domingo, 8 de abril de 2018

Prisão de Lula Rousseff marca fim virtual do PT



RAY CUNHA

BRASÍLIA, 8 DE ABRIL DE 2018 – Depois de resistir durante 25 horas e 47 minutos, o ex-presidente Lula Rousseff saiu a pé, ontem, da sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), onde estava homiziado, caminhou até um prédio vizinho, onde a equipe da Polícia Federal o aguardava, e se entregou; eram 18h47. Condenado a 12 anos e 1 mês de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, em regime fechado, Lula Rousseff foi conduzido para a carceragem da PF em Curitiba (PR), condenado pelo juiz Sérgio Moro, que dera a oportunidade para o capo di tutti capi se entregar às 17 horas de sexta-feira. Em vez de aproveitar a oportunidade, o zumbi se escondeu no sindicato. Como visse que quanto mais tempo passasse sua situação ficaria pior, resolveu acatar a lei.

Antes de se entregar, Lula Rousseff fez um discurso para sua militância atacando a imprensa, a Lava Jato, o Ministério Público e o Supremo, e sugeriu aos militantes que promovam arruaças e depredações no país todo. Nem o rastro de desgraças que Lula Rousseff deixou no país em 13 anos do PT no poder diminuiu o entusiasmo dos lulistas; ele lidera as pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República na eleição de outubro, embora tenha sido travado pela Lei da Ficha Limpa. Lula Rousseff não poderá concorrer à Presidência este ano, e ainda é alvo em outros seis processos no âmbito da Lava Jato.

Como a Justiça brasileira é um saco de gatos, Lula Rousseff pode ganhar a liberdade, mas já é zumbi, morto-vivo, e a inteligência das Forças Armadas e da Polícia Federal, além do Ministério Público, estão de olho nele. A propósito, o virtual advogado do PT, ministro Dias Toffoli, assumirá a presidência do STF em setembro. Só então saberemos a intensidade do fedor.

Na década de 1990, Lula Rousseff criou o Foro de São Paulo, reunindo ditadores, candidatos a ditador, comunistas em geral e narcotraficantes da Ibero-América, com o objetivo de fazer da região uma nova União Soviética. Em 2003, assumiu a Presidência da República e imediatamente começou a aparelhar o Estado, a desacreditar as Forças Armadas, e ideologizar o ensino público, a dar asas para a bandidagem em geral e a saquear a Petrobras e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Em 2010, elegeu “presidenta” sua marionete amestrada, Dilma da Silva, que de tão obtusa implodiu exatamente o PT, cometendo todo ripo de loucura no Palácio do Planalto, de onde foi expulsa pelo Congresso Nacional. Agora, quem foi apeado foi o próprio aborto de ditador, deixando petistas, bolivarianos, comunistas em geral e todo tipo de esquerdistas viúvos.

Ontem, foi um dia histórico, graças ao herói nacional Sérgio Moro. Agora, Lula Rousseff pode ser solto e continuar rosnando, ou rindo, já que sua natureza está mais para hiena, mas o mago negro já é zumbi.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Mago negro Lula Rousseff está encurralado

Lula Rousseff (o diabo da direita) e a marionete
amestrada Dilma da Silva: espíritos obsessores

RAY CUNHA

BRASÍLIA, 5 DE ABRIL DE 2018 – O capo di tutti capi Lula Rousseff está encurralado, na dupla expressão do termo: sua possibilidade de fuga é cada vez mais remota e seu traseiro foi ralado pela mandioca de Dilma da Silva, a lunática que implodiu o PT, a máfia criada por Lula. O Supremo Tribunal Federal (STF) negou, na madrugada de hoje, por 6 votos a 5, habeas corpus à jararaca, como Lula se autodenomina. Mais para hiena do que para cobra, Lula escorrega para a jaula. O maior escroque do planeta foi pego por um juiz de primeira instância, Sérgio Moro, e condenado na segunda instância a 12 anos e 1 mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Essa é apenas a primeira de uma série de condenações.

Virtuais advogados de Lula, os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Celso de Mello votaram pela concessão do habeas corpus a Lula. Mas os ministros Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Rosa Weber puseram fim à carreira do mago negro. Mesmo que Lula não seja preso, sua carreira criminosa será interrompida, pois 70% da população brasileira não quer vê-lo nem pintado.

Em julho de 1990, no extinto Hotel Danúbio, em São Paulo, Lula e a corja que o cercava (muitos deles atualmente passando férias na cadeia) criaram o Foro de São Paulo, uma organização comunista com a missão de derrubar as democracias da Ibero-América e criar ditaduras em todo o continente, contando, para isso, com narcotraficantes e grupos terroristas.

Em 2003, Lula tomou posse como presidente da República e começou imediatamente a aparelhar o Estado, especialmente o Congresso Nacional e o Supremo; a desmantelar o setor educacional; a desacreditar as Forças Armadas; a saquear a burra, principalmente a Petrobras e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); e a doar dinheiro para ditadores mundo afora, certamente pegando a parte dele.

Em 2010, como não podia reeleger-se pela terceira vez, elegeu uma marionete, Dilma da Silva, para poder voltar em 2014. Só que Dilma era menos retardada do que Lula supunha, e reivindicou mais um mandato, reelegendo-se por meio de urnas eletrônicas; o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), à época, era o famigerado Dias Toffoli. Mas ela fez tanta besteira que acabou sendo chutada da Presidência, tirando, assim, o PT do Palácio do Planalto.

Lula é traidor da Pátria. Nos 13 anos da permanência do PT na Presidência calcula-se que o país tenha perdido cerca de 13 trilhões de reais por falta de investimentos e desvio de verbas públicas. Quando Dilma foi defenestrada do Planalto, o país já estava em recessão, e caminhava para uma Venezuela, onde o povo, sufocado sob a ditadura de Hugo Chávez Maduro, está comendo lixo, quando há.

A propósito da expressão “mago negro”, utilizada no título, magos negros são espíritos obsessores, que encarnam para promover miséria, crimes de toda ordem, devassidão, desavenças e matança. Só que o mundo espiritual intervém, enviando espíritos de luz, como Sérgio Moro.

sábado, 31 de março de 2018

Olivar Cunha: gênio do Amapá, na Amazônia caribenha, completa 50 anos de artes plásticas

Macapá, 1985: Klingerly, Márcio André, Linda, Marina
(mãe do gênio), o gênio Olivar Cunha e Mel

RAY CUNHA


Tuiuiú Crucidicado
BRASÍLIA, 31 DE MARÇO DE 2018 – Em 31 de março de 1952, João Raimundo Cunha plantava uma seringueira no quintal da sua casa, na esquina das ruas Iracema Carvão Nunes e Eliezer Levy, onde é hoje o Colégio Amapaense, em Macapá; anos depois, a seringueira ficou no caminho do muro do colégio, mas foi poupada, com o desvio do muro. Também naquele ano nascia mais um varão na família Cunha, Olivar, chamado carinhosamente pelas suas filhas, Tatiana e Taiana, de Lili. Lili completa, hoje, 65 anos de idade, e 50 como artista plástico.

A seringueira é a mesma que aparece na capa da edição da Amazon.com do meu romance A CASA AMARELA, uma recriação da casa onde o gênio nasceu. Olivar Cunha também aparece em outro romance meu, HIENA, que pode ser adquirido na Amazon.com.br e no Clube de Autores. A CASA AMARELA foi publicado ainda no Clube de Autores

Olivar Cunha e favela amazônica
Ele tinha 15 anos, em 1967, quando expôs pela primeira vez, em Macapá. É fácil encontrar a antiga aldeia dos índios tucujus no mapa: fica no cruzamento da Linha Imaginária do Equador com o maior rio do planeta, o Amazonas. A cidade se debruça na margem esquerda do estuário do colosso, a cerca de 250 quilômetros do Atlântico, no setentrião brasileiro, a Amazônia caribenha. Naquela época, eu tinha 13 anos, e já era fã do grande artista. Hoje, são 30 exposições individuais e 35 coletivas, realizadas em diversas cidades do país.

Início dos anos 90: Lili, eu e Josiane, em Brasília
Em 1967, frequentávamos a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, próximo ao Macapá Hotel: R. Peixe; o poeta e cronista Alcy Araújo; Olivar Cunha; o poeta Rodrigues de Souza, o Galego; o pintor e poeta Manoel Bispo; o poeta e contista Joy Edson; o compositor, poeta e contista Fernando Canto; a poeta Alcinéa Cavalcante...

Auto-retrato do gênio
Nas décadas de 1970/1980, o artista mudou-se para Belém do Pará, quando produziu algumas dezenas de telas que o colocam como um dos mais importantes artistas plásticos contemporâneos: seus mendigos do Guamá, subúrbio da Cidade das Mangueiras, são tão chocantes quanto a colonização do Inferno Verde.

Depois de morar no Rio de Janeiro, onde estudou no Parque Lage, nos anos de 1990, consolidou sua posição como um dos grandes expressionistas contemporâneos com a série de animais agonizando no esgoto das grandes cidades, como na impressionante acrílica sobre tela Tuiuiú Crucificado, sobre o esgoto em que se transformou a baía de Guanabara.

O Tuiuiú Crucificado é, talvez, o berro mais fovista, o grito mais expressionista de Olivar Cunha. Ele a pintou em três meses, em 1992, em Jacareípe/ES. Trata-se de uma acrílica sobre tela, em espátula e pincel, de 120 cm por 100 cm. Pertence à fase que o pintor chama de Habitat Transform, desenvolvida no Rio de Janeiro e em Jacareípe/ES, após pesquisa sobre a devastação da flora e da fauna do Pará, do Amapá e do Pantanal.

Guamá, Belém do Pará, anos 70
A Amazônia é recriada na espátula do pintor à base de espilantol, o princípio ativo do jambu, indicador de que o gênio pinta, na verdade, a alma das suas criaturas, sejam elas pessoas ou paisagens. Assim, as telas de Olivar Cunha gritam como o coração das trevas, mas também pulsam no rio da tarde, prenhes do perfume dos jasmineiros noturnos. O artista dá à luz a Amazônia eternamente viva, a Hileia que só os caboclos entendem – os apreciadores de merengue, de mapará assado na brasa servido com pirão de açaí, os que se emocionam com o trotar da mulher amazônida no calor equatorial, o mergulho no rio que deságua na tarde, os segredos que se encerram em Macapá, Belém, Mosqueiro, Salinas, Caiena...

O grande artista vive hoje no paradisíaco Jacaraípe, distrito atlântico do município de Serra, na grande Vitória/ES, onde se consolida também como restaurador, recuperando obras sacras de igrejas da região. A trajetória artística de Olivar Cunha é a comprovação da sua genialidade. Vida longa ao gênio!

sábado, 10 de março de 2018

Em quem votar para governador do Amapá?

Macapá, na esquina da Linha Imaginária do Equador
com o maior rio do mundo, o Amazonas, flutua nos
100% de umidade relativa do ar, o sol abrasador
e temporais (Foto: Caio Gato/2014)

BRASÍLIA, 10 DE MARÇO DE 2018 - Os amapaenses encabrestados por Jegue Sarney sempre souberam em quem votar para os cargos de governador a deputado estadual, mas os amapaenses patriotas vivem sem opção até hoje, ano de eleições. Os governadores que se sucedem em Macapá entram e saem como se não houvessem existido, deixando, às vezes, pegadas de lama na Polícia Federal. Não fazem diferença, pois os amapaenses continuam vivendo como tucujus de sempre.

Senão vejamos: A BR-156, que liga Macapá à Caiene, na Guiana Francesa, vem sendo construída desde a fundação do Território Federal do Amapá, em 1943, e jamais foi totalmente pavimentada. Há trechos onde, no inverno amazônico, nem o diabo consegue avançar. É um ralo do dinheiro público, e nenhum governador conseguiu inaugurá-la. Incompetência junto ao governo federal? Falta de contrapartida? Desvio de rubrica?

O estratégico Porto de Santana, que liga a Amazônia profunda aos mercados dos Estados Unidos, Europa e Ásia (via Canal do Panamá), em vez de ser encampado pelo governo federal, ou mesmo pelo governo estadual, virou porto do município de Santana. Conclusão: está entregue às traças.

A Indústria e Comércio de Minérios de Ferro e Manganês (Icomi) transportou a melhor jazida de manganês do mundo, de Serra do Navio, e a estocou nos Estados Unidos, enricando meia dúzia de pessoas e deixando um buraco medonho no Amapá.

As costas atlânticas do Amapá, onde o rio Amazonas e outros titãs despejam húmus, são as mais piscosas do planeta e as mais mal guardadas pela Marinha de Guerra. Conclusão: piratas de todo o globo vão para lá pegar uma fábula de peixes e frutos do mar.

A Universidade Federal do Amapá (Unifap) não oferece cursos de engenharia naval, engenharia de pesca, biotecnologia, nem de oceanografia.

O Amapá não é autossustentável em energia elétrica firme e precisa de investimentos nessa área. Como em todo o território nacional, poderia ser autossuficiente em energia solar e eólica.

Macapá, que tem 474 mil habitantes e sua zona metropolitana, 560 mil, está assentado numa gigantesca fossa, pois somente 3% da cidade contam com esgotamento sanitário. Apesar de localizar-se na margem do estuário do maior rio do mundo, às vezes o que cai das torneiras da cidade é lama.

O Aeroporto Internacional de Macapá está em obras desde que Jegue Sarney pulou (pulou mesmo) de paraquedas na aldeia tucuju. Falar em Jegue, a tal da zona franca que ele apadrinhou é um fracasso, tem muita quinquilharia da China e do Paraguai, bem como da Guiana Francesa.

Falar em franceses, a ponte sobre o rio Oiapoque, que liga a BR-156 à estrada deles, a qual, por sua vez, está ligada às Américas Central e do Norte, está pronta para receber os amapaenses.

Mas o maior drama dos amapaenses é o mesmo de todos os amazônidas: a cultura de colonizados que perpassa a vida da cabocada, da indiarada, e as famigeradas classes política e empresarial escravocratas, que agem como enxame de gafanhotos, com fome petista, bolivariana, comunista, e a imoralidade de Lula Rousseff e sua marionete amestrada (sic), Dilma da Silva.

Mas em quem votar para governador do Amapá? Em Jegue Sarney ou preposto? Em Capi e família? Em Lula Rousseff? Em Dilma da Silva?

Romance A CASA AMARELA resgata o Golpe Militar de 1964 na Amazônia Caribenha


Ray Cunha tinha 10 anos em 1964 (Foto: Rodrigo Cabral/2012)

MARCELO LARROYED
Mestre em Teoria Literária pela UnB

Edição da Amazon.com
BRASÍLIA, 10 DE MARÇO DE 2018O Golpe Militar de 31 de março de 1964 foi trágico para a família Picanço Cardoso, na remota cidade ribeirinha de São José de Macapá, a capital do então Território Federal do Amapá, na Amazônia caribenha. Pelo menos no romance A CASA AMARELA, de Ray Cunha. Lançado pela Editora Cejup, de Belém do Pará, em 2004, o livro volta a ser publicado, agora pela Amazom.com e pelo Clube de Autores. Macapá é fácil de ser encontrada no mapa. Seccionada pela Linha Imaginária do Equador, afoga-se na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, o Canal do Norte, quando o maior rio do mundo lança no Atlântico 180 mil metros cúbicos de água por segundo, 16% da água doce despejada nos oceanos do planeta; em maio, sobe para 260 mil metros cúbicos por segundo, e, em novembro, cai para 100 mil metros cúbicos por segundo. Em A CASA AMARELA, a cidade é sitiada pelo sol de rachar, pela selva e pelas trevas que desceram sobre o país nos anos de chumbo.

Edição do Clube de Autores
O grande ícone da antiga aldeia dos tucujus é a Fortaleza de São José de Macapá, que mereceu dois ensaios do escritor amapaense Fernando Canto, um de mestrado e outro de doutorado. Sinistra, símbolo do domínio totalitário e ensandecido que os ibéricos impuseram aos índios, a Fortaleza foi planejada pela coroa portuguesa para defender o setentrião da ameaça de ataques de franceses e holandeses, erguida do sangue de milhares de escravos africanos, ascendentes de inúmeras famílias espalhadas principalmente na região do rio Pedreira, origem das pedras utilizadas na construção do forte; no subúrbio do Curiaú; e no bairro do Laguinho. Em A CASA AMARELA, é na Fortaleza que tem início o fio da meada do livro mais denso de Ray Cunha.

O Golpe de 1964 não alterou a vida da maioria dos moradores de Macapá, vindos de uma cultura de colonizados. Quando o golpe foi deflagrado, os amapaenses já haviam saído das mãos da coroa portuguesa e do governo do Pará, até cair nas garras de Brasília. Hoje, com a conivência dos políticos amazônidas, o governo federal faz o que bem entende com a Amazônia, da qual retira principalmente energia elétrica, minérios, toras de madeira e pescados, deixando lá um buraco cada vez maior.

E enquanto a iniciativa privada explora os caboclos, descendentes dos índios, por meio de trabalho-escravo, traficantes sequestram mulheres e crianças para escravidão sexual, e contrabandeiam animais, plantas, drogas e armas, e piratas varrem o litoral amapaense, a região mais piscosa do planeta, devido às águas do Amazonas e outros gigantes despejarem húmus no Atlântico. Se na Amazônia atlântica há cerca de 1.300 espécies de peixes e frutos do mar, na bacia amazônica há em torno de 2.600 espécies de pescados.

A trama de A CASA AMARELA tem início nos primeiros dias do Golpe Militar de 1964, quando a Fortaleza de São José de Macapá é palco da tragédia que fornece o argumento do romance: a tortura e morte do jovem estudante Alexandre Cardoso, presidente do Grêmio Literário Rui Barbosa, do Colégio Amapaense, acusado de difundir o comunismo. Os Picanço Cardoso vivem na Casa Amarela, em torno da qual há um jardim prenhe de rosas e zínias, e onde predominam uma seringueira, uma mangueira e um cajueiro, cercados pelo muro do Colégio Amapaense. A casa e as árvores têm sentimentos humanos e o Quartinho é frequentado também por mortos, como Ernest Hemingway, ou Antoine de Saint-Exupéry.

Os bailes reunindo a juventude dourada macapaense, no clube conhecido como Piscina Territorial, a bela esposa infiel de um milionário, lutas de boxe, o aterrorizante Velho Rocha, o apolínio Alexandre Cardoso pai e o trágico Alexandre filho, o prostíbulo Suerda, o campeão onanista Pentelho de Vaca, o Colégio Amapaense, são personagens que compõem uma espécie de concerto em três movimentos. O livro é dividido em três partes: a mesma história se desenrola sob o ponto de vista de Alexandre Cardoso filho; da irmã dele, a estonteante Linda; e pelo seu irmão caçula, João, que se transforma em editor internacional do Jornal do Brasil e dá o desfecho à história.

UOL ESCOLHE A CASA AMARELA PARA REPRESENTAR O AMAPÁ – “Para quem acredita na máxima de que os livros nos fazem viajar, nada como aproveitar a literatura para conhecer o país. O UOL selecionou 27 livros que mostram características locais dos diferentes Estados brasileiros e do Distrito Federal” – recomenda o site UOL, citando A CASA AMARELA como o livro de ficção que melhor retrata o Amapá.

RAY CUNHA nasceu em Macapá, em 7 de agosto de 1954. Aos 17 anos, publica seu primeiro livro, XARDA MISTURADA, juntamente com os poetas José Edson dos Santos e José Montoril. Aos 21 anos, começa a carreira de jornalista, em Manaus. A partir daí, trabalha em vários jornais da Amazônia, viajando amplamente pela região. Atualmente, o autor vive em Brasília, onde, além do ofício de escritor, continua trabalhando como jornalista e também como terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, formado pela Escola Nacional de Acupuntura (ENAc).

TRECHO DE A CASA AMARELA

Todos conheciam Paul Lerouge em Macapá. Alguns diziam que ele matara um homem na França e se refugiara naquele fim de mundo. Outros comentavam que desertara da Legião Estrangeira. Havia quem jurasse que se tratava de um traficante. O fato é que os militares estavam convencidos de que Paul Lerouge seria agente de Fidel Castro, e tinham prova disso. Paul Lerouge era astrônomo amador e isso foi sua perdição. Assim que o Golpe Militar de 64 chegou a Macapá, a inteligência do Exército prendeu imediatamente todos os subversivos da cidade. O que era ser subversivo? O máximo de explicação que davam era um tabefe na cara. Paul Lerouge lecionava francês de dia. Ia à casa dos seus alunos na sua velha bicicleta, sobre a qual andava meio curvado, exibindo uma corcova promissora. À noite, observava os astros. Foi assim que o flagraram na sua solidão. Estava perscrutando os abismos do Universo quando sentiu uma espetada no cangote. Não havia dúvida, tratava-se de um tenente verde-oliva com um lindo revólver na mão.
            – O senhor está se comunicando com Fidel Castro. Tragam esse aparelho e o velho. Vamos descobrir o código secreto que ele usa.
            – Isto é um telescópio, senhor oficial. Estava tentando ver Marte.
            – Faz sentido. Marte é o planeta vermelho e o seu sobrenome significa vermelho – disse o tenente.
            Os presos estavam todos atentos, ouvindo o relato do francês.
            – Levaram-me para o quartel e um major presidiu o interrogatório. Queriam saber quando e onde Fidel Castro e Che Guevara invadiriam o Amapá e quem estaria envolvido nisso. Eu não sabia de nada. Ele perdeu a paciência. Choveu pancada sobre mim e depois me trouxeram para cá.
            – Sei quem é o major. É um gaúcho. Tive mais sorte. Fui interrogado por um capitão carioca. Capitão Lins. A acusação é de que estava lendo A Mãe, de Máximo Górki. Percebi que o capitão já havia lido o livro e acabamos batendo papo sobre Górki, Dostoiévski, Tolstoi... ele já leu tudo dos russos – disse Isnard Isnard.
            – Comigo não teve nada tão romântico – disse Fernando Padeiro. – Simplesmente os nazistas invadiram minha padaria com a acusação de que o pão estava envenenado. Gritei: – Viva Stalin! Aí um tenentezinho atirou na minha perna.
            – Quem manda ser burro! – disse Montoril. – Eu teria dado viva a Hitler.
            – Qual foi a tua acusação? – perguntaram a Binga, um jornalista declaradamente marxista.
            – Vocês sabem. Foi por causa daquele manifesto anarquista que eu publiquei na Voz Católica e que quase mata de raiva o padre Busato. Declarei a independência dos Municípios Unidos do Amapá e fundei a República do Manganês. O Janary Gentil Nunes e o Augusto Antunes seriam enforcados em praça pública.
            – Vamos apodrecer aqui – disse Paul Lerouge.
            – Quem falou que vamos ficar aqui? Vão nos mandar para Belém, onde nos espera uma verdadeira Inquisição. Preparem os colhões. Vão querer arrancá-los – disse Montoril.
            – Mas não fizemos nada! Quem não deve não teme! – disse Três Pernas.
            – Eles não querem saber. Vão procurar todo tipo de besta para arrancar os bagos – disse Isnard Isnard.
            – Temos de estar articulados para não nos contradizermos nos interrogatórios – interveio Montoril.
            – Articulados um caralho. Não tenho nada com isso – disse Três Pernas.
            – Pois vão levar tua perna do meio – disse Montoril. Todos riram, exceto o francês, que parecia deveras preocupado.
            – E por que diabo te puseram aqui? – Fernando Padeiro perguntou a Três Pernas.
            – O olhudo do diretor do Colégio Amapaense me perguntou se sou comunista. Disse a ele que sou o maior comunista do Colégio Amapaense. Ele mandou chamar o Exército e eis-me aqui.
            – Um animal desses merece apodrecer na Fortaleza – disse Binga.
            No Aeroclube, a nata da sociedade se divertia com os oficiais do Exército. Foi lá que Elenir, Miss Amapá, recebeu uma informação que a deixou gelada: Alexandre Cardoso fora preso. O amor da sua vida, líder do Grêmio Literário Rui Barbosa, pugilista, campeão amapaense de natação, dançarino exímio nos bailes da Piscina Territorial. Na noite anterior, dona Eneida sonhou com Karl Marx, que levava pela mão seu filho Alexandre e sumia na Fortaleza de São José de Macapá. Karl marx se transformava em Velho Rocha. Velho Rocha servia uma dose dupla de absinto a Alexandre, que entornou o copo, sorvendo de um só fôlego a bebida. Cheiro de erva-doce espalhou-se pela Casa Amarela. Dona Eneida ouviu a voz do filho e Alexandre pai levando-o para o Quartinho. Mais tarde foi o vigia da estação de rádio dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul que começou a gritar.
– Chega! Chega! Chega!
            Alexandre pai armou-se de um belo fuzil americano de 18 tiros e correu para lá. Depois tudo se aquietou e da noite só se ouviu murmúrios do vento nas frondes das árvores.
            Naquela manhã de domingo, Alexandre acordou sem se lembrar de nada. Apenas sentia dores no braço direito e um vácuo na memória. Deixou-se ficar, na companhia de João, no Quartinho, lendo Ferdinando Buscapé e ouvindo Mozart. No sábado, ele e a mãe reuniram vários livros sobre marxismo e de escritores russos numa pilha no monturo e tocaram fogo. Naquela noite haveria baile no Aeroclube, para a sociedade local recepcionar os oficiais de fora que chegaram a Macapá, levados pelo vento do Golpe recém-infligido ao país. O baile ouriçou as jovens bem-nascidas. Foi um corre-corre aos salões de beleza e às costureiras. Às 22 horas o pau comeu no Aeroclube, com Glenn Miller abrindo o baile. Alexandre fora identificado e preso por um oficial paraense às 20 horas no Macapá Hotel. Estava bebendo uma Coca-Cola no balcão do bar, servida pelo barman Antônio, quando o major se aproximou e lhe deu voz de prisão. Acompanhado por um cabo e três soldados, além do major, Alexandre foi levado para as masmorras da Fortaleza. Ao chegar, encontrou vários conhecidos.
            – Mais um! – disse Montoril.
            – Salve, mano! Mais um para os fodidos do Golpe – disse Binga.
            – Salve! – disse Alexandre, pegando no braço direito, que começara a doer de novo. – Se querem saber, fui preso enquanto bebia, há pouco, uma Coca-Cola no Macapá Hotel.
            Isnard Isnard meneou a cabeça para o portão. Elenir estava esperando ao lado de um cabo para conversar a sós com Alexandre. Fazia justiça ao título de Miss Amapá. Quando Alexandre se aproximou ela correu e o abraçou.
            – Alexandre! Por que tu estás preso? O que fizeram contigo?
            – Por enquanto, nada. Resta saber o que farão.
            – Por quê? O que tu fizeste para ser trazido para cá, como um condenado?
            – É o golpe militar, que eles estão chamando de revolução. Vão tomar conta de tudo. Os oficiais vão estuprar nossas irmãs e namoradas. Depois serão os soldados que farão isso. Vão entrar em nossas casas e deitar-se, de bota e tudo, nas camas dos nossos pais...
            – Não fala assim, pelo amor de Deus! Vamos tirá-lo daqui! Vou falar com papai!
            O cabo se aproximou e disse que o tempo acabara. Elenir se foi. Pouco depois chegou um oficial gaúcho. Apontou para Alexandre.
A pequena cela para onde Alexandre foi levado era úmida e não tinha teto. Dali ouvia-se, nitidamente, o som da maré. Alexandre sentou-se em um tamborete velho e o oficial ficou em pé, à sua frente, ladeado por dois cabos.
– Então és tu o líder comunista? Quando é que tu ias tomar o Palácio do Setentrião, vermelho? – e desandou um tabefe no rosto de Alexandre. Estrelas de todas as cores piscaram. – Vamos, reage! – disse o oficial gaúcho, que era muito jovem e alto. Começou a andar em torno de Alexandre, aplicando-lhe pequenos golpes na cabeça com o cabo de um rebenque. Alexandre se mantinha calado. – Tua namorada é gostosa. Quando pegá-la vou empurrar todo o caralho nela, até os ovos. Tenho 24 centímetros... – parou defronte de Alexandre. – Me olha, russo.
Alexandre continuou de cabeça baixa. Sentiu uma pontada no braço direito e institivamente o amparou com a outra mão. O oficial gaúcho percebeu.
– Então o guri machucou o braço, hein? – e deu uma porrada com o cabo do rebenque no braço doente. O grito de Alexandre perdeu-se nas galerias da Fortaleza.
O rio Amazonas subia vagaroso como um réptil se aproximando da presa e suas águas já lambiam as botas do oficial gaúcho. Alexandre estava com a cabeça tombada sobre o peito, sustentando, com a mão esquerda, o braço direito, que ia ficando roxo. Chorava imperceptivelmente. Novo grito ecoou na cela, misturando-se ao som da maré enchente. O oficial só dava no braço de Alexandre, deixando-o adormecido. Era como se Alexandre só tivesse um braço.
– Vamos embora. Este filho de rapariga com corno vai morrer afogado – disse o oficial.
A água do rio Amazonas estava inundando rapidamente a cela. Alexandre despertou e institivamente levantou-se do banco. A água já estava nos seus joelhos e logo alcançou a cintura, depois o peito, o pescoço e a cabeça. Começou a flutuar, batendo pernas. Com a mão boa agarrou-se a uma pedra saliente. À medida que a água subia, ia se segurando nas saliências da parede, até encontrar, próximo ao teto, um túnel. Com a mão boa arrastou-se para dentro dele. “Tenho de sair daqui antes que a água invada o túnel. Será que é um beco? Meu Deus, não pode ser...” – pensava. A água ia atrás dele, lambendo seus pés. O braço começou a doer terrivelmente e ele desmaiou.
            A Piscina Territorial estava engalanada. A alta sociedade macapaense fizera-se representar à quermesse. Escolhia-se, naquela noite, o Professor do Ano do Colégio Amapaense. As belas jovens fizeram-se ainda mais belas. Alexandre Picanço Cardoso Filho, exímio dançarino de merengue, bolero e chá-chá-chá, deixara o salão com Elenir e a conduziu para o escuro, encostando-a ao tronco de uma árvore. Espalhava-se na noite o roçar de linho engomado, seda chinesa, fragrância de Chanel 5, o som de Os Cometas, as luzes, o céu estrelado, o murmúrio da madrugada, o sabor de cada beijo. Os lábios de Elenir eram doces como jambo. A boca, a língua, o rosto, tudo nela era como leite materno, pétalas de rosa, noites estreladas, a música de Mozart, a madrugada, carne de Miss, gemidos acamando-se na memória. A primeira vez que pegou na sua mão foi numa batalha de confete. Elenir estava vendo os mascarados, as mãos segurando a corda que separava os brincantes dos espectadores. Alexandre aproximou-se furtivamente até conseguir chegar ao seu lado e pousar sua mão na dela. Um turbilhão de estrelas desabou ao seu redor. Elenir não tirou sua mão. Virou-a, de modo a entrelaçarem-se. Nos anos seguintes encontravam-se na rua, nos bilhetes, nos cinemas, nos clubes, nas estrelas, nos sonhos, até aquela noite na Piscina Territorial.

RAY CUNHA é autor dos romances:


E dos livros de contos:

domingo, 25 de fevereiro de 2018

O Empreendimento




RAY CUNHA

Sou empreendedor. Empreendo por meio do verbo
Crio o azul, o mar, a eternidade, e os ponho em equilíbrio
Construo maravilhas, como a dimensão em que, apesar da queda
E do abismo, o cair é para cima

Sou escritor, dou à luz personagens e sei construir versos
E assim, como Deus, empreendo o Yang e o Yin
Ao criar, nos mundos em construção, os alicerces
Faço explodir, de um buraco negro, um Big Bang infinito

Mas minha maior criação, meu voo mais alto, não surgiu por meio do verbo
É fruto da conjunção de um amor que nunca teve começo nem terá fim
Quando a mulher amada e eu demos início ao nosso empreendimento

Foi assim, nos sentindo um só, que surgiu uma nova era
O nascimento da mais perfumada das flores, com o doce nome de Iasmim
E, desde então, o mundo se tornou a sagração da primavera


Brasília, 22 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Romance de Ray Cunha retrata o Golpe Militar de 1964, em Macapá/AP, Amazônia Caribenha

Capa da edição da Amazom.com
Lançado em 2004, pela Editora Cejup, de Belém/PA, as tiragens que a editora colocou no mercado estão esgotadas. Agora, A CASA AMARELA volta a ser publicado, agora pela Amazon.com e pelo Clube de Autores.

A história – que tem início com o golpe militar de 31 de março de 1964, início da Ditadura dos Generais, que durou até 1985 – é ambientada na Macapá dos anos 1960. A Fortaleza de São José de Macapá, o maior ícone dos amapaenses, é palco da tragédia que fornece o argumento do romance: a tortura e morte do presidente do Grêmio Literário Rui Barbosa, acusado de ser comunista.

Os Picanço Cardoso vivem na Casa Amarela, em torno da qual há um jardim prenhe de rosas e zínias, e onde predominam uma seringueira, uma mangueira e um cajueiro, cercados pelo muro do Colégio Amapaense. A casa e as árvores têm sentimentos humanos e o Quartinho é frequentado também por mortos, como Ernest Hemingway, ou Antoine de Saint-Exupéry.
Os bailes reunindo a juventude dourada macapaense, no clube conhecido como Piscina Territorial, a bela esposa infiel de um milionário, lutas de boxe, o aterrorizante Velho Rocha, o apolínio Alexandre Cardoso e o trágico Alexandre filho, o prostíbulo Suerda, o campeão onanista Pentelho de Vaca, o Colégio Amapaense, são personagens que compõe uma espécie de concerto com três movimentos, no qual se destaca A Casa Amarela.

Ao fundo, a cidade ribeirinha, seccionada pela Linha Imaginária do Equador, afoga-se na margem esquerda do estuário do rio Amazonas, quando o gigante se avoluma para lançar no Atlântico 180 mil metros cúbicos de água por segundo, 16% da água doce despejada nos oceanos do mundo; em maio, sobe para 260 mil metros cúbicos por segundo, e, em novembro, cai para 100 mil metros cúbicos por segundo.

“Para quem acredita na máxima de que os livros nos fazem viajar, nada como aproveitar a literatura para conhecer o país. O UOL selecionou 27 livros que mostram características locais dos diferentes Estados brasileiros e do Distrito Federal” – recomenda o site UOL, citando A CASA AMARELA como o livro de ficção que melhor retrata o Amapá.

RAY CUNHA nasceu em Macapá, em 7 de agosto de 1954. Aos 17 anos, publica seu primeiro livro, XARDA MISTURADA, juntamente com os poetas José Edson dos Santos e José Montoril. Aos 21 anos, começa a carreira de jornalista, em Manaus. A partir daí, trabalha em vários jornais da Amazônia, viajando amplamente pela região. Atualmente, o autor vive em Brasília, onde, além do ofício de escritor, continua trabalhando como jornalista e também como terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, formado pela Escola Nacional de Acupuntura (ENAc).

RAY CUNHA é também autor dos romances:


E dos livros de contos: