domingo, 7 de agosto de 2016

Eu velho



Sinto, claro, agora, perfume de jasmineiros
Chorando em tórridas madrugadas em Macapá
Chanel 5
O mar
A eternidade se aproxima
Vertiginosa como a Terra no espaço
Mistério abismal de mulher nua
O Pico da Neblina
O Hilton Internacional Belém
Copacabana.
Autografo livros
E à noite bato papo com Fernando Canto
Sobre telas de Olivar Cunha
Flutuando numa garrafa de Dom Pérignon safra de 1954
Este 7 de agosto, como em todos os anos
Tem cheiro das virgens ruivas e gosto de acme

sábado, 16 de julho de 2016

O acupunturista velho


BRASÍLIA, 16 DE JULHO DE 2016 – Sou aluno do Curso de Medicina Tradicional Chinesa da Escola Nacional de Acupuntura (ENAc). A maioria dos meus colegas são jovens, inclusive os professores; boa parte deles são pessoas de meia idade, e alguns são idosos. Talvez eu seja o mais velho, 62 anos. Outro dia um colega ficou preocupado comigo, pois, no seu entendimento, firmar-se como acupunturista pode levar 10 anos; então, eu estaria com 72 anos. Expliquei-lhe que não me preocupo nem com amanhã, quanto mais com 10 anos.

A eternidade é agora; a minha curtição é agora. Só as centenas de pacientes que já atendi voluntariamente, e o sorriso que ganhei de presente de muitos deles, valem mais do que 50 anos de mercado.

Para mim, o significado de juventude é único. Sinto-me, inequivocamente, espírito, e no mundo espiritual não existe a dimensão do tempo. O corpo se submete às leis da matéria: espaço – altura, largura e espessura –, tempo, força de gravidade e código genético. De modo que chega um momento em que até as pessoas mais saudáveis, mais fortes, mais cheias de vitalidade, vão esmorecendo, perdendo o viço, encolhendo, murchando, esfarelando-se, o rosto vai ficando como maracujá de gaveta, as juntas vão emperrando, o coração se esforça desesperadamente. Velhice é a aproximação da morte.

Às vezes, aparece uma rosa que incendeia o coração, e então o Qi da alegria transforma de novo a vida num jardim, e sentimos que a eternidade é agora, intensidade, poesia, vida. A vida jamais se extingue; o que se extingue é a matéria, a matéria sem a vida – átomos.

Os jovens não sabem disso. O que os jovens sentem é que são fisicamente imortais, talvez porque ainda não despertaram para o mundo espiritual. Os jovens são também imortais por causa da beleza inerente à juventude; a beleza é imortal por si mesma, contêm a eternidade das rosas.

Caro colega, já estou descendo a ladeira, sem freio, mas essa velocidade é nada perante o cheiro azul do mar, o perfume das virgens ruivas, as asas da luz.

terça-feira, 7 de junho de 2016

O rio da tarde



Macapá é uma cidadela limitada pela selva e o maior rio do mundo. Na maré cheia, e se os alísios sopram mais forte, ondas de dois metros rebentam no muro de arrimo defronte à cidade, e quando a maré baixa, o leito do Mar Doce aparece, numa faixa escura de um quilômetro, rio adentro. A cidade começou a invadir a floresta; aos poucos, põe-na abaixo, em marcha de terra arrasada. Quanto ao rio Amazonas, continua levando a Belém. Vivi 17 anos em Macapá, e desde então nossa vida tem sido de reencontros e partidas. Hoje eu sei que uma cidade são várias cidades, incluindo as que construímos em nosso coração, de modo que fecho os olhos físicos quando chego, de barco ou de avião, e apuro os sentidos, para mergulhar nos indeléveis labirintos da cidade da minha infância, prenhes de espilantol.

Eu tinha 17 anos quando a deixei, peguei o rio e a estrada e sumi em Copacabana. Em dezembro de 1971, publicara, juntamente com Joy Edson (José Edson dos Santos) e José Montoril, Xarda Misturada, um livrinho de poemas adolescentes no qual o poeta Isnard Lima Filho encontrou um veio de pedras preciosas (certamente os poemas do Joy) e me batizou de Ray Cunha, profetizando que um dia entraria no mercado livreiro norte-americano. Meu nome é Raimundo, do gótico “sábio protetor”, uma homenagem a meu avô paterno, Manoel Raimundo Cunha, e a meu pai, João Raimundo Cunha, além de uma promessa de vovó Rosa Maria Cunha a São Raimundo Nonato, padroeiro das parteiras e obstetras.

Naquela época, em Macapá, artistas eram vistos como vagabundos. E achei que deveria me mandar, e me mandei. Peguei minha cota de Xarda Misturada, tomei um barco no trapiche de Macapá e parti rumo a Belém, onde, com ajuda do meu irmão Paulo Cunha e de amigos peguei carona pela Belém-Brasília, ainda em construção, e fui bater na cidade recém construída por Juscelino Kubitschek. Na cidade-estado – hoje, fogueira das vaidades e valhacouto de assaltantes perigosos –, consegui, no antigo Ministério da Educação e Cultura (MEC), passagem para o Rio. De lá, queria ir a Paris e cheguei a conversar isso com o dramaturgo Paschoal Carlos Magno, que baixou meu fogo e me aconselhou a me aquietar no Rio mesmo.

Eu tinha 19 anos quando vi pela primeira vez uma orquestra. Foi em 1973, no Teatro da TV Globo, no Jardim Botânico. Naquele dia, uma nova porta se abriu na minha vida. A Orquestra Sinfônica Brasileira – não me lembro quem era o regente – apresentou A Sagração da Primavera, do russo Igor Stravinsky. Quando Le Sacre du Printemps, balé em dois atos, estreou, em 29 de maio de 1913, no Théâtre dês Champs-Élysées, em Paris, foi um escândalo. Tratava-se de música moderna, inovadora, revolucionária. Os acontecimentos só são importantes quando nos atingem em profundidade. Isso ocorreu também, em 1983, em Belém do Pará, ao ouvir Mozart pela primeira vez, Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor.

Já estou descendo o morro da vida. A encosta é íngreme. Não importa; foi a trilha que escolhi. Fui belo e imortal, inquieto, dramático, desesperado e trágico, como, quase sempre, os jovens todos. O corpo é um amontoado de átomos, que se unem enquanto há vida, e a vida segue um afunilamento, e amplia-se. Às vezes, Deus arruma nossas manhãs, e as roseiras rebentam em rosas nuas (visíveis pelos olhos do coração), jasmineiros choram perfume, ouve-se o riso de crianças e o esplendor do sol roça o mundo.

As zínias; as rosas; beijos que são como terremoto; a intensidade, quase insuportável, de criar o poema, são luzes que fecundam o tao, o caminho, a estrada da vida, que pode ser escura, mas não deve ser escura. Precisamos pontilhá-la de luzes, portas para o rio da tarde.

Brasília, 14 de janeiro de 2016

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A mulher que me ensinou a voar

Três momentos da mulher amada: na primeira foto, captada
pela lente de Ivaldo Cavalcante; grávida de 
uma flor, Iasmim;
e o sorriso de sol na Calçada da Fama, na Seicho-No-Ie 

BRASÍLIA, 19 DE MAIO DE 2016 - A manhã de 20 de maio de 1968, em Macapá, foi excepcional. As flores desabrocharam em questão de segundos ao sol, deixando o ar prenhe de perfume e a Linha Imaginária do Equador girando igual música de Mozart. Eu tinha 14 anos e já recebera o batismo de fogo azul, por isso percebi que a manhã fora arrumada por Deus, pois entre as flores vivificadas pela luz, uma recebeu o nome de Josiane Souza Moreira.

Só a conheci 19 anos depois, em Brasília. Cafuza, linda que só ela, parecia um arbusto com sabor de Dom Pérignon, safra de 1954. Começamos a namorar em 15 de maio de 1988, no cinema do Conjunto Nacional, vendo O Último Imperador da China, de Bernardo Bertolucci. Casamo-nos no religioso em 21 de maio de 1989 e, no civil, em 6 de agosto de 2010. Em 22 de fevereiro de 1990, Josiane deu à luz uma princesa com nome de flor: Iasmim.

Quando a conheci, eu tinha 33 anos de idade, 14 mais do que ela, vinha de um casamento fracassado, vivia mergulhado no álcool, trabalhava num jornal sem futuro (Correio do Brasil, que já fechou as portas há muito tempo) e sou feio. Mas ela me viu leão de asas na dimensão azul, e desde aquela noite de 15 de maio de 1988, namoramos todos os dias, até quando estamos perdidos, pois nos encontramos no coração, onde não existe tempo nem espaço; só há o agora e o agora, o momento mesmo da eternidade.

Ela entrou na minha vida como raio de sol iluminando minha alma, como o hálito do Concerto para Piano e Orquestra em Ré Menor, de Mozart, como o azul do mar, tão azul que sangra. Desde então, deposito nas tuas mãos, Josiane Souza Moreira Cunha, todo o meu tesouro, um abismo de rosas vermelhas, colombianas, risos de crianças, o triunfo da Luz.


MINHA NAMORADA

O primeiro beijo que me deste, explodiu
Como relâmpago na minha alma
Feriu-me, doce como brisa,
Pétalas pousando no púbis de um anjo

Desde então, flor da minha vida,
Voo na tua dimensão
Grávido de ti, como um abismo,
Mulher amada!

Segue-me, pois te mostrei quase nada
E tenho a chave dos sonhos
Que conduzem à eternidade

À fogueira do nosso amor, minha namorada,
Ao voo vertiginoso
Da luz movida a acme

A NOITE É SÓ NOSSA

Meu bem, estou à tua espera, vibrando de alegria
Pois esperar-te é como a emoção que precede o garimpeiro
Ao encontrar a maior pepita de ouro, dez anos depois
No morro do Salamangone, Serra Lombarda, município de Calçoene
É como a felicidade de abraçar crianças que escaparam de um naufrágio
Ao largo do Marajó
Ver rosas nuas em toda parte
Amor da minha vida esta noite será eterna
Porque nesta casa
Só haverá nós dois e a noite
Já arrumei tudo, as flores, o vinho e a comida, camusquim com camarão pitu
Seremos nós dois e os diamantes que garimpei toda a minha vida
E que só encontramos no céu de Macapá, em agosto, nos anos 1960
Ouviremos La Cumparsita, na voz de Julio Iglesias
E dançaremos lentamente, nossos lábios se roçando
E ouviremos Suave é a Noite, com Alcione
E Amarcord, de Nino Rota
Então, voando nas asas de Dom Pérignon, safra de 1954
Beberei colostro e sentirei o sabor da tua pele e do teu púbis
E será madrugada
A quem ofertarei teus gemidos, que espalharei no jardim da minha alma
Mulher amada
Vem logo
Pois a noite já chegou
Como um navio, um continente, uma galáxia
Só nossa!