segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Coluna CAFÉ ESPRESSO - Crônicas e Contos

Café

RAY CUNHA

Durante muito tempo, o Café Doce Café reinou como um dos pontos mais aprazíveis do meu circuito nas entranhas de Brasília. Localizado no átrio do Conjunto Nacional, constituía-se em mirante de onde podia apreciar, sem ser notado, as mulheres lindas que passavam por ali, algumas tão monumentais que faziam justiça à arquitetura de Oscar Niemeyer. Muitas delas, antes de sumir nos labirintos do shopping, tornavam o dia mais luminoso, fazendo uma parada no café. De lá, eu costumava ir à antiga livraria Sodiler – depois, La Selva, seguida de uma loja de calçados, e, agora, parece-me que uma loja de roupas.

Um dia, arrancaram a maior parte do balcão de mármore do Café Doce Café e o substituíram por vidro, para que as pessoas pudessem ver os salgadinhos. Continuei a frequentá-lo, mais pelo mirante do que pelo café, que, aliás, sempre foi robusta, aquele tipo amargo, barato, das lanchonetes populares. Durante algum tempo, mantiveram as colherinhas de metal e as xícaras e pires clássicos. Mas isso não durou muito; as colheres foram substituídas por hastes de plástico, e os pires e xícaras de desenho clássico foram-se trincando, quebrando, até serem substituídos por louça horrorosa, além de que o balcão de mármore sofreu nova e drástica redução. Assim, tive que descobrir novos mirantes, como o Kopenhagen, no segundo piso do shopping, ao lado da livraria Saraiva.

A propósito, o problema da Saraiva é música ambiente. Há sempre um desses dançarinos-cantores unissex guinchando nos alto-falantes da loja. Voltando à Kopenhagen, é bastante agradável, os móveis são de palhinha e podemos descortinar o passa-passa numa grande área do shopping – verdadeiro laboratório literário. Além disso, a colherinha é de metal e o café, blend.

Sou apreciador de café espresso. Comecei a degustá-lo na companhia de um amigo de infância, o jornalista Ribamar Teixeira, que, como eu, é brasiliense de Macapá. Eu já li bastante sobre café e fiz dois cursos de barista, por curtição, com o ítalo-brasileiro Antonello Monardo.

Café espresso recebeu esse nome porque foi inventado pelos italianos. É tirado por pressão, daí o “espresso” italiano, que, vertido para o português, virou, para muita gente, “expresso”, o que lhe dá a conotação de que é um café tirado rapidamente. Muitos não tomam espresso por duas razões: ou estão habituados ao chafé de botequim, conhecido como carioca, ou acham que é muito forte. Neste caso, é só tomar um curto.

É o seguinte: café contém mais de mil essências nutritivas. Ao se tirar um espresso, essas essências são encontradas somente na primeira parte que cai, ou seja, na metade da xícara de 30 ml; o restante é pura cafeína. Assim, um curto é a meia xícara do primeiro café tirado – trata-se, portanto, de um café encorpado, aromatizado e revigorante.

Tem mais uma questão importante. Há dois tipos de café: robusta e arábica. O robusta é resistente à praga e por isso mais barato, mas tão amargo que só entra com muito açúcar. É servido em toda parte; somente as cafeterias de primeira linha servem arábica, um café encorpado, aromático e naturalmente adocicado.

O mais famoso do mundo é o italiano Illy, blend dos melhores arábicas do planeta, especialmente do sul de Minas Gerais. A fábrica fornece sachê de Illy para todo o mundo. A primeira vez que experimentei um Illy foi no Saborela, na 112 Norte, Bloco C, Loja 38, tirado pelo barista Bruno Kzam.

O café arábica do sul de Minas Gerais, maior produtor do Brasil (e este, maior produtor do mundo), é um dos melhores do planeta. É leiloado. Oitenta por centro ficam com os alemães. Os japoneses também são grandes compradores. Em Tókio, um espresso custa pelo menos US$ 5.

Meu café preferido é 3 Corações, gourmet (arábica e sem impurezas). Eu mesmo o tiro ao coador, ainda de madrugada, quando me levanto. À tarde, costumo tomar um espresso, confortavelmente instalado num mirante.

domingo, 12 de novembro de 2017

Coluna CAFÉ ESPRESSO - Crônicas e Contos

Negra em vestido de seda

RAY CUNHA

Degustava um Illy no café de uma livraria no Pátio Brasil quando a vi. Senti imediatamente seu perfume, que se misturou ao sortilégio do espresso, o aroma dos melhores arábicas do mundo. À sua passagem, infinitas possibilidades se iluminaram; de repente, velhos prazeres esquecidos, projetos de viagens adiados, sensações adormecidas, acordaram à sua passagem.

Entendo que seda é o melhor tecido para sugerir as curvas de uma mulher, para desenhar, na nossa imaginação, seus encantos inacessíveis, para exalar a química do prazer que captamos com as antenas dos sentidos, e ela trajava um vestido de seda amarelo, estampado com rosas colombianas vermelhas.

Seu andar – andar, não, trote – tinha a cadência das potras nascidas em cavalariça de ouro, trotar de bailarina clássica, o caminhar de mulheres sobre saltos tão altos que as fazem andar na ponta dos pés. E o vestido de seda lhe desenhava as formas no seu passeio pelo shopping.

Tudo foi num instante, mas na dimensão em que a vi pude examiná-la minuciosamente. O primeiro impacto que sofri ao vê-la foi uma sensação tátil: a sua pele de jambo maduro, sedosa como seu vestido. Tinha nariz português, boca de negra e olhos verdes. Dentro do instante intenso, viajei, instantaneamente, à velocidade da luz, à Estação das Docas, em Belém, e fui também à Macapá, onde a Linha Imaginária do Equador faz esquina com o maior rio do mundo, e o rio Amazonas me conduziu ao Caribe de Gabriel García Márquez.

A negra misteriosa passou rente a mim e me ofertou seu perfume, que identifiquei imediatamente: Chanel 5, o que mais gosto de aspirar na pele feminina. Ela passou tão rente a mim que tive a sensação de que a seda do seu vestido roçou no meu cérebro. Quis ficar ali, naquela eternidade, sentindo-me cair para cima, numa sequência infinita de gozos múltiplos, só de observá-la, mas o compromisso na embaixada de Portugal acertou-me em cheio na cabeça, como um tiro que nos reconduz à rotina. Dali a pouco estaria bebericando vinho do Porto no Instituto Camões.

sábado, 11 de novembro de 2017

Coluna CAFÉ ESPRESSO - Crônicas e Contos

Este conto está à espera de um artista para ilustrá-lo e se tornar livro!

A aventura do leão
Cândido em Brasília

RAY CUNHA

Era uma vez, no Quênia, país da África oriental, um guia chamado Lili, que ganhava a vida conduzindo expedições ao coração da selva. Um dia, Lili participava de uma expedição policial em perseguição a caçadores, mas não puderam impedi-los de matar uma leoa e fugissem a seguir. Ao se aproximar da leoa, Lili descobriu que havia um gatinho ao lado dela. O gatinho estava chorando. Lili o pegou ao colo e pediu ao chefe da expedição autorização para adotar o gatinho, no que foi atendido.

Cândido Lili, como foi batizado o leãozinho, era muito amoroso e logo fez amizade com todos os animais da fazenda de Lili. Nem as galinhas tinham medo dele, pois Cândido foi educado a não matar sequer uma mosca. Além disso, ele não comia carne vermelha, mas apenas filé de peixe cozido, com arroz integral, e uma ração que Lili inventou, à base de soja. Cândido gostava de tudo da fazenda, sobretudo da companhia de Lili, tanto que o imitava muito bem, de tal modo que acabou aprendendo a se vestir e a falar português do jeitinho de Lili, que nascera em Brasília. À noitinha, os dois sentavam-se na varanda e o guia contava para Cândido como era a vida na capital brasileira.

– Eu gosto de ir ao Conjunto Nacional, um grande shopping defronte ao Teatro Cláudio Santoro, muito agradável, onde sempre compro livros na livraria Leitura, e almoço também lá mesmo. No Brasil, temos um prato, a feijoada, que foi inventada pelos nossos antepassados africanos. Você sabia, Cândido, que os africanos são também nossos antepassados, além dos índios e portugueses?

Cândido ouvia, sonhador, o pai adotivo.

– Pois é, Cândido, a feijoada é composta de feijão preto; pés, rabo e orelha de porco; e toucinho defumado, com arroz e couve frita. Se a pessoa quiser, pode pôr também um pouquinho de caldo de feijão com pimenta.

Cândido sentia água na boca.

E de tanto Lili contar como era Brasília, Cândido jurou a si mesmo que um dia visitaria aquela cidade tão encantadora, sobretudo para se empanturrar na praça de alimentação do Conjunto Nacional.

O desejo de Cândido era tão sincero que, como acontece a todos os desejos que nascem no coração, tornou-se realidade. Filho único, Lilia, todos os anos, passava as festas natalinas com seus pais, em Brasília, e resolveu, naquele ano, levar Cândido consigo.

Algumas providências e cuidados tiveram de ser tomados para a viagem. Mas como Lili tivesse muito prestígio junto ao governo do Quênia não foi difícil convencer as autoridades quenianas a fornecerem um passaporte a Cândido, pois eles mesmos estavam convencidos de que Cândido era um gigante parecido a um leão. E depois, a cada dia que passava, Cândido ficava mais parecido a um homem.

Durante a viagem, tudo correu bem. Cândido se comportou como um cavalheiro, tanto que ninguém desconfiou dele. Voltavam-se para vê-lo devido ao seu tamanho, ao sobretudo, às luvas, os óculos escuros e o chapéu panamá, o que lhe dava um ar misterioso.

Os pais de Lili sofriam de alergia a gatos, qualquer espécie de gato. Além disso, poderiam morrer de susto ao verem Cândido à vontade, em casa. Assim, Lili e Cândido se hospedaram no Hotel Nacional, o hotel mais famoso da cidade. Na noite de Natal, Lili foi cear com seus pais e Cândido ficou no hotel, vendo televisão, pois ele adorou os programas das TVs brasileiras, e no Ano Novo, Lili o levou, à meia-noite, à Esplanada dos Ministérios, para verem de perto a queima de fogos. Foi tudo inesquecível para Cândido: um concerto no Teatro Nacional, a visita à Galeria de Arte da Caixa Econômica Federal, um filme de Glauber Rocha, Deus e o diabo na terra do sol, em DVD, e algumas idas ao Conjunto Nacional, onde Cândido repetia vinte feijoadas. Quando não estava passeando com Lili, Cândido permanecia o tempo todo no Hotel Nacional, para não dar na vista. Lia muito Euclides da Cunha, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Márcio Souza, Dalcídio Jurandir, João de Jesus Paes Loureiro e Benedicto Monteiro, pois queria saber tudo sobre o Brasil, principalmente a Amazônia, pátria de Benedicto Monteiro, o grande escritor paraense.

Cândido fazia trinta refeições diárias, a maioria das quais comprada por Lili fora do hotel, para não dar na vista. Mas numa sexta-feira, Lili foi visitar seus pais e na volta ficou preso em um gigantesco engarrafamento, por duas horas, o que atrasou na compra da comida de Cândido. No começo da tarde, cansado de ler seus autores prediletos, de ver televisão e faminto, Cândido resolveu almoçar no Conjunto Nacional.

– Morrerei de tédio, se não morrer antes de fome. Preciso ir ao Conjunto Nacional comer trinta deliciosas feijoadas – disse a seus botões.

Dito e feito. Pegou o sobretudo, as luvas, os óculos escuros e o panamá e pouco depois estava num táxi a caminho do Conjunto Nacional. A praça de alimentação do shopping é muito aprazível, embora, naquele momento, estivesse lotada. Mas nosso herói teve a sorte de encontrar uma mesa ocupada somente por uma pessoa, um velhinho muito atencioso. Reservou uma cadeira e foi se servir. O velhinho assobiou quando viu o prato de Cândido, que sentou seu corpanzil e se pôs a comer. Em pouco tempo havia uma pilha de pratos na mesa e o velhinho, de queixo caído, olhando para Cândido.

Após vinte e nove feijoadas, o cinto de Cândido começou a ficar apertado, as patas começaram a doer e o calor ficou insuportável. E como também Cândido tivesse posto muita pimenta na última feijoada, estava com a boca pegando fogo. Então, esquecido das recomendações de nunca tirar em público o sobretudo, os sapatos, as luvas, os óculos escuros e o panamá, de nunca ejetar as garras e arreganhar a bocarra, livrou-se das roupas quase que num só golpe, além de expelir as poderosas garras e emitir um despropositado rugido de prazer.

Foi o caos. Em alguns segundos a praça de alimentação ficou vazia. Era gente voando para todos os lados. O velhinho que estava à mesa de Cândido nem pegou sua bengala e foi o primeiro a alcançar as escadas. Uma senhora gorducha e de sapatos muito altos chegou às escadas em segundo lugar, e sem deixar cair nada do enorme prato que levou consigo. A gritaria era muito grande, principalmente dos pais das crianças, que teimavam em ver Cândido de perto.

Nesse meio tempo, Lili, preocupado, finalmente saiu do engarrafamento e voou para o hotel. Encontrou um bilhete sobre o criado mudo da cama de Cândido: “Estou esperando o senhor na praça de alimentação do Conjunto Nacional. Cândido”.

Lili saiu novamente a jato e chegou ao Conjunto Nacional pouco antes dos bombeiros. Subiu até o piso da praça de alimentação. Não havia vivalma por ali. Então Lili viu as roupas de Cândido, juntou-as e procurou-o. Acontecera o seguinte: logo depois que o pessoal começou a correr, Cândido foi até uma torneira de Coca-Cola e bebeu três litros de refrigerante, depois, deitou-se no chão e adormeceu. Quando Lili o encontrou, Cândido estava roncando. Lili o sacudiu.

– Ah! Até que enfim o senhor veio para me fazer companhia – disse Cândido.

– Não há tempo para mais nada. Os policiais e bombeiros estão vindo aí para prendê-lo, ou acertá-lo igual os caçadores fizeram com sua mãe. Vista-se rapidamente, não há tempo a perder. Temos de sumir daqui. Vamos!

Cândido era dócil e obediente, e pelo tom de voz de Lili, que não era de perder a serenidade, compreendeu que acontecera algo grave. De modo que quando a polícia e os bombeiros chegaram os dois já haviam deixado o Conjunto Nacional por uma das saídas laterais.

Lili e Cândido voltaram no dia seguinte para o Quênia.

Agora, Cândido demorava-se mais na selva do que em casa. Um dia, disse a Lili que ia lhe apresentar Elza, uma bela gata, digo, leoa, com quem se acasalou e teve muitos gatinhos. Lili, agora, não é mais guia. Casou-se com uma princesa africana chamada Loló e já tem sete candanguinhos da gema, pois os meninos nasceram todos no Hospital Regional da Asa Sul. Lili mudou-se para Pirenópolis, uma cidadezinha goiana no Entorno de Brasília, onde construiu um pesque-pague muito movimentado, que vai de vento em popa. Todos os anos, Lili, Loló e os sete Lilicos vão ao Quênia visitar Cândido, que ficou morando na fazenda de Lili e tem uma prole tão grande quanto à de Lili e Loló. Então batem papo sobre os velhos tempos e morrem de rir da aventura em Brasília.

Simpósio debaterá o cenário atual do atendimento em psico-oncologia

BRASÍLIA, 11 DE NOVEMBRO DE 2017 – A Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia do Distrito Federal (SBPO/DF) realiza, quinta-feira 23, das 18h30 às 22 horas, no Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), o primeiro Simpósio de Psico-Oncologia Aplicada, um encontro técnico-científico com o objetivo de promover o aprimoramento e a troca de experiências entre profissionais que atuam na área de saúde, mestres, doutores e especialistas.

“Vamos analisar o cenário de atuação, práticas e desafios do setor de saúde, com foco na psico-oncologia, envolvendo profissionais, pesquisadores, pacientes e seus familiares” – observa a presidente da SBPO em Brasília, Josiane Souza Moreira, especialista em psico-oncologia pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB) e psicóloga da unidade do Hospital Sírio-Libanês no DF.

O investimento para graduandos é de R$ 30,00 até dia 15 de novembro e de R$ 40,00 de 16 a 23 de novembro. Para profissionais, é de R$ 60,00 até dia 15 de novembro e R$ 80,00 de 16 a 23 de novembro. Estudantes devem enviar comprovante de matrícula. Será emitido certificado.

As inscrições são feitas por meio do preenchimento de formulário no endereço eletrônico: https://goo.gl/PzCbXy – e serão confirmadas após depósito identificado e envio do comprovante para o email: sbpodf@gmail.com. O depósito é feito na seguinte conta:

Banco do Brasil
Agência: 1802-3
Conta: 49707-x
Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia

PROGRAMA
                                                           
18h00 – Credenciamento

18h30 – Abertura
Panorama da Psico-Oncologia e Quem é a SBPO/DF
Esp. pelo HUB – Josiane Souza Moreira (HSL)
Esp. pelo INCA – Gláucia Petto Flores (Inst. Aliança)

19h00 – Fases da vida da pessoa com câncer – Intervenções
Moderadora: Mestranda HUB – Narjara Tamyres Pedrosa Melo (ICDF)
Psico-onco-pediatria: Me. Juliana Fákir Naves (Rede Sarah)
Adulto jovem: Dra. Juciléia Rezende Souza (HUB)
Biopsicossociais em geriatria: Me. Letícia Meda Fangel (UNB)
Discussão: (20 minutos)

20h05 Coffee-Break (25 minutos)

20h30 Intervenções em Psico-oncologia
Moderadora: Me. Isabella Barros Rabelo Gontijo (Cettro)
Dor: Dr. Áderson Costa Júnior (UNB)
Grupo: Dra. Larissa Polejack Brambatti (UNB)
Domiciliar (NRAD): Me. Ana Karina de Farias (SES-DF)
Discussão: (20 minutos)

21h35 – Conferência final
Trabalho em Equipe Oncológica: desafios do psico-oncologista brasileiro – 
Dra. Elizabeth Queiroz (UNB)

22h05 – Encerramento

PALESTRANTES E MODERADORAS

Especialista pelo HUB – Josiane Souza Moreira (HSL)
Especialista pelo INCA – Gláucia Petto Flores (Instituto Aliança)
Me. Juliana Fákir Naves (Rede Sarah)
Dra. Juciléia Rezende Souza (HUB)
Me. Letícia Meda Fangel (UNB)
Dr. Áderson Costa Júnior (UNB)
Dra. Larissa Polejack Brambatti (UNB)
Me. Ana Karina de Farias (SES-DF)
Dra. Elizabeth Queiroz (UNB)
Moderadora: Mestranda HUB – Narjara Tamyres Pedrosa Melo (ICDF)
Moderadora: Me. Isabella Barros Rabelo Gontijo (Cettro)

DIRETORIA DA SBPO/DF

Presidente: Josiane Souza Moreira, psico-oncologista (Hospital Sírio Libanês)
Vice-Presidente: Gláucia Pretto Flores, psico-oncologista (Cettro)
Secretária: Isabela Barros Rabelo Gontijo, psico-oncologista (Cettro)
Tesoureira: Narjara Tamyres Pedrosa Melo, psico-oncologista (Instituto do Coração do Distrito Federal)
Secretária suplente: Tatiana Ribeiro de Oliveira, psico-pncologista (mestranda-UNB)

ASSESSORIA DE IMPRENSA

Ray Cunha – Telefone/WhatsApp (61) 99924-8415
E-mail: raycunha@gmail.com

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Os cachorros são superiores à raça humana? A tempestade paira na Praça dos Três Poderes

BRASÍLIA, 3 DE NOVEMBRO DE 2017 – Acho que todo mundo já ouviu coisas espantosas ao longo da vida; é claro que esse julgamento é relativo às nossas crenças, aos nossos conhecimentos, ao nosso senso crítico, à sabedoria da qual fomos aquinhoados, à ampliação da nossa mente. Mas há disparates, que, independentemente das nossas crenças, nos deixam boquiabertos, porque soam tão irreais que duvidamos que estivéssemos ouvindo aquilo.

Certa vez, na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), eu procurava me refrescar no início de uma dessas tardes delirantes de tão calorentas; estávamos eu, um professor e outro estudante, quando meu colega afirmou, com convicção, que a lua foi posta no espaço pelos Estados Unidos, para que os imperialistas ianques pudessem melhor espionar a Terra.

Fiquei mudo, e meu colega voltou a falar. Falava com certo azedume, o que tornava a tarde ainda mais calorenta: tinha certeza de que George W. Bush filho ordenou o ataque às Torres Gêmeas de Nova York. Minha reação foi de incredulidade, quase de protesto. Somente em um regime totalitário isso seria possível; não nos Estados Unidos. Ante a minha reação, o sujeito me chamou de ingênuo. Engoli isso. Afinal, nunca discuto; entendo que todo mundo tem razão.

Há locais, que, pela sua natureza, são propícios a dispararem mitos, e a ENAc é um desses. Mitos que são desfeitos pelos professores, todos eles caminhantes conscientes do Tao e estudiosos da natureza humana. É que muita gente procura cursos de filosofia, de taoísmo, movimentos como a Seicho-No-Ie, para desfazerem suas próprias ilusões, ou simplesmente desopilarem-se, desobstruírem principalmente os orifícios da mente.

Certa vez, estava eu, novamente em um dia calorento, na ENAc, quando uma colega – que inclusive comprou meu livro de contos TRÓPICO ÚMIDO, e o detestou, porque achou-o violento demais – quebrou o silêncio do calor, de repente.

– Os cachorros são uma raça superior à humana! – exclamou, como se acabasse de acordar.

Também dessa vez fiquei mudo. Apenas minha expressão revelou espanto. Pensei um pouco. Certamente ela teria as razões dela para dizer aquilo. Quanto a mim, o prédio onde moro, no Guará I, lembra um canil. Antes do Guará I, morei no Cruzeiro Novo. Como em todos os endereços para onde me mudei, crio uma trilha para caminhadas. No Cruzeiro Novo, costumava cruzar com pessoas levando cães para passear. Aí, eu já observava como os cães se parecem com os donos.

Durante bastante tempo, prestei assessoria de imprensa na Câmara dos Deputados. A Câmara é uma fogueira das vaidades, em plena ilha da fantasia. Se Brasília é a ilha da fantasia, a Praça dos Três Poderes é o prédio principal da ilha. Também a Câmara é um inacreditável cabide de empregos, assim como agência de emprego. Boa parte dos cargos, necessários ou não, especialmente com altos salários, na paquidérmica máquina pública, é preenchida por afilhados de políticos.

Pois bem, conheci uma loira, dessas que passam boa parte da vida no salão de beleza, ou em clínicas de embelezamento, que fazia, diariamente, um relatório público sobre sua cadela. A última é que a cadelinha vinha dando chilique e fora encaminhada ao psicólogo, tal qual a dona.

No Cruzeiro Novo, cruzei certa vez com uma senhora conduzindo cinco cães. Um deles, que vim saber que se tratava de cadela, agachou-se para defecar. A senhora me olhou com olhar de mãe que assiste seu bebê se espremendo e ralhou com a cadelinha, chamando-a por um nome de mulher, e foi-se embora, deixando o cagalhão na grama.

No Guará, o negócio é bruto. Depois que me mudei é que me dei conta de que no outro lado da rua havia um hotel de cachorros. Descobri isso logo no dia seguinte, pois às 6 horas os cães fazem um alarido que vai longe. Aliás, fazem isso várias vezes por dia. O das 6, fazem-no independentemente se é o famigerado horário de verão; parece até que sabem o que é isso.

Durante algum tempo fiquei matutando por que os vizinhos mais antigos não entraram ainda na Justiça contra o hotel enfiado em plena zona residencial, até que um dia, pensativo, à janela, matei a charada. Cada vizinho tem tantos cães, ou mais, do que seres humanos nas casas ou apartamentos.

No meu bloco, a cachorrada impera. Como profissional liberal faço o meu próprio horário de trabalho; às vezes, em horários em que as pessoas estão batendo ponto, estou lendo no sofá de casa, e ouço a vizinha.

– Maria Cláudia, entra! Entra, Maria Cláudia! Maria Cláudia, entra! – assim por diante. A princípio, pensei que fosse uma garotinha sapeca, mas descobri que Maria Cláudia é uma cadelinha.

É comum, nas minhas caminhadas até o Guará II – brinco com minha esposa dizendo que caminho até o Guará III, que não existe –, encontrar reuniões de donos de cachorros, enquanto seus rebentos brincam, soltos, nas praças. Há muitas praças no Guará, e todas elas se parecem com as calçadas de Brasília: lembram cenários bombardeados. O impressionante é que os condutores de pit bull são a cara do bicho, e as velhotas conduzindo cadelinhas pequinesas são a cara de uma, o focinho da outra.

Tenho ouvido muitas pessoas, principalmente mães, comentando que gostam de animais porque os seres humanos são, segundo elas, muito complicados; que é mais negócio criar cachorro do que criança. De certa forma, entendo o porquê disso.

Certa vez, fiz uma reportagem para o extinto jornal diário BSB-Brasil – do saudoso jornalista Oliveira Bastos, e comandado pelo meu irmãozinho Walmir Botelho, que certamente se encontra em um orbe superior, pelo excelente ser humano que ele foi aqui na Terra. Era uma reportagem sobre os principais usuários de postos de saúde. Ouvi ene coordenadores de postos e descobri que o primeiro lugar entre os queixosos são donas de casa.

O fato é que elas vão aos postos de saúde apenas para serem ouvidas. Muitas, sequer recebem o olhar do marido, e até apanham. No posto, são ouvidas por alguém importante, interessante mesmo: o médico. E saem de lá um pouco mais confiantes, com mais amor próprio, até se depararem novamente com seu carrasco.

Acho que no relacionamento com o cachorro as mulheres se tornam mais confiantes também. E a senhora que teceu o comentário sobre a superioridade canina à raça humana era divorciada, e parece-me que viveu seu inferno pessoal. O fato é que os cachorros são obedientes, e alguns só faltam falar. Tudo o que querem é sua ração e um pouco de atenção, especialmente na praça, onde demarcam cada ponto e deixam cocô também.

Isso me faz lembrar que os petistas, comunistas em geral, urinam e defecam em público como protesto. Colocam também um marmanjo nu numa arena para seu mastro ser apreciado e tocado por crianças e as mães dessas crianças, e afirmam que isso é arte. Todos já sabem que a elite comunista destrói a família e o estado, e tornam as pessoas zumbis, para criar a ditadura totalitária.

Voltando a outro tipo de cão, há países, como a China e a Coreia, por exemplo, onde cachorro é prato apreciado como feijoada no Brasil; em outros, como a Índia, são sagrados, e formam alcateias de rua. No Guará, já vi cães perseguirem ciclistas. Falar nisso, o índice de mortalidade de ciclistas em Brasília é grande. No DF não existem ciclovias. Governadores de plantão construíram umas calçadas, que chamam de ciclovias, tão vagabundas quanto o asfalto de Brasília. Assim, os ciclistas teimam em disputar com os automóveis as rodovias que cortam a cidade, e acabam se fumando sob os bólidos.

Às vezes, nas minhas caminhadas, deparo com matilhas, ou alcateias, de cães esgotados, de olho numa cadela, mais esgotada ainda. Isso me faz lembrar outra coisa. Os estupros não cessam; inclusive ataques a crianças. É que nós, homens, produzimos muita testosterona, e há casos de produção anormal, o que torna o marmanjo um psicopata em potencial. Daí para o estupro é um passo.

Adoro ver mulheres lindas e sensuais, mas as mulheres, como os homossexuais, devem selecionar os locais onde se exibem, pois a sensualidade, ou a escolha sexual, potencializa a irracionalidade dos psicopatas, embora eles sejam frios e meticulosos. E um alerta a certas mães: não despertem Eros, cedo demais, nas suas crianças, pois isso enlouquece pedófilos.

Ainda sobre cachorros, hoje, o hotel está quieto. Serão as nuvens baixas, o céu de chumbo, que paira sobre Brasília? Será algum outro plano diabólico esquematizado de madrugada na Praça dos Três Poderes? Os cães, como os animais em geral, pressentem o mundo espiritual, especialmente o dos espíritos baixos, que os deixam agitados, inquietos, e, às vezes, anormalmente quietos, com aquela quietude nervosa que antecede a tempestade.

A população de cachorro aumenta cada vez mais, porém os cães realmente perigosos estão alojados na Praça dos Três Poderes, principalmente no Congresso Nacional. O mundo da Luz já alijou Lula Rousseff, responsável pela crise que os brasileiros estão sofrendo; e olha que ele só era um aborto de ditador. Mas para cumprir seu objetivo a tempestade vem aí.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O golpe de Bruce Lee

RAY CUNHA

Certo dia dos anos de 1960, o jornalista e escritor Joy Hyams almoçava com Bruce Lee num restaurante chinês no centro de Los Angeles. Não era sempre que Hyams tinha esse privilégio, de modo que aproveitou a oportunidade para queixar-se a Bruce, confessando-lhe que andava desanimado, sentindo-se velho, embora só tivesse 45 anos. Achava-se rígido demais para o Jeet Kune Do, arte marcial criada por Bruce.

– Você jamais aprenderá nada de novo se não estiver disposto a aceitar-se com suas limitações – disse-lhe Bruce. – Você precisa aceitar o fato de que é capaz em algumas coisas e limitado em outras, e que precisa desenvolver suas aptidões.

Hyams retrucou que aos 35 anos podia facilmente aplicar um golpe de pé acima de sua cabeça. Bruce fez uma pausa na mastigação e olhou para Hyams.

– Isso foi há dez anos – disse. – Agora você está mais velho e seu corpo mudou. Todos têm limitações físicas a vencer.

Hyams continuou argumentando, comparando-se a Bruce.

– Isso é fácil para você dizer. Se alguma vez alguém nasceu com habilidade natural para as artes marciais, esse alguém é você.

– Vou lhe contar algo que pouca gente sabe: tornei-me um praticante de arte marcial apesar das minhas limitações – confidenciou-lhe Bruce, com um sorriso.

– Por certo você não se deu conta, mas minha perna direita é quase 2,5 mais curta que a esquerda. Isso determinou minha melhor postura: o comando do pé esquerdo. Percebi, então, que, devido à perna direita ser menor, eu levava vantagem em certos golpes de pé, pois a pisada desigual deva-me um impulso maior. Além disso, uso lentes de contato. Desde criança sou míope, o que significa que, quando estava sem óculos, tinha dificuldade em ver meu adversário à distância. No início, voltei-me para o estudo de wing chun, que é uma técnica ideal para a luta corpo-a-corpo. Aceitei minhas limitações como elas eram e tirei proveito delas. É isso que você precisa aprender. Você diz que é incapaz de dar golpes de pé acima da cabeça antes de longo aquecimento, mas o problema efetivo é: importa realmente dar golpes dessa altura? A verdade é que, até recentemente, os praticantes de artes marciais raramente davam golpes de pé acima dos joelhos. Esses golpes à altura da cabeça são em sua maioria para exibição. Por isso, aperfeiçoe seus golpes de pé no nível da cintura e eles se tornarão tão formidáveis que você nunca precisará de golpes mais altos. Em vez de tentar fazer tudo bem, faça com perfeição apenas as coisas que pode. Embora a maioria dos praticantes de artes marciais competentes tenha gasto anos dominando centenas de técnicas e movimentos, num ataque, ou kumite, um campeão não usa efetivamente mais do que quatro ou cinco técnicas, sempre. São essas técnicas que ele aperfeiçoou e das quais sabe que depende.

Hyams protestou.

– Mas permanece o fato de que o meu verdadeiro adversário é a idade.

– Pare de se comparar, aos 45 anos, com o homem que você era aos 20 ou 30 – disse Bruce. – O passado é uma ilusão. Você precisa aprender a viver no presente, aceitando-se como você é agora. O que lhe falta em flexibilidade e agilidade cabe-lhe suprir com conhecimentos e exercício permanente.

Depois dessa conversa, Hyams não perdeu mais tempo tentando golpear com os pés acima da cabeça; em vez disso, trabalhou golpes à altura da cintura, até agradarem ao próprio Bruce.

Em fins de 1965, Bruce foi até a casa de Hyams, despedir-se, pois partiria para Hong Kong, onde pretendia se tornar um astro do cinema.

– Lembra-se da nossa conversa sobre limitações. Pois bem, estou limitado pelo meu tamanho e dificuldades no inglês, além de ser chinês e nunca ter havido um grande astro chinês nos filmes americanos. Gastei os últimos três anos estudando cinema e creio que chegou a hora para um bom filme de artes marciais, e eu sou o mais qualificado para estrelá-lo. Minhas aptidões superaram minhas limitações.

“As aptidões de Bruce superaram efetivamente suas limitações, e, até sua morte prematura, ele foi um dos maiores astros do cinema. Sua carreira foi um exemplo perfeito do seu ensino: na medida em que descobrimos e desenvolvemos nossos pontos fortes, eles se impõem às nossas fraquezas” – conclui Hyams, no seu livro O Zen nas Artes Marciais (Editora Pensamento, São Paulo, 1979, 143 páginas), presente do meu amigo Erwin Von-Rommel Vianna Pamplona, autografado por ele em 26 de janeiro de 1997, pouco antes de eu retornar para Brasília, após dois anos trabalhando novamente como repórter em O Liberal, de Belém do Pará.

Entre os meus professores de Medicina Tradicional Chinesa (MTC) na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), todos extraordinários, Marcos Quintella é ouvido e procurado até pelos seus colegas de cátedra. Ele domina um modo único de pegar as agulhas durante uma sessão: todas as 10 de um pacotinho, colocando-as entre os dedos anelar e mindinho, e aplicando-as em questão de segundos. Tentei imitá-lo na minha primeira tentativa, tendo como paciente minha esposa. Uma semana depois ainda encontrava agulhas no chão da sala de casa. Desisti de imitar o professor Quintella. Ele também introduz as agulhas numa batida seca, com a ponta do dedo médio, que apoia na unha do indicador, soltando-o como um martelo, bam!, introduzindo a agulha, por meio do mandril, em milésimos de segundo. Isso eu tentei, gostei, e é o que muitas vezes faço.

A Medicina Tradicional Chinesa, que se baseia no Tao – o equilíbrio entre yin e yang, o fluir da vida –, conta com know-how de mais de 5 mil anos. Holística, trata o paciente como um todo, e considera a dimensão da matéria tão somente energia, como, aliás, confirmou o físico alemão Albert Einstein. Só as possibilidades com as agulhas já são ilimitadas, quando mais se considerarmos outros pilares da MTC, como alimentação correta, fitoterapia, massagem chinesa (Tui Na), Tai Chi Chuan (meditação em ação) e um mundo de conhecimentos terapêuticos da filosofia oriental – que é também religião.

Assim, o acupunturista terá inesgotável manancial de possibilidades para tratar o paciente. E da mesma forma como pensava Bruce Lee, o terapeuta não deve perder tempo com algo que o Tao está a lhe dizer que não é importante; precisa somente concentrar-se naquilo em que mais sente fluir seu talento, mesmo que seja apenas sorrir.

Fogo no coração

RAY CUNHA

Como deve o acupunturista proceder nos casos das paixões avassaladoras?
Haverá agulha tão comprida, e fina, que atinja a alma?
Ou prescindiriam, os danados, de cura?
Pois os pacientes desse mal, ou bênção, sobrevivem nas trevas e na luz
São cinza e asas
E seus corações atingem a velocidade dos despenhadeiros
Do mergulho no maremoto
Do olho do furacão
Do desespero
Não será tamanho sentimento, em si mesmo, o triunfo?
Voo concedido a poucos?
Eterno porque agora?
Creio que descobri um mal – ou bênção?
Que a acupuntura não sana
Pois como apagar a luz com luz
Como ouvir o som da Terra no espaço
Se o coração não se inflama?