, a ponto de seu peito criar pus crônico, e, por volta dos quatro anos desfalecer, esgotada, e então ser arrastada para o abatedouro, onde foi esfaqueada e esquartejada, seguindo para o açougue, e, de lá, para a churrasqueira, ou a panela, quando comemos essa vaca, nosso perispírito vomita, e os microrganismos que estão dentro de nós, que normalmente nos ajudam a digerir os alimentos, recebem a vibração de medo e de raiva dessa vaca.

A epidemia de coronavírus na China é um resgate cármico, coletivo. Carma é a lei universal de causa e efeito, ato e consequência, plantar e ser obrigado à colheita. Um pensamento que seja, uma palavra, uma ação, cria causa, boa ou má, e, por conseguinte, efeito. Por exemplo: alguém que impõe sofrimento a qualquer ser vivo experimentará o vazio; ou uma pessoa que gera felicidade será feliz. Todos nós somos herdeiros dessa lei inexorável, que rege os planos físico e espiritual, bem como tudo o que existe no Universo, pois tudo está interligado. Tudo o que acontece individualmente, ou a um povo, ou em determinada região, está previsto; no caso da raça humana, o carma está no DNA, molécula presente em todas as células. O DNA contem as instruções do desenvolvimento de todos os seres vivos. É pelo DNA que os guias espirituais, juntamente com os espíritos candidatos a encarnarem, planejam o processo de encarnação.

O plano fenomênico é cheio de imperfeições, obstáculos, caos. Nada é permanente, tudo se transforma, às vezes, subitamente. A caminhada requer trabalho constante e atento, nunca desestimulado, como um farol aceso mesmo nas mais terríveis tempestades. Assim, quando evoluímos e mudamos nosso destino, mudamos nosso DNA, e saímos dos carmas coletivos. Mesmo aqui, na superfície da Terra, podemos semear luz. Nada, nem vírus, podem contra a luz. Luz, neste caso, é higiene, saneamento, serenidade, mesmo diante da guerra, da fome e do caos, e amor.

terça-feira, 3 de março de 2020

Coronavírus

JAMBU: Amazônia, Operação Prato e Data-Limite de Chico Xavier

RAY CUNHA
Jornalista, Acupunturista, Escritor

BRASÍLIA, 3 DE MARÇO DE 2020 – A ideia de que o coronavírus seja arma biológica criada nos Estados Unidos contra a China só poderia partir da mente de Hugo Chávez Maduro, ditador da Venezuela, dos políticos-hienas e da mídia mentirosa. Em primeiro lugar, os americanos não são idiotas a ponto de dar um tiro no próprio pé, pois em resposta os chineses despejariam petardos atômicos em solo americano e aí o inferno se desencadearia na Terra. Mas não acredito que outras raças da galáxia, muito mais adiantadas tecnologicamente do que nós, permitiriam isso. Em segundo lugar, os Estados Unidos, assim como a China e como o Brasil, ou qualquer país capitalista (para sobreviver, o Partido Comunista Chinês criou um bolsão capitalista), querem é mercado, e não é matando a população que se obtêm mercado.

Coronavírus são conhecidos desde meados dos anos 1960. São transmitidos por diversos animais e de pessoa para pessoa, por tosse, espirro e contato pessoal ou de objeto contaminado, causando infecções respiratórias com falta de ar, tosse, dor muscular e de cabeça, e febre. Recentemente, matou centenas de pessoas na China, o que deixou o planeta apavorado, embora a mídia não observe que os mortos na China viviam geralmente numa temperatura abaixo de zero grau e num estresse que só um sistema político totalitário como o da China produz.

A Gripe Espanhola, em 1918, matou 100 milhões de pessoas no mundo, 5% da população mundial, 35 mil só no Brasil. O vírus foi observado inicialmente nos Estados Unidos. Soldados americanos a levaram para a Europa na Primeira Guerra Mundial. Foi chamada de Gripe Espanhola porque a Espanha, que não entrou na Primeira Grande Guerra e tinha a imprensa livre, noticiou-a fartamente. Seu vírus é comum entre mamíferos e aves, e os sintomas são tosse, dor de garganta, febre, dores nos músculos e juntas, fraqueza, calafrios e prostração. O contágio se dá por perdigotas.

Em 2009, o vírus da Gripe Espanhola, H1N1, do tipo A, assustou novamente o mundo. Mas a vacina já tinha sido criada. Acredito que a vacina contra o coronavírus logo será criada também. Contudo, é importante destacar, a vacina, aquela que imuniza contra todos os males, é o esforço de cada um de não poluir, de informar-se devidamente sobre o que é o conjunto de cuidados a que chamamos de higiene, e, sobretudo, como disse Jesus Cristo, amar o próximo como a si mesmo. Inclusive os animais.

E vírus é só um dos demônios microscópicos. A Peste Negra, ou Morte Negra, causada por uma bactéria que se hospeda na pulga de roedores, principalmente do rato preto indiano, matou, entre 1346 e 1353, metade da população mundial: matou 200 milhões de pessoas. É fato que um século antes disso, o imperador mongol Gêngis Khan conquistou a Eurásia setentrional, incluindo a Manchúria, na China. Pois bem, os mongóis teriam sido infectados no Himalaia pela peste, onde o rato preto mandava. A peste se espalhou para a Europa no século 14, levada pelos mongóis e também via Constantinopla. Já no século 19, a Peste matou 12 milhões de pessoas na China e Índia.

A poluição, que é o desequilíbrio dos ecossistemas, inclusive do ecossistema do corpo humano, desequilíbrio provocado por reações químicas e energéticas tóxicas, enfraquece o sistema imunológico, que é a melhor vacina contra vírus. Vacinas são vírus enfraquecidos que se injeta numa pessoa para que um exército de células guerreiras entenda como os vírus agem e partir para matá-los. Há pessoas que estiveram em situações nas quais poderiam se infectar com o vírus da Aids e não se infectaram. Mas uma das maiores poluições é comer animais.

Sabe-se que muita gente precisa, na sua atual encarnação, de proteína da carne, mas todos nós sabemos o que comer, ou quando deixar de comer carne. No Ocidente, observa-se hipocrisia e ignorância quanto a comer carne. Tenho ouvido pessoas comentarem com nojo, raiva e arrogância que os chineses comem tudo o que se mova, até cachorro, mas nós apreciamos dos testículos ao cérebro de boi, passando pelo filé. Nesse quesito, boi, cachorro, gato, morcego, rato, e carne humana, contêm proteína. Tanto faz comer carne de boi, de cachorro, de gato, ou humana, o problema está na vibração provocada pelo sofrimento dos animais de corte, caçados, aprisionados, torturados e mortos; esse sofrimento potencializa a poluição material e transforma a harmonia do genoma em caos, levando às emoções vis e até à loucura.

Médiuns, como o astrofísico Laércio Fonseca, em contato com espíritos de luz, têm trazido do mundo espiritual informações à frente bilhões de anos da ciência humana. Por exemplo: tanto a Terra quanto nossos corpos foram criados por engenheiros astrais, assim como vírus, tudo isso fazendo parte da roda de Sansara, a roda da vida. Vírus, do latim virus, veneno, ou toxina, estão em toda parte, são extremamente pequenos e inertes, mas dentro de uma célula viram o cão. Em poucas horas, multiplicam-se aos milhares, infectando qualquer animal. Só foram descobertos e combatidos em passado recente.

A tortura, matança e consumo de animais, de corte ou selvagens, as guerras, os crimes bárbaros, a poluição, a busca desenfreada por dinheiro e prazer, a loucura, a poluição, afetam os microrganismos, os que vivem dentro de nós e os que entram em nós, levando-os a nos atacar de forma fulminante.

Ainda como carne, porque ainda preciso de proteína animal, mas, ao fazê-lo, oro e agradeço a todos que me proporcionaram aquela refeição, e ao próprio alimento, até o dia em que, ainda nesta encarnação, ou em outra, não sinta mais necessidade de me alimentar de animais, principalmente mamíferos, que vibram de forma semelhante a nós, humanos. Quando comemos a carne de uma vaca, que, desde seu nascimento foi imobilizada, e quando estava pronta para procriar foi fertilizada manualmente todo o tempo, para produzir bastante leite, a ponto de seu peito criar pus crônico, e, por volta dos quatro anos desfalecer, esgotada, e então ser arrastada para o abatedouro, onde foi esfaqueada e esquartejada, seguindo para o açougue, e, de lá, para a churrasqueira, ou a panela, quando comemos essa vaca, nosso perispírito vomita, e os microrganismos que estão dentro de nós, que normalmente nos ajudam a digerir os alimentos, recebem a vibração de medo e de raiva dessa vaca.

A epidemia de coronavírus na China é um resgate cármico, coletivo. Carma é a lei universal de causa e efeito, ato e consequência, plantar e ser obrigado à colheita. Um pensamento que seja, uma palavra, uma ação, cria causa, boa ou má, e, por conseguinte, efeito. Por exemplo: alguém que impõe sofrimento a qualquer ser vivo experimentará o vazio; ou uma pessoa que gera felicidade será feliz. Todos nós somos herdeiros dessa lei inexorável, que rege os planos físico e espiritual, bem como tudo o que existe no Universo, pois tudo está interligado. Tudo o que acontece individualmente, ou a um povo, ou em determinada região, está previsto; no caso da raça humana, o carma está no DNA, molécula presente em todas as células. O DNA contem as instruções do desenvolvimento de todos os seres vivos. É pelo DNA que os guias espirituais, juntamente com os espíritos candidatos a encarnarem, planejam o processo de encarnação.

O plano fenomênico é cheio de imperfeições, obstáculos, caos. Nada é permanente, tudo se transforma, às vezes, subitamente. A caminhada requer trabalho constante e atento, nunca desestimulado, como um farol aceso mesmo nas mais terríveis tempestades. Assim, quando evoluímos e mudamos nosso destino, mudamos nosso DNA, e saímos dos carmas coletivos. Mesmo aqui, na superfície da Terra, podemos semear luz. Nada, nem vírus, podem contra a luz. Luz, neste caso, é higiene, saneamento, serenidade, mesmo diante da guerra, da fome e do caos, e amor.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Velhice

Ray Cunha: No cume da montanha não há nada, exceto vento
e frio. Subimos até lá apenas para tomarmos conhecimento
de que chegou a hora de realizarmos a verdadeira subida
A velhice perpassa idades, gêneros, etnias, regiões e sociedades. Ela incomoda quase todo mundo. Quanto menos espiritualizada é a pessoa, mais repugnante lhe parece a velhice, mais merecedora de desprezo, de nojo. Mas, afinal, o que é a velhice? Por que inspira tanta repugnância? Por que é tão relegada ao lixo?
Envelhecer é morrer fisicamente. Apodrecer. Definhar, adoecer, desfazer-se em material pútrido, gritar, berrar, apegar-se à matéria, recusar a natureza do espírito, a luz. Como dizem os budistas: o corpo, a matéria, é nada. Todos nós nascemos com data de validade. Morrer é o destino do corpo carnal. E se alguém resiste a viver um século, estará só ruínas, material orgânico se desfazendo.     

A vida é como deslizar em um tobogã, que vai ficando cada vez mais escorregadio e inclinado. São as células morrendo, a pele se enrugando, os ossos encolhendo, os órgãos falindo, até esvair-se a energia vital e surgir o abismo. Só depois disso há luz.

O desdém que alguns jovens e adultos dispensam aos velhos decorre de dois fatores: um, a animalidade dos jovens. Nela, a morte, e a velhice, não existem; no seu mundo só há beleza, vigor, primavera. O outro fator é o apego, a ilusão de que o corpo carnal é para sempre.

Notaram que as crianças não excluem os velhos? Pois elas ainda têm aberto o portal que transcende as quatro dimensões, e que só pode ser transposto por meio da inexistência do apego.

O fato é que o tempo nem é importante. Importante é a energia. Há velhos que jamais deixam de trabalhar, de produzir, de ajudar os jovens a construírem seus mundos, e de amar. E há os que morrem mentalmente, mas seus corpos continuam vagando por aí, deteriorando-se. A energia está na mente; os corpos são apenas prisão, da qual nos libertamos porque amamos.

No cume da montanha não há nada, exceto vento e frio. Vamos até lá apenas para tomarmos conhecimento de que chegou a hora de realizarmos a verdadeira subida, transcender o tempo. De tanto ouvir o riso das crianças, de tanto observar as rosas, de sentir os jasmineiros umedecendo as noites tórridas do trópico, de inalar a fragrância do mar, que inunda minha alma, de tanto montar a luz no cataclismo do primeiro beijo, acabei por sentir que a eternidade é agora.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A idade da razão

Ray Cunha, em 2019, de panamá comprado em Pirenópolis/GO

BRASÍLIA, 5 DE FEVEREIRO DE 2020  Nasci em 7 de agosto de 1954, em Macapá, cidade encravada no cruzamento da Linha Imaginária do Equador e da margem esquerda do rio Amazonas, então um povoado ribeirinho afogado no meio do mundo, mas nunca me senti emparedado na solidão dos povoados amazônicos, porque, aos 5 anos, os gibis, e depois revistas de informação e livros, de todos os gêneros, me inocularam o vírus da aventura, de modo que aos 13 anos eu já tinha viajado meio mundo, e, aos 14, conversava sobre filosofia e arte, e comecei a escrever, e, aos 17, recebi meu batismo de fogo, segundo o poeta Isnard Brandão Lima Filho, lançando o livro de poemas Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson e José Montoril. Verdade seja dita, meus poemas eram os mais fracos do livro, mas, naquele momento, tiveram poder propulsor, o poder de, mesmo sem nem carteira de identidade, me mandar de Macapá, que começava a me sufocar. Então parti de barco para Belém, de onde peguei carona para Brasília e para o Rio de Janeiro, e passei 10 anos na estrada.

Aos 27 anos, cansado de navegar e de rodar, e ainda tonto de um casamento frustrado por absoluto fracasso meu, comecei o curso de jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPa), em Belém, quando reencontrei um velho amigo, a quem chamarei de B. B media um metro e noventa, por aí, e pesava uns 100 quilos, tinha os olhos claros e exercia fascínio sobre as mulheres, inclusive casadas. Embora depressivo e dipsomaníaco, quando começava a falar, numa linguagem erudita e pessimista, assustava todo mundo. Nossa amizade se desenvolveu porque havia uma coisa que interessava a ambos: livros, e escritores. Li muitos livros recomendados por B, e gostei de todos, como O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, que comecei a ler em uma livraria de Niteroi, bebendo Bohemia. Além de um dos leitores mais argutos que conheci, B era também mais experiente do que eu, e, à sua maneira, sábio.

Certo dia, numa das pausas da bebida, B profetizou que nossa geração só se tornaria sábia após os 60 anos. Estive, muitas vezes, à beira do abismo; caí no poço dos prazeres mais carnais, e frequentei aquela zona cinzenta dos alcoólatras, dos desesperançados, dos desesperados, dos danados, dos mortos-vivos. Contudo, há sempre alguém, ou algo – uma lembrança, uma voz, o voo em um sonho, uma rosa, o azul, o mar, personagens de ficção –, me levantando.

Já faz tempo que comecei a descer a ladeira. Às vezes, enfrento trechos muito inclinados, outros, alagados, mas cada vez mais encontro bosques e manhãs ensolaradas. Se antes, aos 21 anos, sentia-me leão, hoje, sinto-me leão de asas, como se montasse a luz, e comecei a descobrir o segredo da velocidade quântica, alimentado pela visão de uma rosa que se desnuda, do azul que sangra, por jasmineiros que choram nas noites ardentes, pelo som da Terra no espaço.