terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Velhice

Ray Cunha: No cume da montanha não há nada, exceto vento
e frio. Subimos até lá apenas para tomarmos conhecimento
de que chegou a hora de realizarmos a verdadeira subida
A velhice perpassa idades, gêneros, etnias, regiões e sociedades. Ela incomoda quase todo mundo. Quanto menos espiritualizada é a pessoa, mais repugnante lhe parece a velhice, mais merecedora de desprezo, de nojo. Mas, afinal, o que é a velhice? Por que inspira tanta repugnância? Por que é tão relegada ao lixo?
Envelhecer é morrer fisicamente. Apodrecer. Definhar, adoecer, desfazer-se em material pútrido, gritar, berrar, apegar-se à matéria, recusar a natureza do espírito, a luz. Como dizem os budistas: o corpo, a matéria, é nada. Todos nós nascemos com data de validade. Morrer é o destino do corpo carnal. E se alguém resiste a viver um século, estará só ruínas, material orgânico se desfazendo.     

A vida é como deslizar em um tobogã, que vai ficando cada vez mais escorregadio e inclinado. São as células morrendo, a pele se enrugando, os ossos encolhendo, os órgãos falindo, até esvair-se a energia vital e surgir o abismo. Só depois disso há luz.

O desdém que alguns jovens e adultos dispensam aos velhos decorre de dois fatores: um, a animalidade dos jovens. Nela, a morte, e a velhice, não existem; no seu mundo só há beleza, vigor, primavera. O outro fator é o apego, a ilusão de que o corpo carnal é para sempre.

Notaram que as crianças não excluem os velhos? Pois elas ainda têm aberto o portal que transcende as quatro dimensões, e que só pode ser transposto por meio da inexistência do apego.

O fato é que o tempo nem é importante. Importante é a energia. Há velhos que jamais deixam de trabalhar, de produzir, de ajudar os jovens a construírem seus mundos, e de amar. E há os que morrem mentalmente, mas seus corpos continuam vagando por aí, deteriorando-se. A energia está na mente; os corpos são apenas prisão, da qual nos libertamos porque amamos.

No cume da montanha não há nada, exceto vento e frio. Vamos até lá apenas para tomarmos conhecimento de que chegou a hora de realizarmos a verdadeira subida, transcender o tempo. De tanto ouvir o riso das crianças, de tanto observar as rosas, de sentir os jasmineiros umedecendo as noites tórridas do trópico, de inalar a fragrância do mar, que inunda minha alma, de tanto montar a luz no cataclismo do primeiro beijo, acabei por sentir que a eternidade é agora.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A idade da razão

Ray Cunha, em 2019, de panamá comprado em Pirenópolis/GO

BRASÍLIA, 5 DE FEVEREIRO DE 2020  Nasci em 7 de agosto de 1954, em Macapá, cidade encravada no cruzamento da Linha Imaginária do Equador e da margem esquerda do rio Amazonas, então um povoado ribeirinho afogado no meio do mundo, mas nunca me senti emparedado na solidão dos povoados amazônicos, porque, aos 5 anos, os gibis, e depois revistas de informação e livros, de todos os gêneros, me inocularam o vírus da aventura, de modo que aos 13 anos eu já tinha viajado meio mundo, e, aos 14, conversava sobre filosofia e arte, e comecei a escrever, e, aos 17, recebi meu batismo de fogo, segundo o poeta Isnard Brandão Lima Filho, lançando o livro de poemas Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson e José Montoril. Verdade seja dita, meus poemas eram os mais fracos do livro, mas, naquele momento, tiveram poder propulsor, o poder de, mesmo sem nem carteira de identidade, me mandar de Macapá, que começava a me sufocar. Então parti de barco para Belém, de onde peguei carona para Brasília e para o Rio de Janeiro, e passei 10 anos na estrada.

Aos 27 anos, cansado de navegar e de rodar, e ainda tonto de um casamento frustrado por absoluto fracasso meu, comecei o curso de jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPa), em Belém, quando reencontrei um velho amigo, a quem chamarei de B. B media um metro e noventa, por aí, e pesava uns 100 quilos, tinha os olhos claros e exercia fascínio sobre as mulheres, inclusive casadas. Embora depressivo e dipsomaníaco, quando começava a falar, numa linguagem erudita e pessimista, assustava todo mundo. Nossa amizade se desenvolveu porque havia uma coisa que interessava a ambos: livros, e escritores. Li muitos livros recomendados por B, e gostei de todos, como O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, que comecei a ler em uma livraria de Niteroi, bebendo Bohemia. Além de um dos leitores mais argutos que conheci, B era também mais experiente do que eu, e, à sua maneira, sábio.

Certo dia, numa das pausas da bebida, B profetizou que nossa geração só se tornaria sábia após os 60 anos. Estive, muitas vezes, à beira do abismo; caí no poço dos prazeres mais carnais, e frequentei aquela zona cinzenta dos alcoólatras, dos desesperançados, dos desesperados, dos danados, dos mortos-vivos. Contudo, há sempre alguém, ou algo – uma lembrança, uma voz, o voo em um sonho, uma rosa, o azul, o mar, personagens de ficção –, me levantando.

Já faz tempo que comecei a descer a ladeira. Às vezes, enfrento trechos muito inclinados, outros, alagados, mas cada vez mais encontro bosques e manhãs ensolaradas. Se antes, aos 21 anos, sentia-me leão, hoje, sinto-me leão de asas, como se montasse a luz, e comecei a descobrir o segredo da velocidade quântica, alimentado pela visão de uma rosa que se desnuda, do azul que sangra, por jasmineiros que choram nas noites ardentes, pelo som da Terra no espaço.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A garota marcada para morrer

A atriz inglesa Claire Foy na pele de Lisbeth Salander

BRASÍLIA, 4 DE FEVEREIRO DE 2020 – Acredito que os livros clássicos são os que moldaram a literatura, tal como hoje a conhecemos, além de mergulharem na condição humana, o que os tornam atemporais, e de utilizarem as palavras como bisturis de luz. E há também os livros revolucionários, aqueles que oxigenam a literatura, como o fez Ernest Hemingway com O Sol Também se Levanta, em 1926, só para citar um exemplo. Esse livro afetou meio mundo em todo o planeta, especialmente nos Estados Unidos, onde havia um puritanismo do caraca.

Mas, além dos fatores citados, há ainda uma outra coisa que alça alguns autores a ídolos como os de rock, incensados e bajulados. Quando Hemingway estava no auge da fama, vendendo como poucos e badalando no jet set internacional, havia uma razão para isso; talvez duas. Principalmente O Sol Também se Levanta, Adeus às Armas e Por Quem os Sinos Dobram eram livros que retratavam fielmente a época em que foram publicados.

Assim é com autores como Stieg Larsson e David Lagercrantz, que criaram personagens pós-modernos. Hackers, espiões, mafiosos, intrigas políticas capazes de abalar governos ou de provocar uma terceira guerra mundial, psicopatas que agem como hienas, mulheres tão extraordinárias que são capazes de humilhar o mais empedernido machão, furtos no mundo das finanças de deixar bilionários de cabelos em pé, manipulação genética e informática de ponta.

Larsson, nascido em 15 de agosto de 1954 e morto em 9 de novembro de 2004, foi um dos mais influentes jornalistas suecos. Aos 50 anos de idade, Larsson subia os sete lances de escada até o seu escritório na revista Expo, que fundou, pois o elevador estava quebrado, quando morreu de ataque cardíaco. Mas, na véspera, ele havia deixado com seu editor uma trilogia policial, a Série Millennium, que se tornou um estrondoso sucesso de crítica e de público em todo o mundo.

Em 2008, foi publicado Os Homens que Não Amavam as Mulheres; e, em 2009, A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar. Em 2013, o escritor sueco David Lagercrantz foi convidado pela editora Norstedts a escrever mais três livros, envolvendo as mesmas personagens. Assim, em 2015, saiu o quarto volume, A Garota na Teia de Aranha. Em 2017, saiu O Homem que Buscava a sua Sombra, e, em 2019, A Garota Marcada para Morrer.

Alguns dos livros foram adaptados para o cinema, que recriou a personagem principal, a hacker Lisbeth Salander. Talvez o melhor qualificativo para Salander seja “apaixonante”. “Maravilhosa” também pega bem. Mas o fato é que ela é uma justiceira definitiva. Como hacker, está acima de gênio: é uma deusa. E é aquele tipo de mulher que somente homens de verdade conseguem se aproximar dela. Machões, principalmente do tipo covarde, que gosta de torturar mulheres, perdem os bagos. E já disse, em outro artigo, que Salander é o tipo de mulher que dá prazer na gente fazer um café na cozinha, servi-lo, só para bater papo com ela, mesmo que ela não fale muito.

Há também uma personagem masculina que enobrece a profissão de jornalista, Mikael Blomkvist, diretor da revista Millenium, que detesta o abuso de poder. No final das contas, a saga é uma crítica social da Suécia, com o fim da liberdade individual imposto pela tecnologia e a violência contra as mulheres, que continuam sendo tratadas como boas apenas para sexo. Os seis volumes já venderam 100 milhões de exemplares mundo afora, é sucesso de bilheteria no cinema e na televisão, e já foi até para os quadrinhos. David Lagercrantz declarou à agência France Presse: “Estou convencido de que Lisbeth é imortal e que continuará vivendo de uma forma, ou de outra, na televisão, no cinema, ou em outros livros”.

Os três livros de Stieg Larsson são de mais de 500 páginas cada um, mas a gente os lê quase de um fôlego, de tão bons. Lagercrantz pega mais leve, mas nem por isso perde o ritmo. Em A Garota Marcada para Morrer, Lagercrantz põem fim à série, e deixa Salander, que tinha tudo para morrer, viva.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Macapá

amazon.com

Clube de Autores

BRASÍLIA, 1 DE FEVEREIRO DE 2020 – No seu novo romance, JAMBU (Clube de Escritores/amazon.com, 2019), Ray Cunha escreve sobre Macapá: “Em 1738, colonos portugueses instalaram na margem esquerda do estuário do rio das Amazonas um destacamento militar, a Praça São Sebastião, depois Veiga Cabral, onde, em 4 de fevereiro de 1758, foi levantado o Pelourinho, símbolo do implacável poder lusitano, na presença do capitão-general do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundando a Vila de São José de Macapá e selando o fim da nação que dominava aquela beirada de rio, o povo tucuju, do tupi tucumã, palmeira natural da Amazônia, de doces frutos oleosos, matéria-prima para suco, licor, mingau e sorvete.

“Em 1764, Portugal deu uma demonstração do seu poderio na Amazônia, iniciando a construção de projeto do engenheiro militar italiano, sargento-major de Infantaria Enrico Antonio Galluzzi de Mantova, ou simplesmente Gallúcio: a Fortaleza de São José de Macapá. Em 2 de janeiro daquele ano, o governador e capitão-general do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Fernando da Costa de Ataíde Teive, saiu de Belém e foi até a vila de São José de Macapá, juntamente com Gallúcio, para examinar o terreno, e, finalmente, aprovar a planta geral da nova fortaleza do império português, que teve sua pedra fundamental lançada naquele mesmo ano, na tarde de 29 de junho, sob a invocação de São Pedro, na presença do governador Fernando da Costa de Ataíde Teive; do comandante da Praça, coronel Nuno da Cunha Ataíde Varona; e de Gallúcio e demais autoridades civis e religiosas de Macapá.

“As pedras da Fortaleza foram arrancadas da Cachoeira das Pedrinhas, no rio Pedreira, distante 32 quilômetros de Macapá; descidas para o rio numa rampa em torno de 10 metros de declive, eram transportadas em embarcações pelo Amazonas até Macapá. Cada jagunço tomava conta de quatro escravos, que, fracos pelo trabalho impossível, eram rasgados a chicotadas. Muitos morreram supliciados, famintos, sem energia, e alguns conseguiram fugir para o quilombo do Ambé. Em 27 de outubro de 1769, Gallúcio morreu de malária e a direção dos trabalhos foi assumida pelo capitão Henrique Wilckens, até à chegada do sargento-mor engenheiro Gaspar João Geraldo de Gronfeld. Em 1777, morre o rei D. José, aos 27 anos, e o marquês de Pombal, então mentor do poderio português na Amazônia, e protegido por D. José, é exonerado por D. Maria I (1777-1816), que afunilou os gastos com a Fortaleza, de modo que ela só foi inaugurada em 19 de março de 1782, dia do seu padroeiro, São José, 18 anos depois do início da sua construção.

“Com 84 mil metros quadrados, em formato de polígono quadrangular, muralhas de oito metros de altura, seu portão principal fica a oeste, com duas pontes sobre um fosso, de que restam os vestígios, e que, originalmente, seria inundado em todo o perímetro da construção. Pesquisa comprovou que na parte erguida sobre terreno alagado foram utilizadas estacas de acapu, o aço do reino vegetal. Na primeira metade do século XX, a Fortaleza foi abandonada, e classificada, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), como fortificação de terceira classe. Em 1926, suas ruínas foram visitadas pelo presidente eleito Washington Luís. Em 1943, é criado o Território Federal do Amapá, e, em 1946, foi instalado na Fortaleza o Comando da Guarda Territorial, então a polícia do Território Federal. Para isso, houve um trabalho de capina interna e externa, com a retirada dos arbustos que vicejavam nas muralhas, bem como a derrubada das árvores que cresciam nos terraplenos, e que acarretaram danos estruturais. Também foram reconstruídos os oito edifícios ao redor da praça, então completamente deteriorados, nos quais substituíram telhados, portas, janelas e portões em madeira, pisos, muretas e rampas de acesso, e foram desobstruídos os canais de drenagem de águas pluviais. Em 8 de julho de 1950, uma comissão do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) tombou o símbolo maior dos macapaenses, incluindo 54 canhões. A Fortaleza serviu ainda de hospedaria a famílias de imigrantes; de cadeia aos presos da Justiça; abrigou a Imprensa Oficial, o pelotão do Vigésimo Sexto Tiro de Guerra, a União dos Negros do Amapá e o Museu Territorial; e virou palco das celebrações de datas cívicas, marcadas por salvas de tiros dos canhões, desfiles cívicos e bailes. Com a Ditadura dos Generais (1964-1985), voltou a abrigar o comando da Guarda Territorial e passou a ser utilizada como presídio político, mas também como Clube Social do Círculo Militar, em prédio no entorno leste. Em 1975, a Guarda Territorial foi transformada em Polícia Militar e sediada em prédio próprio, após uma onda de terror na cidade, que, segundo se comenta até hoje, teria sido arquitetada pelas autoridades do Território Federal com o intuito de forçar a criação da Polícia Militar. Em 1979, a Delegacia do Serviço do Patrimônio da União (DSPU) entregou a Fortaleza ao Governo do Território Federal do Amapá. Em 1988, a Constituinte transformou o Território Federal em Estado do Amapá. Em 1999, após anos de restauração, a Fortaleza é transformada em espaço de cultura e lazer para a população em geral.

“Construída para resistir a uma força semelhante à da marinha inglesa do século XIX, nunca foi atacada, exceto por um dos flagelos da Amazônia, a malária, também conhecida como paludismo, impaludismo ou maleita, doença infecciosa transmitida pela fêmea infectada do mosquito Anopheles e provocada por protozoários do gênero Plasmodium, que, no sistema circulatório do hospedeiro, vai parar no fígado, onde se reproduzem, provocando febre, dor de cabeça e nas articulações, vômito, anemia, icterícia, hemoglobina na urina, lesão na retina e convulsões, em ataques paroxísticos, com sensação súbita de frio intenso, seguida por calafrios, febre e sudação, paralisia do olhar, opistótono, convulsão, que pode progredir para coma ou morte. Tradicionalmente, os casos graves são tratados com quinino administrado por via intravenosa ou intramuscular. Não existe vacina contra a malária. As complicações a quem resiste à doença são estresse respiratório e desconforto psicológico.

“Assim, a Fortaleza, maior ícone dos macapaenses, é a tradução perfeita de Macapá. Construída por escravos, negros e índios, sob o obsessivo domínio português, foi o cadinho no qual se forjou a etnia macapaense. Os portugueses cruzaram com os africanos e geraram mulatos, e fornicaram com os índios, formando uma população de mamelucos; os africanos fundaram o distrito de Curiaú e o bairro do Laguinho, misturaram-se com os índios e legaram cafuzos; e mulatos, cafuzos e mamelucos misturaram-se, fechando o círculo, numa diversidade étnica viva nas ruas de Macapá, nas nuanças de peles que vão do alabastro ao ébano, passando pelo bronze e jambo maduro, unidos pelo sotaque caboco: a fusão do português falado em Lisboa, doces palavras tupis, línguas africanas, patoá das Guianas, tudo triturado em corruptela”.

Se no primeiro romance do escritor, A CASA AMARELA, a Fortaleza de São José de Macapá, e a própria cidade, localizada no cruzamento da Linha Imaginária do Equador com o maior rio do planeta, o Amazonas, servem, nos anos de 1960, como geografia, física e humana, para ambientar os rangidos que se ouviam, então, inclusive de dentes, em JAMBU, Ray Cunha transforma a capital do estado do Amapá em um buraco negro, onde cabem toda a Amazônia, e as discussões acaloradas em torno dela, incluindo a presença, na Hileia, de Ovnis e ETs, e até mesmo o nascimento do país do Cruzeiro, que começou lá por cima.

Assim, enquanto Macapá, em A CASA AMARELA, surge, embora trágica, como um grande baile nos anos revolucionários e dourados de 1960, em JAMBU, a cidade do meio do mundo sedia o romance, e a Amazônia, servida para ser degustada, como diz o título do romance, em uma cuia de tacacá.


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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Em Origem, Dan Brown mostra que o celular é a prova de que o ser humano é um ciborgue



BRASÍLIA, 21 DE JANEIRO DE 2020 – Outro dia, conversando com um amigo meu, crítico literário, falávamos sobre livros clássicos, revolucionários, que mudam o modo de escrever dali para frente. Durante a conversa, saiu como um expletivo, perguntei-lhe:

– E Dan Brown?

Ele deu um pulo e fez cara de nojo.

Quando perguntei isso a ele, foi pensando em um fator que fez de mim um leitor inveterado de livros policiais e de detetive, e cinéfilo de filmes do gênero. Dan Brown é um mestre em criar tramas intensas. Mas no seu último livro, Origem, ele perdeu o prumo. A sinopse de Origem é sobre um gênio da informática, bilionário, ateu, que prepara um show para dar uma informação mundial que levaria ao fim das religiões: a resposta às perguntas: de onde viemos e para onde vamos?

A meu ver, o livro tem um problema: é cansativo, pois faz longas digressões pela arte espanhola e desvia-se por um caminho secundário abordando o fanatismo dos espanhóis pela Igreja e o saudosismo pelo ditador nazista Francisco Franco por parte das gerações mais velhas, além de que a grande informação do cientista, que revolucionaria a Humanidade, é chinfrim.

Fora isso, Origem prende o leitor do início ao fim, ao longo de mais de 400 páginas, e contém algo que acaba lembrando obras canônicas. Da mesma forma que os suecos Stieg Larsson e David Lagercrantz, da Série Millennium, é um mergulho no uso da internet, Origem pula de cabeça na inteligência artificial.

A Humanidade, desde os primórdios da História, sempre travou um embate entre religião e ciência. Houve uma época em que a Igreja Católica Apostólica Romana dominou a Europa e as Américas através do terror, e tentou agarrar também o Oriente, até que a ciência mostrou que a coisa não passava de luta pelo poder, por domínio e dinheiro.

Ao longo da História, sempre houve avatares, espíritos ascensionados, como Buda e Jesus Cristo, ou os grandes cientistas da Grécia clássica, entrando pelo Renascimento e pela informática. Mas foi no século XIX que houve a explosão do espiritismo, a consciência de que somos seres espirituais; hoje, os títulos com esse tema tomam conta de um bom pedaço das estantes das livrarias.

Neles, há informações, inclusive endossadas pela ciência, de que viemos de uma consciência sem início e sem fim, onipresente, que costumamos chamar de Deus, e que retornaremos a Ele.

Cientistas já tentaram criar a sopa primordial para ver se dali surgiria vida, mas não surgiu nada, pondo por água abaixo o evolucionismo. Nossos corpos são fruto de inteligência artificial de engenheiros siderais; usamos esses corpos como escafandros aqui na Terra. No fim das contas, todos são espíritos. A diferença, aqui neste mundo material, é que uns acreditam que são matéria mesmo, enquanto outros desenvolvem sua mediunidade e assim utilizam com sabedoria livre arbítrio.

Desde sempre os escritores fazem estas perguntas: De onde viemos? Para onde vamos? Entre uma e outra, permeia a existência humana. Aos poucos, principalmente a literatura e o cinema, vão entendendo, às vezes na diagonal, como em Origem, que nossos corpos nada mais são do que ciborgues, configurados pela família, pela religião, pela academia e pelo patrão. Há até profissionais nessa área: são os coachings, que preparam o trabalhador para virar escravo.

Se Origem não é literatura canônica, e nem é um dos melhores momentos de Dan Brown, é um tour por um dos países mais encantadores da Europa: a Espanha. E uma crônica do pós-modernismo. Nele, temos a sensação de que o homem não vive mais sem a máquina; ninguém larga o telefone celular.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Belém precisa de um prefeito

Estação das Docas, Belém do Pará
RAY CUNHA

Vista de madrugada, a bordo de um jato prestes a pousar no Aeroporto de Val-de-Cães, Belém emerge da baía de Guajará como uma península de luzes, cada vez mais tangível à medida que o avião se aproxima do chão, até tocá-lo, num choque no concreto, amortecido pela borracha maciça dos gigantescos pneus da aeronave. Aparentemente a cidade dorme, mas seu ventre ferve na madrugada, e escorre, cedo, na manhã, espalhando sua podridão no meio-fio das ruas e quedando-se, morto, à medida que o sol surge e os belenenses começam a se mover e a expelir dejetos. Almas penadas, andarilhos da madrugada, vendedores ambulantes, mendigos, caminhantes, comerciários, povoam o Ver-O-Peso, o calçadão da Praça da República, o Terminal Rodoviário Hildegardo da Silva Nunes, a Praça do Operário, o Mercado de São Brás, a Praça Batista Campos, a Doca de Souza Franco, todos os pontos preferidos dos exilados na noite, porque, de uma forma ou de outra, esses locais lhes proporcionam luz, segurança e esperança. A periferia se move como piolho no caldeirão da manhã, a caminho do centro da cidade, nas avenidas atulhadas de carros, sob a fumaceira dos ônibus, que empesta o ar. Ambulantes vendem de tudo nas suas bicicletas de padeiro, estacionadas em esquinas e calçadões estratégicos. Uma índia velha, obesa, seminua, dorme, bêbeda, sobre um banco decrépito, protegida pelas mangueiras gigantescas que pontilham a Praça da República, e pela indiferença da manhã ao triunfo do sol. O odor mefítico se espalha pela cidade, adocicado, de cavalo morto exposto ao sol e à chuva, anestesiando o olfato. Os dias amanhecem calorentos e, à tarde, chove sempre.

Belém do Pará era a cidade brasileira mais desenvolvida e uma das mais prósperas do planeta, no século 19, a Belle Époque, e continua sendo uma das mais atraentes e movimentadas do Brasil. Fundada em 12 de janeiro de 1616, precisa desesperadamente de um prefeito, que a entenda, que seja honesto, democrático e empreendedor. Que a ame. Seus um milhão e meio de habitantes certamente ficarão muito gratos, pois há décadas os alcaides tratam o Portão de Entrada da Amazônia como se fosse sanitário público.

A Cidade das Mangueiras é uma península que avança na baía de Guajará, no trópico equatorial, como um pórtico para o Mundo das Águas, o arquipélago de Marajó: o maior rio do mundo, o Amazonas, ao norte; os rios Tocantins e Guamá, ao sul e sudeste; o rio Pará, a sudoeste, e o Atlântico, a nordeste. O Amazonas fertiliza o Atlântico com pelo menos 200 mil metros cúbicos da sua água túrgida de húmus, por segundo. Assim, a Amazônia Azul do setentrião é a maior província piscosa e de frutos do mar do planeta, e a mais mal guardada do Brasil. Mas isso é outro artigo. Agora, precisa-se de prefeito na principal cidade da Hileia.

A esmeralda mais preciosa do Trópico Úmido precisa de um prefeito que não seja covarde, como os das cidades que todos os anos vão para o fundo. Precisa de um prefeito, que, além de recuperar os prédios tombados, implemente nova infraestrutura básica na urbe e saneie as favelas erguidas sobre fossas. É um sonho embarcar em Mosqueiro, numa lancha coletiva pública, com parada na Vila Sorriso, na Escadinha do Cais, no Porto do Sal e no campus do Guamá, da Universidade Federal do Pará, e fazer a linha de volta, cruzando com outras lanchas coletivas, de outras linhas, os passageiros sentados como se estivessem num ônibus. É um sonho recorrente na Cidade Morena, minha amante.

São 7 horas. Aprecio o dorso dos peixes enfileirados no mercado do Ver-O-Peso, maior feira livre da Ibero-América. A mais fantástica variedade de peixes de água doce do planeta, além dos do mar, é enfileirada em balcões de mármore. Há deles de todos os tamanhos e tons, sem falar nos frutos do mar, com seu cheiro de aventura. A cidade dos tupinambás precisa de um prefeito que dê ao Ver-O-Peso a dimensão desse cheiro de romance, que os viajores procuram avidamente.

No meu delírio, quedo-me na Estação das Docas. Uma portuguesinha em vestido de seda passa e deixa um rastro de esperança. Ouço merengue, distante, talvez de um quarto de hotel no sétimo andar, e a tarde me leva, como um rio, para a dimensão do sonho. A chave do sonho é uma cuia de tacacá, jambu, que se entranha na minha memória e desnuda minha amante.

Vivi um mergulho em Belém do Pará, transitando desde o ventre dos seus palácios aos lixões. Casei-me e exilei-me do lar; trabalhei ao lado dos melhores jornalistas da cidade e caí na clandestinidade do desemprego; fartei-me da culinária mais inacreditavelmente deliciosa do planeta e forjei o espartano que há em mim durante um período de fome; compartilhei camas perfumadas e percorri labirintos femininos intermináveis, mas também escorreguei no negro limo da fossa. Conheço, pois, alguns humores desta península que avança na baía de Guajará como um navio iluminado, e é minha amante.

Amo todas as cidades nas quais já vivi, e até Brasília, onde moro, pois não se pode viver numa cidade sem a amar; não por muito tempo. E se as amamos, o reencontro provoca o cataclismo do primeiro beijo, sacolejam-nos, lançam-nos no espaço, como nos sonhos, que, às vezes, povoam minhas noites, como se estivesse correndo numa planície de zínias e rosas, cortada pelo maior rio do mundo e desaguando na noite, prenhe de jasmineiros que choram perfume. As cidades que amamos evocam amores, madrugadas, papel em branco, álcool, imortalidade.

Namorei Macapá, minha cidade natal, durante os primeiros 17 anos da minha vida, até que um dia peguei o rio e a estrada e rolei para Copacabana. Nosso namoro continua firme, mas agora só no coração. Também amo o Rio de Janeiro, por quem fui seduzido para sempre. Manaus é a mesma coisa, e em cada cidade a vida se multiplica infinitamente. Como em Brasília, onde nasceu Iasmim, a princesinha que encanta todos os dias da minha vida. Mas Belém emerge do rio como mulher nua, que deixa um rastro de maresia, Chanel 5, Dom Pérignon, safra de 1954, e rosas vermelhas. Tento alcançá-la, temeroso de perdê-la. Porém ela se volta e pronuncia meu nome. Sua voz é como o pulsar da música de Mozart. Alcanço-a, pego-a pelo cogote e a beijo, e sinto o sabor de acme.

Nem os ratos – que se dedicam a te assaltar, a te depredar, a te estuprar, que te mordem os seios – conspurcam tua beleza, nem reduzem tua eternidade, desde 12 de janeiro de 1616, quando lusitanos, comandados por Francisco Caldeira Castelo Branco, desembarcaram numa enseada na foz do rio Guamá e começaram a construir uma fortaleza, o Forte do Presépio, em torno do qual a cidade foi emergindo, e a ela chamaram de Santa Maria de Belém.

Os tupinambás não deram descanso aos invasores. Mas os portugueses dominavam armas de fogo, a Igreja e doenças letais. E em 1626, assumiu o comando Bento Maciel Parente. Os colonizadores eram brutais, mas pareciam gentis diante da loucura de Bento Maciel Parente; ele que mandava amarrar os membros de tupinambás capturados, em cavalos ou canoas, até serem rasgados, vivos. Estima-se que pelo menos 2 milhões de índios foram mortos na Amazônia, escravizados em nome de Jesus Cristo, atingidos por doenças europeias, degolados, esquartejados ou fuzilados.

No começo do século 20, a borracha tornou Belém a cidade mais rica do país. Em 1910, os ingleses começaram a produzir látex no sudeste asiático, causando a débâcle da borracha na Amazônia. Aí começou o declínio de Belém. Hoje, é uma cidade sucateada, inchada, violenta, infestada de bandoleiros e ratazanas, as ruas emporcalhadas de esgoto escorrendo no meio-fio, cidadela corrompida, refém da corrupção, letal como câncer metastático.

Mesmo assim, Belém é como as mangueiras de dezembro, que se curvam prenhes de frutos, doces como seios de mulher na rede. É assim que ela vive no meu coração. Quando chegamos ao amanhecer, pela baía do Guajará, nós, que a amamos, vemo-la se despir, aos poucos, da névoa, até emergir, de repente, salpicando água, nuazinha; se chegamos de avião e é noite, as luzes na península, como miríade na noite que desaba sobre a baía, anunciam-se como óvnis, até pousarmos no bolsão de sol noturno de Val-de-Cães. Subitamente, os gigantescos pneus do jato se chocam no chão de concreto e a nave começa a taxiar rumo ao terminal de passageiros.

Já não controlo meu coração. Faço desjejum no Ver-O-Peso, café recém-coado com tapioquinha amanteigada, e depois vou apreciar os peixes dispostos nos balcões de mármore do mercado – os pirarucus são, talvez, os mais bonitos, os filhotes são enormes e os meros, imensos, há sempre piramutaba, pescada, tucunaré, curimatã, tamuatá, mapará, gurijuba, camarão e toda sorte de frutos do mar. Almoço camarão com pirão de açaí no Ver-O-Peso, ou filhote no Restaurante Remada, ou ventrecha de dourada com vinagrete e farofa na Vila Sorriso, ou pirarucu ao molho de castanha-do-pará no Mangal das Garças.

À tarde, o céu sangra de tão azul. Vagabundeio, tomo tacacá na banca do Colégio Nazaré e sorvete de tapioca na Cairu, e, à noite, janto caldeirada de filhote no Remada e bebo Cerpinha no banheiro do hotel, enquanto me arrumo para o encontro com a madrugada. Assim, os dias se sucedem com cheiro de maresia, mulheres caminhando, merengue, bebedeiras, o rio.

Belém é a Catedral da Virgem, rosas para a madrugada, lembranças guardadas numa prece, o desfile interminável das mulheres mais bonitas do mundo, que exalam perfume das virgens ruivas e espargem um rastro de devaneio, que só podemos sentir com o coração. Ungido pelos deuses, penetro neste santuário e dele engravido para sempre. Belém, como as mulheres muito bonitas, inesgotáveis de tão intensas, desencadeia, na minha memória, um cataclismo de rosas colombianas, jasmineiros chorando em noite tórrida, o céu de julho na Amazônia, que sangra no azul na tarde.

Caminho nas suas ruas rumo aos segredos que só eu posso decifrar, como ouvir o anoitecer na Estação das Docas, ver passar as mulheres mais bonitas do mundo enquanto tomo tacacá defronte ao Colégio Nazaré, ouvir o rio, beber o perfume de gim inglês no Cosa Nostra, a alegria das mulheres no Kalamazoo, ao som de merengue e da madrugada, e fazer uma declaração de amor desesperado, porque as cidades, como as mulheres, não podem ser decifradas; precisam apenas que as amemos, pois só para isso existem, como poemas escritos por Deus.

Da mesma forma que as mulheres, as cidades são redes intermináveis de labirintos, abismos de segredos, pelos quais voamos, sempre perdidos, mas firmemente guiados pelo azul mais azul. Cidades, exatamente como as mulheres, iluminam nossos sentidos, e as cavalgamos como se monta a luz.

Sentado no calçadão defronte ao Colégio Nossa Senhora de Nazaré, ao embalo das 6 horas da tarde, caminho ao lado de cada uma das mulheres que passam, e que deixam um rastro de espilantol, sintetizando todo o mistério sob seus vestidos de seda, estampados. Então, descubro o segredo da Hileia, deslindo o mistério, e, assim, o amplio: toda a Amazônia está contida no espilantol de um ramo de jambu. E, aos iniciados, Belém se revela em toda a sua poesia, como mulher ao toucador, absorta, nua.

Agora estou sentado na Estação das Docas. A tarde morre. Ouço murmúrios – risos distantes, preces, merengue. Pedi à Virgem de Nazaré que proteja as crianças e as flores. A tarde morre, escorre como um rio de luzes que se afogam no mar da noite, para ressurgir no ventre da cidade, como uma boca. Acomodado numa cadeira de palhinha, observo o rio e a tarde morrendo. Ouço o riso das mulheres mais sensuais do mundo, trotando nos calçadões, sentadas, tomando tacacá, naquele momento em que a noite cai lentamente, se acamando, até as luzes tremeluzirem, como composição de Debussy, e sinto o sabor do leite da mulher amada, lábios de rosas vermelhas, esmigalhadas.
Um navio parte. Talvez vá para Macapá, ou Trinidad e Tobago. Talvez vá para Caiena. Ou para Mosqueiro. Ou Salinas. De qualquer forma, haverá de ir para um lugar lindo, pois a tarde é povoada de mulheres em vestidos de seda, como uma negra caribenha, sílfide equina, que passa, iluminando o mundo. Vindo de algum lugar, remoto, penso ouvir merengue. O mundo gira. Sinto a vertigem de missa na Catedral; a noite é como o mistério feminino, e, assim, tenho certeza de que estou em Belém.
Então, faço uma prece: Belém precisa de um prefeito, que a ame, e que seja competente, e honesto. A Cidade das Mangueiras está inchada como um cavalo morto, dias a fio, sob a chuva e exposto ao sol, e no ventre da besta, assassinos espreitam. As repartições também estão inchadas; até as aves, urubus, com seus bicos longos e coloridos, estão inchados. Por Deus, Belém precisa de um prefeito.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Jornalista investiga o tráfico de crianças e mulheres para escravidão sexual e a presença de ETs na Amazônia, durante o Festival de Gastronomia do Pará e Amapá

Edição da amazon.com

BRASÍLIA, 21 DE DEZEMBRO DE 2019 – Festival de Gastronomia do Pará e Amapá, no monumental Hotel Caranã, no bairro do Pacoval, em Macapá/AP. É julho, mês de férias de verão na Amazônia. O editor da revista Trópico Úmido, João do Bailique, está escrevendo uma edição especial sobre a Hileia, além de investigar o tráfico de crianças e mulheres para escravidão sexual.

Entre as matérias que serão publicadas está a Operação Prato, a maior aparição de ovnis e ETs já registrada no Brasil, no caso pela Aeronáutica, e que se deu na costa do Pará. O que é que os ETs queriam? De onde vieram? João do Bailique dá as respostas.

No caso de uma terceira guerra mundial, que papel a Amazônia teria? Resistiria a uma hecatombe nuclear? Seria ocupada pelos americanos? Também João do Bailique investiga essa questão, bem como analisa a soberania do Brasil sobre a região.

Enquanto isso, nos salões do Hotel Caranã, são servidos pratos da mais saborosa e nutritiva culinária do planeta: a paraense.

Essa história se passa no romance JAMBU (Clube de Autores e amazon.com, Brasília, 2019, 190 páginas), de Ray Cunha, escritor, jornalista e terapeuta em medicina tradicional chinesa, de Macapá/AP, e que mora atualmente em Brasília/DF. Em JAMBU, o leitor conhecerá a Amazônia profunda, aquela capaz de resistir até a um bombardeio atômico, e entenderá o que foi a Operação Prato e a Data-Limite, de Chico Xavier.

Você pode adquirir JAMBU nos sites do Clube de Autores e da amazon.com.br

Edição do Clube de Autores