sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Novo romance de Ray Cunha se passa no mundo da acupuntura numa trama policial em Brasília

Ray Cunha envereda pelo mundo dos
acupunturistas (Foto: Rodrigo Cabral)
MARCELO LARROYED*

BRASÍLIA, 25 DE NOVEMBRO DE 2016 – O delegado de Repressão a Homicídios, Ricardo Larroyed, também acupunturista e professor no Instituto Holístico, investiga o suicídio e o assassinado de três modelos de moda, ocorridos ao longo de 2016, em Brasília. Todas elas eram pacientes em acupuntura, sendo que duas delas foram atendidas no Instituto Holístico. O principal suspeito é o também professor no Instituto Holístico, o terapeuta, mestre em artes marciais e poeta Emanoel Vorcaro, sócio de Ricardo Larroyed na Clínica de Terapias Holísticas, onde Vorcaro atende a estonteante modelo Rosa Nolasco.

Essa é a trama da nova novela de Ray Cunha, FOGO NO CORAÇÃO, um romance curto, ambientado no dia-a-dia do mundo da Medicina Tradicional Chinesa (MTC). Além de jornalista, o escritor é formado em MTC na Escola Nacional de Acupuntura (ENAc), para quem presta assessoria de imprensa. Por isso, adverte: “Todas as personagens de FOGO NO CORAÇÃO são fictícias, assim como a ambientação do romance foi inventada, com exceção do escritor, pesquisador, psicanalista e acupunturista Jorge da Silva Bessa, que também trabalhou na área de inteligência e serviu ao Brasil em Moscou. Bessa aparece no romance com um perfil biográfico ligeiramente modificado; trata-se de uma homenagem a um amigo que tem minha admiração, especialmente pelo seu trabalho de pesquisa no campo espiritualista”.

Por trás da trama, movem-se, em FOGO NO CORAÇÃO, várias questões do dia-a-dia de quem estuda, leciona ou trabalha no âmbito da Medicina Tradicional Chinesa, que tem na acupuntura seu pilar mais conhecido no Brasil, ou no Ocidente. Questões como, por exemplo, de professores do Instituto Holístico que não simpatizam com Giovanni Maciocia, o papa da acupuntura no Ocidente, até discussões sobre a base filosófica que alicerça a MTC.

FOGO NO CORAÇÃO será publicado em dezembro, primeiramente no site Clube de Autores, onde o autor tem mais dois romances publicados: HIENA e A CONFRARIA CABANAGEM. Em 2017, FOGO NO CORAÇÃO será lançado em livro.

TRECHO DE FOGO NO CORAÇÃO

“Em conversa com uma colega major, que fazia o Curso de Medicina Tradicional Chinesa no Instituto Holístico, Francisco Nolasco foi orientado a levar sua irmã, Rosa Nolasco, para ser atendida, segundo a major, pelo professor mais brilhante do curso, Emanoel Vorcaro. Rosa Nolasco era tão linda que os homens com o dom do olhar clínico desejavam engoli-la, engravidar-se dela, e sentir o eterno e intenso triunfo da maternidade. Brasiliense da gema, filha de diplomata americano e uma potra de Belo Horizonte, era dessas mulheres que param o trânsito, literalmente, daí porque raramente são vistas caminhando na rua; escondem-se em automóveis indevassáveis, de onde saltam para atravessar apenas uma calçada, sempre de óculos escuros. E seu elemento é a noite. Ruiva, os cabelos caindo como ervas daninhas numa cascata caudalosa até ancas africanas – herança da mistura entre um lusitano e uma princesa moçambicana em uma geração bem anterior à sua –, a pele rosada, olhos verdes como folhas de jambu, lábios grandes, grossos e vermelhos, nariz arrebitado, e um sorriso que era uma queda para cima, foi estuprada a primeira vez aos 14 anos, idade em que a mulher ainda é criança, prestes a se transformar em borboleta. Depois dessa primeira vez, o autor, um tio de 40 anos, estuprou-a mais oito vezes, até ela engravidar e ser conduzida a um matadouro, onde sangrou a ponto de quase morrer, resgatada pelo seu irmão, Francisco Nolasco, major da Polícia Militar do Distrito Federal, atirador de elite. O tio, um tal de José Antônio, foi encontrado com os bagos e o pênis destroçados a tiros e uma bala na hipófise, flutuando no Lago Paranoá, onde, a bordo de um iate, promovia bacanais pantagruélicas. Aos 17 anos, Rosa, uma flor de 1,80 metro e 70 quilos, iniciava a profissão de modelo, em plena tragédia, pois quase todo mundo que gravitava em torno dela queria predá-la, incluindo mulheres invejosas, mas seu maior predador era ela mesma. Passara por muitas camas, abortos e a exploração mais abjeta, porém seu corpo tinha a invulnerabilidade das rosas, que são frágeis, mas eternas. Sua tragédia perpassava pelo histórico das mulheres da família: o mal instalara-se com fúria no seu útero: uma colônia de miomas.

“Quando Rosa Nolasco chegou, o professor Emanoel Vorcaro a aguardava. Ele dividia seu tempo entre a Universidade de Brasília, o Instituto Holístico, a Clínica de Terapias Holísticas e sua casa, na 703 Sul. Estava lendo alguma coisa quando os irmãos entraram no consultório. Vorcaro deixou de lado o que estivera lendo e pousou os olhos mortos nos olhos dela, e assim permaneceu por tempo excessivo, como um especialista em iridologia perscruta a alma do paciente, mergulhando nos subterrâneos labirínticos, nos pântanos, nas pradarias, nos jardins, no sol, nos olhos de Rosa Nolasco, que, de manhã, assumiam uma nuança azul; à medida que o dia avançava, e quanto mais calor fizesse, então as esmeraldas surgiam em meio aos arbustos rubros; e, à noite, eram como jambu, prenhes de espilantol. Emanoel Vorcaro gemeu. Provavelmente o gemido foi mental. A eternidade daqueles segundos o inebriara: sentiu cheiro de mar, ouviu risos de crianças, a voz de Frank Sinatra em alguma alcova perdida na paisagem vista da janela daquele quarto de hotel, em Paris, ao cair da noite, naquele momento e condições que tornam gentil todo o mundo, e viu sua esposa com seu filho imaginário no colo, rindo o riso cristalino das mulheres lindíssimas, e que o perseguia aonde quer que fosse.”


*MARCELO LARROYED é escritor e mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O Lugar Errado/Na Boca do Jacaré


BRASÍLIA, 28 DE SETEMBRO DE 2016 – A convite do jornalista Walmir Botelho, então diretor de redação de O Liberal, de Belém do Pará, trabalhei no jornal dos Maiorana durante os anos de 1996 e 1997, ao fim dos quais retornei a Brasília. Naquela ocasião, travei amizade com o editor da Cejup, Gengis Freire, que publicou a novela A Caça. Mas Gengis queria um romance, e eu tinha acabado de escrever O Lugar Errado, thriller psicológico que se passa em Belém e no Marajó. Entreguei, assim, ao editor, o escritão do romance. Gengis mandou digitá-lo, fazer a revisão gramatical do livro e publicou-o.

De volta a Brasília, submeti O Lugar Errado ao jornalista e escritor Maurício Mello Júnior, que apresenta o programa Leituras, da TV Senado, e escreve resenhas para o jornal O Rascunho, de Curitiba. Ele me disse que algumas personagens do livro se confundiam, pois falavam do mesmo jeito, e que sofria de adiposidade. A mesma coisa me disse o escritor, mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília e revisor Marcelo Larroyed.

Com efeito, entregara os originais a Gengis Freire sem sequer fazer os ajustes necessários. Só então resolvi promover os cortes, e percebi, então, que havia duas novelas se entrecruzando. Cortei até o osso, seccionando toda a parte do encoxador, e vi que a história de Agostinho Castro, atormentado porque seu pai estuprou a tia pintora de Agostinho, e que morreu dias depois sem dar um pio, constituía-se, por si só, em uma novela, enxuta, condutora do verdadeiro argumento de O Lugar Errado.

Dei à novela o título de Na Boca do Jacaré e a publiquei juntamente com outros contos, todos ambientados em Belém e no Marajó, fechando, com esse livro, a trilogia que começou com A Grande Farra, seguido de Trópico Úmido. Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É, como intitulei o volume, foi autografado também em Macapá, quando doei para a Biblioteca Pública Elcy Lacerda alguns exemplares do livro.

O blog Amapá, minha amada terra!!! Publicou uma resenha escandalizada sobre O Lugar Errado e Na Boca do Jacaré, chamando a atenção para a parte do encoxador. Com efeito, a depravação, nessa parte, a que foi extirpada, é digna do Marquês de Sade. Pois bem, nos meus cortes, restaram apenas a ossatura, músculos e nervos, resultando em Na Boca do Jacaré.

Os livreiros de Macapá que se interessarem em vender Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É devem fazer pedidos ao editor pelo e-mail:


Ou pelo telefone: (55-61) 3362-0008

Ou ainda pelo link:


Endereço da Ler Editora/Libri Editorial: SIG (Setor de Indústrias Gráficas), Quadra 3, Lote 49, Bloco B, Loja 59 – Brasília/DF – CEP 70610-430

Na Boca do Jacaré-Açu – A Amazônia Como Ela É pode ser adquirido diretamente no site da Libri Editorial, pelo link:


Quem mora em Brasília pode adquiri-lo na Estante dos Jornalistas-Escritores, instalada no hall de entrada do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), Quadra 2, Lotes 420/440, Edifício City Offices, Cobertura.

Ainda, o livro, autografado, pode ser pedido pelo e-mail:


Ele será enviado pelo valor de R$ 40, incluído o envio pelos Correios.

domingo, 7 de agosto de 2016

Eu velho



Sinto, claro, agora, perfume de jasmineiros
Chorando em tórridas madrugadas em Macapá
Chanel 5
O mar
A eternidade se aproxima
Vertiginosa como a Terra no espaço
Mistério abismal de mulher nua
O Pico da Neblina
O Hilton Internacional Belém
Copacabana.
Autografo livros
E à noite bato papo com Fernando Canto
Sobre telas de Olivar Cunha
Flutuando numa garrafa de Dom Pérignon safra de 1954
Este 7 de agosto, como em todos os anos
Tem cheiro das virgens ruivas e gosto de acme

terça-feira, 7 de junho de 2016

O rio da tarde



Macapá é uma cidadela limitada pela selva e o maior rio do mundo. Na maré cheia, e se os alísios sopram mais forte, ondas de dois metros rebentam no muro de arrimo defronte à cidade, e quando a maré baixa, o leito do Mar Doce aparece, numa faixa escura de um quilômetro, rio adentro. A cidade começou a invadir a floresta; aos poucos, põe-na abaixo, em marcha de terra arrasada. Quanto ao rio Amazonas, continua levando a Belém. Vivi 17 anos em Macapá, e desde então nossa vida tem sido de reencontros e partidas. Hoje eu sei que uma cidade são várias cidades, incluindo as que construímos em nosso coração, de modo que fecho os olhos físicos quando chego, de barco ou de avião, e apuro os sentidos, para mergulhar nos indeléveis labirintos da cidade da minha infância, prenhes de espilantol.

Eu tinha 17 anos quando a deixei, peguei o rio e a estrada e sumi em Copacabana. Em dezembro de 1971, publicara, juntamente com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril, Xarda Misturada, um livrinho de poemas adolescentes no qual o poeta Isnard Lima Filho encontrou um veio de pedras preciosas (certamente os poemas do Joy) e me batizou de Ray Cunha, profetizando que um dia entraria no mercado livreiro norte-americano. Meu nome é Raimundo, do gótico “sábio protetor”, uma homenagem a meu avô paterno, Manoel Raimundo Cunha, e a meu pai, João Raimundo Cunha, além de uma promessa de vovó Rosa Maria Cunha a São Raimundo Nonato, padroeiro das parteiras e obstetras.

Naquela época, em Macapá, artistas eram vistos como vagabundos. E achei que deveria me mandar, e me mandei. Peguei minha cota de Xarda Misturada, tomei um barco no trapiche de Macapá e parti rumo a Belém, onde, com ajuda do meu irmão Paulo Cunha e de amigos peguei carona pela Belém-Brasília, ainda em construção, e fui bater na cidade recém construída por Juscelino Kubitschek. Na cidade-estado – hoje, fogueira das vaidades e valhacouto de assaltantes perigosos –, consegui, no antigo Ministério da Educação e Cultura (MEC), passagem para o Rio. De lá, queria ir a Paris e cheguei a conversar isso com o dramaturgo Paschoal Carlos Magno, que baixou meu fogo e me aconselhou a me aquietar no Rio mesmo.

Eu tinha 19 anos quando vi pela primeira vez uma orquestra. Foi em 1973, no Teatro da TV Globo, no Jardim Botânico. Naquele dia, uma nova porta se abriu na minha vida. A Orquestra Sinfônica Brasileira – não me lembro quem era o regente – apresentou A Sagração da Primavera, do russo Igor Stravinsky. Quando Le Sacre du Printemps, balé em dois atos, estreou, em 29 de maio de 1913, no Théâtre dês Champs-Élysées, em Paris, foi um escândalo. Tratava-se de música moderna, inovadora, revolucionária. Os acontecimentos só são importantes quando nos atingem em profundidade. Isso ocorreu também, em 1983, em Belém do Pará, ao ouvir Mozart pela primeira vez, Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor.

Já estou descendo o morro da vida. A encosta é íngreme. Não importa; foi a trilha que escolhi. Fui belo e imortal, inquieto, dramático, desesperado e trágico, como, quase sempre, os jovens todos. O corpo é um amontoado de átomos, que se unem enquanto há vida, e a vida segue um afunilamento, e amplia-se. Às vezes, Deus arruma nossas manhãs, e as roseiras rebentam em rosas nuas (visíveis pelos olhos do coração), jasmineiros choram perfume, ouve-se o riso de crianças e o esplendor do sol roça o mundo.

As zínias; as rosas; beijos que são como terremoto; a intensidade, quase insuportável, de criar o poema, são luzes que fecundam o tao, o caminho, a estrada da vida, que pode ser escura, mas não deve ser escura. Precisamos pontilhá-la de luzes, portas para o rio da tarde.

Brasília, 14 de janeiro de 2016