quarta-feira, 28 de agosto de 2019

JAMBU, novo romance de Ray Cunha, é um raio X da Amazônia, e explica qual é a intenção dos extra-terrestres e seus ovnis que aparecem por lá

Ray Cunha nasceu em Macapá, "a cidade mais emblemática da Amazônia"

BRASÍLIA, 28 DE AGOSTO DE 2019 – O Grupo Fortaleza, maior grupo empresarial do Amapá e Pará, realiza, no seu grande hotel, o Caranã, localizado no bairro do Pacoval, em Macapá/AP, o Festival Gastronômico do Pará e Amapá, que será documentado na revista Trópico Úmido, numa edição especial sobre a "Questão Amazônica". A revista é editada pelo jornalista João do Bailique, que investiga o tráfico de crianças e mulheres.

Bailique resolveu também abarcar na edição especial da revista a Operação Prato, popularmente conhecida como Chupa-Chupa, que se deu na ilha de Colares, na costa do Pará. A Operação Prato, a maior aparição de Ovnis e de ETs registrada pela Aeronáutica, foi arquivada sem um diagnóstico, o qual João do Bailique arrisca na sua matéria. Ainda: no contexto dessa reportagem, Bailique aborda a profecia de Chico Xavier, a Data-Limite.

O romance tem muita ação, ambientada em uma pesquisa histórica que abarca toda a Amazônia, tudo contextualizado com a mais singular culinária do planeta. E responde a perguntas como: Qual é a grande tragédia dos amazônidas? Por que as potências estrangeiras são obcecadas pela Hileia? A Amazônia resistiria a uma hecatombe nuclear? O que os ETs da Operação Prato, ou popular Chupa-Chupa, queriam? O que é a data-limite profetizada por Chico Xavier? Os ibéricos já sabiam que o Brasil é destinado a ser o coração do planeta e pátria do Evangelho?

“Acredito que este livro precisa ser publicado imediatamente, porque elucida questões que estão explodindo por aí, razão pela qual ando atrás de editora que banque a publicação, ou de patrocínio” – disse Ray Cunha.

O autor nasceu em Macapá, banhada pelo maior rio do planeta, o Amazonas, e seccionada pela Linha Imaginária do Equador. Para ele, Macapá é a cidade mais emblemática da Amazônia, porque nas suas ruas transitam índios, descendentes de europeus, negros, mamelucos, mulatos e cafuzos, em nuanças de peles que vão do alabastro ao ébano, passando pelo bronze e jambo maduro, unidos pelo sotaque caboco: a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis, línguas africanas, patoá das Guianas, tudo triturado em corruptela.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Conto Amazônico/CARNE DE CRIANÇA

Anoitecia. O rio Caracará estava parado. As árvores também não se moviam. Nada se movia na paisagem imobilizada, nem o som; um pacto de silêncio irrompera na selva. A imobilidade e o silêncio inundaram a tarde morta, exceto o azul escuro do anoitecer, que, lento, escorria. A casa mergulhou na noite e, contrariando o silêncio e a negrura, uma lamparina foi acesa e se ouviu choro, agora alto e cortante.

Os ratos d’água atacaram no meio da tarde. Deixaram o barco um pouco distante e chegaram remando numa ubá. Eram seis. Sabiam que o dono da casa, ausente, pescando em alto mar, estava juntando dinheiro para pagar um novo barco, em construção em Cachoeira do Arari. Encontravam-se na casa a dona, três filhas e três criadas. Os ratos d’água sabiam também disso, e passaram a tarde estuprando as moças, com exceção de Helenita, 14 anos, prometida virgem para um tubarão.

Diante de uma tigela de papa de açaí amassado à mão, com farinha de tapioca, daquela que se derrete na boca, acompanhado de camarão pitu, Ditão estremeceu, de repente angustiado, e largou a comida. No instante seguinte foi avisado da tragédia via rádio. Não entrou em desespero; precisava de esperança. Interrompeu a pescaria, retornou para Cachoeira do Arari, deu parte na polícia e começou a busca de sua Helenita, a caçula. Entretanto, Helenita estava no outro lado da baía de Marajó, num casarão no bairro da Cidade Velha, em Belém, tratada a pão de ló.

– Ficas quietinha, não falas com ninguém, fazes o que eu disser e voltarás para a tua casa dentro de um mês. Agora, se tu não fizeres o que a gente te mandar, vamos te matar e também toda a tua família, estás ouvindo? – disse a mulher, que era grande como um elefante, a quem Helenita foi entregue. A menina se transformara em um autômato; ouvia, o tempo todo, os gritos da mãe, das irmãs e das criadas, som de tapas, e risos de homens nus. Orava, pedia a Deus para acordar do pesadelo. – Dentro de uma semana, tu e outras meninas irão para um passeio com umas autoridades, uns homens bacanas. Tu vais fazer companhia a eles. Tens de fazer tudo o que eles te mandarem, estás ouvindo? Depois do passeio serás devolvida para o Ditão – disse a mulher gorda. E os dias se tornaram uma sucessão de comidas deliciosas, televisão, cama macia, banhos, massagens, um pouco de vinho, filmes com homens fazendo coisas horríveis com mulheres. Mas Helenita jamais deixara de orar, de pedir a Deus que a acordasse do pesadelo, até que numa noite um automóvel negro deslizou por ruas iluminadas e a levou da casa ao cais, onde um iate reinava na noite.

– Chegaram os peixes – dissera um homem de cabelos excessivamente negros, e tão branco que suas veias pareciam flutuar; trajava camisa de seda estampada, calças de linho, sapatos brancos e panamá. “Um boto!” – assustou-se Helenita. 

Havia mais um homem, quarentão, paraplégico. Os peixes eram seis meninas, como Helenita. A mais velha, de 17 anos, estava grávida, segundo ela mesma dissera. Três para cada homem. O pesadelo continuou. Agora, vinha na forma do aleijado chupando sua virilha, lambendo-a toda. Helenita fechava os olhos e sentia o fedor alcoólico da saliva do homem. Às vezes, o via sentado na cadeira de rodas, debruçado sobre ela, chupando-a, lambendo-a, insaciável, até que um dia o iate parou e as meninas foram transferidas para o barco Virgem de Nazaré, que rumou para a cidade de Oiapoque, no norte do Amapá, com carne fresca para a boate Senzala, especializada em pratos especiais para europeus que atravessavam o rio Oiapoque, oriundos de Caiena, a capital da colônia francesa da Guiana. O carregamento chegou de madrugada e o leilão seria na noite seguinte. 

– Aquele francês louco, mas que paga muito bem, o tal de Humbert Humbert, já reservou a Helenita. Ele vem pedindo uma menina faz tempo; chama elas de “Lolita”. Pagou para passar uma semana com a Lolita dele no sítio; depois disso, ela já foi vendida para o Kunathi; vai ser o prato principal da boate dele, em Paramaribo, até ficar estragada – disse, rindo, melífluo, o dono da Senzala, vulgo Caixinha de Pose, em conversa com Tota, seu contador. – Mas antes que Humbert Humbert saboreie a carne fresca até os ossos, e antes que os ossos sejam mamados até o tutano, vou sugar a alma dela; vou sugar todas elas, uma por dia – disse, levantando-se, apalpando o saco.

Era manhã, mas parecia noite. Um raio chicoteou a cidade, seguido de trovoada, que pareceu sugar o ar. A tempestade durou todo o dia e entrou pela noite.

– Nada como Heidsieck para a luz da minha vida, labareda em minha carne, minha alma, minha lama – disse o francês, alto, gordo e muito branco, num português ininteligível, servindo champagne para Helenita. Ela não sentia mais pavor; morrera no pesadelo infindo.

A Polícia Federal desencadeara a Operação Ninfeta no início da madrugada. O céu estacara, tenso como tumor maduro.

– Beba! Quero-a queimando-me a alma – Humbert Humbert ainda teve tempo de dizer.

domingo, 25 de agosto de 2019

JAMBU, novo romance de Ray Cunha, é um mergulho na Amazônia real e interpreta o que os ETs vieram fazer na Operação Prato e a data-limite profetizada pelo médium Chico Xavier


BRASÍLIA, 25 DE AGOSTO DE 2019 – No Hotel Caranã, bairro do Pacoval, em Macapá, é onde se desenrola o Festival Gastronômico do Pará e Amapá. João do Bailique, editor da Trópico Úmido, dá os últimos retoque na edição de agosto da revista, em edição especial sobre a “Questão Amazônica”. Uma das matérias é sobre a Operação Prato, a maior aparição de discos voadores e ETs já documentada no Brasil, observada nas costas do Pará.

Trópico Úmido traz uma entrevista com Jorge Bessa, escritor e pesquisador, que participou da Operação Prato, como agente da inteligência. A data-limite, mencionada por Chico Xavier, é também esmiuçada na trama, que envolve ainda o comércio negro de grude de gurijuba e o tráfico de crianças para escravidão sexual.

O escritor ressuscita a pianista Walkíria Ferreira Lima e seu filho, o poeta Isnard Brandão Lima Filho, além de colocar neste universo fictício um gênio real da paleta: Olivar Cunha. “Quando a professora Walkíria Ferreira Lima entrou no palco, os músicos da Orquestra da Escola de Música do Amapá levantaram-se e o público também, aplaudindo-a em pé. De porte frágil, agigantava-se no púlpito. Nascera em Manaus, onde se formou em música, começando os estudos de piano aos 10 anos de idade. Chegou a Macapá na década de 1950, e começou a lecionar canto orfeônico na Escola Barão do Rio Branco e na Escola Industrial do Amapá, antes da criação do Conservatório Amapaense de Música, onde ensinou piano e solfejo. Walkíria Lima foi ainda uma das fundadoras da Academia de Letras do Amapá, patrocinando a cadeira 40. Casou-se com o mágico Isnard Brandão Lima e teve um único filho, o poeta manauara-macapaense Isnard Brandão Lima Filho, autor de Rosas Para a Madrugada e Malabar Azul. Isnard sentara-se na primeira fila. Pálido, olhos amendoados e olhar intenso, cabeleira penteada como a de Castro Alves, bigode, fumante inveterado e dipsomaníaco, lembrava um misto de toureiro e dançarino de tango. Ao lado dele, sentara-se o gênio do pincel e da espátula Olivar Cunha, que assinava os 21 painéis que compunham a exposição oficial do Festival de Gastronomia do Pará e Amapá.”

O autor nasceu em Macapá, a cidade mais emblemática da Amazônia, onde os portugueses ergueram a Fortaleza de São José de Macapá, construída no século XVIII para resistir a uma força semelhante à da marinha inglesa, mas que só foi atacada por malária.

“Assim, a Fortaleza, maior ícone dos macapaenses, é a tradução perfeita de Macapá. Construída por escravos, negros e índios, sob o obsessivo domínio português, foi o cadinho no qual se forjou a etnia macapaense. Os portugueses cruzaram com os africanos e geraram mulatos, e fornicaram com os índios, formando uma população de mamelucos; os africanos fundaram o distrito de Curiaú e o bairro do Laguinho, misturaram-se com os índios e legaram cafuzos; e mulatos, cafuzos e mamelucos misturaram-se, fechando o círculo, numa diversidade étnica viva nas ruas de Macapá, nas nuanças de peles que vão do alabastro ao ébano, passando pelo bronze e jambo maduro, unidos pelo sotaque caboco: a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis, línguas africanas, patoá das Guianas, tudo triturado em corruptela.”

Ray Cunha trabalhou de 1975 a 1987 como repórter baseado em Belém, Manaus, Santarém e Rio Branco, conhece a selva profunda e é leitor da literatura científica sobre a região. Em Brasília, onde mora desde 1987, embora trabalhando como jornalista na imprensa local, continuou escrevendo também sobre a Amazônia, como correspondente e responsável por colunas especializadas sobre o Trópico Úmido publicadas em portais sediados na capital;

É autor dos romances CASA AMARELA, A CONFRARIA CABANAGEM, HIENA e FOGO NO CORAÇÃO; dos livros de contos TRÓPICO ÚMICO, NA BOCA DO JACARÉ, A GRANDE FARRA, O CASULO EXPOSTO e A CAÇA; e dos livros de poemas SOB O CÉU NAS NUVENS e DE TÃO AZUL SANGRA.

Esses livros podem ser adquiridos nos sites do Clube de Autores e da Amazon.com.br

O novo romance de Ray Cunha, JAMBU, que terá capa de Olivar Cunha, está à espera de editora, ou de patrocinador. Quem se manifesta?

sábado, 24 de agosto de 2019

Amazônia: o coração das trevas

Ray Cunha no Marco Zero do Equador, em
Macapá/AP (Foto de Fernando Canto - 2010)

RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 24 DE AGOSTO DE 2019 – De repente, o mundo se volta para a Amazônia. O mundo, aqui, é um velho lobo em pele de ovelha, pele surrada e com lã bastante suja. Essa criatura diz, emocionada, que quer o bem da Amazônia. Mas ela foi identificado: é uma hiena europeia, e que, na verdade, ambiciona os bens da Amazônia. Esse subcontinente vem sendo assaltado, estuprado, currado, desde sempre, mas, agora, tudo o que acontece na Hileia, segundo os comunistas, é obra do presidente Jair Bolsonaro. Todo mundo sabe que isso é mentira. Aproveitando a última moda, se preocupar com a Amazônia, que para os especialistas em Amazônia é o pulmão do planeta, e agora todo mundo é especializado na grande selva, vamos, aqui, neste artigo, mudar o foco das queimadas, e abordar um incêndio muito mais infame. A mentalidade de colonizado, predominante nos amazônidas, o calor, a nudez e a corrupção crônica na antiga colônia portuguesa e agora até de Brasília, determinaram a perpetuação na Hileia de uma das nódoas mais negras da humanidade: a escravidão sexual de crianças. A Interpol francesa calcula que a rede internacional de tráfico de pessoas movimenta cerca de US$ 9 bilhões por ano.

A Amazônia é um paradoxo. O mais belo realismo fantástico da Terra, a mais rica província mineral do mundo, a maior diversidade biológica do planeta, é também O coração das trevas, obra-prima de Joseph Conrad. Esse pequeno romance de pouco mais de 150 páginas é um golpe de navalha seccionando tecido humano, obsceno como ataque de hienas. É o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu, disse o labiríntico Jorge Luís Borges. Assim é a face obscura da Amazônia. O Inferno Verde é o latejar da escuridão, espasmos da alma amazônida, a loucura e o malogro da civilização colonialista.

A Amazônia é saqueada desde o século XVI. Potências europeias, americanos, Brasília, todos têm repasto garantido na Amazônia. Nos dias de hoje, leva-se, de lá, a floresta, energia hidrelétrica, minérios, pedras preciosas, animais, mulheres e crianças, e é um dos locais onde mais se escraviza no mundo. Até agora, o desenvolvimento imposto à Amazônia é para dizimar os amazônidas – índios, ribeirinhos, caboclos, quilombolas – e encher os cofres de políticos que transformam o erário em lavanderia. Os presidentes da República governavam de costas para a Amazônia, tratando-a como colônia, e colônias servem para serem saqueadas.

Um caso que aconteceu em novembro de 2007, em Abaetetuba, cidade no quintal de Belém, constitui-se uma metáfora da Amazônia. Delegados da Polícia Civil do Pará, com a conivência de gente do Judiciário, atiraram uma menina a dezenas de criminosos na cadeia da cidade. Essa criança foi currada, dia após dia, durante um mês. Assassinos, estupradores, espancadores de mulheres e crianças, ladrões, arrombadores, batedores de bolsa de velhinhas, psicopatas, drogados, caíram em cima da garotinha como hienas, e os policiais, ali perto, ouvindo e vendo tudo.

Os berros de terror eram ouvidos pelos delegados e pelos moradores da cidade, já que a delegacia era um prédio velho praticamente aberto para a rua, e ninguém moveu uma palha pela menina. “Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das costas” – disse a mãe da jovem. “Cortaram o cabelo dela com um terçado (facão) para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de dizer, escalpelaram a minha filha.” O tempo todo, L ficou com as roupas que usava ao ser presa, uma saia curta e blusinha, cobrindo seios adolescentes. Ela media 1,40 m. “Aqui, no Pará, colocar homem e mulher na mesma cela é mais comum do que se imagina” – disse, na época, frei Flávio Giovenale, bispo de Abaetetuba. Há caso de atirarem uma mulher a 70 presos.

“Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada” – disse uma mulher na delegacia a jornalistas. “Antes de comer, os presos se serviam dela” – afirmou outra mulher, explicando que a menina só comia se não dificultasse a curra. “Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar” – afirmou outra mulher, explicando que era possível ver e ouvir da rua muito do que se passava na delegacia.

Seis delegados estiveram na delegacia durante o suplício da jovem. A delegada plantonista responsável pelo flagrante foi Flávia Verônica Monteiro e o delegado titular de Polícia de Abaetetuba, Celso Viana. “Embora ela estivesse misturada com os homens, o setor onde ela estava é aberto e permite uma ampla visão de qualquer policial” – declarou o delegado Celso Viana. Flávia Verônica Pereira e três policiais tinham conhecimento dos estupros. Nada fizeram. E policiais ameaçaram a menina de morte se não participasse de fraude em cartório para alterar-lhe a idade na certidão de nascimento.

O delegado Celso Viana alegou em depoimento que a adolescente disse ser maior de idade e afirmou que a responsabilidade da prisão da menor seria do sistema penal, e a delegada Flávia Verônica Monteiro afirmou que foi enganada ao ver o documento falso da jovem, indicando que ela tinha 20 anos. Flávia disse ainda que não transferiu a adolescente da delegacia para outra instituição porque esse procedimento só poderia ser feito com ordem judicial.

Em 27 de novembro de 2007, durante audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, o então delegado-geral do estado do Pará, Raimundo Benassuly Maués Júnior, insinuou que a jovem é que foi responsável pelo episódio e que devia ter “alguma debilidade mental” por não ter dito que era menor de idade. “Não sou médico legista nem tenho formação na área, mas essa moça tem certamente algum problema, alguma debilidade mental. Ela, em nenhum momento, declarou sua menoridade penal” – afirmou o gênio.

No dia 3 de outubro de 2013, leio na mídia que a juíza Clarice Maria de Andrade Rocha, que atuava em Abaetetuba quando a adolescente esteve presa, fora promovida, um dia antes, pelo Tribunal de Justiça do Pará, a titular da Vara de Crimes contra Crianças e Adolescentes de Belém. Segundo portaria da desembargadora Luzia Nadja Guimarães Nascimento, o critério para a promoção de Clarice foi por merecimento.

Clarice Maria de Andrade foi considerada omissa pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) durante o período em que a jovem paraense foi supliciada, e recebeu a punição de aposentadoria compulsória, em 2010. Mas a Associação dos Magistrados do Pará (Amepa) recorreu da decisão e a aposentadoria foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que entendeu que a punição foi exagerada, já que a magistrada não teria como saber da situação da carceragem da delegacia de Abaetetuba.

O fato é que quando o caso estourou na mídia, em novembro de 2007, a então governadora do Pará, a petista Ana Júlia Carepa, tratou-o com habitual alienação, e tudo mergulhou no esquecimento. Aliás, crianças são emblemáticas na tragédia da Amazônia.

Em 1979, fiz, para o antigo mensário Varadouro, em Rio Branco, extremo oeste da Hileia, reportagem sobre o tráfico de meninas pela BR-364, espinha dorsal do Acre, ligando o estado ao resto do país. Frequentei boates e bares, pontos de encontro de caminhoneiros, entrevistei prostitutas e rodoviários, e pesquisei em registros policiais, concluindo que parte dessas meninas que sumiam em Rio Branco era atirada em prostíbulos de Porto Velho, Manaus e Goiânia. Outras, simplesmente fugiam da miséria. Quarenta anos depois a situação piorou, e muito. A tragédia, que afeta toda a Amazônia, foi ampliado em escala assustadora.

Foram identificadas 76 rotas de tráfico de mulheres, crianças e adolescentes na Amazônia, segundo a Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins Sexuais, coordenada pelo Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria) e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Exploração Sexual, do Congresso Nacional.

Nesse comércio negro, assim como ocorre com políticos corruptos, a imunidade, digo, impunidade, é garantida. O holandês Kunathi, um dos maiores traficantes de pessoas, em atividade na Amazônia, já foi preso em flagrante no Pará, mas a Justiça o soltou para responder ao processo em liberdade. Não deu outra, Kunathi fugiu para o Suriname, antiga Guiana Holandesa, onde é dono de boate na qual só trabalham brasileiras, muitas delas do Pará e do Amapá.

Em 2006, adolescentes de Altamira, no Pará, que caíram nas garras de uma quadrilha de exploração sexual e a denunciaram, foram ameaçadas de morte se falassem na Justiça. A polícia paraense, despreparada, não pôde dar segurança às vítimas e só conseguiu provas contra três dos 15 acusados. A ação da quadrilha envolvia inclusive um político e empresários. “É uma rede complexa de exploração sexual, com várias vítimas e vários adultos envolvidos; é preciso que haja vontade política para que se chegue aos outros envolvidos” – disse, à época, Ana Lins, advogada da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH).

Em março daquele ano, a polícia de Altamira localizou várias adolescentes, algumas dadas como desaparecidas por suas famílias, em uma chácara, onde eram embebedadas e servidas em banquetes sexuais fotografados. As fotos eram divulgadas na internet. As orgias ocorriam também em motéis da cidade e em imóveis de um dos acusados, além de chácaras e balneários no município, onde as bacanais duravam dias.

Ameaçadas de morte, vítimas, suas famílias e testemunhas, desdisseram nos depoimentos à Justiça as declarações prestadas no inquérito policial. Uma das vítimas contou que foi ameaçada na porta da escola onde estuda, e sua família recebeu bilhetes com ameaças de morte. A jornalista Iolanda Lopes, que denunciou a quadrilha em várias reportagens, disse que recebeu três telefonemas ameaçadores.

As adolescentes foram, ainda, humilhadas na Câmara de Altamira, onde tiveram seus nomes divulgados durante sessão plenária. “A vergonha, a humilhação, o sentimento de desesperança e a depressão são alguns sintomas encontrados em várias das vítimas desse tipo de crime” – comentou a advogada Ana Lins. “A revitimização é o calvário de ter que reviver os momentos do crime ao ter que relatá-los várias vezes. Esse calvário vai desde não ser atendida dignamente na delegacia, às vezes esperando horas e horas, até conseguir registrar a ocorrência policial, a realização de exames periciais sem a devida humanização do servidor responsável, até ver os algozes soltos livremente e voltando a delinquir em alguns casos.”

Em janeiro de 2005, o Jornal Nacional, da TV Globo, publicou uma série de reportagens intitulada Povos das Águas, na qual focalizou o trânsito de balsas em Breves, na ilha do Marajó, Pará. Nessas balsas, na cabine de carros, crianças marajoaras serviam de repasto sexual durante o cruzamento do rio. De um modo geral, os municípios marajoaras são miseráveis, apesar da natureza pujante da maior ilha flúvio-marítima do mundo. O Marajó, uma das mais belas regiões do planeta, é do tamanho da Suíça. A ilha é banhada pelos rios Amazonas, Pará e Tocantins, e pelo Oceano Atlântico.

O comércio de crianças amapaenses e paraenses é intenso na Guiana Francesa e no Suriname, ao norte do Amapá, principalmente em cidades como Kourou, onde fica a base francesa de lançamento de satélites; o balneário de Montjoly e Saint Laurent. Meninas e meninos amapaenses e paraenses são bastante apreciados para bacanais, corrompidos por promessas de casamento com franceses ou pela possibilidade de ir para a Europa, onde imaginam que possam ganhar até 100 euros, cerca de R$ 400, por programa, escapando, assim, da miséria.

Dos 200 mil habitantes da Guiana Francesa, 50 mil são brasileiros ilegais, amapaenses em sua maioria, que fogem do Amapá, estado assolado pela miséria social, roubalheira de colarinho branco, nepotismo, corrupção endêmica e imigração insuportável. A capital, Macapá, é reflexo do desleixo administrativo. Cidade sem esgoto, cheia de ruas esburacadas, com fornecimento precário de energia elétrica e água encanada, apesar de se situar na margem do maior rio do mundo, o Amazonas, a cada dia fica mais inchada e violenta.

Próximo de Caiena, a capital da colônia francesa na Amazônia, localiza-se a cidade amapaense de Oiapoque. Antes de as meninas seguirem para as três Guianas, passam, geralmente, por um estágio em Oiapoque. Boates locais são internatos de meninas e meninos para o abate.

Assim, guianenses que atravessam o rio Oiapoque atraídos por sexo são recebidos na cidade de braços abertos – inúmeros bares nos quais o lenocínio prospera, de manhã à noite, açougues onde é possível comprar crianças de, em média, 13 anos. No Amapá, cidades como Laranjal do Jari, Tartarugalzinho, Calçoene e Santana, esta, na zona metropolitana de Macapá, são, como Oiapoque, vitrines de carne infantil. O jornal O Liberal, de Belém, o mais influente da Amazônia, contém, no seu banco de dados, ene reportagens que confirmam o que eu estou dizendo, com nomes, lugares e datas.

SEREIAS – Madrugada de 16 de setembro de 2004, marina da Ponta Negra, Manaus, Amazonas. A bordo do iate Amazonian, de 25 metros de comprimento, 15 políticos e empresários de Brasília e de São Paulo aguardam um carregamento para zarpar rio Negro acima, aparentemente para uma pescaria em Barcelos, a 450 quilômetros da capital amazonense, em passeio organizado pelo dentista paulista Flávio Talmelli. Era o terceiro ano que o alegre grupo de políticos e empresários candangos-paulistas se reunia.

Finalmente o carregamento chega. São peixes servidos antes mesmo da pescaria: 17 meninas, a maioria delas menor, aliciadas em casas noturnas de Manaus. O programa de dois dias e duas noites renderia R$ 400 a cada uma, fora gorjetas. As garotas foram conduzidas ao iate pela cafetina Dilcilane de Albuquerque Amorim, conhecida como Dil, 33 anos, que ganharia R$ 100 por garota.

Domingo 19. As meninas se dividiram em dois grupos para o retorno a Manaus. O Amazonian, com os políticos e empresários, seguiu rio Negro acima, com destino a um hotel na selva. Doze meninas retornaram a Manaus. No fim do dia, as cinco meninas restantes retornaram também, no barco Princesa Laura. O barco naufragou naquele mesmo domingo, entre Manaus e Barcelos, com 100 passageiros. Morreram 13 pessoas, entre as quais as cinco garotas que participaram da orgia: Amanda Ferreira Silva, 20 anos; Marlene Cristina dos Santos Reis, 19; Suzie Nogueira Araújo, 18; Taiane Barros, 17; Hingridy Florêncio Viana, 16.

Dois dias antes do acidente, alguns pais queixaram-se à polícia sobre o desaparecimento de suas filhas. Agentes da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente de Manaus (Deapca) descobriram que as meninas mortas haviam participado de uma bacanal e eram as mesmas que estavam sendo procuradas pelos pais. Depois, localizaram algumas meninas que retornaram a Manaus, do Amazonian. Descobriu-se, então, que três homens que estavam no Amazonian deixaram a embarcação em Barcelos e, dia 23 de setembro, retornaram a Manaus, em avião da Apuí Táxi Aéreo.

Foi aí que identificaram o então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital Benício Tavares da Cunha Melo, do PMDB, que adotou o nome Benício Mello (prenome e último sobrenome); Randal Mendes (Sérgio Randal), cunhado de Benício Tavares e, então, chefe de gabinete da presidência da Câmara Legislativa do DF; e o advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

Uma das menores ouvidas pela polícia disse que Benício Tavares manteve relações sexuais com pelo menos duas menores, uma das quais Taiane Barros, 17 anos, mãe de um bebê de sete meses, e que morreu afogada no Princesa Laura. Outra garota afirmou, em depoimento à polícia, que manteve relações sexuais com Benício, que teria pago R$ 500 a ela. Uma menor disse que Benício lhe ofereceu R$ 500 para manterem relações sexuais, mas ela recusou. Seis das moças que estiveram a bordo do Amazonian garantem que Benício chegou a pagar valores entre R$ 200 e R$ 1 mil para manterem relações sexuais com ele, inclusive com as menores de idade.

Das 17 meninas contratadas para a bacanal, seis afirmaram, em depoimento à delegada Maria das Graças Silva, titular da Delegacia Especializada de Assistência e Proteção à Criança e ao Adolescente, que Benício Tavares esteve no iate nos dias 17, 18 e 19 de setembro, e que manteve relações sexuais com várias garotas, entre as quais pelo menos duas menores. A delegada garante que coletou elementos suficientes para provar a participação de Benício Tavares em turismo sexual. Maria das Graças Silva mostrou, dia 27 de setembro, fotografias de Benício Tavares a três meninas que participaram da orgia. Elas identificaram imediatamente o parlamentar, paraplégico.

Três meninas ouvidas pela polícia garantem que no iate Amazonian havia bebida alcoólica e drogas, e que foram realizados desfiles de garotas nuas e sorteio de brindes aos participantes. Em depoimento à polícia, a cafetina Dil declarou que a bacanal foi contratada pelo dentista paulista Flávio Talmelli. “Ele disse que o passeio seria muito divertido e que todas as despesas, desde hospedagem a alimentação, seriam pagas por seus amigos. Somente convidei algumas amigas” – defendeu-se Dil. As garotas disseram à polícia que foram enganadas por Dil. O combinado é que receberiam R$ 400, mais gorjetas, mas, a bordo, receberam somente R$ 200.

Em nota oficial, divulgada no dia 27 de setembro de 2004, Benício Tavares confirmou a viagem a Manaus, de 16 a 22 de setembro, para pescar no rio Negro, hobby até então insuspeito. Confirmou também o voo Barcelos-Manaus. Negou relacionamentos sexuais com garotas menores de idade. Para fazer a viagem turística, Benício se licenciou da presidência da Câmara por 10 dias, embora a casa estivesse votando uma pilha de matérias e sua presença fosse importante. Foi confirmada também a presença, no iate, do chefe de gabinete da presidência da Câmara, Randal Mendes, cunhado de Benício Tavares, e do advogado brasiliense Marco Antônio Attié.

Em 2004, em Brasília, o plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal fechou os olhos e arquivou processo contra o então deputado Benício Tavares (PMDB), que respondia na Justiça por turismo sexual no estado do Amazonas. Benício foi liberado por 14 votos favoráveis e 10 abstenções. Em 2007, o então governador de Brasília, José Roberto Arruda, deu a Benício Tavares a Administração Regional de Ceilândia, o maior colégio eleitoral da cidade-estado. O povo se revoltou, pois, além da acusação de corruptor de menor, Benício Tavares era acusado de desvio de dinheiro. Arruda teve de tirá-lo do cargo. Em 2009, o Conselho Especial do Tribunal de Justiça do DF (TJDF) instaurou processo penal contra Benício, em ação movida pelo Ministério Público, e o absolveu. Benício Tavares foi reeleito deputado distrital.

Em 2010, o governador José Roberto Arruda foi preso, acusado de comandar um esquema de corrupção. Em novembro de 2011, Benício Tavares perdeu o mandato de distrital no exercício da sexta legislatura, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que considerou, por unanimidade, que o deputado coagiu eleitores e praticou abuso de poder econômico.

Como se vê, Brasília não vai à Amazônia apenas por energia hidrelétrica, minerais e madeira. Ainda bem que o aborto de ditador Lula Rousseff já está enjaulado, pois o Foro de São Paulo seria capaz de transpor as águas do rio Amazonas para o Nordeste, não que isso seja necessário, pois o Nordeste dorme sobre descomunal aquífero, mas porque a grana que isso renderia não está no gibi.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Gelio Fregapani: a Amazônia será ocupada. Por nós, ou por uma ou mais potências estrangeiras



RAY CUNHA
raycunha@gmail.com

BRASÍLIA, 23 DE AGOSTO DE 2019 – O problema crucial da Amazônia é que ela ainda não foi devidamente ocupada pelos brasileiros. Por isso, ledo engano é supor que a região pertence de fato ao Brasil. Será, sim, do Brasil, quando for desenvolvida por nós e devidamente guardada. Daí porque às potências estrangeiras não interessa o desenvolvimento da Amazônia. Aos Estados Unidos, Inglaterra, Japão e China, principalmente, interessa manter os cartéis agrícolas e de minerais e metais. Dois exemplos: a soja da fronteira agrícola ameaça a soja americana; e a exploração dos fabulosos veios auríferos da Amazônia poriam em cheque as reservas similares americanas e poderia mergulhar ainda mais o gigante em recessão.

Assim, despovoada, sub explorada e subdesenvolvida, não há grandes problemas para a ocupação estrangeira da região. Por exemplo: a reserva Ianomâmi – etnia que seria forjada pelos ingleses –, do tamanho de Portugal e na tríplice fronteira, em litígio, Brasil, Venezuela e Guiana, é a maior e mais rica província mineral do planeta. Pois bem, já há manifestação na Organização das Nações Unidas (ONU) de torná-la nação independente do Brasil.

É disso que trata esta entrevista que fiz com Gelio Fregapani, em fevereiro de 2005, mas que, como se verá, continua atual. Gelio Fregapani foi o mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva. Para atingir a capacidade de iniciativa de tal magnitude, ele já esteve em praticamente todos os locais habitados e muitos dos desabitados da Amazônia, inclusive a selva, aquela que poucos conhecem e que nem uma hecatombe nuclear destruiria. Fala também mais de uma língua indígena.

Fregapani já conduziu geólogos a lugares ínvios, chefiou expedições militares e coordenou expedições científicas às serras do extremo norte e onde dormem as maiores jazidas minerais da Terra. Desenvolveu também métodos profiláticos para evitar doenças tropicais, tendo saneado as minas do Pitinga e a região da hidrelétrica de Cachoeira Porteira. Coronel do Exército, serviu à força durante quatro décadas, quase sempre ligado à Amazônia, tendo fundado e comandado o Centro de Instrução de Guerra na Selva. Há mais de quatro décadas vem observando a atuação estrangeira na Amazônia, o que o levou a escrever Amazônia - A grande cobiça internacional (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas).

Fregapani não descarta guerra pela ocupação da Amazônia. “A Amazônia será ocupada. Por nós ou por outros” – adverte.

Esta entrevista foi publicada inicialmente na coluna Enfoque Amazônico, que eu assinei durante meia década no portal ABC Politiko (www.abcpolitiko.com.br). Imediatamente à sua publicação, dezenas de sites e blogs a replicaram. Fregapani nos oferece, nesta entrevista, uma visão que pulveriza qualquer romantismo sobre a Hileia. Vamos a ela.

Assassinatos no interior do Pará tornaram-se banais. Por que a região está convulsionada?

Vou me arriscar a fazer um pequeno comentário sobre o Pará, mas friso que não sou nenhum especialista na área, que não é da minha especial atenção. Acontece que aquela área é limite da expansão agrícola, que vai continuar, primeiro, pela exploração madeireira; depois, de gado; e depois, de agricultura. Os Estados Unidos preocupam-se especialmente com a tomada do mercado deles de soja. Nós produzimos soja mais barata do que eles, pela nossa quantidade de água, de terras baratas e de insolação. Então, fazem todo o possível para prejudicar-nos. Pessoalmente, estou convencido de que eles introduziram – não quero dizer o governo deles; talvez as companhias deles – a ferrugem da soja e usam o meio ambiente como uma forma de travar o nosso progresso. Nesse uso do meio ambiente se inclui a corrupção existente em alguns dos nossos órgãos; o idealismo, tolo, de algumas das nossas entidades que querem deixar a mata intocada e o nosso povo sem emprego; e, principalmente, a atuação, nefasta, de várias ONGs, como a WWF (Wold Wildlife Found). Eu acredito que nesse contexto muito desses conflitos são provocados por interesses externos. Se o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) fizesse corretamente seu papel e se as reintegrações de posse fossem cumpridas certamente não haveria muitos desses conflitos. É claro que pouca gente vê perder-se o resultado do esforço de toda sua vida sem reagir. E quando a Justiça não atende, algumas pessoas farão justiça com as próprias mãos.

Qual é a maneira legítima de ocupação da Amazônia?

A Amazônia será ocupada. Por nós, ou por outros. Numa humanidade em expansão, com uma série de terras superpovoadas, uma terra despovoada e habitável, ela será ocupada. Por quem? Nós temos, legitimamente, a posse, mas essa legitimidade não nos garante o futuro. Se nós não ocuparmos a Amazônia, alguém a ocupará. Se nós não a utilizarmos, alguém vai utilizá-la. Portanto a questão é: devemos ocupá-la, ou não? Nós somos brasileiros, então devemos ocupá-la. Se nós nos achamos cidadãos do mundo, então podemos permitir a ocupação por outros. Como ocupar? Estávamos falando da área do Pará que é a periferia da selva. Essa história de Amazônia Legal é uma falácia, feita para incluir nos benefícios da Amazônia algo que não tem nada a ver com a Amazônia real, que é aquela selva que nós todos conhecemos. Nessa periferia está a agricultura. Então, ela será ocupada, fatalmente, pela agricultura, até para alimentar o mundo. Os madeireiros não fazem o mal à selva que os ambientalistas falam. Os madeireiros pegam espécies selecionadas, que interessam ao mercado. É claro que eles abrem picadas para chegar até essas árvores, mas isso não faz dano à floresta, porque há milhões de pequenas árvores, chamadas de filhotes, que estão lá, há muitos anos, esperando uma chance de chegar ao sol para poder crescer. Quando uma árvore é abatida, aqueles filhotes que estão em redor crescem numa velocidade espantosa, na disputa para ver qual dos indivíduos vai substituir a árvore que foi abatida. Isso não altera em nada a floresta. Mas a fronteira pioneira vai avançando. Nessas trilhas, irão colonos, que procurarão fazer um corte para colocar o gado. Isso faz com que o Brasil tenha o maior rebanho de gado fora da Índia, e que abastece o mundo de carne. Há quem ache ruim. Há quem queira as árvores e não o gado. Depois, pela valorização, essas terras serão usadas pela agricultura. Essa é a forma natural de ocupação, embora lenta, pois precisamos ocupar a Amazônia de uma forma mais veloz. Contudo, tanto o gado como a agricultura, não poderão ficar na área de floresta mesmo. Não porque os ambientalistas querem. É porque a floresta não deixa. Na floresta, fora dessa área de transição, de periferia, na floresta úmida, real, as árvores crescem com uma rapidez incrível. Primeiro vem uma árvore pioneira, a imbaúba, e sob a sombra da imbaúba cresce a verdadeira floresta. Em dois anos, as imbaúbas já estão com mais de 40 metros. Então, não é possível uma agricultura, como nós a concebemos no Sul, ou no Hemisfério Norte, porque a floresta não deixa. O correto seria a silvicultura, ou seja, a substituição de árvores por outras árvores. Muitas outras árvores são interessante para substituir aquelas árvores de menos valor, como a castanheira, a seringueira, mas, no momento, o que chama atenção, mesmo, é o dendê.

Dendê?

As reservas de petróleo estão diminuindo no mundo e o consumo está aumentando. Vai chegar um momento que o uso de petróleo será inviável. Eu não estou dizendo que o petróleo vai acabar. Sempre vai sobrar um pouco, ou um achado novo, mais fundo, mas o uso do petróleo, como se faz atualmente, está com seus dias contados. Além do mais, os Estados Unidos estão procurando tomar conta de todas as jazidas que existem no mundo e alguns países estão realmente preocupados com isso. A Alemanha, que já sabe muito bem o que é falta de energia, está plantando canola para substituir diesel, e já tem alguns milhares de postos fornecendo biodiesel aos consumidores. A canola produz por hectare 20 vezes menos do que o dendê, que precisa só de calor, sol e água. Exatamente o que abunda na Amazônia. Sete milhões de hectares de plantação de dendê produz 8 milhões de barris de biodiesel por dia, o que equivale à produção atual de petróleo da Arábia Saudita, que tende a declinar. O Japão mandou o seu primeiro ministro ao Brasil para tratar de biodiesel. O Japão não tem um lugarzinho nem para plantar canola. A China tem muito carvão, mas tem pouco petróleo; ela também está reunida com o Brasil, pedindo que o Brasil faça biodiesel. O mundo tem fome de biodiesel. Essa, me parece, que é a melhor ocupação da Amazônia. Sete milhões de hectares plantados seria uma área menor do que a área Ianomâmi. Nós teríamos 200 milhões de hectares plantados, se quiséssemos, produzindo biodiesel. Sete milhões de hectares plantados criarão aproximadamente 6 milhões de empregos. Isso contribuiria para atingir a meta de 10 milhões de empregos.

Há possibilidade de guerra pela ocupação da Amazônia?

Sabemos que haverá pressões, sabemos que outros tentarão ocupar a Amazônia, sabemos que se nós não a ocuparmos, certamente teremos uma guerra pela ocupação. E guerra que ninguém garante que nós vamos vencer. A necessidade de ocupação da Amazônia é um fato e a melhor forma é deixar prosseguir a fronteira agrícola. E quanto mais perto das serras que separam o Brasil dos países ao norte, melhor. É nítido o desejo dos povos desenvolvidos tomarem conta das serras que separam o Brasil da Venezuela e da Guiana, por dois motivos: para evitar que o Brasil concorra com seus mercados e como reserva futura de matéria-prima. Podemos substituir as árvores nativas pelo dendê e, com isso, conseguiremos tudo o que precisamos. Atenderia a 6 milhões de trabalhadores rurais e acabaria até com o problema dos sem-terra. Essa solução é tão vantajosa para o Brasil que para mim é incompreensível que isso não esteja com destaque na grande mídia, não esteja na discussão de todos os brasileiros.

A quem interessa a grita dos ambientalistas na Amazônia?

Há três países especialmente interessados nisso: os Estados Unidos, a Inglaterra e a Holanda. Eles têm coadjuvantes: França, Alemanha e outros; até mesmo a Rússia já se meteu, no tempo de Gorbachev. Mas o interesse dos Estados Unidos é mais profundo. Se nós explorarmos o ouro abundante da Amazônia, vai cair o preço do ouro, e isso vai diminuir o valor das reservas dos Estados Unidos, onde está certamente a maior parte do ouro governamental do mundo. Isso seria um baque para os Estados Unidos, talvez pior do que perderem o petróleo da Arábia Saudita. A Inglaterra, não é de hoje, sempre meteu o bedelho nessas coisas. A Holanda, que é o país que mais modificou seu meio ambiente, tendo retirado seu território do mar, também tem umas manias loucas em função do meio ambiente. A grita ambientalista atende principalmente aos Estados Unidos, para cortar a exploração do ouro, e também para não atrapalhar seu mercado de soja. À Inglaterra interessa o estanho, mercado que sempre dominou. Uma só jazida de estanho na Amazônia, do Pitinga, quebrou o cartel do estanho, fazendo despencar o preço de US$ 15 mil a tonelada para menos de US$ 3 mil. Agora está em US$ 7.500, mas não voltou aos US$ 15 mil, por causa de uma única jazida. Reconheço que há ambientalistas sinceros, que acreditam nessas falácias, nessas mentiras, ostensivas, como a de que a Amazônia é o pulmão do mundo e que os pólos estão derretendo por causa disso e por causa daquilo. Os pólos estão derretendo porque ciclicamente derretem e se alguma coisa influi nisso são os países industrializados.

A abertura de estradas na Amazônia é necessária?

Quando foi aberta a Belém-Brasília, a Amazônia era como se estivesse noutro continente. Nós poderíamos chegar lá, sem dúvida, de navio ou de avião. A Belém-Brasília rasgou apenas 600 quilômetros de selva, mas essa área já está povoada, é definitivamente nossa. Tem conflitos, mas tem riquezas, tem um rebanho enorme e começa a produzir alimentos vegetais. A Transamazônica não teve o mesmo sucesso porque devia ter sido construída por etapas. A estrada especialmente estratégica, que garantiria para o Brasil a posse da Amazônia, que seria a Perimetral Norte, não saiu do papel. Mas somente estradas podem povoar a Amazônia. Elas terão que ser abertas.

Quais são os pontos específicos da Amazônia que interessam às potências estrangeiras?

As serras que separam o Brasil da Venezuela e da Guiana, e um pouquinho da Colômbia. Lá é que estão as principais jazidas e minerais do mundo. É lá que eles forçam para a criação de nações indígenas e, quem sabe, vão forçar depois a separação dessas nações indígenas do Brasil. Um segundo ponto é a orla da floresta, essa transição da floresta para o cerrado, perfeitamente apta à agricultura. Isso entra em choque com os interesses agrícolas dos Estados Unidos. O interior real da floresta, esse é desabitado, desconhecido e é mais falado pelos ambientalistas sinceros, mas ignorantes, aqueles que julgam que a floresta tem que ser preservada na sua totalidade, mesmo que o povo brasileiro fique desempregado, faminto e submisso às potências, que construíram o seu progresso modificando o meio ambiente. Não há como haver progresso sem modificar o meio ambiente. Nós temos, às vezes, algumas falácias nisso. Os ambientalistas não querem que se construam barragens nem que se faça irrigação. Não existe desperdício maior do que o rio jogar água no mar. O ideal é que a água fosse usada toda aqui dentro.

Trafica-se animais, plantas e até sangue de índio da Amazônia.

A Rússia tem aquela imensidão da Sibéria, quase despovoada, inabitável mesmo, e com muito menos animais do que pode conter a floresta amazônica. E, para ela, é uma imensa riqueza a exploração de peles. Naturalmente, os ribeirinhos têm que caçar. Os animais são desperdiçados por leis ambientais erradas. Esses animais acabam sendo levados para países vizinhos e de lá são exportados. O que nós teríamos que fazer é uma regulamentação e não uma proibição. Quanto à história de sangue de índio, até onde eu saiba, andaram aí coletando para fazer pesquisas. O que querem com essas pesquisas? Não é prático, no meu entender, coletar sangue para contrabandeá-lo. Quanto à exploração de espécies vegetais, ou à biopirataria, eu também não me assusto muito com isso, porque, uma vez que se vê que uma planta cure alguma coisa, vai se procurar o princípio ativo e produzi-lo sinteticamente. A pesquisa disso, no meu entender, traria bem para a humanidade. Se bem que eu gostaria que nós fizéssemos isso e não que os estrangeiros patenteiem e depois queiram vender para nós. Esses aspectos são mais emocionais e direcionados para que a gente não explore nada.

É verdade que a população indígena foi reduzida drasticamente desde o descobrimento do Brasil?

Mais de 30 milhões de brasileiros que se consideram brancos têm sangue indígena. Temos, portanto, mais de 30 milhões de descendentes de indígenas. Se considerarmos que havia 3 milhões de indígenas na chegada de Cabral e se há 30 milhões de seus descendentes entre os que se consideram brancos nós vemos que a população indígena não foi reduzida; foi ampliada. O que certamente acontecerá não é a eliminação do índio; é a eliminação de suas sociedades, por serem anacrônicas. A sociedade medieval já acabou. A sociedade dos samurais também. A sociedade dos mandarins também. Por que tem de ser mantida uma sociedade que não cabe no mundo moderno? Os valores tribais não são facilmente aceitos por pessoas evoluídas. Canibalismo pode ser aceito? Sinceramente, no meu entender, não. O assassinato de filhos, como cultura, não como delito, pode ser aceito? Isso não é compreensivo para mim. A nossa ingenuidade talvez nos leve a achar que devemos preservar a mata nativa e deixar o povo com fome.

Os ianomâmis são uma nação verdadeira ou forjada?

Absolutamente forjada. São quatro grupos distintos, linguisticamente, etnicamente e, por vezes, hostis entre eles. A criação dos ianomâmis foi uma manobra muito bem conduzida pela WWF com a criação do Parque Ianomâmi para, certamente, criar uma nação que se separe do Brasil. O Parque Ianomâmi é uma região do tamanho de Portugal, ou de Santa Catarina, onde, segundo afirmação da Funai (Fundação Nacional do Índio) há 10 mil índios. A Força Aérea, que andou levando o pessoal para vacinação, viu que os índios não passam de 3 mil. Ainda que fossem 10 mil, há motivo para se deixar a área mais rica do país virtualmente interditada ao Brasil? O esforço deveria ser no sentido de integrá-los na comunidade nacional. Nenhuma epidemia vai deixar de atingir índios isolados. A única salvação, nesse caso, é a ciência médica. A área ianomâmi é imensa e riquíssima, está na fronteira e há outra área ianomâmi, similar, no lado da Venezuela. Então, está tudo pronto para a criação de uma nação. Um desses pretensos líderes, orientado naturalmente pelos falsos missionários americanos, Davi Ianomâmi, já andou pedindo na ONU uma nação, e a ONU andou fazendo uma declaração de que os índios podem ter a nação que quiserem. No discurso de Davi, ele teria dito que querem proteção contra os colonos brasileiros, que os querem exterminar.

Qual é a grande vocação da Amazônia?

Duas. Uma é a mineração. E a outra é a silvicultura. Particularmente a silvicultura do dendê, que, certamente, vai suprir o mundo de combustível em substituição ao petróleo. Em menos de duas décadas, o biodiesel e o álcool terão substituído o diesel e o petróleo em quase todo o mundo. Lugar algum oferece melhores condições para essa produção do que a Amazônia.

E o turismo?

É um pequeno paliativo. Não é suficiente para desenvolver a Amazônia. A Amazônia nunca será uma Suíça, uma Espanha...

A falta de ocupação da Amazônia é, então, o grande problema da região?

É o grande problema do Brasil. A Amazônia será ocupada, de um jeito ou de outro. Por nós ou por outros. A solução da ocupação não é para a Amazônia, é para o nosso país, se quisermos ter a Amazônia.


Brasília, 25 de fevereiro de 2005

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Adeus, amigos!

BRASÍLIA, 22 DE AGOSTO DE 2019 - Meus amigos partiram. Alguns, para o mundo espiritual; outros, da juventude, permanecem fiéis a Karl Marx. Houve, inclusive, um, que, depois de ler artigo meu referindo-me a Lula Rousseff como aborto de ditador enjaulado, pôs fim a uma estupenda amizade. E há os que simplesmente se perderam de mim nas dobras do tempo.
Mas continuo rico, paparicado pelos meus amores, e na minha estante encontro todo o planeta, e amigos eternos, como Ernest Hemingway, Antoine de Saint-Exupéry, Gabriel García Márquez e Masaharu Taniguchi. Tenho também novos amigos, que estão me levando para conhecer a Via Láctea, como Laércio Fonseca e Jorge Bessa. Além da família, da estante e dos amigos que vivem no meu coração, tenho as madrugadas, jasmineiros e rosas, que são eternas, o mar, o azul e o Sudoeste. Às vezes, Mozart toca ao piano o som da Terra girando no espaço. E quando escrevo um poema, o terremoto do primeiro beijo se instala em mim durante vários dias. O amigo com quem eu conversava durante horas sobre livros e escritores foi para Cuba, e eu voltei a conversar, com vivos e mortos, nas livrarias, que também estão mudadas. A Saraiva do Conjunto Nacional, por exemplo, não tem mais a estante de revistas semanais, embora continuecom suas mesas e cadeiras onde podemos ler à vontade. Ia lá para ler Veja, mas perdi o apetite por ela, porque o PT a corrompeu. E depois, seus alto-falantes continuam gritando rock moribundo. O século 20 ficou realmente para trás. Com a invenção da web, os políticos não conseguem mais matar bebês nas maternidades nem crianças nas escolas, em escala industrial, pois a população toda agora é de jornalistas, e suas redações são a internet. É por isso que na China e na Coreia do Norte a web é proibida. E em 1 de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro assumiu o comando do país. Os assassinos, ladrões, assaltantes, estupradores, traficantes, escravocratas, corruptos em geral, estão furiosos, especialmente os supremos, mergulhados numa bacanal nos seus palácios, dentro dos seus automóveis de vidraças negras, nas suas amplas casas e apartamentos. Ficam para trás honoráveis como Jegue Sarney, carcaça carcomida pelas larvas da corrupção, os beiços macilentos agarrados, numa bocada, nas tetas da sua província, o Maranhão e Amapá. Macapá, minha cidade natal, ainda não saiu do século passado; continua sobre fossas sépticas, e ainda não tem, nem nunca teve, uma livraria de verdade. Não tem rede de esgoto e nem livraria porque seus prefeitos, e os governadores do Amapá, estão, e estiveram sempre, preocupadíssimos apenas com mordomias, diárias, cabides de emprego e verbas federais. Os novos tempos vieram para ficar. Se em 2018 vimos a hiena velha Lula Rousseff ser enjaulada e os patriotas elegerem Jair Bolsonaro, 2019 é a boca do abismo que engolirá as cinzas do PT. É o ano do resgate das nossas esperanças. Possivelmente, em 2019, a ciência comece a descobrir que nós, humanos, somos seres espirituais, que o corpo é somente uma experiência material necessária para evoluirmos e ascendermos, e que a matéria não existe de fato, pois tudo muda, de um momento para outro. Nascemos, tornamo-nos criaturas magníficas, perdemos energia, ficamos igual maracujá de gaveta e desaparecemos fisicamente. O passado não existe, nem o futuro. Somos eternos agora, fortes como as rosas de nióbio, intensos como o perfume dos jasmineiros de Macapá, em julho, serenos como o porto seguro que é a mulher amada, como o som do apartamento de madrugada, uma xícara de café Três Corações, gourmet, às 5 horas da manhã, buraco negro vertendo azul quântico.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Falta pouco para o Congresso Nacional regulamentar a profissão de acupunturista



RAY CUNHA         

BRASÍLIA, 21 DE AGOSTO DE 2019 – A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou em caráter conclusivo, ontem, o Projeto de Lei 1549/2003, de autoria do deputado Celso Russomanno (PRB/SP), que regulamenta a acupuntura no Brasil; seguirá direto para o Senado, a menos que haja recurso exigindo que a matéria vá para o plenário.

O projeto regulamenta a prática da acupuntura aos profissionais com diploma de nível superior expedido por instituição reconhecida, nacional ou estrangeira; com diploma de nível superior na área de saúde, com especialização em acupuntura; graduados em curso técnico em acupuntura expedido por instituição reconhecida; sem diploma, mas com pelo menos cinco anos comprovados exercendo a profissão.

Instituições que representam a categoria afirmam que há no Brasil cerca de 160 mil trabalhadores em acupuntura. Na maioria dos países do planeta, especialmente no Primeiro Mundo, a acupuntura é reconhecida e utilizada em escala como terapia, mas no Brasil sempre houve resistência a esta ciência por parte dos médicos.

Por exemplo, o deputado Hiran Gonçalves (PP/RR), que é médico e foi relator do projeto, acha que somente médicos alopatas devem praticar acupuntura. “Nós estamos tratando de uma especialidade médica. Ao tentar regulamentar a profissão de acupunturista para quem não fez medicina estamos dando o direito a uma pessoa que não tem conhecimento de anatomia, de fisiologia, de neuroanatomia, de neurologia, enfim, pré-requisitos necessários, de praticar uma atividade que envolve inclusive procedimentos invasivos” – ilude-se.

Hiran está cem por cento enganado. Acupuntura é apenas uma das terapias da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), ciência que trabalha basicamente com as energias Yin e Yang, as quais perpassam toda a matéria. Alicerçada no taoísmo, os adeptos desta ciência acreditam na existência do espírito; a ciência ocidental, não.

Quanto aos conhecimentos do corpo humano, fiz apenas curso técnico, na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), mas com grade que contemplava todas as disciplinas de conhecimento do corpo humano. De quebra, ao sair de lá, mergulhei no estudo do períspirito. Os médicos que lerem este texto podem até rir, mas os médios que o lerem sabem do que estou falando.

E no meu curso técnico houve até trabalho de conclusão. O meu foi inusitado. Como sou ficcionista, apresentei um romance, FOGO NO CORAÇÃO, um thriller policial tendo como pano de fundo o dia a dia de alguns acupunturistas em Brasília. Neste livro, a filosofia, a ciência, a técnica, a prática e a poesia da Medicina Tradicional Chinesa representam os sete oitavos do iceberg.

Agora, o pau vai comer no Senado, que está cheio de médicos, e os médicos querem apito!